JisaBaka - O Homem Suicida e a Eterna Idiota
4 Capítulo 3 - Dia de Liberdade
Notas iniciais
– Parte Três -
— Volte sempre! — eu escutei a voz da garçonete se despedir animadamente de nós enquanto saíamos pela porta. Naturalmente, eu não respondi.
— E agora, o que vamos fazer? — a pequena garotinha ao meu lado indagou. Eu a olhei, totalmente entediado.
— Vou pra casa... — eu falei e me virei comecei a caminhar. O sol de pouco após o meio-dia, no entanto, pareceu gritar para que eu ficasse lá dentro.
— Eh! Que chato!
— Se você não gosta apenas pare de me seguir. — eu decidi que seria ainda mais chato apenas ficar ouvindo ela reclamar, então encarei o sol e continuei a tomar o caminho para casa.
— Eu soube que abriram uma nova loja de bolos aqui perto! Vamos lá ver! — a garotinha me puxou pela camisa e apontou, é claro, na direção oposta a qual eu estava indo.
— Ei, quem você pensa que eu sou? Seu irmão mais velho? — eu dei um passo largo para trás e fiz com que ela largasse a minha camisa. — Apenas me deixe em paz...
— Irmãozão, vamos! — aqueles olhos brilhantes eram uma tentativa clara de seduzir meus instintos de querer uma irmã mais nova. Mas aquela era uma tática que não funcionaria comigo.
— Eu não sou seu irmão! — eu falei um pouco alto, fazendo com que pessoas que passavam na rua me olhassem novamente. Mais uma vez, eu me encolhi. Mas isso me leva a pensar... — Ei, onde estão seus pais?
— Meus pais? Hum... — ela levou um dedo até a boca e olhou para o céu, pensando na pergunta. — Não sei!
Eu fiquei olhando para ela com uma feição abobada. Ela está realmente tirando com a minha cara, não é?
— Vou ligar para a polícia. — eu tirei o celular do bolso e o abri, colocando na tela de discagem. Antes que eu pudesse apertar alguma coisa, no entanto, a garota praticamente saltou em cima de mim pra me impedir.
— Aah, não faça isso!
— Por que não? — eu me livrei mais uma vez do contato com a garota, dando mais três passos para trás.
— É que eu nunca tenho a chance de ficar sozinha e fazer as coisas que gosto... Então apenas hoje, eu queria poder sair por aí e brincar...
— Ah, é esse o caso?
— Sim! — ela concordou, com uma expressão determinada no rosto.
— Vou ligar pra polícia. — eu disquei rapidamente os números e levei o celular até o ouvido.
— Ah, não! — ela pulou e agarrou meu braço, tomando meu celular antes que eu pudesse fazer qualquer coisa.
— Você é mesmo problemática, não é? — eu olhei para ela com desdém no olhar.
— Você não está pensando nisso direito! — ela deu uma piscadela com o olho esquerdo, como se quisesse dizer algo que eu não fazia ideia do que fosse.
— No que?
— Veja, meus pais têm bastante dinheiro, e são muito superprotetores também! Tenho certeza que se eu sumisse por, não sei, um ou dois dias, eles colocariam uma recompensa para quem me achasse! — ela falou, me dando cotoveladas na cintura a cada palavra que concluía.
— Você está falando sério? — eu estreitei os olhos, incrédulo.
— Sim! E você parece bem pobre, com certeza poderia usar o dinheiro para alguma coisa!
Essa doeu...
Eu suspirei, me dando por vencido.
— Certamente não posso discordar, mas não sabia que isso era assim tão aparente.
— Bom, quando você quase chora quando vai pagar a conta no restaurante, a coisa fica um pouco evidente!
— Cale a boca... — eu a cortei, desviando o olhar em seguida.
— Então, o que você acha? — ela aproximou seu rosto de mim e o inclinou levemente para a esquerda, buscando uma resposta. Eu cocei a cabeça. Eu certamente preciso do dinheiro, mas andar por aí com essa garota é problemático... Será que vale mesmo a pena?
Eu troquei o peso de uma perna para a outra e só então me dei conta de que o bolso estava bem mais leve. É verdade, eu tive que pagar o dobro pela minha refeição de hoje... Não posso me dar ao luxo de ser um desempregado que recusa até mesmo uma oferta de dinheiro fácil.
Eu olhei para a garota, que ainda tinha aquele sorriso infantil estampado na cara.
— Bom... Acho que não tenho escolha. — o sorriso dela se iluminou, como se eu tivesse a dado um presente de natal ou algo assim.
— Vamos! A loja fica por aqui! — ela saiu correndo na direção que havia apontado mais cedo.
— Ei, espere! — eu estiquei a mão, inutilmente tentando alcança-la. É claro que não me daria ao trabalho de correr atrás dela, então apenas caminhei a meu próprio passo naquela direção.
. . .
Eu fitei a vitrine, incrédulo do que estava vendo.
— 1200 yen por um pedaço de bolo!? — eu colei o rosto contra a vitrine para checar se realmente era aquilo que eu estava vendo. Não havia erro. — Vamos a outro lugar. — eu dei meia volta e comecei a caminhar numa direção diferente.
— Eh!? Mas eu quero bolo! — ela correu até mim e me agarrou pela manga da camisa, me puxando na direção da loja. — Bolo, bolo!
— Eu já disse que não. — eu continuei caminhando, ignorando os puxões da garota, que foi arrastada pelo chão enquanto gritava em protesto.
E então, acabamos passando o dia por ali. O sol não estava dando trégua, então decidimos pegar um sorvete. Depois disso, a idiota me arrastou para uma sessão de um pequeno cinema onde estava passando um filme sobre robôs gigantes enfrentando monstros vindos do espaço. Não que o enredo fosse mal feito, mas esse não é exatamente o tipo de coisa na qual eu estou interessado. Prefiro histórias clássicas e medievais do que a subjetividade de um futuro alternativo. O ar-condicionado, porém, foi muito bem-vindo.
Depois que saímos do cinema e voltamos para o inferno do mundo real, ela acabou me arrastando para um fliperama que havia ali na frente. Eu gosto de jogos, é claro, então você imaginaria que esse é o tipo de lugar que eu gostaria de estar...
Mas...
Jogar é algo sagrado! Não é algo que deve ser feito na presença de outras pessoas que podem te olhar e copiar seu estilo de jogo... Droga, por que tínhamos que vir aqui?
E ainda, por cima de tudo isso, eu sinto que desde que conheci essa garota o dinheiro no meu bolso fica cada vez mais e mais curto... Logo ele vai acabar e eu vou ter que... Trabalhar.
Mesmo a mera imaginação dessa palavra me faz ter calafrios.
— Suicida-san, rápido! — a garota acenou para mim e entrou depressa no estabelecimento.
— Você com certeza é cheia de energia, não é... — eu a segui a passos lentos, entrando lá sem muito ânimo.
A garota estava com um brilho incomum nos olhos, como se nunca estivesse estado num lugar como aquele antes. Ela praticamente saltava de máquina em máquina, querendo saber do que cada uma se tratava.
— Ei, ei, Suicida-san! Esse aqui é pra dois jogadores! — ela deu duas batidinhas num jogo do tipo arcade que se encontrava num dos cantos do lugar.
— Você realmente não sabe o que isso quer dizer, não é? — eu me aproximei e examinei o jogo. Certamente já joguei ele em algum momento remoto da minha vida, embora eu não consiga me lembrar exatamente quando. — Você precisa de fichas pra jogar isso, espere aqui. — eu me virei e fui na direção do balcão comprar algumas fichas.
Quando eu inseri as duas fichas que comprei para liberar o modo de dois jogadores da máquina, algumas pessoas olharam esquisito para mim. Um fato que já havia acontecido algumas vezes no dia de hoje.
Me pergunto se eles realmente tem a ideia errada do que está acontecendo aqui...
— Ah, começou! — a garota apontou para a tela e começou a mover a nave espacial dela aleatoriamente. Na verdade, ela era tão ruim que eu tinha que arriscar minha própria pele para salva-la em diversas situações.
— Ei, pare de se atirar assim! — eu falei, mas a garota não me deu ouvidos. Apenas continuou colocando a nave dela muito na frente e me dando trabalho para salva-la.
O resultado não poderia ser outro. Nós morremos na primeira fase.
Eu a arrastei para fora do fliperama, completamente encabulado. Eu, um HikiNEET declarado, perder na primeira fase de um jogo como esse? Droga, que humilhação...
A garota berrou e protestou, mas acabamos saindo da loja em poucos passos.
— Você é chato! — ela bufou as bochechas de raiva e olhou para mim com cara de má.
— Sim, sim... — eu não dei muita importância e apenas continuei caminhando debaixo do maldito sol.
Ela continuou me arrastando para todos os lugares que achou que poderiam ser divertidos. Em certo ponto eu tive que parar para respirar num dos bancos da praça, e ela usou dois panfletos que recebemos na rua para me abanar.
Não que tenha realmente adiantado alguma coisa...
No fim das contas, eu nem sei por que eu estou saindo com ela... Não sou idiota o bastante pra realmente esperar receber um resgate por isso ou mesmo alguma recompensa.
Provavelmente é por causa dele.
Eu nem sempre fui esse cara negativo e que odeia tudo ao seu redor.
Naquela época, nós estávamos sempre juntos.
– Parte Três —
– Dia de Liberdade.-
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