Janela Para o Inconsciente
4 Capítulo 3 - E no dia seguinte, mamãe não voltou
Notas iniciais
20 de fevereiro de 2002
(♫ http://www.youtube.com/watch?v=9Nsrmur2j5o)
Lá estava eu, flutuando em uma boia cor de rosa, sob a água impecavelmente azul da piscina da casa da vovó, sentindo os raios de Sol penetrarem minha pele. Em volta de mim, mamãe em uma espreguiçadeira tomava sol com seus óculos redondos azuis e Paul dormia em outra espreguiçadeira, com seus fones de ouvido. O silêncio era quase sombrio, mas o céu azul e as nuvens aveludadas equilibravam meu bem estar quase perturbante. Eu não estava acostumada a me sentir tão bem e ver os que estão á minha volta tão felizes, uma vez que a morte insistia em bater na porta de tempos em tempos. Primeiro papai, depois a irmã de Paul o deixou tão abatido quanto mamãe andava ultimamente. O fato é que a morte muda as pessoas, a sensação de derrota, de que aquela pessoa nunca mais vai voltar. Você nunca mais poderá tocá-la ou sentir sua presença. O mais engraçado é que o corpo de quem se foi continua lá, apenas um amontoado de células e órgãos que um dia formou um indivíduo. O que isso nos leva a ser? Apenas indivíduos formados por amontoados de células e órgãos?
Meus olhos se fechavam, a boia se deslocava suavemente sobre e água assim como o sol no horizonte se punha. As nuvens perfeitamente brancas e fofas se iam, transformando o dia em noite lentamente. O clima era pesado, como quase todos os dias. Então eu dormi, assim não precisaria ficar pensando em nada, apenas me entregaria ao sono. Me lembro bem do meu sonho: era um dia ensolarado e eu estava em um parque. A grama era de um verde vivo e eu estava sonolenta, como sempre. Lembro-me de andar lentamente, com os olhos fixos no tapete verde embaixo dos meus pés. Quando tudo começou a se mexer, minha cabeça ficou confusa e eu desmaiei. Assim que acordei, um homem estendia a mão direita, a fim de me ajudar a levantar. Não vi quem era, só aceitei a ajuda e abri meus olhos melhor. Era meu pai. Então eu acordei. (♫)
– Amy, querida? – Gritava vovó, da beira da piscina. Ainda era dia, mas a lua já estava enfeitando o céu. Me levantei rapidamente, caindo da boia. Ouvi a risada de Paul, mas a água estava... Agradável. Nadei até a escada, saindo a piscina.
– A água está deliciosa, Paul. Quer entrar? – Ironizei.
– Muito engraçado, Amy. Agora vá tomar um banho e se apronte para o jantar. – Disse Paul, ainda rindo.
Bem humorada, porém ensopada, fui para o banheiro da suíte da vovó, mas estava ocupado, então resolvi tomar banho no de uso da casa. Estava trancado. Bati na porta mais uma vez, ninguém disse nada. Comecei a ficar preocupada; dei chutes, gritos e ninguém respondia.
– Que barulho é esse aqui? – Vovó dizia enquanto descia as escadas.
– Cadê minha mãe? Você sabe que ela não pode ficar sozinha! – Eu gritava. Mamãe se auto mutilava, por isso precisava ficar sob os cuidados de alguém sempre.
– Como assim? – Minha avó parecia não entender.
– Depois do acidente com o papai, ela começou a se cortar, ela não pode ficar sozinha! Me ajude a abrir isso ao invés de ficar aí parada!
– Querida, ninguém havia me dito. Achei que ela estava no quarto, mas quando a vi entrar aí ainda era dia. – Agora nós duas empurrávamos a porta... Como se fôssemos conseguir... Paul então apareceu, como havia ouvido nossa conversa, estava a par da situação. Ele deu um chute incrivelmente forte e a porta se abriu, nos revelando nosso pior pesadelo.
– Julia? Julia? Está me ouvindo? – Paul gritava, desesperado, fazendo respirações boca a boca, tentando reanimá-la. Vovó apenas olhava aquilo, espantada e desconsolada. E eu contemplava aquela cena, sabendo que daqui para frente minha vida nunca seria igual. Lá estava, um amontoado de células e órgãos que um dia formou minha mãe. Ela não estava mais lá, claramente as tentativas de Paul eram em vão. Ele parou e observou aquele rosto que um dia pertencera a uma das mulheres que eu mais admirava, colocou-se de joelhos e começou a chorar em cima do corpo.
Vovó abriu as gavetas, que estavam reviradas. Só então me dei conta de que o chão estava forrado de embalagens de remédio.
– Ela tomou meus remédios. Todos eles. – Lamentava vovó, encarando a gaveta. Ela claramente não queria acreditar naquilo. Nenhum de nós queria. (♫ http://www.youtube.com/watch?v=o1OsM80zfjs)
As lágrimas que escorriam no meu rosto eram poucas. Então dei passos lentos em direção a minha mãe. Estava lá, o retrato de uma mulher vulnerável, perturbada e com a cabeça cheia. Ela havia desistido de viver. Ela havia desistido de mim? De todos nós. Desistiu dela mesma. Paul já estava silenciosamente se debulhando em lágrimas. Não conseguia entender meus próprios pensamentos, havia uma guerra dentro de mim. Lá estava eu, flutuando em minha própria mente, sem conseguir entender o que eu fiz de errado para que isso acontecesse. Era ela, minha mãe. A mulher que me criou. A mulher que passou por tanto, a mulher que eu mais admirava. Ela não pode ter feito isso. Ela não... Ela já fez... Ela já desistiu de tudo, e aquilo que eu estava vendo? Era uma ilusão. Apenas um corpo para tentar me fazer acreditar que ainda havia vida. Apenas um amontoado de células, que não marca presença. Um amontoado do que era uma pessoa, mas não há mais pulso. Não há mais... Não há mais nada. Então todas as partes do meu mundo que ela compunha foram desmoronando, uma a uma. Não ouvirei mais sua voz, não sentirei mais seu toque, não terei seu olhar, tudo o que a fazia ser a pessoa mais importante para mim foi lentamente caindo sobre mim mesma, desmoronando. Meu mundo desmoronou. Ela desmoronou. Eu desmoronei. Minhas emoções se bagunçaram, então eu gritei. Como nunca havia gritado antes, tentando fazer com que o grito botasse pra fora tudo o que eu estava sentindo. Derrota, arrependimento, remorso, dor. Muita dor pra alguém tão jovem. Eu gritava desesperadamente. Gritava por ela, gritava pela... Mamãe. Mamãe, não faça isso comigo. Não me deixe sozinha nesse mundo injusto... Não me deixe quando eu mais preciso de você, não jogue fora o que era pra ser uma vida que estava apenas no começo. Mamãe, eu te amo. Sempre amarei, não importa onde você esteja. Não importam suas decisões. Nada importa, desde que você esteja comigo, mamãe. Não me deixe! Estou completamente sozinha, confusa. Preciso de você! Você faz meu mundo. Filhas não vivem sem suas mães. Volte, mamãe. Volte!
– Volte! – gritei, desesperadamente. Alto como nunca havia gritado. Gritei com minha voz e minha alma, com meus sentimentos. Eu não tinha mais controle. Não tinha controle do que eu pensava, não tinha controle das lágrimas que caiam sem parar dos meus olhos. Ela estava morta. Eu estava falando com uma mulher morta. Eu estava chorando para uma mulher morta. Estava abraçando uma mulher... Que agora estava morta. E não iria voltar, nunca mais. Essa era a única certeza que eu tinha agora. Ela se foi, menina boba. Seus gritos não a trarão de volta. Nada pode a trazer de volta. Nada pode trazer sua voz, seu toque ou seu olhar de volta. Pare de buscar por maneiras quando não há nenhuma. Pare de tentar e apenas se conforme. Pare de gritar e veja o que está bem na sua frente. Ela se foi. Para sempre. Seu mundo se foi, para sempre. E por mais que isso seja injusto, ela não vai voltar. Não vê isso?
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