Janela Para o Inconsciente

5 Capítulo 4 - Vida e Morte


Depois de ter vivido sorrisos, lágrimas, alegrias, tristezas, cobranças, julgamentos e confusões, eu me tornei quem sou hoje. Não posso dizer que sou feliz, mas também não sou triste. Quando não se pode ter ambições, sonhos ou devaneios, você acaba se acostumando. Não que eu não tenha sonhos, mas para o meu próprio bem, eu os escondo (de mim mesma). Quando tenho medo de dormir, temendo algum trauma causado por um pesadelo, fico pensando quem seria eu se tivesse a ousadia de não ter medo. De qualquer maneira, acabei virando uma escrava do medo, uma escrava da minha própria mente. Mas hoje é diferente. Não consigo dormir, mas não é medo. É apenas... Cansaço. Meu corpo não está cansado, mas minha mente está cansada de toda essa monotomia. E se eu não tenho nada e nem o direito de ter, não tenho nada a perder. Hoje eu me decidi: farei minha vida começar de vez.

Eram duas horas da manhã de um sábado em Londres. Até hoje me lembro do momento em que deixei a casa: o silêncio me assustava, o escuro me mandava para fora daquele lugar. Abri a porta devagar e simplesmente sai andando com a roupa do corpo e um ipod. Achei que ia ser mais difícil. Coloquei uma música pra tocar e fui andando no ritmo, até onde eu chegasse.

Depois de muito tempo virando “nessa rua e na outra”, não foi difícil chegar a uma festa. A música alta era a mesma que eu estava ouvindo. Não era uma casa, mas ficava em um bairro residencial. Eu dei pause na música, coloquei meu ipod no bolso de trás dos jeans e cheguei um pouco mais perto. Era uma porta e um cômodo minúsculo com um segurança na frente. A música estava abafada, o que quer dizer que vinha de dentro daquele cubículo. Fui me aproximando devagar e o segurança olhou pra mim como se eu fosse um cachorro que precisava ser afastado.

– Quem é você? – Perguntou ele.

– Meu nome é... Erin... Rhodes.

– Você tem a mínima ideia do que está fazendo, Erin Rhodes?

– Eu... – tentei abrir a porta, mas ele me impediu. – Gosto dessa música.

– Isso não é um lugar qualquer e também não é um lugar barato. Quanto você tem?

– 21 anos. – Eu disse, confusa.

– Essa informação é válida, mas que quis dizer... Quanto dinheiro você tem aí?

– Nada.

– E o que você pode fazer a respeito?

– Eu tenho isso. – Disse, mostrando-lhe meu ipod. – Não é a coisa mais cara do mundo, mas é tudo o que eu tenho.

– Temo que não seja o suficiente. – Disse ele, após arrancar o ipod das minhas mãos.

– Bom... – Pensei duas vezes antes de continuar a frase. Tirei o colar que estava usando: uma corrente de ouro e um pingente de diamante que usei no casamento da minha mãe. – Eu tenho isso.

Com cautela, o segurança pegou o colar e abriu a porta.

O que eu vi a seguir foi um cômodo parecido com uma sala de espera, completamente vazio. Era muito limpo e as poltronas pareciam caras. À minha direita havia um elevador. Sem pensar duas vezes, apertei o botão. O elevador era cheio de espelhos e câmeras, e quanto mais descia, mais alta a música ficava. Senti nesse momento uma imensa felicidade, não sei por que, mas senti que era ali que eu deveria estar.

A porta do elevador finalmente se abriu: era um salão lotado, decorado do jeito mais nobre possível. A música era incrivelmente alta. Muitas pessoas dançavam, as luzes piscavam histericamente e todos pareciam á vontade. Muitos rostos me encararam enquanto eu andava até o outro lado do salão. Encontrei uma pequena porta que me levou a um bar, bem menos lotado, mas ainda assim havia bastante gente. O balcão era extenso e três barmans faziam os pedidos. Puxei uma cadeira e um barman veio em minha direção.

– Bem vinda ao The Box. Qual seu nome? – Ele puxou uma lista do balcão.

– Erin Rhodes.

– Muito bom... Erin. – Ele abaixou a lista. – Posso te ajudar?

No momento em que o barman terminou de falar, uma moça com expressão quase depressiva se sentou do meu lado.

– Um mojito, por favor. Emily Weybret.

– O mesmo pra mim. – Eu disse. Depois me virei para Emily. – Dia ruim?

– Não, eu sou assim mesmo. – Disse ela, rindo.

– Você é estranha.

– Ahm... Me desculpe?

– Na verdade foi um elogio.

– Gostei de você. – Ela riu. – Qual seu nome?

– Erin.

– De onde você é, Erin?

– Sou de tão, tão distante. – Assim que eu terminei a frase nossos drinques chegaram. Emily pegou os dois e se levantou.

– Venha, vou te apresentar para os meus amigos.

Eu a segui até um canto onde a música era mais baixa e uma roda de amigos conversava. Eles pareciam terem vindo em uma caixa direto do Upper East Side. Todos estavam muito apresentáveis, bem vestidos, as mulheres estavam com maquiagem, vestidos, penteados quase estranhos... Foi quando eu me lembrei que eu estava de jeans e camiseta. Mas a princípio, todos pareceram gostar de mim.

– Pessoal, essa é a Erin. – disse Emily, propondo um brinde. Todos ergueram suas taças e ela me entregou a minha. Uma moça no grupo se manifestou:

– Prazer, Julia. Esses são Daniel, e Nathan. – Disse a moça, apontando para cada um deles. Nathan era loiro e seus olhos eram castanhos, Daniel tinha cabelos negros e sobrancelhas arqueadas. Mas Julia era a mais bonita do grupo, ela era ruiva, seus olhos eram verdes e sua expressão era de pura doçura.

– Pode me chamar de Dan. – Disse Daniel, puxando uma cadeira para mim. Eu me sentei.

– De onde você é? – Perguntou Julia.

– Sou de Wimbledon. – Respondi. Me senti aliviada por estar falando a verdade. Talvez só não estava mais aliviada porque todos pareciam ser de bairros muito mais nobres.

– O que traz uma garota de Wimbledon ao The Box? – Perguntou Nathan.

– Nate, por favor. – Disse Emily. – Seja educado.

– Você vai beber isso? – Perguntou Nathan, apontando para o meu drinque.

– Na verdade...

– Ótimo. – E virou o copo em um gole. Houve um silêncio incômodo por algum tempo.

– Nate... – Julia quebrou o silêncio. – Vamos pra casa. Já é o bastante por hoje. Tchau, gente. E foi um prazer conhecê-la, Erin. – Todos se despediram dela e Nathan saiu quieto e emburrado. Foram mais alguns minutos de silêncio.

– Não esquenta, Erin. Ele é um cara legal quando não bebe. Sabe como é... – Disse Daniel.

– Na verdade, eu não sei. Eu não bebo.

– Sério? O que você faz nas festas? – Perguntou Emily.

– Também não costumo frequentar festas.

– Como você encontrou esse lugar?

– Eu estava andando por aí.

– Espera... – Gritou Dan. – Você é uma garota que veio de Wimbledon até aqui andando, ás duas horas da madrugada, encontrou o clube mais exclusivo de Londres, por acaso tinha o suficiente pra pagar e simplesmente entrou?

– Pensando bem... Sim. É exatamente isso.

– Erin Rhodes, você é estranha. – disse Dan.

– Muito obrigada.

– E você ainda mora em Wimbledon? – Perguntou Emily.

– Na verdade, agora eu não moro em lugar nenhum.

– Onde você está dormindo?

– Eu não sei.

– Tem certeza de que você não bebe nem bebeu? – Perguntou Emily e Daniel riu.

– Sim. – Eu ri. – Mas é uma longa, longa história.

– Bom... Eu e Dan moramos em um apartamento no centro da cidade. Não é muito grande, mas se você quiser pode ficar no sofá, só por enquanto.

– Vocês são...

– Somos irmãos. – Emily me interrompeu. Eu ia dizer “namorados”.

– Então, vocês são duas pessoas que acabaram de conhecer uma garota estranha em uma festa qualquer e decidem levá-la pra casa?

– O The Box não é uma festa qualquer. – Disse Daniel. – Se você está aqui, é bem vinda na nossa casa.

–--

Esse foi o primeiro momento em que me senti como uma pessoa normal, uma jovem como outra qualquer. Mas ao mesmo tempo especial. O que havia naquele lugar para me fazer sentir assim? Lá foi onde eu morri. Foi naquele lugar que Amy Woods morreu. Foi naquele lugar onde Erin Rhodes nasceu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.