A mãe a segurava ainda com um sorriso nervoso no rosto. O pai tentava acalmar o irmão de quatro anos. Os tios e tias rodeavam a sala. A criança dormia pacientemente nos braços da mãe. Alheia a qualquer problema ou confusão. Tão serena que transmitia certa paz para os pais.

Com exceção do irmão.

Iuri havia se transformado totalmente desde quando soube da chagada da irmã. Não exibiu nenhum sorriso e suas poucas palavras ditas foram para destratar alguém.

A mãe desfez o sorriso e se contentou em encarar o rosto da pequena criança nos braços.

— Jessica — ela falou para todos os presentes. — O nome da nossa pequena menina será Jessica.

Todos os presentes sorriram, menos Iuri. O pai saiu de perto do garoto e se dirigiu até a esposa. Tomou a filha nos braços e permitiu que os familiares a contemplassem. Depois a ergueu como se fosse um troféu e declarou:

— Jessica Oliveira!

A declaração e o coro de palmas que veio em seguida foram suficientes para Iuri sair da sala pisando forte e batendo a porta.

Ele jurou para si mesmo que não iria chorar. Não por Jessica. Ela não merecia suas lágrimas.

***

Agora era o irmão mais velho. Iuri não queria aceitar, mas era seu novo título.

Entrou furtivamente no quarto dos pais. Mal alcançava o berço, mas conseguia enxergar Jessica. Seu coração apertou quando viu a garota. Sentiu raiva por ela ser bonita, sentiu ódio por ter cabelos enrolados e loiros, por ser tão pequena, por ser tão branquinha. Sentiu ódio por ela existir e, principalmente, por não ter cabelos pretos e lisos como de toda a família. Por ser diferente. Por ser...

— Iu? — a mãe do menino o chamou com a voz sonolenta.

— Não queria acordar você — Iuri se desculpou friamente e saiu do quarto antes que a mãe insistisse em uma conversa.

Ele voltou para seu quarto e fechou os olhos. Sabia que não dormiria de imediato. Sabia que seria um péssimo irmão. E o pior: sabia que Jessica sofreria uma grande desilusão no futuro.

Ele, infelizmente, não poderia evitar.

Notas finais
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