Dirigira duas horas até uma rua deserta. Não sabia por que ela havia feito com que ele dirigisse até lá, mas esperava que ela não tirasse uma arma da bolsa e o matasse. Ok, ele andava meio paranóico...

– Venha! – Ela fala abrindo a porta do carro e descendo.

Ele suspirou e não teve outra escolha senão descer também. Ele trancou o carro e ela foi o puxando até a entrada de um prédio, aparentemente abandonado.

– O que pretende fazer? Você mora aqui?

– Claro que não! Isso aqui está abandonado há anos, traficavam maconha aqui, até a polícia descobrir e mandar todo mundo embora, você só pode ser novo na cidade! Todo mundo sabe disso...

– Puxa... Lugar legal.

Ela apenas riu e tirou algumas tabuas da porta, se ajoelhando e passando por baixo. Não queria fazer o mesmo, mas estava intrigado. Ajoelhou-se também e entrou. Não havia nada de fascinante ali, apenas um lugar velho, empoeirado, escuro e cheio de teias de aranha.

– Não se preocupe, não é isso que quero lhe mostrar, me siga...

Os dois subiram dois lances de escada até chegaram ao térreo. De lá se podia ver o céu estrelado, e parecia ser uma espécie de jardim, com várias flores coloridas e perfumadas. Ele adorou o lugar, mas ainda estava confuso.

– É lindo, mas... Porque me trouxe aqui?

– Se quer saber sobre mim, este é o lugar... Deite-se.

Ele não sabia a que lugar ela estava se referindo. Mas ela foi até a parte em que havia grama e deitou-se no chão. Ele deitou-se ao seu lado, ouvindo-a suspirar.

– Muito tempo atrás, bem depois de isso ficar abandonado eu e minha mãe viemos para este lugar, porque sabíamos que meu pai nunca iria nos encontrar. Ele era alcoólatra sabe? Vivia batendo em nós! Até que um dia ele não queria só bater... Quis nos matar. Minha mãe me trouxe para cá porque ele não nos acharia. E deu certo! Nunca mais o vimos... Nós plantamos esse lugar juntar.

Ele a encarou. Ela estava com lágrimas nos olhos. Erick não sabia como reagir a aquilo, ele sempre fora reservado, nunca falou sobre sua vida com ninguém! E ali estava, ao seu lado, uma estranha que lhe contou sobre sua vida sem nem saber seu nome real. Sim, essa era a resposta para sua pergunta: ele podia confiar nela.

– E sua mãe? Como está hoje em dia?

Ela fechou a cara e ele automaticamente se arrependeu da pergunta.

– Minha mãe é stripper Johnny... Ela trabalha naquele bar depois das duas da manhã. Ela reclamava do meu pai ser daquele jeito, mas agora ela é igual... Uma drogada estúpida que sai com qualquer cara que a banque. Eu só a vejo no bar porque moro sozinha... Eu trabalho como garçonete em um restaurante no centro, é assim que me sustento.

Ela deu um sorrisinho triste, e Erick sentiu seu coração pesar. Nunca pensara nos problemas que ela enfrentava, em sua vida, nada! Apenas que era uma mulher linda com uma voz mais linda ainda, o tipo de mulher que o atraía... Como fora estúpido!

– E você Johnny, o que tem para me contar?

Aquilo foi como um soco no estômago. Ele sabia que não seria justo mentir mais para ela, muito menos deixar de lhe contar sua vida depois que ela lhe disse tanto! Mas havia coisas que ele não queria contar, então decidiu apenas ocultar detalhes.

– Bem, para começar meu nome não é Johnny Blade... É Erick, Erick Harrison. Meu pai morreu por vítima de assassinato quando eu tinha 7 anos e minha mãe morreu faz um mês, também por assassinato... Eu morava com meus avôs na Flórida, mas como eles não queriam que meu comportamento afetasse minha irmã de treze anos, Penny, me mandaram para cá, com meu tio bêbado que pega qualquer mulher que lhe dirija a palavra.

– Eu sinto muito...

Ele respirou fundo, e ela o abraçou. Não entendeu o porquê até reparar que estava lacrimejando.

– Sabe... Eu prefiro muito mais Erick a Johnny!

– É... Eu também.

Ela o beijou. Seus lábios carnudos tinham sabor de cereja, e beijavam os dele de forma voraz, faminta. Ele correspondia o beijo da mesma forma. Nunca havia beijado alguém, e os lábios de Hilary eram tão deliciosos e seu beijo tão envolvente que ele não sentia necessidade de parar. Tanto que só pararam quando o ar já lhes faltava. Sorriram e voltaram a ficar um ao lado do outro, encarando o céu.

– Muito obrigada Jo... Erick.

– Pelo que?

– Por me ouvir, e por me falar sobre você.

– Sou culto o suficiente para você?

Ela riu, dando-lhe um tapinha no ombro.

– É você me parece bem interessante, Harisson.

– Igualmente, Parks.

– Não se sente deprimido ao se lembrar dessas coisas?

– Sinto... E você?

– Também... Que tal sexo para retomar os ânimos?

– Você é mesmo uma vadia, Hilary Parks...

Ele riu como há tempos não ria. Era muito bom estar ao lado de Hilary, tanto que nem parecia que se conheciam há apenas algumas horas.

– Tal mãe, tal filha...

Ela falou enquanto puxava mais um cigarro do decote.

– Você não é como sua mãe... Só porque alguém lhe deu a luz não significa que você vá ser como ela.

– Como pode ter certeza disso?

– Por que eu não tenho nada a ver com meus pais, inclusive se estivessem vivos eles estariam decepcionados.

– Não, porque se estivessem vivos você não seria assim...

Ele não podia negar que ela tinha toda a razão. Ia respondê-la, mas esta lhe ofereceu um cigarro, e ele aceitou.

– Você tem cara de que fuma e bebe pra caralho!

Ele riu enquanto acendia seu cigarro com um isqueiro que Hilary lhe ofereceu.

– Eu bebo muito, eu fumo muito, sou um desperdício humano... Mas vou te dizer uma coisa querida, eu realmente odeio o gosto!

– Ei, essa é a letra de uma música do Alice in Chains...

– “Queen of the Rodeo”, você cantou uma vez no bar... Eu a vi.

Ela corou, mas concordou com a cabeça.

– Você canta muito bem... Eu pretendo ser cantor e guitarrista no futuro, podemos fazer uma parceria.

– Eu ficaria honrada... Enfim, sobre o que mais vamos conversar?

– Sinceramente? Não sei mais se quero conversar...

Ela pareceu entender, pois algumas horas depois estariam no quarto de Erick. Ele não pode deixar de fazer uma nota mental: “agradecer ao tio Bill pela manhã!”.