Jogo Dos Sete
1 Fora da mente sangrenta.
...
Sete minutos.
Uma vida demora nove meses pra ser gerada, alguns anos para dar os primeiros passos, uma eternidade de dias para se aprender valores, cultivar amigos, alcançar metas...
- ela está morta! – Alex colocou os dedos no seu rosto pálido, o corpo inerte caído no chão, o clima de pânico quase liquido, como facas no estomago, ela estava ali a sete minutos, agora não estava mais.
- sim ela está. – suspirou Denise, a se prostrar incrédula na sua direção.
...
Os lábios miúdos cantarolavam alguma coisa sem tradução concreta, em quanto ela ajeitava os cabelos morenos que lhe caiam como um elo pelos ombros o espelho a encarava,Rita olhava nos olhos do reflexo, revisava a postura, sim de fato uma beleza juvenil e cordial.
- você está pronta? — esse termo definia o começo daquilo que seria o fim.
Era Gisele.
Entrou no quarto da irmã a caçula e a encontrou feito estatua, ali naquela posição encarando a superfície do seu reflexo, como se quisesse guardar na memória cada detalhe, cada cintilar do seu vestido na luz opaca do quarto, os mínimos sorrisos de satisfação com a beleza.
- eu sempre estou. – foi a resposta imediata e jovial, apagaram as luzes e seguiram para o evento anual de formatura que a aguardava.
Gisele a contemplou por meio minuto, era uma irmã altamente cuidadosa, a irmã sempre foi tudo e um pouco mais, agora estava crescendo tão rápido,a entrada no ensino médio era assustadora e satisfatória, vê-la pondo-se mulher, abandonando a infância e futuramente seguindo o próprio caminho, ela foi tudo de bom que os pais podiam ter deixado.
Gisele fotografou os passos da irmã pela escada, a caminhada meticulosa pelos degraus pra evitar uma queda, ao chegar no deque as duas se abraçaram docemente.
- você está crescendo, eu não quero... – brincou a mais velha desalinhando seus cabelos.
- me mande pra terra do nunca... imagina só! – entre um riso foi o que Rita respondeu.
As duas seguiram no carro até o ginásio de esportes a entrada Patamares, na ala alta da cidade, a noite possuía um desagradável vento quente, luzes abafadas por enfeites de papel indicavam a entrada do ginásio onde os estudantes se aglomeravam.
- te busco as onze. – Gisele suspirou desalinhado seu cabelo outra vez.
Mas a cabeça inconseqüente e fervilhante de Rita a fez resmungar:
- meia-noite!
- você não é Cinderela Rita de Cássia, onze e meia. – Gisele ajeitou os óculos de grau forçando uma irritação materna na voz quase teatral.
- todo mundo pode ficar até o dia clarear e eu tenho que ir dormir as onze? – Rita resmungou abrindo a porta do carro.
- você não é todo mundo. – e aquela conversa se encerrou com a porta do carro sendo batida e os passos de Rita na direção da sedutora entrada para o mundo dos adultos, aquela terra desconhecida, o novo que tinha a chance de desbravar ali agora, sem a irmã a protegendo como um pássaro pequeno no ninho, a sensação de vôo fazia parte dela agora.
Não demoro muito para que as “amigas” se aproximassem, os vestidos incrivelmente curtos, as expressões adultas em torno daquilo tão forçado, pareciam duas bruxas cercando uma fada delicada, eram Denise e Emily, corpos provocativos, sorrisos falsos, em uma calçada seriam facilmente confundidas com vadias ao em vez de formando s.
- você está poderosa hoje! – entre xingamento chulos, e uma classe que assombraria as damas do século XVIII, foi a forma que uma elogiou a outra.
- você também fofinha! – Denise comentou pondo os olhos em Rita. A satisfação de Rita em estar ali com as amigas naquele momento deixava-a em estado de transe tal alto a ponto de nem ouviu ou agradecer os elogios a ela dedicado.
Emily encurtou um pouco mais seu vestido e com uma pequena garrafa disfarçada com rotulo de inocente refrigerante comentou absurda:
- hoje é a noite!
E Foi assim que começou.
Os amigos iam chegando aos poucos, tradicionalmente aos casais, algumas fotos, uma volta em torno da mesa de guloseimas, até todos estarem bambeando em torno da pista de dança esperando por alguma coisa boa que pudesse acontecer, o diretor bem que tentou pegar no microfone e dizer algo célebre e memorável, mas entre vaias deu lugar a “Pleas Don’t Stop the Music.”
Tudo cheirava a inocência colegial, cada detalhe, cada musica, cada conexão de sorrisos ou passos em torno do ginásio enfeitado. Era bem mais do que aquilo.
- está vendo aquele ali?- apontou Emily com a unha de fera vermelha. – Allam Coimbra, transferido de Israel pra cá, atleta, gringo e muito gato.
Era um desses tipinhos que você encontra em filmes americanos, o corpo truculento, os olhos caçadores e o comportamento volátil, juntamente com uma roda de amigos. A certa altura da festa ficar ali sob as imensas luzes de prata começava a ficar sem graça.
Denise tinha algo em mente.
Arrastando a sua vulgaridade se aproximou do grupo de colegas do tal Allam, uns gestos com as mãos, um sorriso falso, em meio segundo ela estava de volta a Rita e a Emily,
Que comecem os jogos.
- essa festa já morreu faz tempo. – resmungou Denise virando sua vigésima garrafa.
- do que você está falando? Está tudo ótimo! – cintilou Rita, em quanto em desdém Emily desenhou no ar um auréola em torno da cabeça.
- você é tão perfeita que me da sono amiga, eu estou falando de diversão. – as duas “amigas” riram.
- estou me divertindo. – rebateu Rita alegremente.
- ela está falando de caras tonta! Garotos... – Emily puxou o decote firme.
- olha gente...eu não sei se isso é boa... – mas antes que a doce Rita pudesse concluir foi arrastada pelas víboras para pista de dança, sacolejada de braço em braço entre os jogadores de futebol juntamente com Emily e Denise, lhe foi derramado o venenoso álcool na boca, os cabelos saíram do coque habitual e o batom se dividiu quase forçadamente entre ela e Rude Field, o atleta do segundo ano.
Ela se sentiu suja.
Pensou no que a irmã diria daquilo, sendo levada pela maré ruim, indigna de qualquer forma de confiança ou compaixão, ela correu tanto quanto qualquer atleta ali, correu pra longe, correu até a parte sombria do ginásio, um corredor escuro repleto de banheiros e casais... duas coisas que não combinavam muito.
Ela limpou o borrão de batom imundo da boca e se colocou em suaves lágrimas, foi quando uma mão forte a puxou delicadamente;
Era o Alex.
- o que houve? – seu amigo gentil perguntou. Eram amigos desde sempre.
Ela não soube explicar. Se enterrou no ombro dele chorando um pouco mais.
Ela entrou no banheiro, seu fiel escudeiro logo atrás molhou alguns lenços fétidos e enxugou seus olhos.
- você não devia andar com aquelas estúpidas, elas são ruins pra você. – explicou ele angelical.
- a culpa não é delas Alex...foi minha. – declarou ela. – eu me deixei levar, o que a Gisele pensaria? Ela confia em mim.
As duas garotas apareceram no banheiro:
- o que bosta foi aquilo? Você correu feito uma galinha quando vê lobos. – afirmou Emily irritada, com o certo olhar de aprovação ao ver com que Rita estava acompanhada.
- Vocês são os lobos. – urrou Alex pondo a pequena Rita nos braços.
- cai fora querido, volte pro nerdlandia ou coisa parecida, esse lugar não é pra você. – ironizou Denise puxando o braço de Rita.
Não. Ela sussurrou,
- prefere ficar com ele ótimo? Mas não vai ficar barato, bem vinda ao inferno baranguinha! Ta na hora de jogar o nosso jogo. – a bêbada da Denise bradou em quanto atrás os quatro brutamontes do time de futebol entravam no banheiro.
- isso não tem graça Denise. – afirmou Alex abraçando Rita mais forte.
- é o seguinte. – Denise virou o ultimo gole de sua garrafa. – Rude ficou muito chateado com você, então nosso joguinho se chama...Jogo dos Sete. Você compensa ele aqui e agora por sete minutos e deixamos os dois babacas saírem daqui.
- pode esquecer. – bradou Alex.
- caso contrário, meus lindos amigos dão um corretivo no Sr. Star Wars, ai... – ela apontou pra Alex.
Não era uma troca justa.
Vendo a proporção do problema, Rita se desprendeu dos braços de Alex, se dirigindo pra o grosseiro Rude, caindo sem seus braços pervertidos, humilhada, entrando no Box do banheiro.
-não. – foi o que Alex soube gritar, ela empurrou as duas garotas e com todas as suas forças tentou resgatar Rita daquilo, antes ele apanhasse do que ela sofresse um abuso sequer daquele porco.
As mãos fortes dos amigos de Rude o barraram na porta do Box, ela foi empurrado contra os azulejos brancos, levando socos e pontapés, vendo que o acordo não estava sendo cumprido , a pequena Rita se desfez daquele abraço infeliz de Rude e arrebentando o aporta do banheiro gritou suas ultimas palavras:
-não é justo.
Ela recebeu um tapa no tosto da sua “amiga” completamente bêbada Emily, e o salto de ambas começaram a empurrar seus corpo pro chão, Alex se retorceu contra a surra que levava, vendo a diversão dos outros jogadores em chutas cada vez mais sua leal amiga, rindo, da sua expressão de medo, dos gemidos de dor, pobre pássaro.
O corpo inerte começou a nadar em sangue.
Os olhos de estrela se fecharam docemente.
De repente tudo parou, como se nada fizesse sentido, como se todos ficassem sóbrios de repente, um silencio, o fim dos socos, constataram que a brincadeira fora longe demais.
Rita não se movia.
- ela está morta! – Alex colocou os dedos no seu rosto pálido, o corpo inerte caído no chão, o clima de pânico quase liquido, como facas no estomago, ela estava ali a sete minutos, agora não estava mais.
- sim ela está. – suspirou Denise, a se prostrar incrédula na sua direção.
Lá fora Gisele estacionou pontualmente na entrada da escola pra buscar sua amada irmã.
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