Jogo Da Amizade
7 Joseense
Psiu. Foi o que Kyara ouviu quando passava por um corredor do resort. Ela não se deu o trabalho de olhar pra trás para ver quem seria o retardado da vez que mexia com ela, já que isso acontecia frequentemente.
— Hey! Uma manhã no spa e já ficou metida?
Foi quando reconheceu a voz: — NANDO! ELVIS! O que vocês estão fazendo aqui?
— Vim te ver – disse Elvis.
Eles se cumprimentaram com um “bate aqui” e seguiram corredor adiante.
— Como foi o luau? – perguntou ela, um tanto doída por não ter ido.
— Não me lembro de nada – disse Nando, e riu com a expressão da amiga – Puta ressaca.
— E eu comi a Paty! – declarou Elvis, inocentemente. Não foi de propósito, mas ele já estava tão acostumado a falar besteira até agora, que não mediu a gravidade da informação.
— FEZ O QUE? – alterou ela, parando a caminhada. Fernando colocou a mão na testa olhando pro amigo. Como ninguém falou nada, Kyara seguiu:
— Que Paty? Isso é verdade, Fernando? – ninguém disse nada ainda, então ela começou a estapear Elvis, enquanto ria e esbravejava ao mesmo tempo – Seu filho da mãe, como você pôde? – a cada palavra que ela proferia, Elvis ganhava um tapa – Você... Tirou... A virtude... Da minha... Prima!!! Seu... Cachorro... Sem vergonha... Maníaco! E ainda tem coragem de falar “eu comi a Paty” – outro tapa – Elvis!
Fernando se sentou de tanto rir, Elvis resmungava e reclamava por baixo da soberania feminina da amiga.
— Desculpa, desculpa, não foi minha intenção... Ai, para de me bater... Ai!
— Fernando! Como você deixou isso acontecer? Vocês foram pra que motel?
— Que motel? Fizeram na casa dela mesmo – Fernando se divertia.
— ELVIS!
— Fernando também dormiu lá!
— Eu já disse que não me lembro de nada!
— Vocês... Oh my god! Vocês não têm juízo? E se a mãe ou o pai dela aparecesse por lá?
Os dois se entreolharam em silêncio, mas foi Elvis quem resolveu falar.
— Ela apareceu de manhã.
Kyara se divertiu com eles contando o incidente. Era difícil pra ela imaginar a tia fazendo o barraco que os meninos contaram. Claro que algumas coisas foram incrementadas pela imaginação de cada um. De acordo com o que eles contaram, Fernando pulou de uma altura de cinco metros, Elvis passou uma rasteira no porteiro e o jipe praticamente levou o portão junto. O detalhe de que os três dormiram na mesma cama foi ocultado. Nando não queria que a amiga pensasse que a própria prima era uma ‘piriguete’, e Elvis ainda cobraria pelo silêncio.
— Foi praticamente uma cena de Missão Impossível 3! – concluiu Fernando.
— Que medo de vocês. E que medo da minha tia por vocês.
O papo fez o garoto se lembrar do tênis.
— Kyara!!!!!! Faz um favor pra mim?!?!? – pediu ele com cara de cachorro sem dono. O cabelo claro ainda todo despenteado desde a correria de manhã.
— Aaah, vocês se meteram nessa, te vira, neguin! Ninguém mandou ficar bêbado.
Os três chegaram na piscina de hidromassagem. Era um local coberto, e todas as paredes eram de vidro, dando vista ao vasto campo a fora. Havia algumas pessoas ali, todas em silêncio aproveitando a massagem na água.
— Vocês têm algo no programa de vocês pra agora? – perguntou Kyara.
— Não – respondeu Elvis, conferindo o panfleto – só um tal de Yoga... E depois Ofurô.
— Jura? Vocês vão fazer yôga? Vamos fazer no mesmo horário então.
— O que? Yôga? Pra que isso? Não quero fazer yôga!
— Fernando! Você vai, sim! E não adianta discutir – e assim Kyara deu o veredito, sem ao menos permitir um contra-argumento. Isso geralmente acontece quando se é a única garota da turma; é um dom natural de poder sobre os meninos.
Após um relaxamento na imensa piscina, os dois garotos foram para a parte do prédio onde indicava no panfleto. Kyara iria procurar sua mãe e se dirigiria para o mesmo local.
— Hora da yolga – disse Fernando, com tom de desgosto.
— É Yôga, não yolga – corrigiu Elvis.
— Olá, meninos – uma voz aconchegantemente animadora os alcançou, era a mãe de Kyara, Vilma – Não sabia que vocês curtiam yôga.
Dona Vilma era uma senhora alegre, que nunca gostou muito de tecnologia, para ela, as coisas mais demoradas são as mais apreciadas, isso fazia dela uma mulher que sabia dar valor ao que realmente importava. Seus cabelos escuros até os ombros a deixavam mais jovem e elegante.
— Pois é, dona Vilma, adoramos yôga, a senhora não faz ideia – respondeu Fernando com o sorriso mais falso que conseguiu fazer, enquanto olhava para Kyara, logo atrás da mãe; ela apenas ergueu uma sobrancelha em resposta.
Mais três pessoas se posicionaram na sala, sentadas no carpete colorido. A sala tinha alguns detalhes indianos e era muito bem iluminada, com imensos espelhos em duas das paredes. Dona Vilma se sentou na fileira da frente, ao lado de outras duas pessoas. Kyara se sentou logo atrás dela, Fernando à sua direita e Elvis à sua esquerda.
— Quero só ver o quão chato é yôga – resmungou o garoto. Kyara olhou para ele:
— Você tem que estar aberto à coisas novas, Nandinho. Vai ver como é bom pra relaxar.
Então uma porta se abriu e uma mulher de meia idade entrou. Estava vestindo uma camiseta larga e uma calça que parecia de capoeira, tudo branco. Seus cabelos loiros despenteados encaracolados se erguiam sobre sua cabeça e caiam sobre seus ombros disformemente.
— Ela saiu do hospício? – resmungou Elvis. Kyara fez um “Shiu” e Fernando engoliu a risada.
— Bom dia a todos – disse vagarosamente a mulher, fazendo um tipo de reverência com as mãos.
— Bom dia? – questionou Fernando, e Kyara fez outro “shiu”.
— Sou a madame Josina, e espero poder contribuir para que vocês esqueçam um pouco a loucura que está lá fora – disse ela calmamente, sem fazer qualquer expressão no rosto.
Elvis sentiu um arrepio na espinha e se tremeu todo.
— Vamos começar com as técnicas ‘pranayamas’ e ‘asanas’. Façam a posição ‘sukázana’.
Fernando e Elvis se entreolharam, Kyara vendo a careta dos dois, tratou de ajudar.
— Cruzem as pernas – disse baixinho.
— Se vocês começarem a falar na minha aula – disse amargamente madame Josina – Ninguém vai sair daqui com o espírito da lavagem!
Os garotos seguraram a risada olhando pra baixo enquanto cruzavam as pernas.
— Quero esse espírito, não – brincou Fernando quase que inaudível.
— Coluuuuuna ereta, ooooombros relaxados, olhos fechados, e vamos iniciar com o ‘own’. Ôoooooooooooooownn...
Em seguida todos começaram com o “ooooown” de olhos fechados. Elvis abriu um dos olhos e se inclinou um pouco para frente para enxergar o amigo, mas foi repreendido rapidamente:
— COLUNAS ERETAS, NÃO INCLINADAS!
E ao som do ‘own’ Elvis voltou para o lugar instantaneamente.
— Faremos o ‘own’ por mais trinta e sete minutos para equilibrar nossos chacras.
Neste momento, por acaso, Elvis e Fernando se levantaram abruptamente, quebrando a concentração de Kyara.
— O que? Nem fodendo que vou ficar quarenta minutos fazendo ‘own own”!
Madame Josina se levantou e estendeu um dos braços:
— PAREM! Vocês não podem sair agora ou o chacra de vocês entrará em colapso matinal!
— Nem sei o que é chacra, moça – disse Fernando saindo da sala. Elvis o seguiu fazendo o sinal da cruz repetidas vezes. Kyara saiu em seguida pedindo desculpas.
Ela encontrou os dois sentados em um dos bancos de madeira do campo e se sentou entre eles.
— Desculpa? – ponderou Elvis.
— Fala sério, aquilo foi hilário – sorriu Kyara para os dois – Vocês são do interior mesmo, hein, e não negam a raça – brincou ela.
— Não venha com essa, garota de Bevelly Hills.
— Agora nosso chacra está desequilibrado – atentou Fernando, e ambos deram um tapa em sua nuca.
— Ansiosa para o casamento? – perguntou Elvis.
Esta foi a deixa para a garota extravazar toda a ansiedade. Ela esticou os braços, se encostou no banco e deitou a cabeça no encosto, olhando para o céu:
— Muuuuuito ansiosa, vocês não têm ideia. Mesmo eu já morando com o David, quando a gente casa, fica diferente. E só de pensar em desfilar de noiva na frente de todo mundo...
— Relaxa, vai dar tudo errado – sorriu Fernando.
— Obrigada pela sinceridade – disse ela, ficando em um silêncio amistoso, apenas os três vendo a paisagem.
— Hey – começou Kyara – Eu estava pensando... Quem nasce em São José dos Campos é o que?
Diante da pergunta que ficou no ar, os dois começaram a rir do amigo em alto e bom som.
— São-José-dos-Campista? – chutou Fernando, e mais risadas vieram à tona.
— É joseense, seus pilantras – declarou Elvis.
Demorou um tempinho até a algazarra terminar e a paz do campo os atingir de novo. Cada um com os pensamentos em um lugar diferente, mas em algum ponto, ambos se encontravam sem nem mesmo saberem disso; a gratidão por poder estar um com o outro neste exato momento, compartilhando o mesmo ar, e não a mesma janelinha da internet.
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