Jogo Dos Sete
2 Justiça
.11:14 : — Meu Deus o que nós fizemos?- berrou Denise histericamente sacolejando o corpo frio de Rita
11:14 : Gisele olha no relógio impaciente, liga várias vezes pro celular de Rita sem retorno.
11:15 : uma garota gordinha acha a bolsa com o celular, toma pra si o aparelho. 11:15 : um carro buzina atrás do de Gisele estacionado impaciente, bloqueando a entrada.
11:17: Emily cai em lágrimas de incredulidade, os jogadores parecem em estado de transe.
11:18: O Diretor percebe um estranho movimento no corredor e se direciona a ele.
11:19: Gisele manobra, estaciona, furiosa se dirige ao ginásio. 11:22: — mas o que está aconte... – a voz do diretor se cala ao ver a menina morta no chão. 11:23: — a gente não queria...a gente só tava... – Allam tremulo bambeava.
11:26: Gisele entrou descabelada na festa, os alunos a olhavam como louca. 11:30: o Diretor se recupera do choque, sacode os olhos, pensa em ambulância, oração, briga,choro... apenas pegou a menina nos braços: “saiam daqui.” Ordenou. 11:33: — você viu Rita, a garota magra, minha irmã? – indagou a Gisele preocupada a uma garota no salão, ela estava bêbada demais pra responder, a expressão de irmã se retorcia.
O corredor se tornou um cortejo fúnebre, os casais se largaram, os beijos foram interrompidos, um silencio percorreu o corredor frio. O Diretos levava nos braços a jóia Rita suja de morte, levava em silencio pelo corredor, uma lágrima fria cintilou no seu rosto gordo. Já podia se ver a luz principal. A musica foi interrompida, os olhares como de holofotes contemplaram a cena. Gisele virou seu rosto interrogada pelo silencio. Era, 11:40
Você jamais poderia imaginar.
Primeiro a incredulidade, o balançar de cabeça, depois a irmã correu ao encontro da pequena, procurou uma explicação no ar, pediu a Deus que aquilo fosse mentira, apalpou o corpo morto da irmã, respirou ofegante.
Depois gritou. Foi tão forte, que todos sentiram sua garganta se rasgar, todos puderam ver sua dor, sua angustia, um grito de fúria e de dor tão grande que a fez espatifar no chão frio e enfeitado do ginásio, olhos delouca. Houve um pequeno socorro, um corre-corre.
Num súbito impulso Gisele se levantou: -o que aconteceu? – berrou tonta. O diretor não soube responder, ela arrancou a doce Rita dos seus braços roliços, lançando-se no chão com ela caiu num profundo desmaio, como se fosse esfaqueada.
Você pode imaginar o que aconteceu, ao se ver num quarto de hospital, a irmã longe dos seu braços, como podia ser tão rápido, seus planos, seu futuro, seu carinho e cuidado, ela arrancou o soro do braço e num ataque de histeria correu meio metro destruindo tudo em sua frente até ser sedada, outro profundo sono doloroso.
UMA SEMANA DEPOIS – DELEGACIA LOCAL, BR 366 20:25
Óculos preto.
Debaixo do casaco mais preto ainda o soluço:
“irmãos, entes queridos. Essa foi a nossa pequena estrela Rita, que esteve na terra por 14 lindos anos, anos de paz, de sorriso, de amor...mas Deus a tomou em seus braços e hoje, ela descansa na sua vontade agradável...” O caixão foi abaixado...
— Sra. Balt? – o delegado de bigode espesso me acordou da minha lembrança, essa era eu... ou o que sobrara de mim, eu imaginei ver seu casamento, seus filhos, sua formatura... seu esplendor, vi seu caixão preto descendo lentamente.
Eu não respondi. O amargor roubou minhas palavras.
— meus pêsames. – disse ele sem sentimento
Enfie seus sentimentos no cu. Pensei, mas não disse. Hipócrita.
— quero saber...o que aconteceu. – minha voz era um grito reprimido, meus cabelos de secretaria num coque estavam sem pentear, meus olhos não tinham mais lágrimas, os dentes fétidos, os óculos embasados, a um mês atrás me vendo no espelho assim eu rira e me chamaria de mendiga.
-bem, senhora ao que parece durante uma brincadeira...-eu o interrompi. -
brincadeira? – berrei — de que ponto de vista é engraçado minha irmã morta? Bati na mesa.
— Sra. Balt, mantenha a calma...- pediu ele. Respirei fundo pondo-me em meu lugar. — sete adolescentes estavam na festa, consumiram álcool, os depoimentos batem... ela ia supostamente namorar um garoto... Ela foi espancada. – esclareceu ele. – a policia cientifica já arquivou o caso
. — espancada? – cada silaba foi como uma chama em mim.
- é, eles não souberam se controlar... – eu o interrompi.
— diga a uma pessoa como eu que morre todo dia de manhã ao ver o quarto da minha irmã vazio a não saber se controlar...não vagabundos filhos da...- minha voz subiu dois tons mas respirei fundo, uma lágrima percorreu minha face. E depois varias delas, o batom na estante, a cama bagunçada, o cheiro de perfume, os romances na estante, as fotos do papai e da mamãe como uma pequena chama...tudo naquele cômodo com o meu sentimento.
— eu entendo você Sra. Balt, minha esposa teve um aborto espontâneo a poucos anos, sei como é a sua dor... Não,não sabe. -...mas, agora. Ele se calou, não havia nada que pudesse dizer.
- e o que a justiça fará com eles? Onde eles estão? – minha garganta era uma flâmula de justiça, uma sede de que eles mofassem na cadeia, morressem todos os dias como eu estou morrendo.
— ai é que está... – ele sacudiu os papeis. – Emily Carmelo, Denise Fainh, Allam não-sei-pronunciar-esse-sobrenome, Diego Carvalho, Thiago Michel, Victor Rodriguez e Alex Teles, todos menores de idade, o único que não teve participação ativa no crime foi o tal de Alex.
“ Acho que o amo mana, ele é tão lindo...mas nos somos apenas amigos,e vai ser sempre assim...o nome dele é Alex Teles, da classe D. fofo,fofo,fofo... e mais fofo. – uma risada”
Acordei novamente da minha lembrança, percebi que chorava mais com isso.
— ...serviço comunitário e cinco anos em regime parcial de correção, uma casa especial pra jovens delinqüentes. – ele prossegiu.
— o que? – levantei da cadeira suja. – é isso?
— sinto muito. – ele apertou sua papelada debaixo da axila rota e suada. – mas é o Maximo que a justiça pode fazer.
— justiça? Justiça? Que justiça? Essa é a justiça? – meu coração começou a me matar por dentro.
— Senhora...sinto... – antes que ele pudesse completar a frase, me joguei no seu balcão, a tesoura da sua escrivaninha minhas mãos. — enfie suas desculpas no seu cu... ela está morta, morta,morta...-gritei tentando o golpear meu próprio peito, Fui agarrada por um policial, ou talvez dois. Isso não era justiça;
E essa era a mulher perfeita, secretária imobiliária, perfeita, planos brancos... Amarrada a cama de um quarto branco de sanatório sussurrando ... -justiça...justiça...justiça... Não era mais eu. (...)
Eu agora me dei conta de que eu tinha que ser a própria justiça.
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