Acordei cedo como era de costume para nós, caçadoras. Felizmente, eu não morrera queimada, e nem o semideus a quem eu salvara.

Na noite passada — ou dia, não sei ao certo — eu e mais quarenta e nove semideuses quase morrêramos por causa de um dragão autômato de Lucca de Vito. Ah, eu mesma mataria aquele traste logo que pudesse. Voltando à minha história, eu vira um arqueiro derrubar uma coluna de caixas para salvar uma garota que seria morta pelas chamas. A coluna caiu e fez uma barreira contra as chamas. Durou pouco, mas a garota se salvara. Decidi tentar fazer o mesmo, mas, claro, um pouco melhor.

E eis o que eu fiz: Com flechas precisas, eu derrubara dezenas de colunas caíram, fazendo uma espécie de fortaleza, que salvara a mim e a outro semideus. Ao contrário da coluna do arqueiro, minha fortaleza foi definitiva: sobreviveu o incêndio, não foi pisoteada pelo dragão e não ruiu pelo desgaste. Foi lá onde eu e o semideus dormíramos.

Ele parecia ser um jovem latino, com o tom de pele não tão claro nem tão escuro, e usava uma camiseta laranja do Acampamento Meio-Sangue queimada e calças confortáveis. Usava luvas negras, e, se meu faro de caçadora não estivesse errado, eram feitas de pele de dragão. Era uma raça rara, quase extinta por seus predadores, os drakons, mas não creio que você queira saber muito sobre eles. Geralmente seu couro gerava itens capazes de lançar chamas enormes. Geralmente era dado a filhos de Hefesto no Acampamento Meio-Sangue, então creio que ele seja uma cria do deus das forjas.

Saí da fortaleza e olhei em volta. Não havia nada de interessante par ser visto além de um depósito cheio de caixas metálicas.

– Ahn... — disse uma voz — oi?

Virei-me rapidamente, tensionando uma flecha no arco, colocando a flecha a um centímetro do nariz do infeliz.

– Calma! — disse o semideus, sobressaltado. Era a cria de Hefesto.

– O que você quer? — perguntei, ríspida, enquanto devolvia o arco às minhas costas

– Nada! — respondeu ele — Só queria agradecer. Talvez eu tivesse sobrevivido às chamas por ser filho de Hefesto, mas mesmo assim...

– Já entendi — repliquei — agora cale a boca

Ele foi até uma caixa e começou a mexer nela. A princípio pensei que fosse pelo déficit de atenção ou pela hiperatividade, então não o dei muita atenção. Um pouco mais tarde, movida pelo tédio, fui até ele para ver o que ele fazia. Chegando lá, fiquei impressionada. Ele criara uma espécie de mini-forja, com carvão sob uma placa de metal com furos.

Como ele criara a placa? Provavelmente simplismente esburacando ela com a luva. Como ele arranjara o carvão? Provavelmente queimara o que quer que houvesse dentro da caixa. Como ele fizera alças na forja, um suporte pro conjunto, etc., etc., etc.? Não faço a mínima ideia. Só sei que ficara impressionante demais para ter sido feita em quinze minutos.

– Ficou incrível — deixei escapar

– A outra estava melhor — disse ele, displiscente

– Como é seu nome? — como eu nem perguntara o nome do ser antes?

– Erik — respondeu ele — Erik Fireheat.

– Meu nome é Keyla — falei — sou uma...

– Caçadora de Ártemis — disse ele — Não é a primeira que conheço.

– Onde você...?

– Chalé oito, Acampamento Meio-Sangue. — interrompeu ele — As outras não tentaram me matar com uma flecha no meio do rosto...

– Fomos treinadas para agir assim. — argumentei

– Fui treinado para queimar com minha luva quem tenta me matar. Posso? — perguntou ele, irônico (pelo menos eu espero que ele estivesse...)

– Minha flecha seria mais rápida — argumentei novamente

– Você morreria pelo incêndio — argumentou ele

– Touché — falei — Seria mais fácil se nós não nos matássemos, certo?

– Certo — assentiu ele — Vindo de uma caçadora isso é quase um eu te amo.

Tirei rapidamente o arco das costas e tensionei nele uma flecha, apontando-a para a testa dele.

– Não repita essa merda. — falei, autoritária — Você não entendi como é letal o amor para as caçadoras.

– O que você disse há um minuto atrás sobre não nos matarmos? — murmurou ele

– Não fale merda e eu não farei merdas na sua vida. — falei — É um acordo justo.

Ele, claro, não pestanejou. Incrível como servas de deusas tem esse poder, não? Vocês, homens que estiverem lendo isso, falariam merda para uma Caçadora com uma flecha, mirando na sua testa? Espero, pelo seu próprio bem, que não. E se fosse uma das feiticeiras do spa de Circe prestes a te transformar em um hamster, você diria algo? Novamente, pelo mesmo motivo, espero que não. E se fosse uma... Enfim, você entendeu. Resumindo: incrível esse nosso poder exclusivo.

O dia passou, e ele conseguiu, além de terminar a forja, criar uma espécie de fogão e, com um pouco mais de tempo e esforço, começou um protótipo para um par de walkie-talkies que não precisavam estar próximos — muito útil para semideuses desaparecidos. Eu, enquanto isso, morria de tédio. Abria as caixas metálicas sem objetivo algum, apenas para me distrair. Não encontrei nada de interessante: apenas sapatos toscos, máquinas de costura do século passado e uns quadros de pintores famosos de origem duvidosa (os de Leonardo da Vinci aparentemente eram da China; já os de Michelangelo, da Coreia).

Eis que surge algo ainda mais mortal do que o meu tédio: uma Mensagem de Íris. Se as fontes das caçadoras estiverem corretas, e elas sempre estão, Íris fundara uma ONG e se aposentara, portanto era uma ninfa das nuvens que coordenava as mensagens. Eu geralmente gostava de receber MIs, pois praticamente sempre eram de caçadoras ou até da própria Ártemis afim de entregar-me recompensas por trabalhos mais avançados, mas esta era uma das mensagens mais detestáveis que eu poderia receber. Tive vontade de socar o rosto que vi, mas soube que, infelizmente, o dono daquele rosto não sentiria o soco.

O rosto detestável era de Lucca de Vito, o puto que me sequestrara. Lembro-me como se fosse ontem de sua falsidade, de como me enganara e me fizera quase morrer. Se bem que a parte do quase morrer fora realmente ontem... mas não importa. Olhei com raiva para o filho idiota de Hécate que tremeluzia nas sete cores do arco-íris da MI. Ouvi atentamente as palavras daquele idiota que havia por trás daqueles óculos escuros.

– Bom dia, semideuses — disse o ser repugnante — Trago notícias... Agradáveis. Os Jogos começarão amanhã. — ele deu um sorriso sádico — Ah, mas vocês não sabem o que eles são, certo? Bem, eu explico. Vocês todos foram levados até aqui para os Jogos de Versalhes — ele abriu os braços como se dissesse "Parabéns, você foi sorteado com um milhão de dólares!" ou "Vocês acabaram de participar das pegadinhas do meu canal!" — Basicamente, eu trouxe cinquenta semideuses para testá-los em desafios. Eu estava guardando o dragão de bronze para depois, mas, infelizmente, alguns semideuses... — ele parou, procurando a palavra correta — agiram fora do previsto. Pelo menos ele serviu ao seu propósito: Matou os semideuses que não eram fortes o suficiente para ele. Agora, algumas mensagens pessoais para alguns de nossos... participantes. Helen, nossa querida filha de Vênus, a você só posso dizer que sua mãe fará sua parte no destino que lhe prometeu. E você? Fará?

Ele continuou falando com semideuses que eu desconhecia, mas eu não prestava mais atenção na mensagem. Apenas pensava no que ela dizia: eu seria testada junto a mais não sei quantos semideuses até a morte.Pensei em minhas chances de sobreviver até o fim, mas a voz ridícula do idiota chamara minha atenção de volta para a mensagem.

– Keyla? — dizia ela — Keyla? Keyla? Ah sim, agora está ouvindo. Você mudará de foco durante os Jogos. Quando tudo isso acabar, verá que certas coisas valem mais do que a própria imortalidade. Erik, quanto a você, descobrirá um pouco mais sobre seu passado. Eu poderia dizer-lhe tudo agora, mas... será mais divertido vê-lo descobrir tudo do jeito mais difícil. Isso é tudo. Ah, tem mais uma coisa. O primeiro desafio de verdade dos Jogos de Versalhes será amanhã. — sua expressão se tornou mais séria — Vocês devem estar na Arena daqui a exatamente 24 horas. Nesse prazo, eu vou explodir todos os outros lugares em que vocês podem estar. Estejam aqui e talvez morram ou fiquem onde estão e, invariavelmente, morram. — seu sorriso retardado voltou — Boa sorte.

Eu e Erik trocamos um olhar. Agimos em uníssono: corremos como loucos. Meus instintos de caçadora diziam que o próprio Lucca de Vito estava naquela direção, então ali devia ser a Arena. Continuamos correndo por umas cinco horas, e, apesar de eu estar completamente bem(para uma caçadora correr por cinco horas não é nada), Erik parecia morto. Ele desabou de exaustão. Imaginei que eu tinha tempo para esperá-lo descansar, afinal ele poderia neutralizar os empecilhos postos por De Vito enquanto eu caçava o mesmo. Não era uma caçadora, nem forte como uma, mas ele deveria ser o suficiente.

– Anda logo! — falei para Erik — Não sabemos quão longe essa Arena é!

Notas finais
Agora vocês já sabem o que são os Jogos que dão nome à série. Dos três personagens dos três primeiros capítulos, já mostrei o destino de dois; agora só falta mostrar o destino do último, Hank. Prometo que o faço no Capítulo 8. Agora que baixei Dropbox e Jota Text Editor no celular deve ser mais rápido para postar os próximos capítulos. Não abandonem a história, por favor D=