Johnny Blade
11 Sonhos e pesadelos
Hilary apenas olhou na direção em que os olhos de Erick estavam e corou, ao perceber que ele fitava seus hematomas, tratando de puxar a manga da blusa que usava para que cobrisse aquelas terríveis manchas.
- Nada Erick... Não é nada! Gostaria de beber alguma coisa?
Erick sinalizou que não com a cabeça e tornou a repetir a pergunta.
- O que aconteceu?
- Já disse que não houve nada! Você não tem nada a ver com a minha vida e...
Ele segurou o queixo dela e a obrigou a olhar em seus olhos. Hilary odiava admitir, mas não conseguiria esconder nada dele enquanto fitasse aqueles olhos incrivelmente azuis.
- Erick... Naquele dia em que você me deu carona eu fui até a casa do meu pai e...
- ELE BATEU EM VOCÊ?
- Não! Ele nem estava lá!
Erick relaxou. Enlouqueceria se soubesse que o próprio pai dela a bateu... Novamente!
- Eu recebi uma ligação enquanto estava na sua casa. Era a voz de um homem que disse que eu fosse até o endereço em que você me levou, eu só descobri o que era a casa dele porque vi uma foto na parede.
- Ok... E o que os roxos em seu braço têm a ver com isso?
Ele sabia a resposta, mas ainda tinha esperanças de que não era aquilo que ele estava pensando.
- Aquele homem... Ele me agrediu, disse que não era a mim que ele procurava, mas sim a uma companhia minha. Disse que eu permaneceria viva se não me envolvesse. Por isso eu me isolei aqui, não sei quem é essa companhia...
Sim, era o que Erick pensava. Lembrou-se do bilhete que achara em seu quarto antes de sua mãe ser morta “O que é seu ainda lhe aguarda Harrison, ou acha que se livrou de mim?”. O pior é que ele realmente achava que estava livre, já estava a um bom tempo em Detroit e nada lhe acontecera, até agora...
Era golpe baixo. Ele queria matar todos os que se tornavam importante para Erick só para matá-lo quando já estivesse solitário e triste. Ele ainda não sabia o motivo de ser “especial”, mas devia ser algo suuuper incrível para fazê-lo passar por tudo isso.
Mas tinha que esquecer tudo isso, sua preocupação agora era Hilary, nem pensar que sua única amiga naquele lugar morreria por causa dele. Ele teria que contrariar o que aquela coisa disse... Ele pediu que ela se afastasse, mas não, ele a manteria perto dele. E garantiria a segurança dos dois.
- Hilary, eu vou tomar conta de você ok? Eu sei usar uma arma... Se tocarem em você eu mato, certo?
- Não Erick, você não tem nada a ver com isso, não se preocupe comigo.
Sim, ele tinha tudo a ver com aquilo, mas não diria isto para ela. Não agora...
- Mesmo assim, não quero que minha única amiga seja agredida, ok?
- Ok...
Ele não conseguia acreditar em sua cara de pau. Mentira para Hilary, ele sabia que era o culpado daquilo! Mas sabia que se contasse a ela teria de se afastar, e ele não queria isso, queria confrontar seu agressor... E acima de tudo manter sua única amiga em segurança.
Ele continuou bolando esquemas em sua cabeça quando mandou tudo pelos ares. Hilary estava chorando, ele não sabia o motivo, mas deitou a cabeça dela em seu ombro e a abraçou, dizendo que tudo ficaria bem.
- Ele tem filhos Erick... Será que faz o mesmo com eles? – ela disse entre lágrimas. Ela não especificou, mas ele sabia que ela falava do pai.
- Não, ele deve ter mudado, deve estar alguém melhor agora!
- Como tem tanta certeza?
- Bem, eu mudaria se tivesse perdido minha esposa e uma filha incrível. Ainda mais se tivesse uma segunda chance, como ele está tendo!
- Talvez ele tenha mudado... Mas eu não vou atrás dele, nunca mais!
- Tudo bem, você não precisa ir atrás dele.
Ela aos poucos se acalmou e pediu desculpas por ter chorado, mas continuava abatida. Ele não conhecia Hilary muito bem, mas percebeu que compensava seus sentimentos de tristeza com relações sexuais. Não era difícil perceber, já que era a segunda vez que se viam e a segunda vez que transavam para “esquecer as mágoas”.
Obviamente ele não reclamava, saia ganhando tanto quanto ela. Mas também não gostava de vê-la triste. Essa sempre fora uma característica importante dele: quando se apegava as pessoas queria tomar para si as dores dela, fazia de tudo para vê-las bem, e não estava sendo diferente com Hilary.
Ele foi embora depois de uma longa transa e uns dois ou três copos de vinho branco. Sentia-se feliz, mas ao mesmo tempo alarmado devido ao fato de que quem o perseguia já sabia da importância de Hilary em sua vida, e todas as pessoas importantes a ele, aparentemente, deveriam morrer.
Quando chegou a casa, porém, levou um susto: Bill estava só de cuecas sentado em frente à TV enquanto comia nachos e assistia a um jogo de futebol americano. Não era a primeira vez que Erick presenciava aquela cena, mas nunca deixaria de ser perturbadora.
- Garoto, estava te esperando! Não vai adivinhar a grande novidade!
- Hm, o que é?
- Estou namorando Cassandra Collins!
Erick apenas suspirou, pois aquilo não era nenhuma novidade! Bill SEMPRE estava com alguma namorada nova, fato que ele nunca entendera. Por quê? Bem, Bill não é exatamente um galã, ele é gorducho, com uma barba mal feita e cabelos pretos cacheados que ele sempre penteia para trás com gel, porque acha que fica mais atraente, o que não é verdade. Isso sem contar no péssimo gosto para se vestir. Ele também não tinha a desculpa de ser rico, já que morava em um apartamento pequeno com cheiro de mofo, nachos e cerveja barata... Também não tinha a desculpa de ser simpático, legal, etc.
- O que tem de novidade nisso?
- A novidade é que você vai se beneficiar com isso! Lembra daquela fita que você gravou com 15 anos que você tinha guardada na sua gaveta?
- Você mexeu nas minhas coisas?
- Ah qual é, eu menti que temos uma família musical e precisava provar, e como eu sei que você ama fazer barulho com aquela porcaria de guitarra imaginei que tivesse algo interessante e... Bingo! Achei a fita!
- E por que mentiu que temos uma família musical?
- É ai onde estou tentando chegar! Ela é dona de uma grande gravadora, e vamos dizer apenas que ela ficou muito interessada em você, acha que você tem muito talento... E eu concordei em te levar para um teste amanhã as três, o que acha?
Erick definitivamente não podia acreditar que estava devendo uma para aquele velho gordo fedendo a nachos. Ok, ele o acolheu em sua casa e tudo mais, mas era a primeira vez que foi legal sem ser obrigado a isso. Ele o abraçou com força, o que obviamente foi um gesto sem pensar, já que se arrependeu assim que sentiu o cheiro de nachos...
- Ok garoto, eu nunca parei para ouvir o seu barulho, mas espero que seja bom. Não vai me decepcionar na frente do meu docinho, vai?
- Certamente não.
- Bom garoto! E se um dia ficar famoso não se esqueça de quem te da moradia, comida e roupa lavada...
- Você não cozinha, a gente come no restaurante da esquina, a roupa vai para a lavanderia e...
- Blábláblá, eu te consegui a chance de um contrato com uma gravadora, se alguém tem o direito de julgar sou eu! Exemplo: você não vai para a escola não?
- Eu tenho carreira garantida agora, não preciso disso!
- Continue assim e terá um grande futuro no show business! – ele falou com ironia.
Erick riu e foi para seu quarto. Parece que as coisas começaram a funcionar, mas ao mesmo tempo voltaram a desabar... Era como ter um sonho perfeito, que no fundo era seu pior pesadelo.
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