Jogos da Virtualidade
3 A Janela-tela.
Nessa noite eu tive um sonho, não o interpretei direito, mas parecia que ele nunca iria acabar.
Uma garota, talvez com quatro ou cinco anos, e eu. Estávamos numa montanha, uma montanha muito alta, era como se eu tivesse me teleportado para lá. A montanha tinha um grande abismo e a garota ficava ali, olhando para o grande buraco. Eu estava longe dele, mas a via. Eu estava observando-a e quando ela me viu, começou a me chamar, a me gritar desesperadamente. Mas eu não respondi aos seus chamados, então, ela ameaçou se jogar, e eu saí correndo em sua direção, a fim de salvá-la. Mas algo me impedia, como uma grande parede de vidro, que nos separava. E enquanto eu tentava dar um jeito de passar aquele grande escudo transparente inquebrável, ela deu o último grito, olhou para mim, e se jogou. Eu acordei.
Num enorme pranto, eu acordo. Olho ao redor e vejo que estou em meu quarto. A princípio, eu me levanto da cama e checo o horário, é duas e quarenta e cinco da manhã. Meu quarto tem um pequeno banheiro, então eu vou para lá, lavo meu rosto e começo a me encarar no espelho, sinto que algo está diferente.
Quando eu finalmente saio do banheiro, tenho sede, e então me dirijo à porta do meu quarto na intenção de ir à cozinha, mas a porta não abre, eu estou trancado. Eu começo a forçar a maçaneta, mas nada adianta, definitivamente me trancaram dentro de meu quarto, e eu não sei o porquê disso. Eu começo a bater na porta, na tentativa da minha mãe acordar e me socorrer, mas é inútil. Depois de um tempo tentando eu desisto e volto para a cama. Talvez amanhã, quando eu acordar, eu consiga chamar minha mãe para me socorrer.
Enquanto estou deitado, fico olhando para o teto, sinto que meu quarto está muito claro, até porque, eu apaguei a luz, e a luz do corredor sempre fica apagada. Do lado de fora das janelas, as lâmpadas da via pública estão queimadas, então, eu deveria me encontrar numa extrema escuridão, não entendo o porquê.
Depois de um tempo olhando para o teto, a minha curiosidade me venceu. E então eu me levanto por uma segunda vez, acendo a luz, verifico se a porta foi aberta, e é claro que ainda está trancada, e então eu olho para a cortina que cobre a janela de madeira que fica na parede paralela a de minha cama, e me aproximo. A cortina tem um tom escuro, quase que preto. Eu a abro.
Uma luz branca forte está vazando das frestas da janela, eu tento abrir a janela, mas ela está emperrada, então eu começo a forçá-la, de jeito que ela começa a se morrer, estou quase conseguindo abri-la. Quando eu a abro, uma enorme luz branca se dissipa pelo meu quarto e já é tarde, eu não consigo fechar mais a janela. Eu me jogo no chão e tapo meus olhos, no intuito de não ficar cego, e depois de alguns segundos me toco que a luz parou, eu olho para a janela e vejo que agora ela virou uma tela preta, e algo está piscando branco nela, parece letras. Eu me aproximo para ver o que é, é uma inscrição pulsante, como... Como... Como num jogo. Como meus olhos ainda estão meio loucos pela luz forte, está meio embaçado, então eu tento ler:
–Você... -Paro um pouco, coço os olhos, e continuo. -Você foi se... Selecio... Selecionado. Você foi selecionado!
E então eu começo a entrar em desespero. Por que eu?
–Como assim eu fui selecionado? Não! Não pode ser! -Eu começo a andar pelo quarto, estou frustrado.
Uma nova inscrição aparece na tele preta da janela, e agora meu olhos já estão melhores, a inscrição diz: para iniciar aperte aqui.
–Iniciar o quê? -Ponho a mão no meu rosto e começo a dizer. -Ou eu inicio, ou eu fico aqui para sempre, não é? -Eu pergunto olhando para cima.
Não há nenhuma resposta, então, o que me resta é apertar a nova mensagem pulsante, rezando para que eu sobreviva, ou que pelo menos eu não tenha uma morte tão dolorosa.
Me aproximo da tela, estico minha mão e penso profundamente nisso. O que vai me acontecer depois disso? Será que eu sobrevivo?
A minha mão está cada vez mais perto da inscrição pulsante, e meus dedos estão tremendo, estou esticando meu corpo para alcançar a tela, como se meus pés tivessem que ficar o mais longe possível. Então, eu aperto a tela.
A inscrição some, e a tela fica totalmente preta, ou melhor, a janela. Não aconteceu nada até agora. Então, um pequeno blin sonoro ecoa e uma nova inscrição aparece na tela, você iniciou o jogo.
Eu fecho os meus olhos e espero ser jogado numa arena com os outros adolescentes. Estou com medo, muito medo! Mas, estou estranhando a demora, então eu abro os olhos, e ainda estou lá, no meu quarto. E a inscrição continua na tela. Então, eu franzo a testa e lanço uma pergunta para o vazio:
–É só isso?
Então o cômodo começa a se desintegrar, e o chão começa a evaporar no ar, e em seu lugar sobra um imenso e eterno vazio incolor. Começo a procurar o chão, mas não sobrará mais nada, e para não ver o que vai acontecer, eu fecho meus olhos, e me encolho. Quando retorno a abri-los, vejo que estou num corredor, nele, as paredes são cromadas. E uma linha branca traça a parede do início ao fim. No teto, lâmpadas fixadas dentro da parede dão o ar de terror ao corredor, e o silêncio o amplifica.
Eu estou parado olhando e observando o corredor quando duas mulheres vestidas de branco, cujos rostos eram pálidos e os rostos sem feições, pararam do meu lado e me invitaram.
–Acompanhe-nos.
A voz delas é um tanto quanto metálica e suas mãos estão nas minhas costas, e elas estão me guiando pelo corredor, até que paramos diante de uma porta, uma das mulheres tira a mão de minhas costas e digita um código na porta, a mesma se abre como um X.
Do lado de dentro, tem uma cama, uma mesa, uma espécie de televisão e umas máquinas que eu não sei para que serve. As mulheres me guiam para dentro, se posicionam na minha frente e começam a falar.
–Nós somos shisuodin e shisudva, somos sua programação auxiliar pré-jogo.
–Olá. -É a única coisa que consigo dizer.
–Olá. -Elas repetem juntas.
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