Jane
7 O paradoxo do beijo
Notas iniciais
Acordar com o toque suave dos lábios dela sobre os seus foi um presente que ele sequer ousaria sonhar há algumas semanas. Pensava que esse tesouro estava perdido de vez, que só lhe restariam as lembranças transfiguradas em ausência. Mas aqui estavam eles, no presente, e o sabor dela marcando presença antes mesmo que ele fosse capaz de abrir os olhos.
Kurt tinha um sono pesado. Raramente algo perturbava seu descanso. Adormecia com facilidade e só despertava após aquelas horas já habituais de sono. A noite passada, entretanto, foi diferente. Jane se aconchegou a ele como nunca tinha feito antes. Foi impossível manter-se no seu espaço da cama. Ela o envolvia, puxando-o para perto, acolhendo-o entre seus braços.
E como lidar com tanta devoção e carinho sem que seu corpo correspondesse a isso? Ele não sabia. Naquela noite, somou-se ao cheiro dela e aos leves resmungos que proferia durante o sono, o toque constante, o roçar de seus corpos. E nem mesmo o tecido dos pijamas que separavam suas peles parecia suficiente para inibir o desejo. Por isso acordou várias vezes, preocupado em não a afastar com as reações de seu corpo.
— Bom dia! – a cumprimentou após um longo bocejo, recebendo um suspiro e um sorriso como retribuição. E observou que a expressão dela dizia que estava já bem desperta. – Pelo jeito você acordou faz tempo. – e sorriu torto sem ser capaz de se desconectar do olhar dela.
Deus, como o verde dos olhos dela o hipnotizavam! Kurt se perdia ali. Mas não era só a cor que o prendia. Jane olhava para ele totalmente translúcida, demonstrando tudo que sentia e que não era capaz de colocar em palavras.
Ele suspirou e roçou as costas dos dedos no rosto dela, o que a fez fechar os olhos para aproveitar melhor a sensação. Depois, devagar deixou a mão correr para trás da orelha, adentrando seus cabelos para puxá-la para mais um beijo, já não tão casto quanto o selinho com o qual ela o acordou.
Ah, e como um beijo pode significar tanta coisa quando existe amor de verdade! Entrega, deleite, cumplicidade, tudo traduzido naquela brincadeira de suas línguas trocando sabor e sentimentos. E como era forte, parecia até indestrutível.
Quando finalmente se separaram contrariados pela necessidade de respirar, Jane se sentou e, aflita, o convidou a fazer o mesmo. Assim que ele obedeceu, ela puxou sua mão e colocou sobre seu peito. Seu coração estava disparado. As batidas eram tão fortes quanto o brilho nos olhos delas. O olhar de Kurt se concentrou ali, nas mãos dela cobrindo a sua enquanto o pulsar dizia tudo que ele precisava ouvir. Seu próprio coração seguiu o dela, parecendo querer saltar para fora do peito diante da constatação que se deu. Então, ele finalmente buscou o olhar dela.
— Crush... – ela disse tentando sorrir, mas emocionada demais pra isso.
Ele sorriu, mas seus olhos se encheram de lágrimas. Tocando com os dedos da outra mão a lateral da testa dela, disse:
— O que você sente por mim é muito forte, não é mesmo? Tão forte que nem todo o estrago que o ZIP fez aqui foi capaz de apagar...
— Ei! — ela soltou a interjeição olhando preocupada para ele enquanto uma de suas mãos secava a lágrima que rolou.
— Tudo bem. Eu estou bem. Estou muito bem e muito feliz. – disse tentando acalmá-la. Mas sabia que precisaria usar outros recursos para se fazer entender.
Então, puxou as mãos dela para seu próprio peito para que Jane pudesse sentir que seu coração pulsava tão forte quanto o dela. Ao sentir aquilo, Jane olhou para ele atônita e sorriu meio trêmula, mas mostrando que estava muito feliz.
— Não é crush. Nie crush, Jane. – insistiu em africâner. – É amor. Amor. – repetiu com ênfase e devagar para que ela guardasse.
Ela assentiu e baixou o olhar para o peito dele visualizando as alianças lado a lado em suas mãos sobrepostas. Então deu um longo suspiro e entortou a cabeça com os olhos ainda presos na imagem.
Encantado com as reações dela, Kurt a puxou para seus braços, quase a pegando no colo e dando um beijo demorado no topo da sua cabeça. Ficaram ali, agarrados um ao outro até que um som bem típico os trouxe de volta à realidade:
— Isso é seu estômago? Vamos para a cozinha. Preciso alimentar minhas meninas.
Assim que se colocou em pé ao lado da cama, Kurt se apressou em pegar o chambre dela que ficava no armário. Ainda era bem cedo e queria garantir que ela não resfriaria. Também seria bem mais fácil se concentrar no preparo da comida com aquilo cobrindo esse pijama que Zapata comprou.
Jane vestiu o chambre assim que ele lhe ofereceu e, em seguida, se pendurou na mão dele para acompanhá-lo até a cozinha. Logo Kurt percebeu que ela pretendia ser sua ajudante e foi dando-lhe pequenas funções.
Enquanto ele preparava os sanduiches de manteiga de amendoim e geléia, Jane arriscou roubar um pouco do creme da faca com o dedo e já levou a boca. Kurt riu satisfeito.
— Melhor eu nem olhar muito pra você enquanto faz isso... – disse tentando se concentrar na fatia de pão.
Logo em seguida, o dedo dela se aventurou diretamente na borda do pote da manteiga de amendoim, mas antes que fosse capaz de levar o dedo à boca, o reflexo de Kurt segurou seu pulso:
— Ei, ladrazinha, espere o seu sanduíche, entendeu? – e conduziu o dedo dela a sua própria boca sugando creme enquanto arqueava a sobrancelha se dando como vencedor.
Jane riu e roubou outro beijo do marido.
Passaram o dia mais inseparáveis que nunca. Compartilharam todos os afazeres, desenharam e se beijaram muitas vezes. O caderno de esboço de Jane recebeu a gravura das mãos entrelaçadas com as alianças em destaque. Kurt compreendeu seu papel de modelo ficando ao lado dela, com a mão disponível para consultas sempre que necessário.
No final da tarde, Jane parecia ansiosa para sair. Ele concordou e deixou que ela os guiassem pela rua. O destino escolhido foi novamente o parque, o banco e o lago com patos. Mas as aves não ganharam petiscos. Ela estava mais preocupada em trocar beijos com o marido.
— Hmmm, então agora o parque é um lugar para ostentar nosso relacionamento. – ele disse ao final de um dos beijos. – Bem, você viu isso aqui ontem, acho que tem lógica.
Já perto do pôr do sol, ela se deitou no colo dele. Kurt aproveitou para acariciar a barriga e fazer promessas de um futuro feliz para sua mini-Jane. A mamãe aprovou, prestando atenção à conversa totalmente emocionada.
Ficaram ali até os últimos raios solares desaparecerem completamente no horizonte. Nenhum dos dois se questionou sobre porque retardaram tanto a volta para casa. No fundo eles já sabiam a resposta: nunca tiveram tanta paz num momento só deles assim.
No dia seguinte, Tasha ligou já no final da tarde pedindo se Kurt poderia prestar consultoria num caso bem complicado que estavam enfrentando no SIOC. A gravidade da situação que representava perigo a muitas pessoas somada ao pedido de uma grande amiga já no último trimestre de gravidez foi irresistível a ele. Mas era preciso pensar no que faria com Jane para poder trabalhar. Na verdade, já vinha pensando nisso há algum tempo porque logo teria que retornar de qualquer forma. Patterson e Boston tinham se disponibilizado para ajudar, atuando como “babás” em dias alternados. Entretanto, justamente naquela semana havia um simpósio de arte em Paris que ocupava Boston. Por isso, ele entrou em contato com a loura.
— Kurt, vou amar ficar com Jane. Mas preciso que a traga até a ONG para passar o dia comigo aqui. Amanhã tenho alguns assuntos inadiáveis que me prendem aqui. Você acha que isso pode ser demais para ela? Ela está tão sociável ultimamente que realmente acho que não será um problema.
— Nosso plano original começaria com uma adaptação com ela em casa, já que é um ambiente no qual sempre se mostrou confortável. Mas acho que podemos arriscar com ela na ONG. Isso tem até um lado bom porque, sem querer, acabei fazendo um acordo com Jane de que não deixaríamos o apartamento sem o outro.
— Sério que prometeu isso? Então, melhor trazê-la para cá mesmo para não quebrar a confiança. Ela ficará bem aqui. Minha sala tem até um sofá bem confortável caso ela precise de uma soneca. Já acabei virando a noite aqui algumas vezes...
— Algum dia você vai parar de virar a noite trabalhando?
— Acho que as chances são de 70% para não. Mas eu juro que estou tentando melhorar nesse aspecto. Só tem tanto trabalho aqui e com algumas horinhas a mais eu acabo incluindo mais um jovem no projeto. Mais um aqui dentro e menos um sozinho lá nas ruas, vulnerável a tanta coisa.
— Patterson, tem certeza que Jane não vai te atrapalhar? Ela pode ser um pouco mais... difícil que esses garotos que você atende.
— Kurt, nada é mais difícil que essa molecada. Pode trazê-la. Eu sou boa. Dou conta.
Com tudo acertado, Kurt focou em passar as informações básicas para Jane com frases curtas e objetivas, preparando-a para as mudanças do dia seguinte. Em alguns momentos, ela parecia bem atenta ao que ele dizia. Outras vezes, jogava os braços ao redor do seu pescoço e começava um novo beijo. Inferno, o amanhecer prometia novos desafios.
Na manhã seguinte, ele tentou manter a rotina normal. Trocaram beijos, prepararam o café da manhã. Só depois que ela tinha se alimentado, ele voltou a repetir o que aconteceria:
— Hoje teremos um dia diferente, Jane. – disse enquanto retirava uma mecha do cabelo dela pra ajeitá-lo atrás da orelha ganhando um sorriso. – Vou trabalhar. Ok?
— Ja. – ela disse revirando os olhos como quem já compreendeu a informação.
— Bom. E você ficará com Patterson.
Jane balançou a cabeça concordando.
— Muito bom. Então, vamos nos aprontar... – e antes que ele se levantasse, um beijo o calou. Dando-se por vencido, a puxou para seu colo na cadeira e deixou que a troca daquele carinho se prolongasse um pouco mais. Quando ela finalmente cedeu, ele continuou: — eu também vou sentir sua falta. Sempre sinto. – e se levantou com ela no colo fazendo-a gritar com a surpresa. Instintivamente, Jane cruzou as pernas ao redor de sua cintura e os braços ao redor de seu pescoço.
Após se trocarem, foram até a ONG criada por Patterson que não era muito distante dali. A caminhada seria uma ótima forma de gastar energia sem deixar Jane na defensiva como quando entravam num carro.
Assim que chegaram, a loura os recepcionou. Mostrou ao casal todas as dependências do lugar. Era realmente incrível o espaço que ela havia preparado para trabalhar com aqueles adolescentes. Detalhes espalhados pelas diversas salas faziam toda a diferença. Psicólogos, orientadores e professores ofereciam apoio em ambientes bem diversificados que davam espaço à criatividade.
Jane se manteve quieta. Retribuiu os cumprimentos com gestos de cabeça sem fazer contato visual. Quando retornaram ao escritório de Patterson, outro espaço amplo e acolhedor, ela ficou mais a vontade.
Kurt se despediu rápido. Não queria se atrasar.
— Patterson, eu preciso ir. Por favor, não se esqueça dos lanches em intervalos regulares, ela precisa disso.
— Eu moro com uma grávida, esqueceu?
— É verdade, me desculpe. Ah, e frases curtas. Não fale demais para não a deixar confusa.
— Pela vigésima vez, eu entendi, Kurt.
Então se virou para Jane. Queria mais um momento com ela para tranquilizá-la por uma última vez antes de partir:
— Aqui é seguro. Você ficará bem. – disse afagando de leve os cabelos dela.
— Ja. – ela respondeu firme, mas sorrindo.
— É claro que ela ficará bem. Teremos um dia ótimo e ... – Patterson não chegou a terminar a frase, surpreendida com a forma como Jane puxou Kurt e começou o beijo. – Uou! Não se importem comigo. Finjam que nem estou aqui... – disse enquanto folheava papéis em sua mesa como se não tivesse visto a troca demasiada de carinho entre o casal.
Quando o beijo parou, Kurt beijou a testa de Jane e voltou a afirmar:
— Te vejo no final da tarde. – e virando-se para a Patterson, disse meio encabulado – Sei que isso foi um pouco inapropriado, mas ela está muito... carinhosa esses dias e não quero ser rude antes de sair.
A loura gesticulou dispensando comentários e apertou os lábios enquanto buscava as melhores palavras para definir a situação:
— Não vamos entrar em detalhes. Vá trabalhar em paz. E faça a minha grávida que estará com você se alimentar como farei com a sua.
— Pode deixar. Zapata não sabe o que a espera. Patterson, muito obrigada.
— Não me agradeça. Será um prazer passar o dia com Jane.
Kurt saiu e logo as duas encontraram um ritmo para aquela manhã. Jane ocupou uma das mesas laterais e se dedicou ao desenho. Patterson se concentrou nas questões burocráticas e fez telefonemas. Nos intervalos, observou os esboços de Jane e os elogiou.
— Com a mão esquerda? Uau! Bom trabalho! – disse fazendo a amiga sorrir. – Sabe, quando você estiver pronta pra isso, poderia vir dar aulas aqui. Defesa pessoal e desenho seriam bem vindos! Agora vamos comer uma fruta senão Weller me mata.
No final da manhã, Patterson teria uma aula de programação com cinco garotos acompanhados pela ONG. Eram inteligentes, mas ainda muito reativos e fechados, na faixa dos 15 anos de idade. Absorviam aquilo que lhes parecia interessante com rapidez, fazendo pouco caso da maioria das informações que ela tentava passar e que fariam toda a diferença para seguirem carreira na área. Mesmo assim, ela persistia com essa turma porque percebia seu potencial.
— Jane, você vai acompanhar uma das minhas aulas de programação. Os meninos são legais. São muito inteligentes e um pouco... difíceis. Sempre penso em você e em ... – e engasgou pensando que era melhor não trazem lembranças tristes – bem, lembro de você quando estou com eles.
Assim que entraram na sala, ela fez as apresentações:
— Jane, esses são Big Joe, Nick Red, Tito, Sal e Malcom T. Rapazes, essa é Jane, uma grande amiga minha. – e já ouviu o assobio de um dos meninos. – Ela está se recuperando de um grave acidente com... traumatismo craniano e está grávida. Então, tenho certeza que vão tratá-la muito bem.
Algum dos meninos soltou uma interjeição de insatisfação e todos trocaram leves cumprimentos com cabeças e mãos. Jane evitou contato visual. Observando que cada um deles ocupou um computador da sala, ela também rumou para uma das máquinas, ocupando o lugar ao lado de Salvatore, o Sal.
A aula seguiu um ritmo atípico para Jane, mas que já parecia normal para Patterson e os meninos. A loura falava empolgadamente sobre programação e todos pareciam tão alheios quanto a tatuada. Quando ela ensinava comando básicos, eles repetiam. Tarefas mais trabalhosas caminhavam muito devagar, forçando-a a repetir dezenas de vezes os mesmos comandos. Pra piorar, os meninos trocavam fotos de mulheres seminuas que recebiam muito mais atenção que a nerd loura à frente da aula.
A sequência repetitiva teve um efeito letárgico em Jane. Em alguns momentos, ela parecia meio que dopada, distante do real concreto, presa na sequência de comando orientados por Patterson, os erros dos meninos e as fotos irritantes que apareciam na tela. Seu cérebro foi lidando com aquilo de forma quase automática enquanto o esforço da amiga diante da apatia dos meninos a sensibilizada.
Sal até tentava, mas errava a sequência final da programação já envolvido com as fotos que recebia. De repente, Jane estendeu o braço e o fez parar antes de terminar a sequência. Puxando o teclado, digitou os dados finalizando a operação com êxito.
— Bom trabalho, Sal! – Patterson disse empolgada por um deles ter sido capaz.
Jane camuflou o sorriso. Estava feliz por ver a amiga alegre.
Aos poucos, a parceria entre Jane e Sal foi se firmando. O garoto percebeu que ela demorava a reagir aos comandos e, por isso, passou a se esforçar mais, querendo um novo elogio de Patterson. Assim, foi deixando a brincadeira com as fotos indecorosas de lado e dando atenção as duas mulheres na sala. O jeito de Jane o intrigava. Além de misteriosa e intimidadora, ele logo percebeu que a forma dela processar tudo aquilo não era normal.
Mais meia hora e os dois já funcionavam super bem na execução dos comandos de programação, trocando discretos olhares de confidência após cada sucesso. Os amigos não entenderam a mudança no colega, por isso chamaram discretamente sua atenção, pedindo que ele voltasse ao que “realmente interessava”, mas Sal estava envolvido demais na sua pequena conspiração para voltar atrás.
Num determinado momento, Jane puxou o teclado e fez uma série de comando que não estavam nas orientações de Patterson. Sal pensou em pará-la, mas não teve tempo o suficiente para agir. Os computadores da sala travaram mostrando várias das fotos que eles trocavam.
— Ei, o que aconteceu? – Patterson disse vindo ver as telas. Ao ver o conteúdo, baixou a cabeça decepcionada. O silencio reinou absoluto. – Poxa vida, pessoal. Estou dando o melhor de mim aqui. Qualquer coisa mais respeitosa eu teria entendido. – desabafou conseguindo fazer com que os meninos se sentissem realmente culpados. — Vamos fazer um intervalo.
Assim que eles deixaram a sala, ela rastreou os computadores e percebeu que o comando partira da máquina de Sal. Então, resolveu chamar ele de forma mais particular querendo mostrar sua capacidade.
— Sal, rastreei os comandos e vi partiram do seu computador. Quero que me mostre como fez isso. – ela sabia, mas queria ver o garoto demonstrando suas habilidades.
— Não fui eu, Patterson.
— Sal, por favor. Apenas me mostre. Seus colegas não estão aqui agora. Não tem problema você conseguir fazer coisas que eles ainda não são capazes.
— Mas não fui eu, já disse!
— O que você vai alegar? A matrix assumiu o controle da máquina, é isso?
— Matrix? Eu pensei que o nome dela era Jane.
— Não estou falando dela. Jane é Jane. Matrix é o filme. Você assistiu, né? – e recebeu como resposta a expressão de total desconhecimento do garoto.
Enquanto isso, Jane observava a cena. Sal parecia encrencado e isso fazia crescer dentro dela o sentimento de culpa.
— Sal, o acidente deixou Jane com limitações. Ela não lê, ela fala poucas palavras e ela definitivamente não sabe desenvolver uma programação complexa assim.
— Nie! – Jane disse se levantando. Mesmo sem compreender o teor total da conversa, ela precisava intervir e assumir sua culpa. – Ja...nie. – disse batendo no peito e depois apontando para o computador.
— Está vendo, eu disse que foi ela!
— Oh, Jane. Eu sei que não foi você. Não se preocupe. – Patterson disse para a amiga da forma mais doce que pode.
— Ja! Ja...nie – e voltou a bater no peito, pegando a mão de Patterson e a conduzindo até o computador onde se sentou e tentou começar os comandos, mas não conseguia retomar tudo sem a ajuda de Sal.
Percebendo que ela precisava dele, o garoto se aproximou e começou os comandos ensinados por Patterson. Quando ele falhava, Jane entrava. Após as primeiras sequências, o cérebro dela voltou ao automático puxando o teclado e repetindo a programação que bugou todos os computadores da sala.
— Uau! – Patterson disse arregalando os olhos. – Definitivamente programação não é uma das limitações do seu cérebro. Jane, isso é fantástico! Eu preciso contar isso pro meu pai! E pra Avery! E Kurt, Tasha, Rich. – repetiu empolgada abraçando Jane que ficou sem graça por não entender a alegria da amiga. – Mas agora vamos almoçar porque preciso terminar esse dia viva mais do que nunca! Sal, diga para seus colegas que retornaremos após o almoço.
E foi assim. Retornaram mais tarde. Jane encarou cada um dos meninos no retorno à sala. Agora, além de arrependidos, sentiam-se intimidados pela estranha. Com tudo isso, a aula transcorreu sem intercorrência. Eles se empenharam nas tarefas passadas por Patterson com mais dedicação e conseguiram avanços significativos. Sal se destacou mais. Sua parceria com Jane ficou ainda mais forte.
O resto do dia transcorreu bem na ONG, mas as coisas ficaram bem complicadas no SIOC. Tasha e Kurt estavam enfiados numa reunião que parecia não ter fim tentando convencer os burocratas da necessidade de liberarem verbas para desmontarem a cadeia de tráfico humano que detectaram. Eles queriam provas mais consistentes. Rich avançava lentamente na quebra da criptografia e decidiu ligar pedindo um apoio discreto a Patterson que concordou.
— Jane, prepare-se: nós duas vamos voltar ao FBI.
Por Deus que o tráfego estava fluindo bem naquele final de tarde. Chegaram rápido ao NYO.
Jane observava todo o local atônita. Quando saíram do elevador para o saguão do SIOC, ela suspirou. Era muito familiar, mas algo a deixava desconfortável.
Sem que Patterson pudesse prever ou que as duas tivessem tempo de correr para os laboratórios, os burocratas deixaram a sala de Tasha e vieram em sua direção acompanhados por ela e Kurt.
— Diretora Zapata, você e o agente Weller nos passaram muita confiança. Estamos certos da transparência e profissionalismo como estão conduzindo essa operação. Mas algo nessa proporção precisa de provas contundentes para liberarmos a verba. – dizia o mais velho deles.
Ao ver o marido, Jane caminhou rápido em direção a ele. Surpreso com a presença dela, Kurt fez o mesmo:
— Jane! – disse aflito. – O que houve?
Então ela se pendurou no pescoço dele e colou suas bocas desesperada por um beijo que saciasse sua saudade deixando todos no saguão perplexo. Rich chegou bem a tempo de presenciar a cena.
Kurt tentou não corresponder de forma abrasadora, mas também era incapaz de ser ríspido com ela com uma separação brusca. Zapata resolveu intervir, primeiro forçando uma tosse e depois puxando o ombro de Jane:
— Jane, ei! E eu, não vou ganhar um abraço? – disse em tom maternal.
A tatuada deixou Kurt e foi abraçar Zapata.
— Por favor, me desculpem. Ela está se recuperando de um... AVC. Ainda não consegue entender todos os protocolos sociais. – ele se desculpou junto aos burocratas pegando Jane pela cintura pra levá-la para um lugar mais discreto: o vestiário. – Ei, que surpresa boa. – disse acariciando o rosto dela assim que viu que estavam sozinhos. – Você está bem?
— Ja. – ela respondeu sorrindo bem alegre.
— Olha isso. Você parece muito feliz. E porque estão aqui? – perguntou mais por hábito sem esperar resposta.
— Pat...ter...son.
— Patterson! Então você fala o nome dela agora? Isso é ótimo.
— Ri...ch.
— Mais um nome! Grande avanço para um dia. Hm, Rich deve ter chamado a Patterson.
— Ei! – ela o chamou. – Sal
— Sal? Quem é Sal? – Kurt perguntou intrigado, mas ela gesticulou que não sabia dizer. – Tudo bem, eu pergunto a Patterson mais tarde. Jane, preciso que preste atenção: não podemos nos beijar aqui, entendeu?
Ela franziu a testa intrigada querendo entender aquela regra.
— Aqui não é um bom lugar para beijos. – ele repetiu.
Ela pareceu não gostar muito da nova regra. Pegou a mão esquerda dele, colocou ao lado da sua mostrando as alianças.
— Crush! – insistiu.
— Amor, Jane. Eu sei que somos casados, mas sem beijos aqui, entendeu?
Ela revirou os olhos e assentiu.
— Muito bom. Obrigada por entender. – finalizou envolvendo o rosto dela com as mãos e a puxando para um beijo.
Mas Jane se afastou, expressão séria:
— Nie! – disse determinada.
— É, nie. – ele disse suspirando triste e considerando que sairia ileso daquilo.
Então voltaram ao saguão. Os burocratas já estavam descendo para o café. Tasha e Kurt iriam acompanhá-los. Rich e Patterson conduziram Jane até o laboratório. Lá, Afreen a recebeu festiva:
— Jane, finalmente! Como você está linda. Ah, como é bom te ver bem assim.
A tatuada sorriu sem graça, mas se deixou abraçar pela mulher com o lenço na cabeça.
— Ótimo, muito bom! Agora, que já abraçou, por favor, faz o que te pedi. – Rich disse.
— Eu não sou sua garçonete. – Afreen retrucou.
— Não é pra mim. É pra Jane.
— O que você está querendo fazer a Afreen buscar, Rich? – Patterson questionou já tomando as dores da outra.
— Milkshake, é só um milkshake de frutas vermelhas. Aquele que sempre quis que ela provasse. Tenho certeza que Jane vai amar. A pobrezinha deve estar só comendo comida saudável com o Kurt Superprotetor Weller cuidando da alimentação dela. Quando teremos outra chance de ter ela longe dele pra dar algo assim? Além disso, sei que desse jeito ela vai querer voltar sempre. Vai associar o laboratório e eu a coisas gostosas da vida.
— Céus, você se supera, Rich! Mas tenho que admitir que tem razão. Jane merece um milkshake. – Patterson concluiu.
— Eu vou buscar! – Afreen disse eufórica. – E trago um pra você também, Patterson. Mas só pra vocês duas. – frisou no final recebendo uma careta de Rich em resposta.
Depois que o milkshake chegou, começaram a trabalhar na quebra da criptografia. Os códigos eram complexos. Trabalharam duro por mais de uma hora sem grandes avanços. Jane só observava.
— A quem estamos enganando? Isso é impossível. Se eu e você juntos não quebramos isso, ninguém mais o fará. É ilógico, irracional... minha vontade é pegar o cara que fez isso e enfiar cada letrinhas no ...
— Rich, é isso! – Patterson o interrompeu.
— Uma suruba sadomasoquista com o idiota que fez isso? Mas não sabemos quem é ele, lembra?
— Não. Parece ilógico e irracional, por isso não conseguimos. Mas talvez tenha uma pessoa que possa nos ajudar. É só uma teoria, mas podemos testar. – a loura disse fazendo aquela carinha desafiadora.
— Quem?
— Jane!
— Você não está falando sério, né?
Patterson explicou para ele o que aconteceu naquela manhã e resolveram tentar a mesma estratégia: repetir os códigos que já tinham descriptografado e deixar que ela terminasse repetidas vezes. Na quarta tentativas, Jane já destravou novas etapas da criptografia. Rich e Patterson quebraram a próxima e assim seguiram até conseguir acesso total aos dados. Tudo que precisavam como provas consistentes estava ao alcance do FBI.
Empolgados, foram até a sala de reuniões onde as negociações prosseguiam:
— Senhoras e senhores, se estavam esperando provas, aqui temos dezenas delas! – Rich disse colocando a pasta com os dados nas mãos de Zapata. – As fraudes, as conversas, os pagamentos: tudo que precisam.
— Patterson conseguiu? – Zapata perguntou já com a certeza da resposta.
— Digamos que foi um trabalho de equipe e, por incrível que pareça, dessa vez a grande sensação não foi sua queridinha não. Foi Jane.
— Jane? – Zapata e Kurt perguntaram ao mesmo tempo.
— Sim, Jane. Parece que o cérebro zicado dela ainda funciona bem quando se trata de códigos de programação. – e sentiu o chute de Tasha na sua canela por se referir à Jane daquela forma. — Ai!
Todos se reuniram no laboratório para parabenizar Jane, mas ela parecia alheia e muito cansada. Assim que Kurt passou o braço ao redor dela, disse:
— Ca...sa.
Os dois se despediram rápido e Kurt chamou um táxi.
Já dentro do veículo, ela se aconchegou nele e logo cochilou. Ele a envolveu e depositou um beijo em seus cabelos. Seu peito estava inflado de orgulho. Nunca ninguém no mundo seria comparável a sua Jane.
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