Johnny Blade

8 Heroísmo e suas recompensas


Johnny, Erick, ou seja lá quem fosse agora, não conseguia mais parar em casa. Toda a noite retornava para aquele mesmo bar em busca da bela mulher que vira cantar. Nunca tentou conversar com ela, ia lá apenas para observá-la. Isso era doentio, mas ele não se importava, não tinha nada melhor a fazer. Nem sempre ela estava lá, e ele voltava para casa mais cedo e frustrado, frustrando seu tio também que queria agarrar suas vadias em paz.

Ele saiu, como em todas as noites. Antes de sair, porém, seu tio veio importuná-lo:

– Eai Thominhas, vai sair de novo?

Erick odiava quando ele lhe chamava pelo nome do pai, Thomas, e ainda no diminutivo! Mas apenas deu seu velho sorrisinho de escárnio.

– Sim, e não se preocupe, não volto cedo... Acho que vou dar uma volta depois de passar no bar, assim não incomodo sua noite.

– Muito bem, hoje Sue vem para cá e faz tempo que estava de olho nela, se me interromper...

– Não farei isso...

– Bom garoto! Aliás... Essa moça ae, que você vai ver todo dia... Já transaram?

Ele olhou com raiva para o tio, era um idiota mesmo!

– Não! Nem sei o nome dela!

– Sempre soube que era bicha como seu pai, Thominhas...

Erick não pensou. Apenas lhe dirigiu um soco forte o suficiente para fazê-lo cambalear. Bill pôs a mão no local em que levara o soco e, ao invés de uma bronca, lhe dirigiu um sorriso orgulhoso.

– É isso ae Thominhas! Aprendeu a confrontar as pessoas, está virando macho como seu tio!

Ele apenas revirou os olhos. Seu tio só podia ser doente! Pegou as chaves e se dirigiu a saída.

– Espera, leva isso!

Bill jogou uma camisinha em sua direção. Ele pegou, guardou no bolso e respirou fundo. Não acreditava que seus avôs tinham mesmo o mandado morar com aquele maluco. Mas não se prendeu muito a isso, não queria lembrar-se de seus avôs, preferia pensar que não tinha mais família. O que não deixava de ser verdade...

Chegou a aquele mesmo bar, sentou-se na mesma mesa de sempre, pediu o mesmo drink de sempre... Tudo normal. Avistou ao longe a bela mulher, ela usava um vestido azul marinho curto e sapatos de salto alto. Parecia não temer o perigo, já que se vestia daquela forma em um bar cheio de homens bêbados que a cobiçavam.

E, como se tivesse previsto tudo, um homem a agarrou pelo braço enquanto ela passava. Ela tentava se soltar, mas ele não a largava, segurando seu rosto de forma bruta enquanto tentava a beijar. Ele estava muito bêbado, e parecia desesperado. Ele podia ver o medo nos olhos da mulher, e o bêbado que a agarrava também via, e parecia divertir-se com isso...

Mais uma vez ocorreu daqueles momentos em que Erick não pensava: apenas agia. Levantou-se de sua mesa e puxou a mulher para si, dando um soco no bêbado a seguir. O homem tentou golpeá-lo de volta, mas seus reflexos estavam ruins devido ao álcool, e Erick torceu-lhe o braço e o imobilizou no chão. Várias pessoas aplaudiram seu gesto, e o dono do bar levou o bêbado para fora.

Ele encarou a moça por um instante e virou-se, indo novamente para sua mesa. Sem esperar um obrigado, nem nada mais. Ia terminando seu drink quando a viu sentar-se na outra cadeira a sua frente.

– Posso me sentar aqui?

– Já está sentada...

Ele não sabia por que foi grosso com ela. Talvez porque se sentia na defensiva vendo sua pequena paixão platônica a sua frente. Ela apenas fez uma careta pela acidez de Erick e voltou a falar.

– Me chamo Hilary Parks... E você?

Ele pensou por um momento. Não sabia se podia confiar nela, pelo que sabia qualquer um podia lhe matar a qualquer momento. Mas também não via problema em contar seu nome a ela, porém, ele mesmo não se sentia mais como Erick... Respirou fundo e, por fim, respondeu.

– Johnny, Johnny Blade.

– Nome bonito! Bem... Eu gostaria de agradecer pelo que fez, muito obrigada, ele poderia ter me estuprado ali mesmo!

– Poderia evitar isso não usando esse tipo de roupa em um bar.

Ele disse dando sua risadinha mais cínica. Ela apenas o fuzilou com aqueles belos olhos verdes.

– Acha que eu quero estar no meio de vários bêbados? Já não basta eu ter de vir aqui ainda tenho que me vestir como uma freira?

Ele não respondeu. Queria lhe perguntar o porquê de ter de vir até ali, mas mal a conhecia, achou que não havia necessidade de saber.

– Quer um cigarro?

Ela tirou um maço do decote e abriu, acendendo um em seguida.

– Guarda cigarros em seu decote?

– Claro! Assim ninguém os pega... – ela lhe dirigiu um sorrisinho provocador- Você pegaria?

Ele dirigiu a visão ao decote dela. Não costumava ser assim, mas agora ele era Johnny Blade, e dizia o que queria.

– Sem sombra de dúvida!

Ela riu. O que foi uma surpresa para ele.

– A maioria das garotas se sentiria ofendida...

– É verdade... – Ela se apoiou na mesa, aproximando seu rosto ao dele- Mas eu não sou a maioria das garotas.

– Certamente não é!

Ela se ajeitou novamente na cadeira, tragando seu cigarro.

– Eu não me incomodo em ser, você sabe...

– Em ser o que?

– A vadia da história, eu só não quero que me odeiem!

Ele a encarou, fascinado. Provavelmente ela era aquele tipo de garota que sua mãe sempre o mandou evitar, mas não via isso nela. Ela não parecia ser uma vadia, apenas alguém tentando sobreviver... Como ele.

– Você não me parece uma vadia...

– Isso porque não ficamos juntos em uma cama Blade, e porque eu ainda não dei em cima de você... Embora você seja um gato.

– Por que faz isso?

– Isso o que?

– Mexer com as pessoas, transar com todos...

– Eu não transo com qualquer um, só com quem julgo interessantes intelectualmente... Pode-se dizer que tenho fetiche por pessoas cultas. Você parece ser assim, e, além disso, acho que lhe devo uma recompensa.

Ele não pode evitar rir. Definitivamente nunca conheceria alguém como ela.

– Na verdade, eu gostaria realmente de te conhecer melhor, você me parece interessante... Apesar de que não te negaria na minha cama.

Ela riu com aquele sorriso lindo...

– Isso é novo para mim, alguém que queria me conhecer... Mas se é assim, vamos Johnny Blade, acho que tenho um ótimo lugar para isso! – Ela se levantou, ajeitando a cadeira em seu lugar.

– Aonde vamos?

– Você disse que queria me conhecer não é? Vamos Johnny, não tenho a noite toda!