JARDINS

16 A Oferta 📓🖋 [Parte Um]


Notas iniciais
"Há pessoas que oferecem presentes; Há pessoas que oferecem oportunidades.... E há aquelas que sabem exatamente quanto vale uma liberdade antes de colocá-la sobre a mesa. O problema é que, às vezes, a oferta não é uma saída. É apenas uma maneira elegante de dizer: desapareça." XOXO, GG. 💋


Eduardo Montenegro não precisava levantar a voz para fazer uma sala parecer menor. No escritório reservado do Grupo Montenegro, no alto da Cidade Jardim, ele permanecia atrás da mesa enquanto Kiran ocupava a poltrona diante dele, desconfiado demais para relaxar e educado demais para demonstrar. Não havia ameaça, nem menção a Theo, nem qualquer tentativa explícita de fazê-lo entender que aquela conversa tinha um preço. Eduardo falava de carreira.

Uma oportunidade em Londres. Um programa de especialização ligado a um grupo de investimentos com o qual os Montenegro mantinham relações antigas. Um apartamento pago durante o primeiro ano. Remuneração suficiente para que Kiran não precisasse se preocupar com dinheiro. Um nome importante no currículo antes mesmo de terminar sua formação. Tudo parecia legítimo. Mais do que isso: parecia generoso.


— Você tem talento — Eduardo disse, empurrando uma pasta fina pela mesa. — E seria desperdício limitar suas possibilidades por causa de uma cidade.


Kiran olhou para a pasta, mas não a abriu. — E por que o senhor está me oferecendo isso?


Eduardo sorriu, quase paternal.

— Porque alguém precisa lhe mostrar que existem oportunidades maiores do que as que você está enxergando agora.


Kiran não respondeu. Havia alguma coisa naquela frase que parecia ensaiada, embora a proposta fosse boa demais para ser simplesmente descartada. Londres. Experiência internacional. Independência. Um futuro que não dependesse do sobrenome de ninguém. E, pela primeira vez, Kiran pensou seriamente em aceitar. Quando saiu do prédio, a pasta continuava fechada dentro da mochila.


Naquela mesma noite, São Paulo parecia particularmente indiferente aos segredos que carregava. Luna estava sentada no terraço, uma taça de vinho entre os dedos, usando uma camisa de seda preta da Saint Laurent parcialmente aberta sobre uma saia midi de cintura alta e sandálias de tiras delicadas, enquanto analisava no celular uma sequência de fotografias da festa anterior. Theo apareceu atrás dela e arrancou o telefone de sua mão.


— Você está trabalhando?

— Estou julgando.

— É praticamente a mesma coisa.

— Não para quem está sendo julgado.


Ela tomou o telefone de volta e sorriu. Kiran chegou pouco depois, ainda com a cabeça presa à proposta de Eduardo. Luna percebeu antes mesmo de ele se sentar.


— Você está com cara de quem recebeu uma notícia que não sabe se é boa.

— Talvez seja.

— Péssimo começo.


Kiran riu e contou. Londres. O programa. A proposta. Luna parou de mexer no telefone.


— Quem ofereceu?

— Eduardo Montenegro.


Foi uma mudança mínima. Quase invisível. O sorriso dela desapareceu por um segundo antes de voltar.


— Ele fez outra vez...

Kiran franziu a testa.

— Fez o quê?


Luna olhou para Theo. Depois para Kiran. E naquele instante percebeu que havia acabado de atravessar uma porta que talvez não pudesse fechar.


— Seu irmão — disse, mais baixo. — Eduardo fez a mesma coisa com seu irmão.

O silêncio que veio depois pareceu absorver até a música da casa. Kiran não piscou.


— O quê?

Luna pousou a taça.

— Eu achei que você soubesse.

— Eu não sei de nada. O que ele ofereceu ao meu irmão?

Ela hesitou.

— Uma oportunidade para sair do país.

— Quando?

Luna desviou o olhar.

— Antes de ele desaparecer.


Kiran se levantou tão rápido que a cadeira arrastou no chão. Theo olhou para Luna.


— Como você sabe disso?

Ela respirou fundo.

— Porque eu estava lá.

E, pela primeira vez desde que chegara a São Paulo, Luna La não parecia ter uma resposta pronta.


[...]


No outro lado da cidade, Noah estava parado diante da janela do apartamento quando o telefone vibrou pela terceira vez. Número desconhecido. A mesma fotografia.


Ele aparecia saindo de um restaurante, de costas, uma mão segurando o celular e a outra escondendo alguma coisa no bolso do casaco. A mensagem abaixo era curta:


Você realmente acha que está sozinho?


Noah apagou a tela, caminhou até a porta e olhou pelo olho mágico. Ninguém. Cinco minutos depois, ligou para Helena. Ela atendeu quase imediatamente.


— Noah?

— Você está em casa?

— Estou.

— Posso ir aí?

Helena fechou os olhos.


Havia coisas que o corpo lembrava antes que a cabeça autorizasse. A voz dele ainda tinha o poder de atravessar anos de distância e encontrar exatamente o lugar que ela havia passado tanto tempo tentando esconder.


— O que aconteceu?

— Tem alguém me seguindo.

Ela ficou em silêncio.

— Noah...

— Eu sei como parece.

— Não, você não sabe. Porque você está falando comigo como se eu fosse a mesma pessoa que estava aqui quando você foi embora.

Ele respirou do outro lado.

— Talvez eu esteja precisando daquela pessoa.


Meia hora mais tarde...


Helena não deveria ter aberto a porta. Abriu. Noah entrou sem dizer nada. Estava assustado, mas ainda havia nele aquele mesmo magnetismo irresponsável que um dia a fizera acreditar que poderia amá-lo sem se machucar. Helena fechou a porta e ficou diante dele.


— Você ainda tem problemas.

— Muitos.

— E continua trazendo todos para dentro da minha casa.

— Só os que não consegui deixar do lado de fora.


Ela tentou sorrir, mas não conseguiu. Noah tocou seu rosto. Foi Helena quem o beijou. Não houve promessa, nem explicação, nem perdão. Apenas dois corpos lembrando de uma intimidade que a memória nunca havia conseguido apagar. Quando se afastaram, Noah encostou a testa na dela.


— Eu senti sua falta.

Helena fechou os olhos.

— Não diga isso.

— Por quê?

— Porque eu passei muito tempo tentando parar de sentir a sua.

Ele a beijou novamente. E, naquela noite, Helena deixou de ser racional.


[...]


Kiran ainda estava no terraço.

— Você conhecia meu irmão?

Luna demorou para responder.

— Conhecia o suficiente.

— E nunca me contou?

— Eu não sabia que você não sabia.

— Luna.

— Kiran, eu não sabia onde ele estava. Não sei onde ele está agora. Só sei que Eduardo fez uma proposta parecida, insistiu para que ele aceitasse e, pouco tempo depois, tudo mudou.


Theo permaneceu em silêncio. A expressão de Kiran havia perdido qualquer traço de dúvida. Agora havia outra coisa ali. Raiva.


— E você acha que foi ele?

Luna sustentou seu olhar.

— Eu acho que você precisa descobrir por que Eduardo queria seu irmão longe.

O telefone de Theo vibrou. Uma mensagem.


Eduardo: Precisamos conversar. Hoje.


Theo leu duas vezes. No mesmo instante, o celular de Luna acendeu sobre a mesa. Uma mensagem de um número que ela não tinha salvo.


"Você deveria ter ficado longe dos Montenegro."


Ela não mostrou a ninguém. Apenas apagou a mensagem. E, pela primeira vez, Luna La percebeu que talvez sua chegada a São Paulo tivesse sido menos acidental do que imaginava.


Enquanto isso, em algum lugar da cidade, Dante observava a tela do próprio telefone. Uma única mensagem de Eduardo estava aberta.


"Ela falou com Kiran."


Dante levantou os olhos para a noite. O jogo havia mudado e, desta vez, nem todos estavam jogando do mesmo lado.


XOXO,

GG. 💋