Johnny Blade
12 Futuro nem tão distante
Notas iniciais
Eram exatamente três horas quando uma mulher muito estranha com suas roupas sociais e seu nariz arrebitado o chamou para uma sala com todos os tipos de instrumentos e aparelhos de gravação de última qualidade. Erick nunca estivera em um lugar como aquele, mas de alguma forma sabia que estar ali podia dar um rumo a sua vida. Respirou fundo e encarou a mulher de olhos cinza gélidos e cortantes, as feições de uma grande juíza. E, de fato, ela estava ali para julgá-lo.
- Muito prazer, sou Cassandra Collins... E você deve ser Eri...
- Não, é Johnny, Johnny Blade.
Ele não queria mais usar seu nome, decidiu que só o usaria quando voltasse a ser aquele Erick que um dia fora. Os únicos que saberiam sua verdadeira identidade eram os que restavam de sua família e Hilary.
- Hm, ok... É algum alter-ego?
- Pode-se dizer que sim.
- Ok então. Bem, eu não quero lhe pressionar, mas essa gravadora é uma das maiores do país! Eu não aceito qualquer um, então... Impressione-me! Já ouvi sua voz, é muito boa.
Ele engoliu em seco. Não estava se sentindo pressionado, pelo menos não até agora. Mas bem, ele não era mais Erick, era Johnny agora, não tinha medo de nada. Iria pegar uma arma e dar um tiro em qualquer merdinha que encostasse um dedo em Hilary, não iria ficar com medo de fazer algo que sempre fez: cantar.
Escolheu uma das guitarras, dedilhou de leve e respirou aliviado, ao ver que já estava muito bem afinada e ele sabia exatamente o que fazer. Ele deveria ter preparado uma música sua ou algo do tipo, mas mesmo assim não ligou. Começou a tocar uma sequência de acordes que havia criado a uns tempos atrás e milagrosamente lembrou. Em seguida, começou a cantar.
Ele cantava de olhos fechados, não sabia o que estava cantando, as palavras apenas saiam como se estivesse apenas conversando. Enquanto isso, Cassandra não conseguia acreditar na bela voz de arcanjo que o jovem a sua frente possuía. Era como a voz de um verdadeiro anjo, porém não era límpida, era levemente rouca e transmitia toda angustia de alguém que já presenciou de tudo. Ainda sim, era uma voz suave e envolvente, grave, rouca e maravilhosa. Tudo isso acompanhado de acordes pesados no refrão, que eram um contraste com a melodia com que eram tocados os acordes no restante da música.
Naquele momento ele teve a coragem de Johnny Blade, mas toda a letra, a melodia, o timbre de voz... Tudo aquilo transmitia sua essência, quem ele realmente era. Erick Harrison, o menino de dons excepcionais que perdera os pais e tinha sua vida em risco. E quando dedilhou os últimos acordes de sua canção improvisada que percebeu do que a letra se tratava: perdas e não reconhecer mais a si mesmo, porém saber que, um dia, dias melhores virão. Era sua história, toda ela em uma simples canção de improviso.
Ele fitou os olhos gélidos da mulher a sua frente, que já não pareciam mais frios e aterrorizantes, parecia feliz, todo seu rosto esboçava uma felicidade notável. Erick enfim relaxou, não sabia que era bom o suficiente para a gravadora, mas o rosto de Cassandra mostrava que ao menos ele era bom.
- Bem Johnny, eu realmente não sei o que dizer, o que ouvi na gravação era ótimo, mas... Agora sua voz é mais madura, e você tem uma presença de espírito enquanto canta maravilhosa! Eu acho que você é o que nossa gravadora sempre buscou... Bem vindo Blade, agora você tem um contrato.
Um contrato? Sim, ele tinha um contrato! Finalmente, conseguira um emprego, iria ter seu próprio dinheiro agora, e ainda fazendo o que mais amava! Talvez, mais para frente, possa comprar seu próprio apartamento, morar bem longe dali... Talvez na Austrália, certamente ninguém iria reconhecê-lo do outro lado do mundo.
Saiu da sala se sentindo um vencedor. Seu tio viu sua expressão e soltou uma gargalhada de pura felicidade.
- MEU GAROTO! SABIA QUE IA CONSEGUIR!
Ele abraçou Erick com força e bagunçou-lhe os cabelos. Erick riu, naquele momento Bill parecia um pai orgulhoso, e isso deixou Erick tão feliz... Realmente parece que estava com seu pai.
- Esse aqui é Sean Collins, filho da Cassandra, ele toca baixo... Quem sabe não fazem uma parceria?
Seu tio era mesmo louco, Erick mal conseguira o contrato e ele já queria cuidar de sua carreira. Mesmo assim, sorriu amigavelmente para o garoto que devia ter sua idade, possuía os cabelos castanhos claro de sua mãe e os mesmos olhos gélidos, porém tinha uma expressão também amigável no rosto.
- Muito prazer, sou Johnny.
Bill o encarou com uma das sobrancelhas arqueadas, como se perguntasse “que palhaçada é essa agora?”, mas não retrucou. Sean apertou sua mão e sorriu.
- O prazer é todo meu, você tem uma voz incrível cara!
Erick sorriu. Realmente gostara de Sean, parecia tão amigável!
- Nós temos uma banda, Scream. Mas o nosso vocalista saiu e quem toca guitarra sou eu no momento porque ainda não achamos um baixista... Se quiser entrar, a vaga é sua.
Erick pensou, realmente não queria ter que começar sua carreira do zero, tentando achar pessoas para uma banda. E carreira solo não parecia uma boa idéia. Mesmo assim, não poderia aceitar de cara, não sabia o que tocavam e não queria quebrar a cara. Mas, pelo estilo de Sean eles deviam ter o mesmo estilo de Erick.
- Me parece uma boa proposta, mas se não se importa eu gostaria de ver como é a banda, o estilo e tudo mais antes de aceitar ou não.
- Perfeito, é uma ótima idéia. O Michael é o baterista, e como o vocalista saiu somos só nós agora, ele vai na minha casa no sábado e a gente fala um pouco sobre como a banda funciona, mostramos como a gente toca... Aparece por lá.
- Fechado.
Os dois apertaram as mãos e se despediram antes de Sean entrar na sala da mãe e Erick e Bill irem embora. Ele foi o caminho todo ouvindo as musicas no radio velho do carro e pensando se um dia suas músicas tocariam lá.
Será que seu futuro estava garantido agora? Não sabia, mas finalmente ele havia chegado a um ponto onde sempre desejou estar, e seu futuro não parecia mais tão distante.
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