Johnny Blade
13 Sonho ou realidade?
Perdido. Essa era a definição perfeita para como ele se sentia. Estava em um palco, com milhares de pessoas o encarando, esperando que fizesse algo para entretê-las, mas ele nada conseguia fazer. A sua frente, na primeira fileira, encontrava-se um homem com um manto escuro como a noite, que cobria sua face e seu corpo, parecendo mais uma sombra que um ser humano vivo. Mas ninguém mais parecia nota-lo.
A figura negra ergueu sua cabeça, e Erick cometeu um erro fatal: olhou em seus olhos. Ele já havia os encarado antes, eram cinza como tempestade, mas nunca olhou profundamente dentro daqueles olhos tempestuosos, e quando finalmente o fez se sentiu fraco. Viu horrores em sua mente: seus pais morrerem e até seu velho tio Bill, caído morto em sua sala de estar cheirando a mofo e bebida choca. Em seguida tudo ficou escuro e ele sentiu-se caindo de joelhos. Abriu os olhos e via a plateia o olhando serenamente, apenas dois rostos preocupados em sua direção: Hilary e Penny, sua irmã que parecia muito mais velha, e uma criança nos braços de Hilary, que parecia não ter noção do que acontecia.
Erick olhou para o chão e viu-se em meio a uma poça de sangue, sua visão tremulando e a respiração ficando escassa. Por fim, olhou novamente para a face daquele ser, que lhe direcionou um sorrisinho satisfeito. Erick sentiu sua vida se esvair, a respiração parando junto aos batimentos cardíacos, fechou seus olhos e...
Erick acordou em um salto, com a respiração acelerada. “Era só um sonho, só um sonho...” ele repetia incansavelmente para si mesmo, mas na verdade sabia que era um sinal, era aquilo que ele queria... Seja lá quem ele seja.
Tinha tido esse mesmo sonho a droga da semana inteira, e sempre tinha de repetir a si mesmo o que era real e o que não era. Seu nome era Erick Harrison, no momento mais conhecido como Johnny Blade, ele era vocalista e guitarrista da banda Scream há quase um mês, ele tinha um contrato com uma gravadora. Ele não fazia shows ainda, Hilary não tem nenhuma criança e não vê mais Penny, também não está morrendo. E, após repetir tudo isso a si mesmo, tinha de ir acordar seu tio, que cada vez chegava mais afetado pela ressaca e saia mais atrasado para o trabalho.
Mas, apesar de os sonhos perturbadores, sua vida andava se ajeitando finalmente. Ele aceitou entrar para a banda com os rapazes, que, aliás, tocam muito bem. Virou um grande amigo de Sean, sempre que podiam saiam para se divertir e sua amizade com Hilary ia cada vez melhor. Inclusive, ele estava atrasado para um almoço que marcara com ela.
– Não me espere hoje à noite Blade, tenho reunião até tarde. – Falou Bill, com sua voz rouca pela ressaca e usando seu velho sarcasmo ao pronunciar o alter ego de Erick.
– Reunião no bar com as strippers? – Respondeu Erick em meio a risadas. – Divirta-se.
– Que isso garoto! Estou comprometido agora... Mas é sério, eu realmente tenho reunião.
– Ok, estou atrasado, vou encontrar a...
– Hilary, eu já sei! Bom proveito.
– Haha, engraçadinho!
Erick pegou as chaves e dirigiu até o apartamento de Hilary. Em pouco tempo os dois já estavam almoçando e tendo uma conversa animada.
– Então, vocês já tem alguma musica?
– Alguns rascunhos. Mas estou tentando aperfeiçoar o meu vocal antes de começar a gravarmos qualquer coisa.
– Qual é! Sua voz é maravilhosa!
–Está dizendo só para me agradar?
– Não, eu realmente nunca vi ninguém cantar como você... Sua voz é tão diferente, é especial!
Hilary sorriu ao dizer isso, mas o sorriso de Erick se apagou. Ele não gostava de lembrar de que era “especial”, ele era só o Erick... Ou, para a maioria das pessoas agora, Johnny.
– Disse algo errado? – ela falou tocando-lhe a mão e com um olhar cheio de culpa.
– Não, não foi nada... E, ahn, obrigado pelo elogio.
Ela deu um sorrisinho em resposta.
– Vamos pagar a conta e ir pro seu apartamento olhar filmes de comédia romântica?
– Eu sou um cara, odeio comedia romântica!
– Eu também, mas é divertido ver a sua cara de desgosto.
Eles pagaram a conta em meio a risadas. Hilary sempre tinha esse efeito nele, o fazia rir até sua barriga doer, o fazia se sentir triste a ponto de chorar quando ela tinha algum problema... Tudo com ela era extremamente intenso, e era por isso que ele a amava tanto, era imprevisível, e o previsível não tem graça.
No caminho para a casa foram ouvindo o CD preferido dela, Blood Sugar Sex Magik., do Red Hot Chili Peppers. Por muito tempo Erick não soube o que era felicidade. Para falar a verdade, até hoje ele não sabe muito bem o que é, mas imagina que possa ser traduzido em ficar na companhia de Hilary, ouvindo uma boa musica descontraída e jogando conversa fora.
– Eu amo tanto esse CD que se fosse uma pessoa eu faria sexo com ela!
– Seria uma pessoa de sorte...
Ela lhe deu um tapinha no ombro e ele só dirigiu-lhe seu velho sorrisinho torto, que ele sabia que a deixava irritada. E ele estava certo, ela revirou os olhos e lhe deu um tapa mais forte.
– Por que odeia tanto quando eu faço isso?
– Sei lá... Você fica sexy, sabe que tudo que é sexy me irrita por eu sinto vontade de agarrar!
– Fico? Eu SOU sexy!
Ele falou brincando, mas deu seu sorrisinho convencido, o que fez com que ela novamente revirasse seus olhos e voltasse a cantar suas preciosas músicas. Isso fez com que o resto do caminho fosse quase todo em silencio, apenas falavam para cantarolar as músicas.
Quando finalmente chegaram Hilary começou seu típico discurso sobre ter preguiça de descer do carro e se movimentar. Erick simplesmente saiu do carro, fez a volta, abriu a porta dela e a levou no colo até a porta de seu apartamento.
– Pode fazer isso todos os dias para que eu não tenha mais que andar?
– Haha, engraçadinha... Como você, essa pessoa sedentária consegue ser tão magra?
Ele começou a destrancar a porta em meio a risadas. O clima estava ótimo, até ouvir Hilary arfar ao seu lado, com os olhos arregalados. Ele não entendeu o que estava havendo até olhar para dentro do seu apartamento...
Uma parte de seu sonho acabara de se tornar realidade.
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