Fazia quase dois meses desde a morte de sua mãe. Lucky, Erick, ou seja lá quem fosse agora, sentia-se ainda mais sozinho do que antes. Por mais que vivesse com seus avôs e a irmã, sentia-se órfão. Voltou-se para seu mundinho, voltou a beber e a fumar... Todos os hábitos que havia perdido com o tempo. Não sabia mais como estava sua irmã ou seus avôs, pois não os via. Não via mais ninguém...

Estava agora do mesmo jeito de sempre, afinando sua guitarra com um cigarro na boca ao lado da janela, para que o quarto não ficasse com cheiro de fumaça. Quando seu avô abriu a porta com brutalidade.

– Bater pra quê né? – Falou com aquele seu velho humor ácido.

– Tira essa porcaria da boca e venha cá, eu e sua avó temos que conversar com você.

Ele sabia que seria inútil discutir com Richard, foi guardar a guitarra pacientemente quando ele lhe puxou o braço e lhe arrancou o cigarro da boca.

– Escuta aqui moleque, eu não to de brincadeira, isso já está demais! Venha!

Tocou o cigarro de Lucky pela janela, que não pode nem protestar, e o levou pelo braço até a sala, onde o pôs sentado. Sua avó estava sentada ao lado de Penny, com a expressão séria. Richard senta-se ao lado dela, os três de frente para Erick, como em um tribunal... Todos prestes a julgá-lo!

– Erick, querido, você sempre foi um menino tão doce... – começou sua avó, ele sabia que lá vinha coisa... – Mas hoje está preguiçoso, não pensa mais em nada, não come direito, vive com essas porcarias... Seu comportamento está inaceitável, e eu não quero que Penny conviva com isso!

– Ela não convive com isso, eu nem saio da droga do quarto!

Sua avó suspirou como se já soubesse tudo que ele iria dizer e estivesse cansada de ensaiar as respostas.

– Querido, eu vou ser direta, pois já vi que uma abordagem tranqüila não nos levará a lugar algum... Você vai morar com seu tio Bill, ele já arrumou um quarto para você e o matriculou na escola perto do apartamento dele.

– O QUE? VOCÊS ESTÃO ME MANDANDO PARA DETROIT?

– Não fomos bem claros? – Richard disse com aquele semblante de general que sempre o irritara. – Vá arrumando as malas, você vai adorar Detroit!

Sem mais nem menos se levantou, batendo a porta com tudo atrás de si. Não podia acreditar que estavam o largando nas mãos de um tio que só vira quando tinha 5 anos e seu pai ainda estava vivo. Era ridículo! Ele simplesmente não acreditava...

Mas acreditando ou não, era verdade. Na outra semana mesmo estava lá, naquele apartamento escuro e pequeno em Detroit. Seu tio morava sozinho, mas vivia trazendo “amiguinhas” para lá, então obviamente não era o lugar mais limpo e arrumado que ele já vira. Pelo menos Bill tinha bom gosto: em sua prateleira havia bandas ótimas, como Black Sabbath, Pink Floyd, AC/DC, Led Zeppelin, etc. Ele passava a tarde toda ouvindo ou CDs ao invés de ir para a escola, e nem ligava, pois Bill estava sempre trabalhando no escritório e também não ligava.

Foi se cansando aos poucos daquele lugar e pediu permissão ao tio para sair de casa. Ele só deu aquele sorrisinho e disse “Pode ir, vai curtir um pouco” antes de se agarrar com a mulher que algumas horas antes estava os servindo no restaurante da esquina.

Pegou as chaves do carro e saiu. Erick tinha 17 anos, quase 18, já tinha idade suficiente para dirigir. E mesmo se não tivesse, duvidava que Bill negasse o carro emprestado. Ele não sabia para onde ir, só sabia que precisava urgentemente de algo para beber. Parou em um barzinho no centro da cidade e pediu a dose mais forte que tinha.

Bebia sem parar enquanto ouvia as pessoas que se arriscavam cantando no pequeno palco de madeira. Parou de beber por um instante ao ouvir uma voz feminina rouca e extremamente sexy que lhe chamou a atenção. Quando viu a dona da voz não se surpreendeu: era tão sexy quanto sua voz.

Tinha cabelos loiros ondulados, com belos cachos nas pontas e uma única mecha vermelha na lateral, uma pele levemente bronzeada, lábios vermelhos e um corpo esbelto, porém cheio de curvas... Por algum motivo, ele a lembrava muito da atriz Kaley Cuoco, daquele seriado que sua mãe amava ver. Graças a personagem que a atriz fazia que sua irmã ganhou o nome Penny.

Parou de admirar a beleza da loira momentaneamente para adivinhar que música ela cantava. Ele conhecia de algum lugar, mas era difícil recordar-se do nome quando o álcool reinava em seu cérebro. Quando o ritmo da música passou a agressivo, porém, ele a reconheceu: era Queen of the Rodeo, do Alice in Chains. Era inconfundível, e ela tocava com uma precisão exata.

Deu um sorrisinho ao constatar que mais da metade do bar a devorava com os olhos. O restante apreciava a música. Ele apreciava a bela voz da mulher tanto quanto apreciava sua aparência, mas não a ponto de comê-la com os olhos, como diversos homens bêbados faziam descaradamente.

Ela terminou sua música e deu um sorrisinho provocador, como se tivesse provado algo a alguém ou simplesmente estivesse orgulhosa de si. Ergueu uma garrafa de tequila e a levou aos lábios carnudos, descendo do palco enquanto os homens gritavam elogios indecentes a seu respeito. Ela parecia nem ligar.

Parou de observá-la e se levantou, pagando a conta e em seguida saiu de lá. Não queria ir embora, porém enquanto andava sentia os efeitos do álcool: sua visão estava levemente turva, e parecia desequilibrado. Aliás, ele não parecia... ESTAVA desequilibrado.

Ouviu um som de guitarra familiar vindo de outro bar aos arredores. Havia alguns motoqueiros com suas Harley Davidson impecáveis e suas jaquetas de couro. Sorriu ao ver que o que eles ouviam ela Black Sabbath, e automaticamente reconheceu a música: Johnny Blade.

Nunca havia prestado atenção na letra. Apurou os ouvidos e ouviu atentamente o vocal de Ozzy Osbourne. “Tortured and twisted, he walks the streets alone” ( torturado e bêbado, ele anda sozinho pelas ruas), era o que dizia o primeiro verso. Riu, constatando que nada se encaixava mais com seu estado agora. Voltou a prestar atenção na música após o refrão, e riu novamente. A letra dizia:

Life has no meaning, and Death's his only friend (A vida não tem significado, e a morte é a única amiga dele)

Will fate surprise him, where will he meet his end? (Irá o destino surpreendê-lo, onde ele conhecerá o seu fim?)

He feels so bitter, yes he's so full of hate (Ele se sente tão amargo, sim ele está cheio de ódio)

To die in the gutter, I guess that's Johnny's fate (Morrer na sarjeta acho que esse é o destino de Johnny)

Ele ria, cada vez mais. Porém, não uma risada feliz, uma risada amarga. Até os motoqueiros do outro lado da rua o encaravam. Poderia ser muito bem o álcool falando, mas ele sabia de uma coisa... Naquele momento ele não se sentia como ele mesmo, não se sentia como Erick, muito menos Lucky. Naquele momento ele também não era nenhum deles.

Naquele momento ele era Johnny Blade, e a morte é a única amiga dele.