Jomal
11 Capítulo 25
Os dias se passaram. Rachel fugiu de Finn como o diabo foge da cruz. Ele nunca a via, só quando estava com Suri: Ele entrava e ela saia. Ela saíra do quarto que ele lhe dera, deixando tudo lá; Só levava o escapulário porque esquecera de devolver, força do habito. O dia do baile finalmente chegou. O reino todo parara perante aquilo. A noite foi o mais luxuosa possível. Os homens em seus ternos refinados, e as mulheres estonteantes, cada uma de seu modo.
Santana usava um vestido tomara que caia, apertado, ousado para aquela época, pois deixava seu colo exposto, só vinha se abrir em saia balão da cintura para baixo. Havia um colar enorme, com diversos diamantes cravados ali. Os cabelos, soltos, penteados delicadamente caiam até a cintura, difundindo-se com o vestido. Haviam diamantes em seu pescoço, em suas orelhas, em seu pulso... Sam parecia gostar de tê-la assim. Kristen, mais modesta, usava grafite, um vestido de aparência delicada e fina, do jeitinho dela. Também levava seus diamantes, mas eles eram tímidos como a dona. Quinn usava vermelho vinho, e seus diamantes ficavam em meio termo: Mais extravagantes que os de Kristen, menos que os de Santana. E Rachel nem acreditava que estava trabalhando. Toda a equipe do castelo, todos os criados estavam ali, exceto os soldados que guardavam o castelo onde Suri ficara. Esse baile era extremamente mais luxuoso que o outro. Rachel agora tinha a convicção de que não queria estar ali. Devia ter se jogado de uma escada, quebrado uma perna. Mas agora era tarde. Haviam dezenas de princesas ali, de toda variedade: Loiras, ruivas, morenas, claras, escuras, altas, baixas, magras, gordinhas... E a noite se arrastou. Rachel virou a cara ao ver Finn dançando com varias delas, conversando, sorrindo. Que ódio! Por fim, ele se pronunciou. Estava na plataforma alta, com os reis e rainhas sentados atrás dele.
Primeiro fez o cerimonial de recepção, agradecendo a todos ali presentes, e blábláblá. A voz dele ecoava pelo salão silencioso. Até que ele se concentrou em sua escolha. Rachel percebeu, no instante em que soube que ele iria se anunciar, que não suportaria ouvir. Largou a bandeja em um canto e bateu em retirada, retardada pelas pessoas eu estavam paradas no caminho. Ela tinha que passar despercebido.
Finn: Enfim. Essa noite eu vi mulheres de todos os tipos, cada uma encantadora de sua forma, mas minha decisão era clara. – Disse, e Rachel acelerou o passo – Apenas uma mulher pode ser minha esposa, porque apenas essa carrega minha felicidade. E, por incrível que pareça, essa mulher está fugindo agora. – Santana virou o rosto, olhando – Rachel, pare de correr. – Pediu.
Só seja forte! Porque você sabe, eu estou aqui por você, estou aqui por você ♫
Puck engasgou com o vinho, cuspindo-o fora, engasgado entre tossido e riso. Rachel empedrou em seu lugar. Jesus, Maria, José. Todos olhavam em volta, procurando.
Finn: Olhe para mim. – Pediu. Todos estavam confusos. Puck continuava tossindo, e Santana tinha um riso preso, assim como o marido. Rachel se virou, o rosto pulsando sangue, e ele sorriu ao ver os olhos incrédulos dela, desde longe – Em nome de Deus, nosso senhor, eu amo você. Não poderia escolher outra mulher, pois meu coração pertence a ti. Eu não me importo que seja uma criada, não tem importância, eu te amo, e eu escolho você. – Um silencio esmagador se abateu sobre o salão. Finn estendeu a mão na direção dela, chamando-a – Seja minha rainha. Case-se comigo, Rachel. – Pediu. Ninguém parecia saber o que falar.
Por essa ninguém esperava.
Os ouvidos de Rachel ainda pareciam zumbir. Quinn acudiu Puck, lhe dando um copo de água, me esse já ria gostosamente. Finn ainda olhava pra ela, o braço estendido em sua direção, chamando-a. Ela, sem alternativa, caminhou até ele, nitidamente ciente de que todos ali olhavam para ela. Todas as princesas olhavam pra ela. Algumas pareciam não ligar, outras pareciam ter raiva, despeito, enfim. Rachel se lembrou que o vestido que ela usava, branco e cinza, de cores neutras e sem atrativos, devia parecer um trapo. Quando o primeiro pé dela tocou a escadaria, todos os reis se levantaram (Puck ainda se recuperava de seu ataque), em saudação. Nina, com um curativo inflamado e dolorido no braço, quase espumava de ódio. Will tinha uma mistura de alegria, preocupação e dó no rosto. Quando ela o alcançou, apanhou sua mão, e ele sorriu, trazendo-a até seu lado na plataforma. Todos aplaudiram, era ensurdecedor. Finn tinha um sorriso lindo no rosto.
Rachel: Você enlouqueceu. – Murmurou, mortificada, mas ele ainda sorria.
Os aplausos pioraram quando ele apanhou seu rosto, beijando-a sutilmente. Dentre seus pensamentos incoerentes Rachel pensou que agora tudo poderia ficar bem. Mal sabia ela que só estava enrolando a corda no próprio pescoço, mais e mais...
Várias pessoas desconhecidas vieram saudar Rachel. Algumas ficaram receosas. Diabo, era uma criada, o que Finn estava pensando?! Quando a poeira baixou rosto dela continuava da cor de sangue.
Finn: Para onde vai, alteza? – Brincou, vendo ela se afastar.
Rachel: Eu preciso de um espelho. Estou horrível, olhe o meu estado. – Disse, exasperada. Finn sorriu, abraçando-a.
Finn: Não diga tolices, está linda. Sempre está. – Murmurou, beijando a testa dela.
Rachel: Não, eu preciso de um espelho. – Insistiu. Finn revirou os olhos. – Eu já volto. – Prometeu, e ele a soltou. Ela saiu correndo, discretamente, desceu as escadarias e sumiu para o banheiro.
Rachel lavou o rosto quinhentas vezes no banheiro. A água fria parecia ferver em sua pele. Por fim ela desistiu, se olhando no espelho. Soltou os cabelos, passando os dedos e soltando os cachos. Arrumou o vestido sentindo falta dos seus, trancados em seu quarto, no castelo. Por fim saiu, pronta pra voltar pro lado dele. Se bateu com Will.
Will: Tu estas louca?- Perguntou, meio penalizado.
Rachel: Se eu estiver, que minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor, e a outra também. – Respondeu, sorrindo. Era possível que ela estivesse feliz?!
Will: As duas metades serão amor quando ele precisar catalogar tua família também? – Perguntou, passando a mão no rosto.
Rachel: Minha família? – Will suspirou.
Will: Ele quer te fazer rainha, Rachel. Para ser rainha não vai bastar mentir dizendo que não falas com a tua família. Ainda que não fale ele precisa conhecê-los, para registro. Eles precisarão se expor perante a todos nas cerimônias do casamento. Assinar documentos, e todo o protocolo. Então, o que vai fazer quando chegar a hora?
A felicidade de Rachel ia e voltava com uma velocidade que a incomodava. Ela não sabia disso, não tinha como saber.
Finn: Rachel? – Chamou, a voz se aproximando.
Rachel: Eu darei um jeito. Contornarei isso. – Will suspirou – Suma daqui antes que ele o veja. – Disse, se afastando. Quando olhou para trás, Will já havia sumido.
Finn: Ei, carinho. – Disse, ao encontrá-la. – Tome. – Disse, abrindo as mãos. Haviam dois brincos ali. Dois diamantes. – Santana pediu que os entregasse. – Explicou. Rachel ergueu a sobrancelha, mas os aceitou – Você continua gelada. – Observou. Rachel sorriu, pondo os brincos.
Pena que ele não sabia o porque dela estar gelada. Mas vamos aguardar o que a noite vai trazer.
Rachel afastou esse pensamento de sua cabeça durante o resto da noite. Nem podia acreditar que ele estava lá, abraçando-a na frente de todos, que ele queria se casar com ela! A felicidade era tanta que parecia poder se materializar. Por fim ela foi embora com ele, em sua carruagem, os dois aos beijos e carinhos. Ao chegarem ao castelo todos ainda estavam acordados demais, excitados demais com a reviravolta, para dormirem. Prolongaram a festa na sala de jantar, com um bom vinho. Rachel não viu sentido em se trocar agora; Finn a escolhera rainha do jeito que ela estava. Puck ainda fazia piadas sobre as caras das princesas ao serem preteridas por uma criada.
Sam: Mas fico feliz por você. Muitos não sabem o quanto demora até encontrar o amor. E nem sempre ele vem em cascas adequadas. – Comentou, tranqüilo.
Damon: Tu me diz isso? Onde está Santana? – Puck gargalhou.
Santana: Me chamou, Damon? – Perguntou, divertida, repentinamente atrás do outro. Rachel se sobressaltou; Damon não. Apenas riu.
Sam: Te digo isso pois já havia escolhido outra princesa, antes de Santana. Meus pais me pressionaram, era hora de assumir o trono, e eu escolhi. – Deu de ombros – Então viajei com meu pai, para fazer uma sociedade com o pai dela. Quando eu a vi soube que apenas ela serviria. – Ele sorriu pra a esposa – O que não muda o fato de que eu estive perto de cometer um erro irreversível.
Quinn: E a outra princesa? – Perguntou, tranqüila. Rachel apenas observava, abraçada a Finn.
Sam: Não sei que fim tomou. Não podia me casar com ela uma vez tendo posto os olhos em Santana. Vi ela pela primeira vez no jantar, e avisei a meu pai que a queria antes de ir dormir. Foi uma confusão. – Disse, revirando os olhos.
Kristen: Você não a viu em seu baile?
Sam: Não. Ela não foi. – Disse, debochado consigo mesmo. Santana riu.
Sam: No final eu nem me lembro qual era o nome da outra princesa. Pobre coitada. – Ser escolhida e em seguida rejeitada por um rei era a ruína para uma princesa. Ocorria muito raramente.
Puck: Como era o nome dela? – Perguntou, descarado. Seria como falar mal da pobre coitada revelar seu nome.
Quinn: Puck! – Reprimiu. Rachel sorriu, quieta.
Sam: Como disse, não me lembro. – Disse, tranqüilo.
Santana: Belinda. – Entregou, se aproximando para sentar-se ao lado do marido.
Sam: Santana. – Repreendeu, os olhos focados nos dela. Mas ela sorriu docemente. Puck gargalhou.
Santana: Eu apenas me lembro. – Disse, falsamente inocente, se sentando ao lado dele, que a abraçou.
Quinn: Você está bêbado? – Perguntou, sondando o rosto de Puck, que ria.
Damon: Então, para quando é o casamento? – Perguntou, puxando conversa.
Finn: O mais rápido possível. – Respondeu, virando o rosto para encarar Rachel. Ela nunca tinha visto esse tom de felicidade nos olhos dele.
Sam: Então é bom começar logo. Há muito que se fazer. – Observou, tomando um gole de seu vinho.
Finn: Eu sei. Amanhã mesmo mandarei enviados até as igrejas, a família dela, os sacerdotes, e todo o resto. Com sorte em dois meses estaremos com tudo pronto. – Disse, tranqüilo. Rachel empedrou. A família dela. – Tu podes começar a planejar teu vestido amanhã mesmo. – Disse, feliz. Mas ela já não sorria. – Precisarei que me dê o endereço de tua casa, carinho. – Disse, agora em particular – Sei que tu não fala com eles e farei o máximo para que não tenha contato, mas precisarei de algumas assinaturas, coisas de praxe. Mas não fique assim. – Disse, interpretando mal a expressão dela – Deve se preocupar apenas em estar linda quando for me dizer sim. – Rachel sorriu de canto.
Kristen: Se precisar de ajuda com alguma coisa, Rachel, não receie em me procurar. – Se ofereceu, e Damon lhe beijou a têmpora, sorrindo.
Santana: Faz tempo que eu não penso em uma festa de casamento, mas me tem a disposição também. – Quinn concordou. Rachel assentiu.
Rachel: Eu... Eu estou exausta. Vou me retirar. Me dêem licença. – Pediu, se levantando. Todos assentiram e ela saiu.
Rachel bateu em retirada, correndo, até seu quarto. O que faria agora, meu Deus? Ela estava tão feliz com aquele casamento, ela o queria tanto! Mas mais uma vez a vida lhe passava a perna. Toda a felicidade foi substituída por tristeza quando ela entendeu o que precisava fazer. Minutos depois a porta se abriu e Finn entrou.
Finn: Carinho, porque veio para este quarto? – Perguntou, fechando a porta. – Está sentindo algo?
Rachel: Finn... Eu não posso me casar com você. – Disse, em voz baixa. Viu o rosto dele se fechar, incrédulo – Minha resposta é não. – Concluiu.
Finn: Como? – Perguntou, incrédulo – Mas porque?
Rachel: Eu não quero. Não posso. Me perdoe. – Disse, quieta.
Finn: Você tem noção do que eu terei que enfrentar por ter escolhido você? E você me diz não? – Perguntou, exasperado – Há outro?
Rachel: Não! – Disse, na mesma hora – Nunca houve outro, nem vai haver. Eu amo você. Só você.
Finn: Eu não consigo entender, se me ama porque está me dizendo não? – Perguntou, incrédulo.
Rachel: Porque eu tenho medo. – Disse, em um murmúrio.
E ela sabia que este era o único modo de fazê-lo aceitar a negativa: Machucando-o. Estava matando-a por dentro, lenta e dolorosamente, mas ela precisava fazer.
Finn: Medo? Medo de que, em nome de Deus?
Rachel: Medo de aceitar ser sua rainha e terminar como Dulce María terminou. – Jogou. Um silencio pesado se sobrepôs ali. Ela pode ver a dor cruzando os olhos dele.
Finn: Rachel, eu vou morrer antes de permitir que algum mal lhe atinja. Eu prometo. – Disse, a voz séria, encarando-a. Ele interpretou a dor nos olhos dela como medo, e isso o machucou mais.
Rachel: Prometeu isso a Dulce também, não prometeu? – Ela queria chorar. Queria morrer, queria sumir. Estava machucando-o, rasgando as feridas dele, podia ver. – Entretanto não conseguiu protegê-la da morte. – Ela precisou se virar, dando-lhe as costas.
Finn: Porque está fazendo isso comigo, Rachel? – Perguntou, e sua voz era baixa, sem o tom energético da objeção. — Eu te ofereci o meu amor, minha confiança, minha fidelidade, meu reino... Eu te ofereci minha vida. Porque está fazendo isso?
Rachel: Uma coisa é ser sua amasia, outra bem diferente é dar a cara ao mundo e assumir que sou sua mulher. Sua esposa. Sua rainha. – A primeira lagrima desceu pelo rosto dela. Como ela estava de costas, ele não viu – A ultima mulher que teve coragem de fazer isso, a essa altura, já se decompôs em seu tumulo. Eu não tenho coragem. Me perdoe. – O choro estava subindo. Ela secou o rosto, respirando fundo.
Finn: Sua resposta final é não? – Perguntou, parecendo tão abatido quanto podia estar.
Rachel: Não. – Disse, se virando – Quando a guerra acabar... Quando isso tudo terminar, se você ainda me quiser, eu vou ser sua até que meu tempo expire. Se voltar a me fazer esse pedido, direi sim antes que termine de fazê-lo. Mas agora não posso. Eu amo você, Finn. Mas não posso. – Disse, encarando-o – Eu sinto muito.
Finn a encarou por longos instantes. Estava machucado, magoado, destruído. Esperara tudo menos isso. Quando viu que ela não ia voltar atrás, deu as costas e saiu. Assim que a porta bateu Rachel desmoronou no chão, o choro vindo a tona, os soluços de dor saindo livremente. Ela queria ir atrás dele, abraçá-lo, dizer que o amava e que o queria, e apagar aquela dor do olhar dele. Mas se aceitasse se casar morreria, e conquistaria o ódio dele. Porque a vida precisava ser tão cruel? O que ela havia feito para merecer tudo isso?
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