Johnny Blade
14 Fugas
O céu se encontrava nublado naquela manhã. Erick mantinha as mãos no bolso de seu terno negro, com os olhos evitando encaram para o caixão a sua frente, que ia sendo coberto com cada vez mais terra, até que o corpo de seu tio fosse totalmente engolido por ela. Junto a aquele caixão, toda a felicidade que ele teve nos últimos dias foi tirada de si e enterrada naquela terra estúpida.
Apalpou um de seus bolsos e sentiu um papel lá dentro. Sua respiração começou a acelerar, ele sabia o que era aquilo, ele mesmo havia trazido consigo. Mesmo assim, quando tirou o papel do bolso e o leu pela centésima vez, sentiu calafrios, como em todas as outras vezes. No bilhete, com aquela já conhecida caligrafia, dizia “AINDA NÃO ACABEI HARISSON, MAS VOCÊ SABE O QUE TEM POR VIR”. Sim, ele sabia... O que viria seria sua própria morte.
Porém, teve que guardar o bilhete rapidamente quando sentiu Hilary por a mão em seu ombro. Ela fez questão de ir até lá, pois sabia que ele não conseguiria ir lá sem apoio. Seu tio podia ser um verme pervertido e bêbado, mas era o único que lhe acolheu mesmo sabendo de seu comportamento terrível.
– Erick... Por que não fala com eles?
Ele sabia a quem ela se referia: seus avôs e Penny estavam a alguns metros dele. Ele não queria ir até lá falar com aqueles traidores, mas era sua única família agora, e sentia falta de sua irmã. Além disso, seria inútil discutir com Hilary. Engoliu seu orgulho e caminhou de cabeça baixa até o trio. Penny o reconheceu na hora e abriu um sorrisão. Ela parecia mais alta, mais mulher, e correu para abraçar o irmão.
–Lucky! Senti sua falta!
Ele sorriu e a abraçou de volta. Sentia muita falta daquela pequena, a quem ele lia historinhas para dormir quando aprendeu a ler e dormia abraçado quando Paul ficava bêbado e ameaçava batê-los se fizessem barulho. É, não foi a infância mais fácil do mundo, mas eles passaram por isso juntos, ou tanto quanto ele permitiu depois que se tornou tão recluso e preso em seu próprio mundo.
– Senti sua falta também, pequenininha!
– Então por que não me visitou?
Ele apenas encarou seus avôs em resposta, ainda abraçado em sua irmãzinha. Sua avó pareceu entender a indireta e passou a enchê-lo de elogios sobre como estava bonito, alto e parecia um homem crescido. Enquanto isso, seu avô Richard só o olhava dos pés a cabeça, sem demonstrar nenhum sentimento ou animação pela visão do neto.
Porém, para a sua surpresa, sua avó Emm tomou a iniciativa de convidá-lo para voltar a morar com eles na Flórida. Penny encarou esperançosa esperando que ele respondesse que sim, mas ele não sabia o que dizer. Não queria voltar, pois sabia que não era bem vindo naquela casa. Ao mesmo tempo, não possuía emprego, não tinha para onde ir. Poderia morar no apartamento do seu tio, mas não conseguiria se manter por conta própria. Sua sorte foi que Hilary, vendo de longe sua cara de espantado, veio lhe dar apoio.
– Algum problema Erick? – ela disse com a voz calma e doce, mas ele sabia que ela o xingava mentalmente por não se acertar com sua família.
– Ah, bem...
– Nossa avó o convidou para ir morar com a gente... E muito prazer, sou Penny.
– Muito prazer Penny, sou Hilary.
– Você é namorada do Erick? É muito bonita!
Hilary corou e o encarou. Erick apenas deu uma risada constrangedora e contou a irmã que não, são apenas amigos. Penny pareceu ficar um pouco decepcionada, mas voltou a seu bom humor quando Hilary começou a tentar convencer Erick a ir com os avôs. O resultado foi um Erick ainda mais infeliz por ir morar com os avôs e reclamando todo o trajeto enquanto levava Hilary para casa.
– Eu não acredito que voltarei a morar com eles, me odeiam naquela casa!
– Sua irmã te ama! E não sei se você se tocou, mas é sua última noite em Detroit...
Ele freou o carro bruscamente e a encarou. Era verdade, aquela poderia ser a última vez que veria aqueles olhos verde-mar que o ajudaram tanto a ser feliz naquele meio tempo. E, com esse pensamento em mente ele se aproximou de seu rosto, os lábios dela ficaram entreabertos em expectativa, prevendo sua ação seguinte. Ele roçou seus lábios levemente nos dela, fazendo com que os dois se arrepiassem, e a beijou. Um beijo singelo e calmo, mas que transmitia toda a saudade que sentiriam um do outro.
– Eu te amo Erick...
Ela disse aquilo entre o beijo. Ele queria responder, queria dizer que a amava também, mas algo o fez afastar-se rápido: seu sonho. Seus sonhos estavam se tornando realidade, e em seu último sonho Hilary não estava na plateia com a criança, estava morta. Todos estavam.
– Hilary, temos que sair daqui!
– O que??
– Eles querem me matar Hilary, assim como todos da minha família, mas antes eles querem matar você!
– Eles quem?
– Eu não sei! Eu tenho algumas malas com roupas minhas no porta-malas porque ia ir a um hotel para não ter que ficar naquele lugar, eu te levo para casa e você separa algumas roupas rapidinho ok?
– Para... Para onde vamos?
– Eu não sei, só, por favor, confie em mim, temos que sair daqui!
Hilary achava loucura tudo aquilo, mas nunca o viu tão sério e apavorado, e não teve outra escolha a não ser confiar nele. Erick dirigia a uma velocidade absurda, fazendo com que em pouco tempo eles chegassem ao apartamento de Hilary. Ele a esperou enquanto ela descia correndo para arrumar sua mala.
Ele esperou escorado em seu carro, atento a qualquer movimento e mantendo suas mãos no bolso. Ele mantinha uma pistola lá, e ainda sabia como atirar, qualquer coisa ele não hesitaria em puxar o gatilho agora... Ele era Johnny Blade. Porém, como se ele tivesse previsto, aconteceu: o vento soprou mais forte e, em sua direita, algum metro adiante estava aquele que tirou tantas pessoas de sua vida.
E ele definitivamente não hesitou, bastaram alguns segundos para que a cabeça do inimigo explodisse por consequência de sua bala certeira. A adrenalina fervia em seu sangue, acabara de matar alguém, alguém que matara sua família.
Hilary encontrava-se paralisada na entrada do prédio, encarando-o assustada enquanto segurava uma mala pequena. Ela tinha visto tudo, e não sabia como reagir aquilo.
– É ele?
– Que matou meus pais? Sim...
– Então acabou não é? Agora está seguro, não precisamos fugir...
Ele quis concordar, dizer que estava tudo bem agora e deixa-la voltar para casa. Mas, no fundo, ele sabia que nada estava acabado.
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