Johnny Blade
2 Nova vida... velhos dramas!
10 anos depois o ocorrido Erick se vê em uma manhã como a que viu no dia em que seu pai morreu, com o céu da cor dos seus olhos e os raios de sol infiltrando sua janela. Eles agora viviam em Seattle, para seu desgosto total, que aos sete anos teve de deixar sua tão amada Flórida. O menino antes belo e alegre hoje possuía olheiras profundas e uma pele pálida de aspecto doentio, devido a falta de sol da cidade e sua preferência por ficar em casa. Ainda sim, era dono de uma beleza única, porém estranha: que atraía e ao mesmo tempo repelia. Era sua forma de evitar relações de afeto, pois todos um dia vão embora, e de despedidas ele estava farto.
Vestiu uma camisa qualquer e a primeira calça que viu no guarda roupa. Penteou os cabelos apenas para não ficarem tão bagunçados e saiu para a escola, sem se despedir da irmã, da mãe ou do padrasto, Paul, a quem ele odiava. Só deu bom dia a Megan, filha de Paul, por ter esbarrado na garota antes de sair e esta obrigá-lo a se despedir antes de sair.
–Lucky! Cara até que enfim você chegou! Eu tava doido pra te mostrar uma coisa! — disse Patrick, um de seus poucos amigos naquela escola de "pessoas vazias e fúteis" como Lucky se referia às vezes — Não é uma beleza?
Ele olha na direção em que seu amigo aponta e seus olhos brilham. Era uma guitarra... A SUA guitarra, ou pelo menos a que ele sempre quis ter.
– É sua??
–Aham, lembra do Iphone que eu ganhei de Natal? Estragou! Aí pra me recompensar me deram uma dessas...
Lucky apenas assentiu. Ás vezes ele se esquecia de como a família de Patrick era rica, assim como a de todos que estudavam lá. Ao contrário dele, que como sempre era a aberração, um dos poucos bolsistas que estudava lá.
–Ei, você viu o que fizeram com o Charlie Benson semana passada?
–Não, o trancaram na sala do selador de novo?
–Pior que isso... Parece que zoaram a mãe dele e ele tento reagir e tomo a maior surra...
Ele fechou as mãos em punho, na mais pura raiva. Nem conhecia o cara direito, apenas de vista, e sentia uma vontade enorme de surrar cada um dos infelizes que bateram nele, pelo simples motivo: também era alvo de deboche, tudo porque não tinha um pai rico (ele nem sequer possuía um pai) que o bancasse, sabia como era e odiava a sensação.
Esqueceu, porém, de sua raiva momentaneamente, pois do outro lado da rua pode ver um homem grisalho o encarando com seus olhos cinza. Sentiu um arrepio na nuca, o olhar que o homem lhe lançada parecia querem perfurar sua mente, seus segredos, devaneios, tudo que pudesse encontrar... Ele tirou a mão de dentro do longo casaco e tira algo prateado e brilhante, encarando Lucky com raiva, ódio. O sinal tocou e ele foi sendo arrastado por Patrick até a entrada. Mas, pelo canto do olho, pode ter um rápido vislumbre do objeto que o homem carregava... E ele tinha quase certeza de que era um revólver.
A aula passou voando, e Lucky correu para casa. Tinha sentido um medo descomunal daquele homem de olhos acinzentados e temia que ele estivesse o esperando do lado de fora do portão da escola. Clarisse, sua mãe, notou na hora o desconforto do filho e perguntou o que houvera na escola. Ao ouvir o relato, não teve tempo de esboçar nenhuma reação, pois Megan apareceu de trás do sofá rindo e apontando para Lucky.
–Medroso! Medroso!
– Cala essa boca antes que eu faça você calar!
–Erick...
– Que barulheira é essa na minha casa?
Paul entra na sala e os encara com aqueles olhos reprovadores, de quem irá dar uma surra no próximo que abrir o bico. Megan estica os braços finos na direção do pai, que a pega no colo.
– Paizinho, o Lucky fica me mandando calar a boca e me ameaçando — ela fala em um falso choro.
Ele encara o menino com aqueles olhos, quase tão assustadores quanto os do homem de olhos cinzentos. Porém, não mais que ele, portanto Lucky não recuou ou ficou com medo: ele já havia presenciado algo pior.
–Eu já conversei com você, pirralho, deixa a princesinha quieta no canto dela que ela não ta te atrapalhando em nada, ao contrário de você que só trás problema.
– Eu nunca quis vir pra essa droga de casa mesmo!
– Escuta aqui, se me responder de novo...
–VOCÊ NÃO É MEU PAI!
Paul levanta a mão para acertar a cara do enteado, mas é parado pelos gritos histéricos de Clarisse e recua a tempo. A mulher suspira aliviada e Erick se levanta com raiva indo em direção ao quarto, mas não sem antes dar um tapinha atrás da cabeça de Megan, que sussurra um "tomara que aquele velho te mate!"
Ele se trancou em seu quarto, se sentindo como se estivesse sozinho no mundo. E, de certa forma, ele estava. Nunca encontrara alguém como ele, nem com sua própria mãe parecia estar em sintonia, ou sua irmãzinha mais nova, a quem era dada o título de orgulho da família. Era bela como o irmão, era alegre como ele um dia fora. Era como os raios de sol que adentravam sua janela: radiante, iluminando tudo a sua volta.
De repente, o pavor toma conta dele novamente: estava sentindo aquele mesmo arrepio na nuca, a sensação de que tinha que sair dali. Olhou pela janela e gelou dos pés a cabeça ao constatar que havia alguém lá fora, observando-o a espreita. Uma figura alta vestindo um longo manto negro que lhe cobria o rosto. E, do nada se ouve um estouro, um feixe de luz, e tudo se apaga.
–Erick? Filho?
Clarisse adentra o quarto, tentando ver o filho em meio ao breu total. A luz falha e retorna, fazendo com que Erick consiga ver o rosto apavorado da mãe. Em suas mãos estavam pilhas de roupas... Não, aquilo não poderia se repetir.
–Mãe... O que está acontecendo?
–Temos que ir embora meu amor. Venha, eu arrumo sua mala...
– Aquele homem...
–Lucky... Vamos querido. Será apenas um passeio.
Ele sabia que não era nada disso. Observava a mãe socar algumas roupas em uma mala, apenas o necessário.
–Mãe, nós vamos embora de novo? — pergunta Penny, com os olinhos arregalados de medo — O Paul morreu?
–Não anjinho, vamos só passear.
–Pra onde vamos?
–Não sei... Canadá talvez. O que acham de Hamilton? É, é longe o bastante.
– O QUE??
Ele já não era mais criança, pode muito bem segurar o braço de sua mãe e impedi-la de continuar enchendo a maldita mala. Ela o encarou, séria, sem esboçar nenhum tipo de emoção. Já havia passado por isso várias vezes, mesmo antes de Lucky nascer, não seria agora que se afogaria em lágrimas.
– Erick Harrison, me solte... Nós TEMOS que ir embora daqui.
– Você disse que seria um passeio...
– E vai ser, assim que nos livrarmos dele eu prometo que voltaremos.
Ele não pode mais discutir, mas iria interrogá-la depois, isso iria. Os três saíram sem nem se dar o trabalho de explicar a Paul ou Megan o que fariam, o que o agradou um pouco. Não pode evitar dar um tchauzinho da janela do carro enquanto a mãe dirigia as pressas.
Quando Penny finalmente adormeceu, porém, quase bateram em algo. Era uma figura negra do tamanho de um homem adulto. A princípio não entendeu o que era até ele apontar uma pistola em direção ao carro.
– Eles nos acharam... -sussurra Clarisse
– Eles quem?
Ela não pode responder, pois no mesmo instante o homem de capuz negro apertou o gatilho e Erick teve de se abaixar. Clarisse desviou do homem e partiu o mais rápido que pode, quase batendo em um dos carros.
– O que eles querem?
–Você... Vivo ou morto.
– Eles que mataram meu pai?
A mãe o encarou, angustiada. Ele já sabia a resposta, mas esperava que a mãe dissesse que não, era apenas um engano, o abraça-se e diria que foi apenas um pesadelo, como fazia quando ele era pequeno.
– Foram sim, eles que mataram seu pai.
– Eu sou o próximo...
– Não, nós vamos para Hamilton e nunca mais os veremos.
– Por que eles me querem?
– Eles o querem porque você é especial.
– Tão especial que querem me matar... Eu sou tudo menos especial. Eu sou uma aberração!
– Não diga isso...
– Ninguém me entende, mãe! Eu me sinto tão...
– Diferente?
– É!
– Isso é porque você realmente é!
– Você fala como se fosse algo bom...
Penny se remexeu inquieta no banco traseiro, fazendo com que a conversa seja momentaneamente esquecida. Aos poucos, ela voltou a dormir Erick não demorou a pegar no sono também.
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