Jiban End
16 Reencontro com a Megera

Seichi e Yoko partiram apressadamente para o Hospital Central de Tóquio, mas o trânsito parecia que não cooperaria com a pressa deles. Mesmo ligando as sirenes e pedindo passagem por entre os demais veículos, chegar até lá não foi uma tarefa fácil.
Quando finalmente chegaram, foram correndo até a recepção para verificar se havia mesmo algum Ryu Hayakawa internado lá e logo confirmaram que Junko não havia mentido.
Seguiram para o quarto indicado por uma das recepcionistas e assim que entraram no corredor, avistaram a policial do trânsito à distância, porém, ela não estava fazendo exatamente o que havia dito que faria. De onde se encontrava, a dupla de policiais teve a ligeira impressão de que Junko não estava tão alerta quanto deveria estar e cochilava na cadeira ao lado da porta do quarto do paciente. Eles então se aproximaram em silêncio e confirmaram que não estavam enganados sobre suas primeiras impressões.
- Por que será que eu não estou surpreso com esta cena? – se perguntou Seichi, suspirando e passando a mão pelo rosto cansado, enquanto Yoko achava graça do que via.
- Ah, dá um desconto pra ela, Seichi. A coitada ficou o dia todo plantada aqui esperando pela gente. Deve estar cansada. – tentou amenizar Yoko.
- Oficial Junko Takayama, sentido! — ordenou Seichi em tom de voz elevado, fazendo com que a moça despertasse num pulo, já prestando continência.
- Oficial Junko Takayama se apresentando, senhor! – respondeu ela no mesmo instante, automaticamente, já completamente desperta, como se nada tivesse acontecido. Sua reação à ordem foi tão instintiva, que num primeiro momento, ela nem se deu conta direito de para quem estava se apresentando. Somente alguns segundos depois foi que percebeu de quem se tratava e voltou ao seu estado normal.
- Chefe Yoko! Chefe Seichi! Pensei que não tinham recebido o recado. – disse a moça, já desfazendo a posição de sentido.
- Desculpe a demora. – respondeu Yoko. – Mas é que hoje tivemos alguns imprevistos e acabamos ficando fora quase o dia todo.
- Eu estou vendo. Parece mesmo que o dia de vocês não foi dos mais fáceis. – comentou a policial ao ver o estado dos colegas recém-chegados. – Por acaso vocês se meteram em alguma briga, foi?
- Foi, mas isso é porque você não viu como nós deixamos os outros caras. – disse Seichi, tentando amenizar a situação da qual eles poderiam nem ter saído vivos, se não fosse pela intervenção de Jiban. – Mas me diz, o tal do Ryu Hayakawa está aí dentro?
- Sim, senhor.
- Então vamos entrar de uma vez pra ver se é ele mesmo. – disse o policial, já abrindo a porta e entrando no quarto. As duas moças o seguiram e o que eles encontraram lá, foi um rapaz em péssimas condições. Ele estava inconsciente no leito, sendo monitorado por diversos aparelhos e tinha a cabeça envolta em bandagens. Uma das pernas estava engessada e a outra exibia vários pinos externos. Não era uma visão animadora.
- É ele mesmo. – confirmou Yoko, que já tinha tido a oportunidade de vê-lo algumas vezes pessoalmente, mesmo que por pouco tempo. – Por acaso você sabe se tinha uma menina com ele, Junko?
- Parece que não, chefe. Não houve testemunhas e os curiosos só apareceram depois do acontecido. Os socorristas disseram que não tinha mais ninguém no carro, mas é estranho… — deteve-se a policial do trânsito, porque sabia que o que desejava dizer não passava de conjecturas, sem prova alguma.
- O que é estranho? – insistiu a detetive.
- É que pra mim, não parece ter sido um acidente...
- Como assim?
- É que parece que ele fez de propósito. Qualquer pessoa que estivesse prestes a sofrer um acidente, tentaria evitar de alguma forma. Pisaria no freio, tentaria desviar, não sei… Mas não havia nenhum indício de que ele tivesse tentado parar, não tinham marcas de pneus na rua e o carro bateu completamente de frente com o muro, numa rua residencial bem tranquila. Ele teve que virar praticamente 90º para fazer isso e não desacelerou, como se tivesse mirando em alguma coisa… ou em alguém. As análises iniciais dos peritos é de que não foi falha mecânica. Existe a possibilidade de que ele tenha tido um mal súbito e desmaiado ao volante, mas não sei se acredito muito nisso...
- É mesmo estranho… — concordou Seichi.
- E ainda tem mais. – continuou a agente do trânsito, já mais confiante e se animando para contar as teorias que tinha passado o dia inteiro ruminando, enquanto esperava por eles. – Mesmo que não tenha aparecido mais nenhuma outra vítima do acidente, os peritos encontraram sangue no chão, no capô do carro e no puxador da porta do lado do motorista. Alguém mais se feriu, com certeza, e parece que tentou abrir a porta do carro pelo lado de fora, mas não conseguiu, porque ela estava emperrada. Até os bombeiros tiveram dificuldade. E isso não é tudo. O mais estranho, foi que os testes feitos nas amostras de sangue deram resultado inconclusivo. Fiquei sabendo que os peritos estão perdidinhos tentando descobrir de que criatura veio aquele sangue. Não é de humano nem de animal. A única coisa que descobriram é que são amostras de duas “criaturas” distintas. Bizarro, né?
- Talvez nem tanto assim. Isso pode até fazer sentido. – revelou Yoko, pensativa. – O sangue pode ter vindo de alguma criatura de Biolon.
- Biolon? – perguntou Junko, confusa.
- Sim. Não se lembra deles? Daquele mostro que te atacou daquela vez?
- Ah, sim! Só de me lembrar daquela coisa pavorosa já me dá arrepios. Se não fosse por vocês e pelo Jiban, nem sei se eu estaria aqui hoje.
- Eles estavam atrás da Ayumi e como ela estava com o Hayakawa, esse acidente pode mesmo não ter sido um mero acidente, e sim fruto do encontro deles. – deduziu Yoko. – Ele pode ter usado o carro como arma para se defender. Mas agora, minha preocupação é com a Ayumi. Será que ela também estava no carro e acabou sendo levada pelos inimigos? Será que está bem? Será que está ferida? Ou será que nem estava lá? Ah, são tantas perguntas! Não havia nenhuma câmera de segurança por perto?
- Infelizmente não. Mas temos algumas câmeras de trânsito pela região… elas podem ter captado alguma coisa.
- É isso mesmo, Junko! – animou-se Yoko. – Será que você pode ajudar a gente com isso? Consegue nos ajudar a ver as imagens das câmeras do Departamento de Trânsito?
- Mas é pra já, chefe! – animou-se ainda mais Junko, em saber que poderia ajudar de verdade com alguma coisa. – Podemos ir para lá agora mesmo.
- Então vamos! – decidiu-se a investigadora.
- Espera um pouco aí, Yoko. – deteve-a Seichi. – Essa é mesmo uma boa ideia, mas quem vai com a mege… quer dizer, quem vai com a Junko, sou eu. Você fica aqui e fica de olho no Hayakawa. Também aproveita que estamos no hospital e pede para darem uma olhada nessa sua mão.
- Ele é um procurado da justiça. Será que vai tentar fugir? – perguntou Junko, curiosa.
- Criatura, olha o estado dele. – respondeu Seichi, com sua costumeira falta de paciência. – Como é que ele vai fugir? Não sabemos nem se ele vai acordar. Como existe a possibilidade de isso ter sido obra de Biolon, eles ainda podem tentar voltar para terminar o serviço. Eles não são muito fãs do Hayakawa…
- Ah, sim. Tem razão, chefe. – concordou Junko, envergonhada pela mancada.
Por mais que Yoko quisesse ver aquelas imagens pessoalmente, ela acatou as ordens do superior sem retrucar dessa vez. Ela ainda não havia se recuperado completamente da transfusão de sangue nem do ferimento; também não tinha certeza se conseguiria proteger Hayakawa, caso fosse realmente necessário, mas entendeu que, acima de tudo, Seichi tinha usado aquilo como desculpa para que ela descansasse um pouco.
- Está certo, Seichi. Eu vou ficar aqui de olho no Hayakawa, mas por favor, me dê notícias se descobrir alguma coisa.
- Pode deixar. Você também me avise se tiver alguma novidade.
- Combinado! – concordou a moça.
- Então vamos lá, Junko. Não podemos perder mais tempo!
- Vamos!
Aquela era a segunda vez, em menos de 24 horas, que Yoko se tornava a responsável por velar o sono de um homem ferido.
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