Jogos de Versalhes
5 Aliança
Notas iniciais
Junto a Howard, passei o dia todo cuidando dos feridos.
Pelo menos eu acho que foi o dia todo. Não havia luz natural ali, apenas uma ou outra lâmpada que permaneceu intacta após o ataque do dragão.
– Obrigado — falei para Howard, ainda tratando à base de ambrosia e néctar as queimaduras dos feridos
– Pelo quê? — perguntou ele, arqueando as sobrancelhas
– Por me salvar — falei — Aquele momento em que quase fui engolida pelas chamas. Sem você... eu teria morrido.
– Ah, aquilo — falou ele — Não foi nada.
– Estou te devendo essa — respondi
– Não precisa... — começou o arqueiro
– Talvez nós possamos ser aliados — interrompi — No acampamento, minha mãe, Vênus, me disse que eu tenho poderes de meu irmão, Éneias. Talvez isso possa ajudar a nós dois.
– Éneias... — repetiu ele, confuso — Mais tarde talvez consigamos descobrir. Mas preciso te ajudar a sobreviver até lá.
– Ótimo — concordei — Você me ajuda até eu poder te ajudar da mesma forma. O que é este arco? — perguntei, observando o arco que ele trazia nas costas
– Um arco de tensão — respondeu o garoto — Presente de reclamação de meu pai, Apolo. Tenho algumas flechas de ferro mortal e outras de Ouro Imperial. Eu pegaria mais, mas pensei que não precisaria.
– Você também foi sequestrado? — perguntei
– Creio que todos nós fomos — assentiu ele — Estava fugindo do Acampamento quando aconteceu. Os pretores mudaram pouco antes de minha partida, e os novos estão parecendo ditadores.
Eu não vira nenhum caos desse tipo no Acampamento Júpiter, mas eu fora anestesiada por um tempo, então talvez isso tenha ocorrido enquanto eu estava desaparecida.
– E você? — perguntou ele — Tem alguma arma?
– Tenho sim — respondi, tirando meu Pugio de Vulcano do bolso
Era uma adaga romana, chamada de pugio, que viera com uma bainha de couro negra. Ao meu comando mental, ela se tornava incandescente ou até mesmo entrava em chamas. A inscrição grega Men me Ksekháseis estava escrita de um lado, enquanto a inscrição Gios tou Hefaístos estava gravada no outro. Ninguém no Acampamento se dispusera a traduzir, pelo preconceito contra qualquer coisa de origem grega. Se uma inscrição na adaga já causara certo alvoroço entre os romanos, imagino o que aconteceria se eles soubessem sua história. Dizem as más línguas (leia-se Octavian, o áugure psicótico) que ainda existem semideuses vivendo a la grega fora do Acampamento. Provavelmente os Lares, Octavian, o Senado, os Pretores e todo o resto enlouqueceriam se tal boato se confirmasse. E é exatamente por isso que a história da lâmina deveria permanecer oculta.
Agora você deve estar se perguntando "Helen, mas que história tão tenebrosa pode ser esta?". Eu respondo.
Antes de chegar à Casa do Lobo como qualquer semideus normal, eu encontrara Peter Smith. Não sabíamos o que éramos e nem porquê os monstros nos atacavam tanto. Pelas suas habilidades com mecânica, seu controle sobre o fogo e sua perícia quase completa sobre metais, tenho certeza de que se tratava de um filho de Vulcano. Viajamos juntos pelo país, procurando por alguém que pudesse nos ajudar. Tivemos que enfrentar monstros de todos os tipos, e, para que eu pudesse sobreviver, ele fazia armas para nós. Lembro-me de um par de espadas que vieram com um par de braceletes magnéticos, fazendo com que elas retornassem sempre às mãos de quem usava os braceletes. Era um ítem ótimo, até ser pisoteado por ciclopes em Olympia. Também haviam os coturnos a jato, as flechas explosivas, etc., etc., etc.. Não preciso nem dizer que todos foram destruídos antes de chegarmos à Casa do Lobo.
Peter ainda estava trabalhando em alguns projetos, mas não havia nada pronto no momento. Às portas de nosso destino, porém, Lupa não o aceitou. Raios partiram o céu, e nós fomos levados ao Conselho Olimpiano. Todos os olimpianos votaram por separar nossos destinos, exceto minha mãe, Vênus. Fui levada de volta à Casa do Lobo, enquanto Peter foi levado ao rio Lete, onde se esqueceria de seu nome, de sua vida e o pior: se esqueceria de mim.
De volta ao casa da loba que tirou meu amor de mim, vi Vênus às suas portas. Queria me jogar em seus braços e começar a chorar por tristeza. Queria avançar e esmurrar sua cara por raiva.
– Acalme-se, minha filha — disse ela, como se lesse meus pensamentos — Você será recompensada no futuro.
– Por que você não impediu?! — perguntei, quase partindo para a segunda opção — Por que não nos escondeu em algum lugar desconhecido ou algo assim?!
– Filha, isso é mais complicado do que parece — respondeu ela tristemente — Eu não posso ir diretamente contra os olimpianos. Mas ainda assim, lhe darei uma garantia: você o reencontrará algum dia. Eu provocarei seu encontro.
– Mas você não fez nada? — perguntei, desesperada
– Sim, eu fiz — disse ela — Antes que suas memórias pudessem ser destruídas, eu as peguei para mim. Não posso restituí-las agora, mas o farei em breve. Ele... ele pediu que eu a entregasse isto. — ela me entregou o pugio– Vocês se reencontrarão e ele a reconhecerá com isto. Você tem um destino grandioso. E esta adaga a protegerá até que ele aconteça.
Peguei o [i]pugio[/i] e fui até qualquer cômodo da casa de Lupa. Eu odiava minha vida, odiava esta casa, odiava meu destino e, acima de tudo, odiava os deuses. Quase me uni aos titãs na guerra, apenas não o fiz pela promessa de Vênus. Passei anos esperando o encontro, mas ele nunca ocorrera.
Mas, claro, eu nem cogitava contar a história toda para Howard. Ele poderia me repudiar, me chamar de graeca como os Lares do acampamento, entre outras reações indesejáveis.
– Presente de reclamação. — menti para o arqueiro
– Podemos nos proteger bem até descobrirmos o seu dom — concluiu ele
Ele continuou curando semideuses a noite toda, e deveria estar totalmente sem energia. Não sei muito bem como aconteceu pois estava praticamente dormindo com os olhos abertos, mas o garoto dormia em meu colo mais ou menos meia hora depois. Pouco depois, também caí no sono.
Acordei horas mais tarde. Os semideuses não estavam mais lá, creio que já tivessem encontrado lugar melhor para ficar. Sentei-me ao lado de Howard e permaneci mais algumas horas mirando o nada. Pensei em Howard e pensei também em Peter. Será que valeria a pena viver sozinha à espera de um encontro que talvez nunca ocorresse? E se ele fosse morto antes disso? E se eu morresse antes? E se ele não se lembrasse de mim? Eram tantas possibilidades... Talvez realmente valesse a pena abrir mão desse encontro por Howard. Mas era a primeira vez que eu saía do acampamento, o que significava que talvez Peter me aguardasse até hoje procurando-me, sem sucesso. Talvez eu mesma pudesse encontrá-lo.
Meus pensamentos foram interrompidos por uma voz: era o detestável Lucca de Vito, que, apesar de fazer com que eu conhecesse Howard, quase me matara na noite passada. Levantei-me rapidamente e desembainhei o pugio. Howard finalmente se levantava. Olhei para a direção da detestável voz e recuei alguns passos de espanto.
Parecia uma miragem: era como um pequeno arco-íris, mas o rosto de Lucca tremeluzia em suas sete cores. Ele sorria doentiamente, como na noite anterior, e um olhar orgulhoso parecia estar atrás do par de óculos escuros. Howard o encarava com a mesma expressão que eu.
– Bom dia, semideuses — disse o meu quase algoz — Trago notícias... Agradáveis. Os Jogos começarão amanhã. — seu sorriso se tornou mais doentio e sádico, mesmo que eu achasse isso impossível.
Notas finais
Sobre Peter Smith, só posso dizer uma coisa: sim, ele vai encontrar Helen, e o motivo da separação deles será explicado.
Continuem acompanhando a fic por favor. Juro que o próximo capítulo sai mais rápido que esse.
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