Jogos da Virtualidade
4 Shisuodin e Shisudva.
As mulheres estão paradas na minha frente, talvez esperando alguma coisa, mas eu não sei o que ao certo. Elas têm uma semelhança muito grande, poderia até dizer que são gêmeas. Mas decidi tirar a conclusão perguntando para elas.
–É... -Eu gaguejo. -Vocês são gêmeas?
–Somos Shisuodin e Shisudva, somos nomeadas em duas línguas distintas, o japonês e o russo, nosso nome significa sistema um e sistema dois, fomos programadas juntamente e com um só objetivo, poderíamos dizer que somos gêmeas, mas somos meros programas. Algo mais? -Elas respondem numa velocidade impressionante e juntas.
Sem hesitar eu pergunto:
–Sim, podem ser menos assustadoras?
–Somos assustadoras para você? -Elas perguntam.
–Não, mas... -Paro e penso. -Vocês falam de um jeito esquisito.
Elas não me dão resposta alguma. E então eu me assusto de verdade.
–Vocês estão aí? -Dou uma volta ao redor delas. -Alô!
–Download completo -Elas dizem, juntas.
–Que download?
–Você pediu para falarmos de um melhor jeito. -Diz Shisuodin.
–Realizamos o seu desejo. -Completa Shisudva.
–Podem me responder uma coisa?
Elas fazem que sim com a cabeça.
–O que exatamente vocês devem fazer comigo?
–Devemos te instruir . -Diz Shisuodin.
–Me instruir para quê?
Shisudva anda para trás de um balcão de cor branca, agacha-se e levanta com um pequeno objeto em suas mãos. É algo achatado e de cor preta, com um pequeno botão vermelho ao lado.
–Te instruiremos sobre os jogos. -Shisuodin me responde.
–Posso chamá-las de somente Odin e Dva? -Pergunto.
–Pode -Elas respondem juntas.
Dva põe o objecto preto sobre o balcão e Shisuodin me acompanha até próximo do balcão. Shisudva estende sua mão e aperta o pequeno botão de cor vermelha.
Um holograma aparece sobre o objecto, e ele funciona como um pequeno projetor. Nele, aparece traços grossos e finos, que se cruzam, fazendo com eles estejam interligados, e de várias cores diferentes.
–Essas são as dimensões. -Começa Odin.
–Dimensões? -Pergunto.
–Sim, as dimensões carregam vários sistemas planetários e galáxias. Porém, algumas dimensões são abstratas e outras sólidas. -Responde Shisudva.
–Como assim abstratas e sólidas? -Não entendo o que elas dizem.
–Observe. -Shisuodin foca num desses traços. -Essa é sua dimensão, aí se encontra a Terra. Ela é uma dimensão sólida, composta por planetas e galáxias e tudo que você conhece.
Shisudva foca num outro traço, que representa outra dimensão.
–Esse traço, representa o que vocês chamam de Virtualidade X ou Dimensão X. Essa é a nossa dimensão, e a que você se encontra. Aqui não existe planetas, nem galáxias. Somente o vazio e abstrato. -Shisudva fala de um jeito medonho.
Sem hesitar, eu aponto para um traço escuro e falhado, como se estivesse sumindo, e pergunto:
–E qual é essa dimensão?
–Essa é Sorano. -As duas falam juntas.
–Sorano é a dimensão condenada. Uma dimensão abstrata sem comando. Está sumindo. É lá para onde os perdedores vão. -Shisudva completa.
–Meu irmão está lá? E quanto ela sumir? -Pergunto olhando nos olhos de Shisudva.
Mas, é Odin quem me responde:
–Sim, ele está lá. -Ela para e completa. -Quando Sorano sumir, todas as outras dimensões anteriores a ela, as que antecedem, não terão mais ligação com a dimensão inicial e sumiram junto com Sorano.
–Que dimensões antecedem Sorano?
–Uma delas é a nossa. E outra pode ser chamada de Afirizot. -Responde Shisudva.
–O que tem em Afirizot? -Pergunto para Shisuodin.
–Vocês a conhecem como Dimensão Real. A dimensão da Terra.
Shisudva desliga o projetor, e o guarda debaixo do balcão, onde estava. E faz uma última pergunta:
–Mais alguma dúvida?
–Sim, eu tenho mais uma dúvida. -Paro e penso se será algo realmente certo perguntar isso. -Por quê...
–Por quê...? -Shisuodin me acelera.
Então eu falo de uma vez e rápido, olhando para o pálido rosto das duas:
–Por quê sequestrar crianças e colocá-las num jogo da morte?
–Para garantir a sobrevivência de Sorano. -Elas respondem juntas.
–Como a morte de pessoas garante a sobrevivência de uma dimensão!? -Eu me estresso.
–Lhe responderemos quando você estiver mais calmo. Durma. -Elas me dão as costas e saem pela porta pela qual entramos.
–Voltem aqui! -Eu começo a bater na porta. -Voltem aqui!
Quando vejo que elas não voltarão, ou mesmo ninguém, eu sento no canto do quarto e começo a pensar. A pensar no quanto eu desperdicei a minha vida, poderia ter valorizado mais Carolina e minha Mãe. Provavelmente, agora elas devem estar chorando em algum lugar, por mim. E eu estou aqui, com medo, e sem saber o que posso fazer. Me sinto um inútil.
Saio do canto e deito na cama, não para dormir, mas para pensar. Sei que uma hora ou outra eu vou cair no sono, mas, não tão fácil. Fico por ali olhando para o teto, talvez por umas duas ou três horas, até que eu tenho fome.
Mesmo estando numa dimensão diferente, sou humano e vou sentir fome. Então, eu levanto da cama, e vou para o balcão. Não há armários. Não há nada.
Então, eu me aproximo da mesa que fica no centro do cômodo e vejo que no seu centro há um pequeno botão, e abaixo dele há uma inscrição, não gosto de inscrições, com uma inscrição tudo começo. Nela, dizia: não aperte este botão.Que frase mais irônica, é claro que eu vou apertar!
Eu aperto o botão e nada acontece. E então, depois de um minuto, uma pílula sobe por um tubo para a mesa. Eu não vou comê-la, afinal eu não sei o que pode fazer comigo.
A porta em X se abre, e Shisudva somente, aparece e me diz:
–Você recebeu a qualidade teimosia, meus parabéns. -Ela entra e já diz.
–An? -Não entendo o que ela quis dizer.
–Mastigue a pílula, ela vai tirar a sua fome.
–Como você sabe que estou com fome? -Pergunto.
–Eu e Shisuodin somos ligadas a você. Sabemos tudo sobre você, e tudo que você sente.
–Como?
–Quando você entrou, nós fomos interligadas a você. -Ela me dá as costas e sai dizendo, -Mastigue a pílula... Mastigue-a.
Sem hesitar, quanto ela sai, eu vou até a mesa e começo a mastigar a pílula, que tem o tamanho de um grão de ervilha. A pílula não tem gosto algum, mas depois de uns cinco minutos, ela sacia a minha fome, como se eu tivesse comido comida de verdade.
De barriga cheia, tudo que me resta, é voltar para aquela cama. Lá, olhando para o teto, volto a pensar na minha mãe e em Carolina, enquanto ao meu pai, nunca o conheci. Ele sumiu quando minha mãe descobriu que estava grávida pela segunda vez, de mim, ele foi comprar leite e nunca mais voltou.
Pensando, em pouco tempo, e mais calmo, eu adormeço.
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