Jogo Da Amizade
6 O Spa
Com estômago vazio e a cabeça sofrendo com a ressaca do dia anterior, Fernando estacionou o jipe na frente da casa onde deixara a capota e todas as suas malas. Apesar de movimentada, não tiveram nenhum sinal de Kyara pela casa. Todos que apareciam, cumprimentavam os garotos gentilmente, e até ajudaram a remontar o carro.
Era quase meio dia, sol alto e forte, perfeito para ir à praia. Mais uma vez os garotos sabiam que Kyara estaria ocupada demais para lhes acompanhar, afinal, eles estavam em férias, ao contrário disso, a moça estava acarretada de afazeres e preocupações. Quando perguntaram onde estava a garota, a resposta foi interessante:
— Kyara tirou o dia de folga com a mãe. Foram passar o dia em um Spa; presente de casamento que eu mesmo dei – disse um dos tios da garota, todo orgulhoso por conseguir dar um presente tão especial à noiva.
Neste momento, Nando e Elvis se entreolharam significativamente ambos pensando na mesma coisa.
— Não está pensando em ir...? – começou dizendo Elvis.
— Já trocamos olhares profundos, Elvu, está consumado e não tem volta – brincou misteriosamente o amigo.
Quinze minutos depois os dois estavam à caminho do Spa onde a amiga estaria junto com sua mãe. As malas voltaram para seu local original: compactadas no banco de trás e no bagageiro do jipe.
— Spa Maria Bonita? Não é só pra mulher?
— Não existe um Spa só pra mulher, Elvis.
— Como você sabe?
— Como assim, como eu sei?
— Uai, de onde você tirou isso? Onde você aprendeu que não existe Spa só pra mulheres?
— Na minha... Vida.
— Não convenceu, não.
— Elvis, querido, presta atenção nas direções do GPS. A gente tem que chegar ainda hoje lá.
— Não acredito que vou gastar uma puta grana num Spa, mano.
— Não pense como um Spa, penso como um resort. Porque é um Spa resort.
— É ali, Nando – apontou Elvis para uma enorme casa de campo, toda finalizada em madeira rústica, com bastante verde ainda na entrada.
— Que chique...! – disse Fernando, surpreso.
Os dois gostaram do que viram, parecia que tinham sido teletransportados da cidade grande para uma fazenda num piscar de olhos. Havia um enorme campo natural, cheio de árvores e diversos bancos e mesinhas de madeira que davam um charme especial ao lugar. Mais atrás havia um enorme celeiro, todo ornamentado entre dois altos pinheiros, um em cada lado.
Os dois entraram na recepção e foram muito bem atendidos por uma moça bonita, de cabelos encaracolados delicadamente jogados para o lado, realçando o pescoço de boneca e o decote. Por um momento os garotos ficaram em um tipo de transe enquanto admiravam a recepcionista.
— Já gostei deste lugar – Fernando disse assim que a moça os cumprimentou, fazendo-a abrir um leve sorriso desconcertado com o comentário.
— Olá, senhorita – continuou o garoto educadamente – gostaríamos de uma diária no seu spa.
— Desculpe, mas estamos lotados hoje – respondeu graciosamente a recepcionista.
— Huh? Sério? Mas parece tão vazio aqui!
— Todos os programas já estão preenchidos, não temos nenhuma programação sobrando... A não ser por uma – enquanto ela falava, verificava algo na tela do computador, deixando livre para os garotos apreciarem seu decote.
— E qual é? – perguntou Elvis.
— Mas é um programa apenas para casais – lamentou ela – Vocês não se encaixariam no perfil.
Houve uma pequena pausa, os dois não queriam perder a oportunidade de estar com Kyara o dia todo. Então Fernando improvisou:
— Como você sabe que não nos encaixamos no perfil? – disse ele baixo, olhando para o amigo. A moça ficou confusa e não sabia o que responder, ela apenas olhava para os dois com uma sobrancelha erguida.
— Somo um casal – disse Fernando, simplesmente.
Elvis que não havia entendido onde o amigo queria chegar, agora fez uma careta feia e deu um passo para longe do amigo, sem saber o que dizer.
— Vocês não são um casal – concluiu a moça, ainda em dúvida. – E mesmo que fossem, não é deste tipo de casal que estou falando...
— Quer dizer que não somos considerados um casal? Sabe que isso é preconceito, não sabe? – disse o garoto enquanto puxava Elvis pela cintura.
Um momento de estática se instalou no ar, a moça olhando os dois, Fernando apertando Elvis para o amigo não querer escapar. Por fim, a recepcionista se moveu, resmungou um “volto já” e saiu por uma porta lateral.
Neste momento, Elvis se desvencilhou do amigo brutalmente.
— Está louco?
— Shiiiiu! Fale baixo! – sussurou Fernando. Logo Os dois começaram uma acalorada discussão sussurrada.
— O que você está pensando? Que vergonha!!!
— Elvis, larga de frescura! A gente precisa entrar!
— O que ela vai pensar da gente?
— Que somos um casal, oras. Mas você tem que ser mais convincente!
— Desculpa, mas não sou experiente em fazer as pessoas pensarem que sou afeminado.
— Você não é afeminado. Só é gay.
— NÃO SOU GAY, FERNANDO!
— Xiiiiiu! Eu sei que você não é gay, porra! É só pra podermos entrar na programação!
— Foda-se a programação!
— Você não quer ver a Kyara? Ela está aí dentro, Elvis!
— Claro que quero... Mas...
— Mas nada. Nós temos que entrar! Senão vai ser um dia perdido, poxa.
Elvis fez uma carranca para o amigo, mas ainda não estava convencido. Então ouviu-se passos vindo da porta que a recepcionista entrara; ela estaria vindo com seu superior. Fernando olhou suplicante para o amigo e rapidamente sussurrou:
— Te deixo dirigir o jipe!
No mesmo instante, Elvis pulou na direção do amigo e o abraçou feliz da vida. A imagem que os a recepcionista e seu gerente viram foi a seguinte: Fernando tentando se equilibrar enquanto o amigo o abraçava pelo pescoço, ambos quase caindo, o braço de algum deles esbarrou numa pilha de folhetos causando certa bagunça num ambiente tão fino.
Elvis notou e presença deles e logo tratou de se endireitar, mas ainda com um braço no ombro do amigo. Os dois sorriam.
— Boa tarde, cavalheiros, – cumprimentou o gerente – Sou Jordan, em que posso ajudar?
— Gostaríamos de fazer a programação para casal do seu resort.
— Claro. Não tem problema algum. O programa não especifica o sexo do casal, Ana – disse ele à recepcionista – Sejam bem vindos, e desculpe-nos qualquer coisa – terminou ele, saindo em seguida.
— Ainda bem que vocês fingiram bem. Jordan não permitiria, caso suspeitasse – comentou ela enquanto digitava algo na máquina.
— Não estamos fingindo – retrucou Elvis.
— ESTAMOS, SIM! Sai pra lá – exclamou Nando, empurrando o companheiro.
Ana riu dos dois e então partiram para o cadastro para usufruir do spa.
— Eu ainda vou dirigir o jipe – observou Elvis.
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