JARDINS

17 A Oferta 📓🖋 [Parte Dois]


Kiran não dormiu naquela noite. A pasta que Eduardo Montenegro havia colocado diante dele continuava sobre a cadeira ao lado da cama, fechada, como se apenas olhar para ela fosse aceitar alguma coisa que ele ainda não conseguia nomear. Londres continuava sendo uma oportunidade extraordinária. O problema era que agora também parecia uma repetição. As palavras de Luna voltavam sempre que ele tentava pensar em outra coisa: seu irmão havia recebido uma proposta semelhante antes de desaparecer.


Às seis e vinte da manhã, Kiran finalmente abriu a pasta. O contrato era impecável. O nome da instituição, os valores, a acomodação, o período, o programa de especialização. Tudo estava organizado com a precisão quase obsessiva que ele já havia aprendido a associar aos Montenegro. Não havia uma única linha que parecesse ameaçadora. Era exatamente isso que o assustava.


O telefone vibrou.

Theo.

"Você está acordado?"


Kiran demorou alguns segundos.

"Agora estou."


A resposta veio quase imediatamente.

"Eu também."


Kiran olhou novamente para o contrato.

"Você acha que seu pai está falando a verdade?"


Dessa vez, Theo demorou.

"Não sei."


Kiran sentiu um peso no peito. Theo sabia. Sabia sobre o irmão, sabia sobre a oferta, sabia que Eduardo havia tentado afastá-lo da mesma maneira. E talvez aquilo fosse ainda pior do que ter que contar tudo sozinho.


"Eu vou falar com ele hoje."


Theo respondeu apenas:

"Não vá sozinho nisso."


Kiran desligou o telefone.


[...]


Eduardo Montenegro o recebeu naquela tarde com a mesma serenidade de quem não tinha nada a esconder. Não havia pasta sobre a mesa, nenhum contrato esperando por uma assinatura. Apenas dois cafés servidos e a vista de São Paulo através do vidro.


— Mudou de ideia? — perguntou Eduardo.

— Ainda não.

— Então por que voltou?

Kiran permaneceu de pé.

— Quero saber sobre meu irmão.


Pela primeira vez, Eduardo não respondeu imediatamente. Foi um silêncio curto, mas suficiente. Kiran percebeu.


— O senhor conhecia ele.

Eduardo recostou-se na cadeira.

— São Paulo é uma cidade menor do que parece.

— Não foi isso que eu perguntei.

— Eu conheci seu irmão.

Kiran sentiu o estômago apertar.

— E ofereceu a ele a mesma coisa que está me oferecendo.

Eduardo não negou.

— Seu irmão tinha talento.

— E por que queria que ele fosse embora?

— Porque havia coisas que ele não deveria estar fazendo.

— Que coisas?

Eduardo o observou por alguns segundos.

— Essa é uma pergunta que você deveria fazer a ele.

Kiran soltou uma risada sem humor.

— Ele desapareceu.

— Eu sei.

A resposta veio rápido demais. Kiran ficou imóvel.

— Como?

Eduardo percebeu o erro, mas não demonstrou.

— As pessoas comentam.

— Meu irmão não era assunto para as pessoas.

Eduardo levantou-se e caminhou até a janela.

— Kiran, eu estou tentando lhe oferecer uma oportunidade. Não transforme isso em uma investigação sobre uma história que terminou há anos.

— Talvez não tenha terminado.

Eduardo virou-se.

— Algumas histórias terminam quando ninguém mais tem interesse em contá-las.

Kiran sentiu um arrepio.

— E o senhor tem interesse?

Eduardo sustentou seu olhar.

— Eu tenho interesse em proteger meu filho.


Ali estava. Theo. Kiran finalmente entendeu que Londres nunca havia sido apenas Londres.

— O senhor quer que eu vá embora.


Eduardo não respondeu. Não precisava. Kiran deixou o escritório sem aceitar a proposta.


[...]


Theo estava esperando por ele naquela noite. Não perguntou onde Kiran havia estado. Não precisava. Quando Kiran entrou no apartamento, encontrou-o junto à janela, ainda usando a roupa do trabalho, a camisa preta de seda da The Row com as mangas dobradas até os antebraços e o relógio Cartier repousando discretamente no pulso. Havia uma garrafa de vinho aberta sobre a mesa, duas taças e uma tensão que nenhum dos dois tentou disfarçar.


— Ele admitiu? — Theo perguntou.

Kiran assentiu.

— Conhecia meu irmão.

Theo fechou os olhos por um instante.

— E ofereceu a mesma coisa.

— Antes de ele desaparecer.

O silêncio se instalou entre os dois.

— Você acredita que meu pai fez alguma coisa com ele? — Theo perguntou.

Kiran demorou.

— Eu não sei.

— Mas acha que ele sabe mais do que está dizendo.

— Sim.

Theo caminhou até a mesa e serviu vinho para os dois.

— Luna não deveria ter sido colocada no meio disso.

Kiran segurou a taça sem beber.

— Ela não se colocou no meio. Ela reconheceu uma coisa que já tinha acontecido.

Theo olhou para ele.

— E agora?

Kiran finalmente bebeu.

— Agora eu descubro o que aconteceu com meu irmão.


[...]


Naquela noite, Luna estava sozinha no quarto quando recebeu uma mensagem de Theo.


"Você precisa me contar tudo o que lembra sobre ele."


Ela ficou alguns segundos olhando para a tela. Não respondeu. Em vez disso, abriu uma fotografia antiga que guardava em uma pasta esquecida do telefone. Uma festa em Nova York. Muitos anos antes. Pessoas que já não faziam parte da sua vida. E, ao fundo, quase fora do enquadramento, estava o irmão de Kiran.

Ao lado dele, um homem que Luna conhecia muito bem. Eduardo Montenegro. Luna ampliou a fotografia. Havia algo na mão de Eduardo. Um envelope. Ela sentiu o estômago revirar. Então apagou a tela.


[...]


Helena também não conseguia dormir. Noah estava sentado no chão da sala, encostado ao sofá, enquanto ela permanecia diante da janela.


— Você ainda acha que alguém está te seguindo? — perguntou.

— Eu tenho certeza.

— E as fotos?

Noah tirou o celular do bolso.

— Recebi outra.

Helena pegou o aparelho. Era uma imagem dele entrando no prédio dela. Tirada naquela noite. Ela levantou os olhos.

— Noah...

— Eu não queria trazer isso para você.

— Mas trouxe.

Ele abaixou a cabeça. Helena se aproximou e sentou ao lado dele.

— Então não vai embora sozinho.

Noah olhou para ela.

— Você sabe que isso pode ficar feio.

— Minha vida já estava ficando feia antes de você aparecer.

Ele sorriu.

— Sentiu minha falta?


Helena tentou resistir. Falhou. O beijo veio mais lento daquela vez, menos impulsivo e muito mais perigoso. Quando se afastaram, nenhum dos dois fingiu que aquilo tinha sido um acidente.


[...]


Dante recebeu a mensagem de Eduardo pouco depois da meia-noite.


"Kiran sabe."


Ele ficou imóvel diante da tela. Outra mensagem chegou.


"E Luna lembra."


Dante respirou fundo. Aquilo mudava tudo. Porque Kiran podia ser intimidado. Theo podia ser manipulado. Eduardo podia comprar silêncio, mas Luna La tinha uma coisa que nenhum deles possuía: Memória.


Dante levantou-se e caminhou até a janela. Pela primeira vez desde que começara a mover as peças contra Theo e Kiran, não sabia qual seria o próximo movimento. E, quando alguém como Dante perde o controle do jogo, a primeira coisa que costuma fazer não é recuar. É escolher quem será sacrificado.