Jiban End

17 Muitas perguntas, algumas respostas


Já passava das onze da noite quando Seichi e Junko chegaram ao Centro de Monitoramento de Trânsito em busca de imagens que pudessem lhes dar alguma pista do que poderia ter acontecido durante aquela manhã com Ryu Hayakawa.

A tarefa, nada fácil, adentrou a madrugada e eles vasculharam aquelas imagens até seus olhos arderem e lacrimejarem, mas foi somente depois de um bom tempo garimpando, que finalmente conseguiram encontrar duas imagens que chamaram sua atenção.

A primeira delas mostrava o carro de Ryu Hayakawa seguindo por uma das ruas próximas ao local do acidente, um pouco antes do horário estimado da colisão. Na gravação era possível ver nitidamente que o rapaz era a única pessoa dentro do veículo naquele momento. Ayumi com certeza não estava com ele.

A outra imagem, também bastante interessante, poderia ser justamente a confirmação da hipótese de Yoko, de que Biolon talvez tivesse algo a ver com tudo aquilo. Nas imagens captadas por outra câmera, dessa vez, um pouco depois do horário estimado do ocorrido, Seichi viu duas mulheres de cabelos longos, trajadas com os mesmos vestidos brancos, que pareciam exibir algumas manchas vermelhas. Possivelmente sangue. Uma delas aparentava estar com a perna ferida e mancava, enquanto se apoiava na outra para conseguir caminhar. Por mais que a gravação não mostrasse nitidamente seus rostos, Seichi reconheceu as mulheres com quem já havia cruzado tantas vezes. Eram Marshall e Cannon, ele não tinha dúvidas, até mesmo porque, ele nunca se esquecia de belas mulheres, ainda mais daquelas das quais ele já havia apanhado.

Os policiais estavam exaustos, principalmente Seichi, mas continuaram procurando por mais pistas. Foi somente por voltas das três e meia da madrugada que decidiram encerrar os trabalhos, mesmo não estando completamente satisfeitos com os resultados obtidos.

Não conseguiram comprovar se havia sido um acidente ou não, mas confirmaram que Ayumi não estava com Hayakawa e também conseguiram colocar as duas suspeitas próximas ao local do acidente e isso já era algo a ser considerado.

Apesar de não terem nenhuma notícia concreta de Ayumi, saber que ela não estava junto das inimigas de Biolon era um grande alívio. Mas se ela não estava com Hayakawa nem com Biolon, onde a menina teria se metido? Essa era a dúvida que ainda pairava na cabeça dos policiais.

Tudo teria sido esclarecido se Seichi tivesse tido apenas um pouquinho de sorte, mas o destino não quis lhe sorrir naquele momento, pois Ayumi havia aparecido em uma das imagens, porém ele não foi capaz de reconhecê-la. Como a menina estava tentando se esconder dos inimigos, ela havia erguido o capuz da jaqueta sobre a cabeça e quando apareceu rapidamente na tela, acabou ficando invisível para a polícia também e passou desapercebida por eles.

Antes de ir embora do Centro de Monitoramento do Trânsito, Seichi entrou em contato com Yoko no hospital, como havia prometido, e contou a ela o que tinham conseguido descobrir. Confirmar que Ayumi não estava com o inimigo, deixou a moça um pouco mais tranquila, mas ela não conseguia parar de pensar que agora a menina, provavelmente, estava novamente sozinha pelas ruas e eles precisavam encontrá-la o quanto antes, mas ela também estava preocupada com Hayakawa.

Durante o tempo que passou no hospital, Yoko aproveitou para conversar com os médicos a respeito do estado do paciente, mas as notícias não eram muito animadoras. Além de ter fraturado as duas pernas em graus diferentes, ele também havia sofrido uma concussão cerebral devido a forte pancada na cabeça e levaria algum tempo para se recuperar. E mesmo depois de desperto, ainda havia uma grande chance de ele não conseguir se lembrar dos últimos acontecimentos.

Receber essa notícia dos médicos só confirmou que eles não poderiam perder tempo esperando que o rapaz recobrasse os sentidos para conseguir mais informações. Uma criança estava em perigo e eles precisavam se esforçar e seguir em frente com as investigações.

*****

Sem fazer ideia de que os parceiros continuavam trabalhando arduamente madrugada adentro, Naoto sentia-se impaciente na base secreta de Jiban. Apesar de ter sofrido um ferimento grave e passado por uma cirurgia delicada há pouquíssimo tempo, ele não via a hora de voltar para o trabalho. Para os dois trabalhos.

Apesar de estar sonolento por causa da forte medicação ministrada por Halley, ele não conseguia dormir, pois muitas preocupações passavam por sua cabeça naquele momento. Isso, porque ele sequer sabia do que havia acontecido com Hayakawa. Os colegas acharam melhor mantê-lo na ignorância temporariamente, uma vez que revelar sobre o acidente e hospitalização do rapaz de nada adiantaria, já que eles não tinham nenhuma notícia concreta de Ayumi. Saber disso poderia até piorar seu estado, pois ele certamente iria querer vê-lo.

Se suas condições permitissem, ele certamente estaria andando de um lado para o outro dentro daquela enfermaria, mas como isso ainda não era possível, ele permanecia deitado na cama, sem muito o que fazer, além de olhar para o teto e esperar o tempo passar.

Yoko e Seichi já haviam partido há algum tempo e Yanagida imaginou que Naoto estivesse dormindo, mas ao passar em frente à enfermaria, viu que o rapaz permanecia acordado, com uma expressão preocupada em seu rosto. Era compreensível. Muitas coisas inesperadas haviam acontecido durante aquele dia e, devido as circunstâncias, eles ainda não tinham tido a oportunidade de falar sobre elas. Talvez aquele fosse um bom momento para isso, pensou Yanagida, e resolveu tomar a iniciativa.

- Como está, Naoto? – perguntou o homem, enquanto entrava na enfermaria.

- Ainda dói um pouco, mas estou melhor. Obrigado. – respondeu o rapaz, deixando de lado a monótona observação do teto por um tempo e se sentando na cama com alguma dificuldade. Dessa vez, seu semblante pareceu, aos olhos de Yanagida, um pouco triste e envergonhado.

- Está tudo bem mesmo? – insistiu na pergunta, por não sentir muita sinceridade na resposta do rapaz.

- Eu… eu sinto muito, Sr. Yanagida. – disse o policial, finalmente soltando o que estava preso em sua garganta.

- Mas sente muito pelo quê? – indagou o homem, confuso.

- Por tudo o que aconteceu hoje. Por um descuido meu, quase acabei perdendo a vida que o Dr. Igarashi se sacrificou para me devolver e além de tudo, acabei revelando o que não deveria para a Yoko e o Seichi e posso ter colocado os dois em perigo também.

- Ah, então é por isso que você está com essa cara? – perguntou Yanagida, achando graça da situação. – Não seja bobo, meu rapaz. Não se preocupe com eles. Os dois vão ficar bem. Nós queríamos evitar ao máximo que a verdade viesse à tona, mas sabíamos que uma hora ou outra isso poderia acontecer. Acho até que você conseguiu manter o segredo por tempo demais trabalhando ao lado deles todos os dias. Se fosse eu no seu lugar, eles, provavelmente, teriam descoberto a verdade em menos de uma semana, mas tudo o que aconteceu hoje teve seu propósito. Se você não tivesse ido até lá, seus companheiros talvez não tivessem sobrevivido à emboscada, e se você não tivesse revelado a verdade a eles, talvez fosse você quem não estivesse mais conosco agora. Acho que foi uma troca justa.

- Sim… dessa vez, foram eles quem me salvaram. Eu devo muito aos dois. – admitiu Naoto, com um leve sorriso. – Eu pensei que estivesse mantendo bem o meu segredo, mas parece que a Yoko já desconfiava de tudo há muito tempo.

- Nunca subestime a perspicácia de uma mulher. Quando achamos que estamos enganando elas, na verdade, quem está sendo enganado por elas, somos nós. – disse Yanagida, com uma gargalhada.

Naoto achou graça do comentário, porque ele tinha toda razão.

- A Yoko é mesmo uma detetive extraordinária. Uma mulher extraordinária...

- Sim, ela me pareceu ser mesmo. E também estava muito preocupada com você. Mas fique tranquilo, porque eu tenho certeza de que aqueles dois vão saber lidar com o que descobriram de hoje.

- Sim, eu sei que vão, mas... também tem a Ayumi, Eu não consigo deixar de me preocupar com ela. Já faz tanto tempo que não temos notícias…

- Bom, pelo menos sabemos que ela não está sozinha por aí. Não sabemos exatamente quais são as intenções do Hayakawa, mas ela parece estar segura ao seu lado. Eu também andei investigando aquela história do atentado à bomba no Museu de Hokkaido do qual ele é suspeito, mas ao que parece, aquilo pode ter sido obra de Biolon.

- Verdade?

- Sim. Pelo que eu soube, o Hayakawa era um estudante de artes e realmente estava no museu no dia do atentado, como era de seu costume. E existe uma grande chance de que ele tenha tentado evitar o atentado, mas como não conseguiu, acabou sendo confundido pela polícia com um dos criminosos. Sem que ele se desse conta, sua vida já tinha sido transformada pela intervenção de Biolon.

- Então, na verdade, ele não passa de mais uma vítima nessa guerra que travamos.

- Exatamente.

- Mas não é só a segurança da Ayumi que ainda me preocupa…

- E o que é?

- Eu não sei explicar, Sr. Yanagida, mas todas as vezes que a reencontrei depois do dia em que ela saltou daquela cachoeira, ela me pareceu estranha.

- Estranha como?

- Desde aquele dia, ela está distante, parece até ter medo de mim. Sempre se afasta quando eu tento chegar perto. Eu não faço ideia do que eu possa ter feito para causar essa reação nela. Ela não deixa que eu me aproxime, nem como Naoto, nem como Jiban.

- Isso é mesmo estranho, mas ela passou por muitas coisas nesses últimos meses, isso pode ser algum tipo de estresse pós-traumático.

- Pode ser, mas, mesmo assim, isso me preocupa e eu não vejo a hora de sair daqui e encontrá-la.

- Eu sei, mas por enquanto, o que você precisa fazer é repousar. Sair daqui assim, sem estar devidamente recuperado, só vai fazer de você um alvo mais fácil de ser abatido. Não pense nisso por enquanto e concentre-se só na sua recuperação. Hoje você teve um dia e tanto, então acho melhor você ir descansar.

- O senhor tem razão.

- Então, deite-se e durma. Amanhã conversamos novamente. Boa noite.

- Boa noite.

Aquela rápida conversa com Yanagida deixou Naoto um pouco mais tranquilo e ele finalmente conseguiu fechar os olhos e adormeceu pouco tempo depois.

Yanagida apagou as luzes da enfermaria e se retirou, mas as palavras do jovem policial o deixaram pensativo. “Será mesmo que há algo de errado com Ayumi? Será que Biolon a está controlando remotamente de alguma forma desconhecida?” – indagou-se. Ele não sabia, mas valia a pena investigar um pouco mais a fundo.