Johnny Blade

6 E tudo começa outra vez


A luz piscou e desligou, mas não só a de sua casa, a da rua inteira, de forma que Lucky se encontrava na penumbra total. Sentia suas mãos tremerem, queria gritar, mas sabia que se o fizesse sua voz não sairia. De qualquer forma, tentou.

- Quem é você?

O que era para soar como um grito intimidador soou cheio de medo e aflição, que era justamente como ele se sentia. Uma risada de escárnio veio como resposta.

- Quem eu sou? Eu sou o medo. Sou o medo que existe dentro de você, sou o desespero que o domina, sou a mágoa, a raiva e o ódio. Sou tudo que existe de pior em você Erick Harrison...

Sentiu algo aperto seu pescoço, a respiração ficando mais fraca, as batidas de seu coração descompassadas. Ao mesmo tempo em que a pessoa ou criatura, seja o que fosse ria com vontade. Sua risada colocava imagens horríveis na mente de Erick: via pessoas que nunca vira na vida morrer, via seu pai, via sua mãe, Rachel e sua irmã, todos morrendo... Só para em seguida ver a si mesmo morrer.

Seus olhos reviraram nas órbitas, o oxigênio deixou seu pulmão e seu coração falhou uma batida, enquanto o ser apertava cada vez mais as mãos em torno de seu pescoço. Sentia-se mais leve, a vida se esvaindo de seu corpo, junto com tudo mais que havia nele.

De repente as mãos em seu pescoço afrouxaram e a luz retornou. Erick desabou no chão enquanto respirava desesperado, tentando recuperar o oxigênio roubado de seus pulmões. Sentia dor em seu pescoço e em seu peito pela dificuldade em respirar. Olhou em volta e arregalou os olhos, constatando que não havia ninguém lá...

A porta se abriu com força, e lá estava sua mãe com um olhar de raiva ao lado de sua avó, que mantinha o semblante preocupado.

- ERICK THOMAS HARRISON PODE ESPLICAR PORQUE VOCÊ... Ah meu Deus!

A raiva de Clarisse se dissipou assim que viu o filho jogado no chão, com a expressão de total horror e respirando com dificuldade.

-Lucky, fala comigo, o que aconteceu?

Ele tentou falar, mas não conseguia. Ainda não conseguia respirar direito, muito menos falar de forma que fizesse algum sentido. Porém ao olhar nos olhos dele, sua mãe conseguia deduzir o que acontecera. Abraçou o com força e se pôs a chorar em desespero. Ela perdera o marido depois de anos ao lado dele, os dois sempre em fuga, sempre tentando mantê-lo em segurança... Lembrou-se de quando decidiram ter uma família e de como foram feliz com seus dois filhos, até o matarem. Não podia deixar que o mesmo acontecesse com seu filho mais velho, seu pequeno Lucky, que já sofrera tanto...

Quando recuperou o fôlego, Erick conseguiu retribuir o abraço da mãe e afagar-lhe o cabelo, para confortá-la. Ele sabia que ela esteve certa o tempo todo... Precisavam sair dali, se mudar novamente. Por mais que soubesse que nunca se sentiria mais em casa do que ali e que Penny, tão nova, precisava de um lugar fixo para crescer, também sabia que não queria ver sua família morta como naqueles pensamentos horríveis que puseram em sua mente.

- Mãe, você tinha razão, temos que ir embora!

Clarisse limpou as lágrimas e o soltou, surpresa pela iniciativa do filho.

- Não Erick, eu sei o quanto isso é importante para você... Vamos ficar aqui, eu dou um jeito, nada vai acontecer a vocês!

- Mãe... Dê-me mais uns dois dias então, para que eu me acostume com o fato de nos mudarmos e alerte Penny sobre isso, depois vamos embora. Ok? Não podemos ficar aqui! Eu prometo que ficarei bem, mesmo que a gente vá para Hamilton, como você queria antes...

Ele deu seu velho sorriso confiante, o que fez com que Clarisse concordasse e se acalmasse um pouco. Era óbvio que ele não estava confiante, sabia que não podia manter a mãe a irmã ali, eles precisavam sair daquele lugar o mais rápido possível.

Quando sua mãe e sua avó foram preparar o jantar e Penny e seu avô voltaram ele pode enfim ir para o quarto pensar sobre tudo aquilo. Porém assim que entrou no quarto viu um bilhete em cima de sua guitarra. Era só o que me faltava, mais bilhetes! Pensou enquanto tirava o bilhete de sua amada guitarra e o lia. Nele, com aquela caligrafia que ele aprendera a reconhecer, dizia:

“O que é seu ainda lhe aguarda Harrison, ou acha que se livrou de mim?”

Sentiu, de repente, uma imensa vontade de correr até a sala, pegar a mãe, a irmã e levá-las a força para o outro lado do mundo. Passou anos revoltado com o fato de ter de se mudar e nunca ter um lar de verdade, mas finalmente entendia o desespero de sua mãe. Nunca parou para pensar que ela também desejasse um lar, fixar-se em uma cidade e não ter de procurar emprego constantemente em cada novo lugar que vão. Ela fazia aquilo só porque queria protegê-los.

Amassou o bilhete e jogou no lixo quando seu avô chegou ao quarto.

- Ei menino, venha, quero lhe ensinar algo.

- Essa hora da noite?

- Quer ser um homem de verdade e proteger sua família ou dormir?

Ele suspirou e seguiu Richard. Ficou surpreso quando viu que ele queria ensiná-lo a manusear seu velho rifle Winchester 44. Sentiu dificuldades no começo para aprender a manuseá-lo, pois era uma arma pesada e nunca havia pegado em uma arma antes. Mas ficou satisfeito quando pegou o jeito e viu que possuía uma boa mira.

Horas depois ele e seu avô voltavam para casa com sorrisos satisfeitos. Erick se sentia mais seguro sabendo que conseguia atirar, mas ainda temia pelos dias que teriam de permanecer na Flórida. O problema é que mesmo que se mudassem, sabia que em semanas ou dias teriam de partir para outro lugar de novo, e assim seria, até que Erick viesse a falecer.

Sentiu um calafrio na espinha, o mesmo que sentira antes e olhou para seu avô antes de sair correndo até a varanda. Antes mesmo de abrir a porta ouviu o choro de Penny e entrou correndo.

- Penny, vó, o que houve?

Sua avó o olhou com os olhos cheios de lágrimas. Emmily não era o tipo de mulher que chorava por qualquer coisa, enfrentara a dor de perder os pais durante a Segunda Guerra Mundial, era uma das pessoas mais fortes que ele conhecera. Mas ao vê-la frágil daquele jeito já esperava o pior...

- Sua mãe não sabia que você tinha saído, ela foi checar o seu quarto e...

Ele não esperou para saber o que era, foi direto para seu quarto, sabia que tinha que ir até lá. Abriu a porta com o coração a mil e não conseguia acreditar...

Era a terceira morte que ele enfrentaria. E sabia que não era a última.