Johnny Blade

10 Preocupações de última hora


Erick só acordou lá pela uma da tarde do outro dia. E ainda só porque o sol forte entrou pela sua janela, o acordando. Olhou para si mesmo e percebeu que estava pelado, cheirando a perfume feminino e seu quarto uma bagunça completa. Não entendeu no começo, até por uma roupa e ir até a cozinha.

Lá estava Hilary, cozinhando algo no forno enquanto Bill tagarelava com ela sentado à mesa. Ele estava com aquela velha cara de cafajeste, o que significa que deve estar tentando trovar a garota.

- Ei, a Bela Adormecida acordou! – Bill disse, dando-lhe um olhar sugestivo.

- Pois é... Oi Hilary, o que está fazendo?

Ela se virou sorrindo, e Erick não pode evitar corar ao ver que ela usava uma camisa sua como vestido.

- Bem, eu ia ir embora quando acordei, mas achei que seria grosseria ir sem se despedir... E além do mais, estava te devendo uma, e seu tio não sabe nem fritar ovo então... Estou fazendo o almoço!

Ela dizia de forma tão empolgada que parecia estar fazendo algo divertidíssimo. Ele ia protestar, mas ao sentir o cheiro maravilhoso seu estômago roncou, e aquilo parecia estar ótimo.

- Hm... Onde tem um banheiro, por favor?

- Segunda porta a direita, docinho... –Bill disse com aquele sorrisinho cínico que enchia Erick de raiva.

Hilary foi ao banheiro e seu tio abriu um sorriso do tamanho do mundo.

- Moleque, não acredito que finalmente conseguiu! E tem bom gosto, ela é linda... Agora entendo o motivo de amar tanto aquele bar!

Erick só revirou os olhos. Estava de bom humor, mas isso não significava que conseguiria aturar o tio louco e tarado. Mas, mesmo não o suportando, era a única família que ele tinha... Pelo menos, a única que o acolhera do jeito que é.

Hilary voltou do banheiro com um celular nas mãos e uma cara pálida e assustada. Ela mordia os lábios como se estivesse nervosa enquanto guardava seu celular na bolsa que pendia em seu ombro. Só então que Erick percebeu que ela já não mais usava sua camisa, mas sim o vestido que usara ontem a noite.

- Vai sair queridinha? – Falou Bill, com certo desapontamento em sua voz.

- Vou sim, tenho uns assuntos de última hora para resolver... Espero que vocês gostem da comida, eu como algo no caminho.

Erick a encarou preocupado. Ela parecia assustada e, por mais que estivesse com pressa, parecia não querer ir a lugar algum.

- Quer que eu dirija para você?

- Não Erick... Ta tudo bem, eu posso ir andando.

- Não, eu dirijo... Já volto tio.

Bill apenas deu uma risadinha maldosa e piscou para ele, fazendo um sinal de positivo. Erick pegou a chave do carro e a acompanhou antes que pudesse recusar. Ele não falou em voz alta, mas estava realmente preocupado com aquela garota.

- Por que esta fazendo isso?

- Não posso acompanhar uma amiga? Além disso, você parecia estar com pressa,e com um carro é mais rápido de chegar aos lugares.

- Somos amigos?

Ele suspirou. Não sabia muito bem como era ter um amigo, ele só tivera Patrick, e a amizade deles não era das maiores... Mas achava que Hilary se enquadrava nos requisitos básicos da amizade.

- Considerando que você sabe sobre grande parte da minha vida e sobre meu verdadeiro nome... Sim, pode-se dizer que sim.

- Nunca fiz amizades com pessoas com as quais levei para a cama, mas fico feliz por me considerar uma amiga. – Ela sorriu. – E como assim? As pessoas não sabem seu nome de verdade?

- Não, porque eu só saio para beber ou dar uma volta, então não conheço ninguém... E se conhecer, não pretendo contar meu nome de verdade, porque não me sinto como Erick, me sinto como Johnny.

Ela riu e o encarou, com aqueles olhos verde-esmeralda.

- E a morte é sua única amiga? – Ela falou com uma voz irônica.

- Pode-se dizer que sim...

Obviamente ela não entendeu, mas também não questionou. Os dois entraram no carro e dirigiram em silêncio, só conversavam quando Hilary lhe dizia em que direção seguir. Até que chegaram a uma rua bonita, cheia de casas pequenas, porém formosas. Todas pareciam os tipos de casas em que uma família feliz moraria. Hilary o mandou parar em frente a uma casinha amarela com um jardim florido, as flores todas coloridas e a grama bem cortada, com uma bela cerca branca na frente e aqueles tapetes de “Bem-vindo” na frente da porta. Erick viu um pequeno balanço pendurado em uma arvore no fundo do quintal e suspirou... Se um dia tivesse sua própria família, gostaria de morar em um lugar assim.

- Bem... É aqui que eu fico. Tchau Lucky, obrigada por tudo!

Ela o abraçou, mas não foi isso que fez seu mundo parar. Ele a afastou, pondo suas mãos nos ombros dela. Ela o encara confusa pelo gesto.

- Hm, de nada, mas... Como sabe meu apelido de infância?

- Ah... Desculpe, seu tio me contou e...

- Não, esta tudo bem. E apropósito, você tem uma bela casa.

- Não é minha casa, eu moro em um apartamento ao lado daquele restaurante italiano no centro... É onde eu trabalho, alias.

Ele concordou com a cabeça, ao mesmo tempo em que se perguntava de quem seria aquela casa. Mas concluiu que não tinha nada a ver com a vida de Hilary e se despediu dela, vendo a percorrer o jardim florido e bater na porta.

Foi a última vez que ele a viu em semanas.

Ele não queria admitir que estava preocupado, muito menos o quanto não vê-la o afetou. Ele mal a conhecia... Ok, ele sabe sobre a história dela, ele confiou sua própria historia a ela e os dois foram para cama juntos, mas, ainda sim...

Não, ele não podia mais viver em negação. Estava preocupado com Hilary, eles eram amigos e ele precisava vê-la, era a única pessoa em quem confiou em anos, e ele só precisou de poucas horas para isso!

Sem agüentar mais, ele pegou as chaves e saiu até o famoso restaurante italiano em que ela mencionara trabalhar. Pensou em desistir depois que o dono disse que seu horário já havia acabado, mas lembrou-se de que ela morava no prédio ao lado. Foi até lá e disse seu nome na portaria. “Apartamento 532, no último andar” dissera o porteiro, e para lá ele foi, cada vez mais ansioso.

Erick não sabia o que dizer. Tinha medo de que ela o achasse louco, dissera que só passaram uma noite juntos e batesse a porta na cara dele. Ele bateu na porta e não conseguia parar de desarrumar os cabelos e tentava ensaiar falar em sua cabeça para saber o que dizer quando a visse, para que ela não o achasse insano, sendo que ele mesmo estava se considerando MUITO insano.

Porém todos os diálogos que formou em sua mente foram completamente esquecidos quando ela abriu a porta. Ela o encara com surpresa, não com raiva ou assustada, o que foi um alivio.

- Erick, quanto tempo! Entre... É bom vê-lo aqui, estou surpresa por ter se lembrado do meu endereço!

Ele concorda com a cabeça enquanto vai entrando em seu apartamento. Ele estava feliz por ela estar bem e soar tão amigável, aquilo foi novamente um alivio. Porém o alívio o deixou também assim que viu marcas roxas em seus braços e uma ferida em sua coxa.

Ele já desconfiava da resposta, mas não hesitou em perguntar.

- Hilary... O que aconteceu?