Jomal
15 Capítulo 29
Rachel dormiu. Muito. Finn não deixava ninguém nem olhar na direção dela, logo era ele que lhe dava os chás, no tempo certo. Mas ela dormia segundos após ser colocada de volta a cama.
Estava pálida, o que destacava as manchas roxas e os inchaços, e os cabelos cacheados estavam soltos a sua volta, nos travesseiros brancos. Finn estava agoniado.
Finn: Eu estou aqui. – Disse, segurando a mão dela, que o olhava, sonolenta. Ela tivera convulsões durante a madrugada e chegou a tossir sangue, mas não vomitou. – Qualquer coisa... – Interrompido.
Rachel: É só te olhar. – Completou, sorrindo de canto. – Eu estou tão... – Ela suspirou, olhando pra frente... E dormiu. Finn viu aquilo como uma derrota. Ele pôs a mão dela no lugar e se sentou, respirando fundo. Foi quando Sam e Santana entraram, após bater na porta.
Finn: Porque ela dorme tanto? – Perguntou, angustiado.
Sam: Pense nas surras que ela levou e deixe-a dormir. Antes adormecida que morta. – Assinalou.
Finn: Não tive oportunidade de agradecê-la. – Disse, olhando Santana. Esta dispensou com o rosto, sorrindo – Porque você me mandou soprar ar para ela? – Perguntou, lembrando-se de como fora lento.
Santana: Porque acredite, você não ia querer que eu tivesse o sangue dela em meus lábios. – Respondeu, se aproximando da cama, e Sam riu gostosamente. Ela tocou a veia do pescoço de Rachel, observando suas feições – Você a alimentou?
Finn: Ontem a noite. Ela não acordou desde então. – Respondeu.
Santana: Só está fraca. – Disse, observando – E esse osso está quebrado, alguém não devia ter tomado uma providencia? – Perguntou, apanhando o braço de Rachel sutilmente. O pulso realmente estava em um ângulo estranho.
Finn: O médico não disse nada. – Disse, preocupado, olhando.
Santana: Me dá licença? – Finn assentiu. Santana checou os ossos de Rachel rapidamente, braços, pernas, dedos. Apenas um pulso estava partido. – É, apenas o pulso. E duas costelas, se eu não me engano. – Finn gemeu. Rachel, por sua parte, continuou no mais profundo sono. – Eu acho que tenho algo. Com licença. – E ela saiu.
Finn: Ela é sempre assim? — Perguntou, olhando Rachel.
Sam: Encantadora, não é? – Perguntou, orgulhoso. – Escute. Defenderei você diante da suprema corte. – Finn o olhou.
Finn: Defenderá?
Sam: Acredito que Puck e Damon também. Você não fez nada, não merece ser punido. – Disse, com as mãos nos bolsos – Eu não entrei nessa guerra para perder. – Resumiu.
Finn: Você entrou? – Perguntou, admirado.
Sam: É divertido aqui. – Disse, tranqüilo, como se isso justificasse.
Finn: Obrigado. – Sam assentiu. Nessa hora Santana voltou. Trazia algo branco nas mãos.
Sam: Sant... Santana, em nome de Deus, o que é isso? – Perguntou, confuso.
Santana: Espartilhos são objetos curiosos. – Disse, se sentando ao lado de Rachel.
Aparentemente Santana rasgara um espartilho seu, o que lhe dera bastante tecido, e uma espátula de aço. Ela apanhou o pulso de Rachel, pondo a espátula cumprida (ia da mão até perto do cotovelo) debaixo do braço dela. Rachel se remexeu quando Santana sutilmente pressionou seu pulso, levando o osso torcido de volta ao lugar. Em seguida atou todo o braço dela com o linho branco, imobilizando fortemente, mantendo a espátula lá. Rachel havia voltado ao seu sono. No final ficou como engessado, tudo perfeitinho, nem uma linha fora do lugar.
Santana: Vai funcionar. – Garantiu.
Finn: Chamarei o médico novamente. – Disse, acariciando a outra mão de Rachel. Sam observava Santana como quem observa um troféu caro.
Santana: Eu preciso de apoio antes que as costelas dela comecem a se reagrupar fora do lugar. – Disse, parecendo falar consigo mesma. – Sam, me ajude?
Sam: Sempre. O que quer? – Perguntou, se aproximando.
Santana passou as duas mãos por debaixo do tronco de Rachel, erguendo-a levemente... Levando as costelas a posição onde deveriam estar. Por fim Rachel gemeu de dor, franzindo o cenho.
Rachel: Hum. – Gemeu, puxando uma golfada de ar.
Santana: Segure-a. – Pediu, e as mãos de Sam substituíram as dela. Ela apanhou um travesseiro, pondo-o embaixo de Rachel, o que a faria ficar na posição que devia.
Rachel: Estou olhando para você agora. – Disse, olhando Finn. Aquilo doía.
Finn: É pro seu bem. Me perdoe. – Disse, e ela respirou fundo, sentindo Sam deixar o corpo dela relaxar sob o travesseiro. A dor começou a ceder.
Santana: Isso não é permanente, mas se seguir assim não demora muito. – Observou.
Finn: Obrigado. – Rachel o encarava.
Sam: Vamos deixá-los a sós. – Disse, e apanhou a mão de Santana, levando-a dali. Logo os dois estavam sozinhos.
Rachel: Estou toda quebrada, não é? – Perguntou, rouquinha – Devo estar horrível. – Ela franziu o cenho.
Finn: Sua beleza é imutável. Segue linda. – Disse, beijando a mão dela — Nunca vou cansar de pedir perdão.
Rachel: Quando eu melhorar, lhe esbofetearei sempre que você insistir em pedir. – Disse, e ele sorriu – Não há o que perdoar.
Nesse instante bateram na porta. Finn deu autorização para entrar. Era uma criada.
Criada: Senhor... A menina Suri desmaiou. – Informou. Finn gemeu, se levantando.
Rachel: Desmaiou? – Perguntou, confusa. Suri era sempre saudável.
Finn: Ela entrou em greve de fome desde que sumiste. Aliás, em greve de tudo. Eu sabia que isso ia acontecer. – Rosnou consigo mesmo – Ficará bem?
Rachel: Estarei dormindo antes que chegue ao quarto dela. – Prometeu, sorrindo. Ele assentiu, urgente.
Finn: Eu já volto. – E saiu desembestado pela porta.
Rachel suspirou, fechando os olhos. Dormiu quase de imediato. O silencio e o conforto dali faziam bem para ela. O problema é que Finn esqueceu de fechar a porta, que ficou escancarada, para quem quisesse entrar. Que pena.
Finn: Mas que diabo, falei a você, não falei? — Perguntou, irritado.
Suri: Não vou comer e ponto. Papai, não insis... – A menina suspirou... E desmaiou de novo.
Finn: Deu-se a desgraça. – Suspirou, passando a mão no rosto. Puck gargalhava na porta. – Vá buscar algo para ela comer. – Disse, apanhando o algodão com álcool. A criada saiu — E CHAME O MÉDICO! – Completou.
Puck: APROVEITE E MANDE O MÉDICO SE MUDAR DE VEZ PARA CÁ! – Emendou, e Finn revirou os olhos.
Finn: Você é uma gracinha, Puck. – Disse, passando o algodão perto do nariz de Suri. Aos poucos a menina despertou. Finn suspirou – Já não vê que não pode brigar comigo?
Suri: Não é não. – Disse, determinada. Estava prestes a desmaiar de novo.
Puck: A tenacidade dela um dia ainda vai ser útil. – Disse, observando-a.
Suri: Eu quero Rachel. – Impôs.
Puck: Ela viajou. – Disse, e tanto Suri quanto Finn o olharam com uma cara tipo: Hã?
Suri: Mentira. – Disse, lentamente.
Finn: Precisou ir buscar uns remédios. – Emendou.
Suri: Remédio para quem? – Ela cruzou os braços.
Finn: Por suposto que para mim não é. – Rebateu, erguendo a sobrancelha.
Suri: Não preciso de remédios. E se fosse verdade o senhor teria me dito antes. – Impôs. A menina piscou uma duas vezes e Puck riu novamente, vendo-a desmaiar.
Finn: JESUS, O QUE FOI QUE EU FIZ? – Perguntou, apanhando o algodão de novo. Levou um instantes para Suri acordar – Vai ficar assim ou podemos encontrar um meio termo?
Suri: Que... – Ela estava meio zonza – Que meio termo?
Finn: Ela vai voltar. – Propôs.
Suri: Quando? – Rebateu.
Finn: Eu não sei. – Disse, sincero.
Suri: Nada feito.
Finn: É tudo o que eu tenho, pelo amor de Deus! – Disse, exasperado.
Suri: Um mês? – Estipulou, erguendo as sobrancelhas delicadas. Finn se lembrou do estado de Rachel.
Finn: Dois meses. – Rebateu, e a menina avaliou – É o que posso fazer.
Suri: Se estiver mentindo... – Ameaçou. Puck estava vermelho de rir.
Finn: Menina, ainda sou teu pai! – Lembrou, incrédulo. A criada entrou com a bandeja, servindo-a na frente de Suri.
Suri: Dois meses. – Lembrou. Finn assentiu e ela se pôs a comer. Ele suspirou, aliviado.
Enquanto isso, na torre mais alta... Rachel dormia o sono dos justos. A torre de Finn era confortável, o clima era gostoso, fazia frio, pela chuva. Ela tinha sonhos felizes. Em seu sonho, Finn segurava os braços dela, os dois rindo gostosamente enquanto ele tentava fazê-la cortar lenha. Havia um sorriso de canto no rosto dela. Nina não gostou desse sorriso.
Nina: Faz o que fez, é absolvida e ainda vem parar aqui, tratada assim. – Disse, em um murmúrio para si própria – Não há justiça nisso. Eu vou te mostrar, “vossa alteza”.
E ela apanhou um travesseiro, afofando-o. Rachel não se moveu. Nem quando Nina avançou sobre ela, levando o travesseiro em direção ao seu rosto, na intenção de sufocá-la.
O travesseiro estava quase tocando o rosto de Rachel...
Finn: Srta. Dobrev. – Disse, a voz cortante, parado a porta, e Nina se sobressaltou, virando-se – O que pensa estar fazendo?
Nina: Nada, senhor. – Respondeu, ainda tremula pelo susto – A porta estava aberta. Entrei para ver se ela precisava de algo. – Finn a olhou por instantes, os olhos insondáveis.
Finn: É claro. – Disse, debochado – Fora daqui. – Ordenou, duro.
Nina: Sim, senhor. – Ela soltou o travesseiro na cama, dando uma ultima olhada em Rachel, e saiu. Finn fechou a porta, suspirando. Teria que se dividir em 50 agora? Ele se aproximou da cama, preocupado, mas Rachel dormia profundamente. Ele se sentou, cansado, e respirou fundo.
Rachel: Ela está melhor? – Perguntou, rouca, os olhos azuis olhando-o.
Finn: Fora a teimosia, está. – Disse, tirando um cacho do rosto de Rachel – Ainda sente sono?
Rachel: Um pouco... É, sinto. – Finn sorriu. – Finn, se lhe significar problemas eu estar aqui, não sendo sua esposa e tendo causado todo o problema, eu posso pedir a... – Interrompida.
Finn: Pro diabo com os problemas. A torre é minha e você fica aqui. – Dispensou, e ela sorriu.
Rachel: Você parece cansado. – Observou, vendo as olheiras dele.
Finn: Eu quase te mato e você se preocupa comigo. – Disse, negando com a cabeça – Eu estou bem. Volte a dormir.
Rachel: Se deite aqui e durma comigo. – Ela se esforçou e estendeu o braço bom, numa tentativa falida de abraçá-lo. Finn apanhou o braço dela, repreendendo-a com o olhar, e o pôs no lugar.
Rachel ia perguntar o que foi, mas ele empurrou os sapatos, se deitando do lado dela, e a abraçou pelo ombro com cuidado, beijando-lhe a testa. Ela encostou a cabeça no pescoço dele, desfrutando de seu perfume, e logo ambos dormiam. Simples assim.
A recuperação de Rachel foi muito mais demorada e muito mais sofrida do que Finn gostaria. O medico detectara realmente os ossos partidos.
Agora ela tinha o pulso engessado, e grandes tiras de atadura em volta das costas, comprimindo-as no lugar. Mal conseguia respirar, coitada. Os roxos foram se tornando azulados, que se tornaram amarelos, até que aos poucos sumiram. Mais de um mês se passou. Suri agora tinha um caderninho onde marcava os dias até o prazo final do pai. Finn revirou os olhos para isso. A menina, infelizmente, herdara a tenacidade dele. Rachel já não sentia tanto sono, mas não havia muito (lê-se nada) que pudesse fazer, então ficava olhando o lençol da cama. Finn não saia do lado dela. Deixara até a guerra de lado.
Rachel: Engraçado. – Disse, certa vez. Finn notou que ela respirava superficialmente, pela boca, e desejou ter encontrado outro modo para curá-la do que as ataduras.
Finn: O que é engraçado? – Perguntou, olhando-a.
Rachel: Você sabe minha verdade agora. Toda ela. – Começou, mas parou para respirar.
Finn: Isso é engraçado? – Perguntou, observando-a, com um breve sorriso.
Rachel: Engraçado que eu não estou morta. – O sorriso dele se fechou.
Finn: Não tem graça.
Rachel: Na verdade, eu tinha certeza de que ia morrer. Assim que você soubesse. Nos últimos dias, depois de ter lhe dito não, eu considerei se viver valia a pena sob aquelas circunstâncias. – Ela parou para respirar novamente – Muitas vezes o tive em meus braços com medo de que você descobrisse a verdade, e aquela fosse a ultima vez. – Ela parou novamente, tomando um sopro de ar – E eu nem morri no final.
Finn: Não morreu nem morrerá. Pare de repetir isso. Logo se livrará do gesso e tudo correrá bem. – Disse, e ela sorriu, olhando-o. Estava pálida, devido ao longo tempo sem movimento e longe do sol.
Rachel: Na verdade, eu devia ter morrido. – Continuou.
Finn: Pelo amor de Deus, você está com febre? – Perguntou, exasperado, levando a mão a testa dela, que riu – Se não parar de repetir isso vou lhe amordaçar. – Ela riu mais ainda, parando pra tomar um grande gole de ar. Ele sorriu, se sentando de novo em seu lugar, e o silencio reinou.
Rachel: Eu teria me casado com você. – Observou.
Finn: Mentindo? – Perguntou, pensando na hipótese. Rachel assentiu. Ele riu. – Ai sim seria uma bruta confusão, quando descobrissem.
Rachel: Jesse não permitiria. – Disse, e já não sorria.
Finn: O que há com ele? – Perguntou, reservado. Observava as expressões dela atentamente.
Rachel: Ele não permitiria que eu fosse feliz. – Disse, o rostinho triste – Encontraria um modo de arruinar tudo. Ele não vai permitir que viva em paz, enquanto ele viver.
Finn: Então ele vai morrer. – Resumiu o obvio, beijando o cabelo dela, que sorriu.
Rachel: Ele matou meu pai, Finn. – Finn se lembrou do dia da morte do pai dela – Minha mãe ainda está lá. – Ela respirou fundo – A qualquer hora, por puro capricho, pode resolver matá-la. Não suportarei se acontecer.
Finn: Não vai acontecer. – Tranquilizou ela, mas não adiantou.
Rachel: Como pode saber?
Finn: Porque mantendo-a viva ele nutre a esperança de que você volte para buscá-la. Ele está esperando por isso. – Rachel observou por esse ponto – Algo que notoriamente também não vai acontecer. – Disse, vendo a expressão dela. Rachel sorriu.
Os dois ficaram em silencio por minutos. Até que Finn não aguentou.
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