JARDINS

18 Heranças 💰📜


Notas iniciais
"Alguns fantasmas não precisam aparecer para assombrar uma família. Basta deixar documentos suficientes para provar que um dia estiveram vivos. E, quando alguém começa a procurar por eles, geralmente descobre que o passado não estava tão enterrado assim." XOXO, GG. 💋

SOUNDTRACK DO CAPÍTULO: Exit Music (For a Film) by Radiohead.


Kiran passou a manhã seguinte procurando o irmão. Não fisicamente, é claro. Não sabia onde começar, nem se ainda existia algum lugar onde procurá-lo. Começou pelo que tinha: datas, nomes, fotografias antigas e tudo aquilo que Luna conseguira lembrar. Ela não possuía respostas, apenas fragmentos, mas às vezes um fragmento era mais perigoso do que uma verdade inteira.

Sentados no apartamento dela, os três reconstruíam uma história que ninguém parecia disposto a contar. Luna lembrava-se de uma viagem a Nova York, de um jantar em que o irmão de Kiran aparecera acompanhado de pessoas ligadas ao círculo dos Montenegro e, principalmente, da insistência de Eduardo para que ele aceitasse uma oportunidade em Londres. O que ela não conseguia lembrar era o que havia acontecido depois.


— Você tem certeza de que ele foi para Londres? — Kiran perguntou.

— Tenho certeza de que Eduardo queria que ele fosse.

— Não é a mesma coisa.

— Concordo, mas é o que eu sei.


Theo estava sentado diante dos dois, em silêncio, uma mão apoiada sobre o joelho e a outra segurando o celular. Vestia uma camisa azul-acinzentada de algodão fino da Loro Piana, calça preta de alfaiataria e os mesmos mocassins de couro que pareciam ter sido feitos para não chamar atenção, embora tudo nele chamasse. Desde a noite anterior, ele parecia preso entre duas necessidades incompatíveis: proteger o pai daquilo que ainda não sabia ser verdade e proteger Kiran daquilo que começava a parecer verdade demais.


— Meu pai não faria alguém desaparecer — disse finalmente.

Kiran olhou para ele.

— Eu não disse que fez.

— Mas está pensando que sim.

— Estou pensando que ele sabia alguma coisa.

Theo sustentou seu olhar.

— Eu também.

Foi a primeira vez que admitiu aquilo em voz alta.


Luna observou os dois e não interferiu. Havia algo diferente entre eles desde que o nome do irmão de Kiran entrara naquela sala. O romance ainda estava ali, a atração também, mas agora havia uma pergunta maior ocupando o espaço entre os dois. Até onde Theo estaria disposto a ir quando a verdade começasse a apontar para dentro da própria família?


Enquanto isso, Noah descobria que algumas ameaças ficavam muito mais assustadoras quando deixavam de chegar por mensagem. Ele estava saindo de uma cafeteria no Itaim quando percebeu o mesmo homem do outro lado da rua. Não conseguia afirmar que era ele. Talvez fosse apenas paranoia. Talvez fosse alguém esperando um táxi. Talvez fosse alguém que sequer soubesse que Noah existia, mas quando atravessou a rua, o homem atravessou também. Noah acelerou. O telefone vibrou.

Não corra. Você fica mais fácil de encontrar assim.

Ele parou e olhou para trás. Ninguém. Rapidamente ligou para Helena.


— Onde você está?

— Em casa.

— Eu preciso ir para aí.

— Noah, o que aconteceu?

— Depois eu explico.


Dessa vez, quando chegou ao apartamento dela, Helena não perguntou se ele estava exagerando. Abriu a porta e o puxou para dentro.


— Você está tremendo.

— É o que parece.

Ela segurou o rosto dele.

— Olha para mim.

Noah obedeceu.

— Você está seguro aqui.


Ele fechou os olhos. Durante alguns segundos, não existiu perseguidor, fotografia, mensagem ou segredo. Só a mão dela em seu rosto e aquela familiaridade que nenhum dos dois conseguira destruir completamente.


— Helena...

— Não.

— Eu só ia agradecer.

— Então agradeça sem estragar.


Ele sorriu. Ela também e o beijo veio antes que qualquer um dos dois pudesse decidir se deveria acontecer. Desta vez não foi uma recaída impulsiva. Foi escolha. Helena sabia exatamente o que estava fazendo quando segurou a gola da camisa dele e o puxou para perto, e Noah sabia exatamente o risco que corria ao corresponder. Quando se afastaram, Helena encostou a testa na dele.


— Isso não significa que eu perdoei você.

— Eu sei.

— Nem que vamos voltar.

— Eu também sei.

— Ótimo.

Noah sorriu.

— Posso continuar aqui?

Ela demorou um segundo.

— Pode.


[...]


No fim da tarde, Kiran encontrou a primeira pista. Não estava em um arquivo secreto, nem em uma gaveta escondida. Estava em um e-mail antigo. Um nome que Luna mencionara por acaso o levou a uma empresa de consultoria internacional que havia intermediado a suposta oportunidade do irmão anos antes. Kiran pesquisou até encontrar uma página arquivada. O programa existira. Londres era real. A vaga também, mas havia um detalhe: O patrocinador aparecia listado como uma holding internacional.

Kiran conhecia aquele nome. Era uma das empresas usadas pelo Grupo Montenegro para investimentos fora do país. Ele ficou olhando para a tela e sem pensar duas vezes, ligou para Theo.


— Encontrei uma coisa.

— O quê?

— A oportunidade do meu irmão.

Silêncio.

— Era real?

— Era.

Theo respirou aliviado por um instante.

— Então talvez meu pai só estivesse tentando ajudar.

— Theo.

A voz de Kiran mudou.

— O quê?

— A empresa que financiava o programa era uma holding do seu pai.

Do outro lado, Theo não respondeu.

— Você está aí?

— Estou.

— Theo...

— Me manda.


Kiran enviou o arquivo. Alguns segundos depois, Theo abriu e reconheceu imediatamente o logotipo. Não da empresa, do escritório que cuidava das operações internacionais da família. Seu estômago afundou.


— Eu conheço esse escritório — disse.

— Eu imaginei.

— Eles cuidam de operações antigas do meu pai.

— Então ele estava envolvido.

Theo fechou os olhos.

— Ainda não sabemos disso.

— Mas sabemos que ele financiou a saída do meu irmão.

— Kiran...

— E agora está tentando financiar a minha.

Theo não respondeu. Porque não havia mais como chamar aquilo de coincidência.


[...]


À noite, Dante encontrou Eduardo em um restaurante reservado onde ninguém os interromperia.

— Você sabia que Luna lembrava?

Eduardo sequer levantou os olhos do copo.

— Eu sabia que ela poderia lembrar.

— E não me contou.

— Você não perguntou.

Dante soltou uma risada seca.

— Estamos começando a ter um problema.

— Não. Você está começando a ter um problema.

Eduardo finalmente o encarou.

— Eu ainda tenho alternativas.

— E Kiran?

— Kiran ainda pode ser convencido.

— E se não puder?

Eduardo tomou um gole.

— Então mudamos o preço.

Dante entendeu. Dinheiro. A última carta.

— E Theo?

Eduardo ficou alguns segundos em silêncio.

— Theo ainda não sabe o suficiente.

Dante sorriu.

— Então temos tempo.

Eduardo olhou para ele.

— Não confunda tempo com segurança.


[...]


Pouco antes da meia-noite, Theo estava sozinho no escritório de casa quando recebeu uma nova mensagem de Kiran.

Achei outra coisa.

Era uma fotografia antiga. Um documento. No canto inferior havia uma assinatura.

Eduardo Montenegro.

Abaixo dela, uma autorização de transferência internacional e uma data. A mesma semana em que o irmão de Kiran desaparecera. Theo ampliou a imagem e leu novamente. Depois uma terceira vez. Seu pai havia assinado pessoalmente. Não era mais uma suspeita. Não era mais uma coincidência. Era uma escolha.

Theo fechou os olhos e deixou o celular sobre a mesa. Pela primeira vez na vida, percebeu que talvez não conhecesse o homem que o havia ensinado a reconhecer o poder e, em algum lugar da cidade, Kiran fazia exatamente a mesma descoberta sobre o homem que poderia ter destruído sua família.

Notas finais
"O problema dos segredos de família é que eles nunca pertencem a uma pessoa só. Quando começam a sair, levam todos junto." XOXO, GG. 💋