JARDINS

15 Intrusa 🦂🍸


Notas iniciais
"Há chegadas que mudam uma festa. E há mulheres que entram numa sala e fazem homens esquecerem o que estavam fazendo, mulheres esquecerem quem eram e segredos esquecerem onde deveriam permanecer. Luna La sabia exatamente o efeito que causava." XOXO, GG. 💋
SOUNDTRACK DO CAPÍTULO:

Maneater by Nelly Furtado.


Luna não chegou a São Paulo como quem desembarca numa cidade nova. Chegou como quem retorna a um território que nunca precisou reivindicar. Quando atravessou o saguão de desembarque do Aeroporto ds Guarulhos, já havia gente olhando para ela sem saber exatamente por quê. Talvez fosse o casaco de pele sintética em tom camel da Theory, volumoso o suficiente para parecer uma peça de arquivo, mas cortado com uma precisão moderna que fazia o conjunto inteiro parecer mais caro do que provavelmente era. Por baixo, um vestido branco de tricô de gola alta, ajustado ao corpo, lembrava um dos seus looks mais conhecidos de Nova York; nos pés, botas altas de camurça em tom conhaque alongavam ainda mais a silhueta. Uma Louis Vuitton Onthego MM repousava em seu braço, enorme, impecável e absolutamente consciente de que estava sendo vista. Óculos quadrados da Lapima escondiam seus olhos, enquanto brincos dourados discretamente geométricos acompanhavam o movimento do cabelo. Era Luna La. Não uma garota rica vestida de grife, mas uma mulher que fazia as grifes parecerem parte da personalidade dela.

Ela retirou os óculos apenas quando viu o motorista segurando a placa com seu nome e sorriu.

— Espero que São Paulo esteja preparada.

Não estava.

Duas horas depois, quando entrou na casa onde acontecia a festa no Jardim Europa, o efeito foi ainda pior. Luna havia trocado o visual de viagem por algo que parecia ter sido escolhido para humilhar silenciosamente metade das mulheres presentes: uma minissaia preta de cintura alta, estruturada, combinada a uma blusa de seda marfim com mangas levemente bufantes e gola delicada, presa no pescoço por uma fita preta fina. Sobre os ombros, uma capa de lã da Burberry em tom areia, marcada pelo clássico padrão da maison apenas no forro, porque Luna sabia que logotipo demais era uma declaração de insegurança. Nos pés, sandálias Jimmy Choo de tiras finíssimas e salto alto. Na mão, uma pequena Fendi baguette. O conjunto era feminino, sofisticado e levemente cruel, exatamente como ela.

Theo foi o primeiro a vê-la.

E, ao contrário do que qualquer pessoa naquela sala poderia imaginar, não houve surpresa em seu rosto. Houve reconhecimento.

— Você demorou.

Luna tirou os óculos, abriu um sorriso e caminhou até ele como se os dois tivessem se despedido na semana anterior.

— Você continua arrogante.

— E você continua atrasada.

Ela o abraçou. Foi um abraço espontâneo, íntimo na medida certa, familiar demais para passar despercebido por quem conhecia Theo. Quando se afastou, Luna segurou o rosto dele por um instante e o examinou.

— Você está mais bonito.

— Você está tentando me bajular.

— Não. Estou tentando descobrir por que você continua solteiro.

Theo riu. Do outro lado da sala, Helena viu e não gostou. Não porque houvesse qualquer possibilidade entre Theo e Luna. Helena sabia que Theo era gay, sabia disso havia tempo suficiente para nem pensar duas vezes no assunto. O problema era outro. Era a facilidade. A intimidade. O modo como Luna conseguia entrar na vida de Theo sem pedir licença, ocupar espaço sem explicar de onde vinha e fazê-lo rir com uma naturalidade que Helena conhecia como sua.

Ela observou os dois conversando e percebeu algo que a incomodou mais do que deveria: Theo parecia diferente. Mais leve.

— Quem é ela? — alguém perguntou perto de Helena.

Helena demorou alguns segundos para responder.

— Luna La.

— A Luna La?

Helena finalmente desviou os olhos de Theo.

— Existe outra?

Não existia.

Luna já estava circulando pela festa como se conhecesse o lugar havia anos. Cumprimentava pessoas, avaliava roupas, fazia comentários rápidos e certeiros, e parecia memorizar tudo sem esforço. Em menos de vinte minutos, já havia identificado quem tinha dinheiro de verdade, quem estava tentando parecer rico e quem havia contratado um stylist para esconder a diferença.

Quando passou por Helena, parou.

— Você deve ser Helena.

— E você deve ser Luna.

As duas se olharam. Luna sorriu primeiro.

— Theo fala muito de você.

Helena sustentou o sorriso.

— Espero que só coisas boas.

— Quase todas.

Quase. A palavra ficou entre elas por tempo suficiente para se tornar uma pequena ameaça.

Perto do bar, Dante acompanhava a cena em silêncio. Luna era um problema. Não porque soubesse alguma coisa específica, mas porque ele não conseguia descobrir rapidamente o que ela sabia. Pessoas controláveis eram úteis. Pessoas previsíveis eram perigosas. Luna não parecia nenhuma das duas. E então o celular dele vibrou.

Eduardo: Precisamos conversar sobre ela.

Dante levantou os olhos. Do outro lado da sala, Luna estava dizendo alguma coisa no ouvido de Theo. Ele riu. Depois, sem perceber que estava sendo observado, colocou a mão nas costas dela para conduzi-la até outro grupo. Dante guardou o telefone. Pela primeira vez naquela noite, alguma coisa havia escapado do seu planejamento.

No terraço, longe da música, Theo finalmente perguntou:

— Você veio para quê?

Luna apoiou os braços na balaustrada e olhou para as luzes de São Paulo.

— Para trabalhar.

— Só?

Ela virou o rosto.

— Você me conhece melhor do que isso.

Antes que Theo pudesse insistir, seu telefone vibrou.

Eduardo.

A mensagem era curta.

"Preciso falar com você. Sobre Kiran."

Theo perdeu o sorriso.

Luna percebeu.

— Então ele descobriu.

Theo levantou os olhos.

— Descobriu o quê?

Ela ficou em silêncio por um segundo a mais do que deveria.

— Nada.

— Luna.

— Theo, você ainda tem o mesmo problema de sempre.

— Qual?

Ela colocou os óculos novamente, escondendo os olhos.

— Acha que consegue descobrir tudo antes que as pessoas decidam contar.

Ela se afastou, deixando Theo sozinho no terraço com o telefone na mão. Dentro da casa, Helena observava Luna. Dante observava Luna. E, da entrada, Eduardo Montenegro observava os três.

Quando finalmente deixou a festa, seus olhos encontraram os de Luna por um instante. Ela não desviou. Não sorriu. Apenas o encarou como quem reconhece alguém que nunca deixou de conhecer. E talvez essa fosse a pergunta que São Paulo deveria estar fazendo.

Não quem era Luna La, mas o que Luna La já sabia sobre os Montenegro.