JARDINS
19 O Pacto 🔒🩸
Notas iniciais
Kiran permaneceu diante da tela depois que a última ligação terminou, imóvel, enquanto a chuva começava a desenhar pequenos caminhos no vidro da janela naquela noite de primavera. A cidade continuava funcionando lá embaixo, indiferente ao fato de que uma vida inteira acabava de ganhar uma pergunta que não poderia mais ser ignorada. O nome de Eduardo Montenegro permanecia no documento, acompanhado da assinatura e da data que coincidiam com a semana em que seu irmão desaparecera. Até poucas horas antes, Kiran acreditava estar procurando uma explicação para a participação de Eduardo naquela história; agora percebia que Eduardo era apenas uma porta. Havia alguma coisa atrás dela, alguma coisa que Theo reconhecera no instante em que recebera o arquivo, e aquela reação tinha sido mais reveladora do que qualquer documento.
Theo não perguntara o que significava a assinatura. Não demonstrara surpresa. Não parecera estar tentando entender. Ele simplesmente ficara em silêncio, como alguém que acabara de ver um fantasma que conhecia pelo nome. Kiran voltou à fotografia que havia encontrado, ampliou a imagem e observou o irmão mais uma vez. O rosto dele estava jovem, despreocupado, quase arrogante, cercado por pessoas que pertenciam àquele mesmo universo de festas, sobrenomes e portas fechadas. Então Kiran percebeu algo que não havia percebido antes. Seu irmão não estava apenas no mesmo lugar que aquelas pessoas. Ele estava com elas. Uma versão alguns anos mais jovem de Theo aparecia próximo demais para ser uma coincidência. Helena, que não mudara praticamente nada, também. Noah surgia ao fundo, sorrindo para alguma coisa que o irmão de Kiran provavelmente havia dito com o mesmo ar divertido que carregara no peito. E Dante estava ali, com aquela mesma expressão controlada que Kiran aprendera a desconfiar desde que ele reaparecera na vida de Theo.
Kiran tomou o telefone em mãos novamente, sentindo uma espécie de frio subir lentamente pelo corpo. Até aquele momento, Eduardo era o homem que ele sabia ter conhecido seu irmão. Luna era a pessoa que, por alguma razão, havia encontrado informações que ninguém mais parecia disposto a procurar. Mas aqueles quatro? Não. Aquilo nunca havia sido contado. Nem uma fotografia, nem uma história, nem uma frase casual. Nada. Kiran crescera acreditando que seu irmão havia pertencido a uma parte da vida que desaparecera junto com ele. Agora descobria que quatro pessoas que continuavam perfeitamente presentes na sua vida haviam feito parte daquela história desde o começo.
Então ligou para Theo novamente, na esperança de não ouvir aquilo que havia acabado de confirmar.
— Você conhecia meu irmão?
Do outro lado, o silêncio veio rápido demais. Kiran fechou os olhos.
— Theo.
— Sim.
A resposta foi baixa, quase sem força. Kiran abriu os olhos e encarou a fotografia.
— Desde quando?
— Já faz alguns anos... Você era bem mais novo.
A frase fez alguma coisa dentro dele quebrar, não pelo fato de Theo ter conhecido seu irmão, mas pela naturalidade com que respondeu. Como se aquela informação estivesse guardada em algum lugar da memória ao qual Kiran jamais tivesse tido acesso.
— Helena conhecia ele?
Theo não respondeu imediatamente.
— Conhecia.
Kiran sentiu a garganta apertar.
— Noah também?
— Sim.
Ele demorou mais antes da próxima pergunta, porque já sabia a resposta e talvez ainda estivesse tentando encontrar uma maneira de não ouvi-la.
— Dante?
O silêncio de Theo foi suficiente. Kiran desligou.
Não houve grito, acusação ou ameaça. Apenas o fim da ligação e o som seco do telefone sendo colocado sobre a mesa. Durante alguns segundos, ele ficou sentado, olhando para a fotografia como se pudesse obrigá-la a contar o resto. Dante conhecia seu irmão. Helena conhecia seu irmão. Noah conhecia seu irmão. Theo conhecia seu irmão. Os quatro sabiam quem ele era, haviam convivido com ele, haviam compartilhado lugares e noites que Kiran sequer sabia que existiam. E, durante todos aqueles anos, ninguém havia considerado importante contar ao irmão do homem desaparecido que conhecia pessoas que poderiam ajudá-lo a entender o que acontecera. A pergunta deixou de ser “onde meu irmão foi parar?” e se transformou em algo muito mais próximo de uma ferida: por que vocês nunca me disseram que ele esteve na vida de vocês?
Naquele instante, Kiran entendeu que a história não começava em Londres. Londres era apenas o lugar para onde alguém o mandara. A história começava antes. E, pela primeira vez, Kiran percebeu que Theo não estava tentando esconder apenas o envolvimento de Eduardo.
Theo estava tentando esconder uma noite.
[...]
Quando Theo chegou à casa de Helena, os outros dois já estavam lá. Noah permanecia próximo ao bar, sem tocar na bebida diante dele, enquanto Dante observava a chuva pela janela com as mãos nos bolsos. Helena estava sentada no sofá, o telefone virado para baixo sobre a mesa, como se não quisesse olhar para nenhuma outra mensagem. Não havia necessidade de explicar por que Theo os convocara. Bastava olhar para o rosto dele. Durante anos, os quatro haviam desenvolvido uma espécie de linguagem própria para aquele assunto; não precisavam mencionar nomes, datas ou lugares. Um olhar era suficiente para trazer de volta a noite que cada um tentava esquecer de uma maneira diferente. Theo entrou na sala e permaneceu alguns segundos em silêncio, porque sabia que aquela seria a primeira vez em muito tempo que precisaria dizer em voz alta aquilo que todos haviam evitado até entre eles.
— Kiran sabe.
Helena levantou os olhos.
— Sabe o quê?
— Que nós conhecíamos o irmão dele.
Noah fechou os olhos e Dante virou-se lentamente em direção à Theo.
— Todos?
— Eu confirmei.
Helena ficou pálida.
— Você contou?
— Ele descobriu sozinho.
Dante soltou um suspiro quase imperceptível.
— Então começou.
Theo olhou para ele.
— Não fala como se estivesse esperando por isso.
— Eu estava.
Helena levantou-se.
— Dante.
— O quê? — ele perguntou, sem alterar o tom. — A gente sabia que esse dia chegaria.
Noah finalmente se afastou do bar.
— Não desse jeito.
— Nunca é do jeito que a gente imagina.
Theo ignorou os dois e olhou para Helena.
— Ele perguntou sobre você.
Ela permaneceu imóvel.
— O que você respondeu?
— Que você conhecia o irmão dele.
Helena desviou o olhar.
— E Noah?
— Também.
Noah respirou fundo.
— E Dante?
Theo não respondeu. Dante sorriu sem humor.
— Ele já sabe.
Aquela frase permaneceu na sala como uma ameaça. Porque agora Kiran não tinha apenas descoberto que Eduardo estivera envolvido. Ele havia descoberto que os quatro estavam ligados ao irmão desaparecido. E essa informação, sozinha, já era suficiente para transformar cada conversa anterior em suspeita, cada silêncio em mentira e cada coincidência em uma possível pista. O pacto que os quatro haviam feito tantos anos antes nunca havia sido escrito, nunca precisara de assinatura, porque todos sabiam exatamente o que estava em jogo. O irmão de Kiran não havia sido um estranho que cruzara o caminho deles por acaso. Ele fazia parte daquele grupo, frequentava as mesmas festas, pertencia àquele círculo social. Ele era um deles e estava com eles quando aconteceu. E quando aquela noite terminou de uma maneira que nenhum dos quatro jamais conseguiu esquecer, foi Theo quem tomou a decisão que determinou o que aconteceria depois. Helena havia discordado. Noah carregara a culpa. Dante entendera antes de todos que aquilo poderia ser usado a favor dele. E Eduardo, quando soube, fez aquilo que sempre fazia quando o mundo ameaçava tocar no sobrenome Montenegro: colocou dinheiro, influência e distância entre o problema e a família. Londres tornou-se uma solução elegante. Uma oportunidade internacional. Um novo começo. Um desaparecimento que podia ser explicado sem precisar usar a palavra desaparecimento. E, durante anos, funcionou. Até Kiran começar a fazer perguntas. Até Theo se apaixonar por ele.
Helena foi a primeira a perceber a crueldade daquela coincidência.
— Ele está com você — disse.
Theo não respondeu.
— E agora está procurando pelo próprio irmão.
— Eu sei.
— Então você precisa contar.
Theo finalmente olhou para ela.
— Você sabe que não posso.
— Não, Theo. — Helena se aproximou. — Você não pode continuar dizendo que está protegendo Kiran quando, na verdade, está protegendo o que nós fizemos naquela noite.
Noah abaixou a cabeça e Dante, por sua vez, permaneceu em silêncio. Theo encarou Helena durante alguns segundos, e ela percebeu que havia acertado. Não porque ele tivesse concordado, mas porque aquela era a primeira vez que alguém colocava a verdade entre eles sem tentar suavizá-la.
— Eu tomei a decisão — disse Theo.
Helena não respondeu.
— Então a responsabilidade é minha.
— Não foi só você.
— Mas fui eu quem decidiu.
Noah ergueu os olhos.
— E eu deixei.
Dante soltou uma risada baixa.
— E eu aceitei.
Helena olhou para os dois.
— E eu fiquei.
Ninguém disse mais nada. Porque era esse o verdadeiro segredo. Não quatro versões diferentes de uma história. Uma única história. Quatro pessoas que sabiam o que havia acontecido com o irmão de Kiran e que, por razões diferentes, escolheram guardar aquilo. E agora Kiran sabia que eles o conheciam. O próximo passo seria descobrir por quê.
Na manhã seguinte, Kiran acordou com a sensação de que havia passado a noite inteira tentando lembrar de uma coisa que nunca tinha vivido. O rosto de Gael Alves, seu irmão mais velho, aparecia em fotografias espalhadas sobre a mesa do apartamento, algumas antigas, outras recuperadas de arquivos digitais que Luna havia conseguido encontrar durante a madrugada. Pela primeira vez, Kiran não estava procurando apenas pelo irmão desaparecido; estava tentando reconstruir o homem que existira antes de desaparecer. E quanto mais imagens encontrava, mais desconfortável ficava perceber que Gael não era uma figura distante daquele universo. Ele estava dentro dele. Havia fotografias em restaurantes, festas particulares, exposições, viagens, aniversários e noites que Kiran jamais soubera que haviam acontecido. Em algumas, Gael aparecia sozinho. Em outras, ao lado de Helena. Em uma delas, Noah estava com o braço sobre seu ombro, os dois rindo para a câmera. Em outra, Dante aparecia ao fundo, conversando com ele. Mas foi uma fotografia específica que fez Kiran parar. Gael estava ao lado de Theo. Não havia pose, nem formalidade, nem aquela distância educada que duas pessoas de círculos sociais diferentes manteriam diante de uma câmera. Os dois pareciam amigos. Próximos. À vontade. Kiran ficou olhando para aquela imagem por tanto tempo que Luna, sentada do outro lado da mesa, percebeu que ele já não estava lendo nenhuma das informações na tela.
— Você nunca soube disso?
Kiran balançou a cabeça.
— Nunca.
Luna não perguntou mais nada. Talvez porque também estivesse começando a entender que aquilo era maior do que uma história sobre Eduardo Montenegro. Ela havia chegado àquele segredo através da Gossip Girl, como quem encontra uma porta escondida numa casa que julgava conhecer. Kiran, entretanto, estava descobrindo que aquela porta sempre estivera dentro da própria vida. Luna deslizou o celular pela mesa até ele.
— Essa apareceu ontem.
Kiran abriu a fotografia. Era mais antiga que as outras. Uma festa em uma casa que ele reconhecia vagamente, embora nunca tivesse estado ali. Gael estava ao centro, Helena à direita, Noah sentado no chão e Dante próximo ao bar. Theo aparecia atrás deles. Os cinco estavam juntos. Kiran ergueu os olhos.
— Cinco.
Luna permaneceu quieta.
— Theo, Helena, Noah, Dante... e Gael.
Ela assentiu. Kiran voltou à fotografia. A palavra saiu quase num sussurro.
— Eles não só conheciam ele.
Luna esperou.
— Eles eram amigos dele.
Foi nesse momento que Kiran compreendeu que a descoberta mais dolorosa não era que seu irmão tivesse conhecido aquelas pessoas. Era que aquelas pessoas tinham conhecido Gael suficientemente bem para possuir memórias que Kiran jamais tivera. Helena talvez soubesse como ele era quando estava bêbado. Noah provavelmente conhecia suas piadas e talvez até tivesse dividido um baseado com ele. Dante conhecia seus defeitos. Theo conhecia a maneira como Gael pensava. Talvez soubessem qual era sua música preferida, onde gostava de ir, de quem tinha medo, o que queria fazer da vida. Talvez soubessem coisas que Kiran, o irmão, nunca tivera a oportunidade de descobrir. E todos haviam escolhido permanecer em silêncio. Kiran levantou-se por fim, decidido.
— Eu preciso falar com eles.
Luna segurou o próprio copo, observando-o.
— Com todos?
— Não.
Ele pegou o casaco.
— Primeiro com Helena.
[...]
Helena estava em seu apartamento no bairro do Higienópolis quando a portaria interfonou. Não esperava ninguém. Desde a noite anterior, permanecera sentada diante da mesma janela, tentando encontrar alguma versão daquela história que pudesse ser contada sem destruir tudo. Não encontrou. Quando atendeu o interfone, a voz do porteiro anunciou quem era. Ela ficou em choque, mas autorizou ele a subir. Quando abriu a porta e viu Kiran, soube imediatamente que ele já sabia uma parte. O problema era descobrir qual.
— Posso entrar?
Helena abriu espaço. Kiran entrou sem olhar ao redor. Não havia raiva evidente em seu rosto, e isso a assustou mais do que qualquer grito teria assustado. Ele caminhou até a sala e colocou o telefone sobre a mesa, deixando aberta a fotografia de Gael. Helena viu e por um segundo, perdeu a capacidade de respirar normalmente.
— Você conhecia meu irmão.
Não foi uma pergunta. Helena sentou-se devagar no sofá, como se estivesse receosa.
— Sim.
Kiran permaneceu de pé.
— Há quanto tempo?
— Antes de você conhecer qualquer um de nós.
— Quanto tempo?
Helena olhou para a fotografia.
— Alguns anos.
Kiran soltou o ar pelo nariz, tentando controlar a própria emoção.
— Ele era seu amigo?
Helena demorou a responder.
— Kiran, eu...
— Responda, ele era seu amigo?
— Era.
— Próximo?
Ela assentiu. Kiran desviou o olhar.
— Por que você nunca me contou?
Helena fechou os olhos por um instante.
— Porque eu prometi.
Kiran voltou-se para ela.
— Prometeu o que e para quem?
Helena não respondeu e foi a ausência de resposta que entregou o resto.
— Theo?
Silêncio.
— Noah?
Nada.
— Dante?
Helena baixou os olhos. Kiran ficou parado, tentando absorver aquilo.
— Os três.
Ela não negou.
— Os quatro sabiam, é claro.
Kiran passou a mão pelo rosto.
— Meu Deus.
Helena se levantou.
— Kiran, você precisa entender que...
— NÃO! Eu preciso entender justamente o que vocês nunca quiseram me explicar.
Ele pegou o telefone novamente.
— Vocês quatro conheceram Gael. Vocês quatro estavam na vida dele. Vocês quatro sabem alguma coisa sobre o desaparecimento dele. Eduardo sabe. Luna descobriu alguma coisa. E eu fui o único idiota que passou todos esses anos acreditando que simplesmente não havia respostas.
— Você não foi idiota.
— Então o que eu fui?
Helena não conseguiu responder. Kiran aproximou-se.
— Algo aconteceu com ele. O que aconteceu?
Helena ficou imóvel. A pergunta atravessou a sala como uma lâmina.
— Kiran, não...
— O que aconteceu naquela noite?
Aquilo havia pegado a Albuquerque totalmente despreparada.
— Que noite?
Kiran a encarou.
— A noite que ninguém quer mencionar.
Helena sentiu os olhos arderem. Porque agora tinha certeza de uma coisa: Kiran ainda não sabia o que havia acontecido. Mas estava perto. Perto demais.
— Eu não posso te contar tudo.
Kiran deu um sorriso triste.
— É impressionante como todo mundo está usando exatamente a mesma frase.
Helena fechou os olhos.
— Porque nós fizemos uma promessa.
— Vocês fizeram uma promessa sobre o meu irmão!
— Sim.
Kiran ficou em silêncio durante alguns segundos. Então pegou o telefone e guardou a fotografia.
— Obrigado.
Helena franziu a testa.
— Pelo quê?
— Por finalmente me dar uma resposta.
Ele caminhou até a porta. Antes que saísse, Helena falou:
— Kiran.
Ele parou.
— Gael gostava muito de você.
Kiran não se virou.
— Eu sei que gostava.
A voz dele falhou.
— Eu só queria ter tido mais tempo para descobrir quem ele era.
Helena não conseguiu dizer mais nada. Quando a porta se fechou, ela permaneceu parada no meio da sala, sabendo que acabara de perder a última possibilidade de manter aquela história enterrada. E, pela primeira vez, teve medo não do que Kiran descobriria sobre Gael, mas do que descobriria sobre Theo.
Kiran não foi diretamente para Theo. Antes disso, decidiu esfriarna cabeça na chuva. Passou na Praça Roosevelt e permaneceu por lá durante algumas horas. A conversa com Helena havia lhe dado uma resposta e, ao mesmo tempo, criado outras vinte perguntas. Ela conhecia Gael. Não apenas conhecia: tinha sido amiga dele. Theo conhecia Gael. Noah conhecia Gael. Dante conhecia Gael. E os quatro haviam feito uma promessa. Uma promessa sobre seu irmão. Kiran repetia mentalmente aquela frase como se pudesse encontrar nela alguma explicação escondida, mas quanto mais repetia, mais absurda ela parecia. Por que quatro pessoas precisariam prometer alguma coisa sobre alguém que simplesmente havia ido embora? Por que Eduardo precisaria financiar uma oportunidade em Londres? Por que Theo teria medo de falar? E, principalmente, por que ninguém havia contado a Kiran que Gael fazia parte daquele círculo?
Depois de horas, decidiu ir até o hotel onde sabia que encontraria Theo naquela noite. Não entrou imediatamente. Ficou alguns minutos com as mãos dentro do bolso, olhando para a fachada iluminada do Fasano, elegante demais para combinar com a sensação de desmoronamento que carregava dentro do peito. Theo havia escolhido aquele lugar para a conversa porque sabia que Kiran não queria ser visto em um escritório e nem em seu apartamento, e porque, depois de tudo o que acontecera entre eles, talvez precisassem de um território neutro. Mas não existia território neutro quando o assunto era Gael Alves.
Theo estava no bar do hotel, sozinho, diante de uma taça de martini que praticamente não havia tocado. Vestia preto, como quase sempre fazia quando queria desaparecer dentro de si mesmo, e mantinha o olhar perdido na movimentação discreta do salão. Quando viu Kiran entrar, soube imediatamente que Helena havia falado. Não sabia o quanto, mas sabia o suficiente.
Kiran caminhou até a mesa e sentou-se diante dele sem cumprimentá-lo. Por alguns segundos, os dois apenas se encararam, e havia tanta coisa naquele silêncio que Theo preferiu não tentar preenchê-lo.
— Você conhecia o Gael.
Theo respirou fundo.
— Conhecia.
— Helena disse que ele era amigo dela.
— Era.
— E seu?
Theo baixou os olhos por um instante.
— Também.
Kiran assentiu lentamente, como se estivesse confirmando uma informação que ainda lhe parecia impossível.
— Você nunca me contou.
— ...
— Por quê?
Theo levantou o olhar.
— Porque eu sabia que um dia você faria essa pergunta.
— E esperou até eu descobrir sozinho?
— Eu tentei evitar que você precisasse descobrir.
Kiran soltou uma risada curta, amarga.
— Você continua chamando isso de proteção.
Theo ficou em silêncio.
— Meu irmão desapareceu, Theo. Eu passei anos tentando entender o que aconteceu com ele. E você estava lá. Você conhecia o homem que eu procurava.
— Sim.
— Você sabia como ele era.
— Sim.
— Sabia quem eram os amigos dele.
Theo não respondeu. Kiran inclinou-se sobre a mesa.
— Sabia que ele estava naquela noite.
O rosto de Theo mudou. Foi pequeno, quase imperceptível, mas Kiran percebeu. Aquilo confirmou mais do que qualquer documento poderia confirmar.
— Que noite?
Theo tentou ganhar tempo, mas Kiran não permitiu.
— A noite que Helena não consegue mencionar. A noite que Noah provavelmente não consegue mencionar. A noite que Dante conhece. A noite que seu pai parece ter pago para apagar. A noite que você está tentando esconder de mim.
Theo permaneceu imóvel enquanto Kiran sentiu seus próprios olhos arderem.
— O que aconteceu com Gael?
Theo apertou a mandíbula.
— Eu não posso te contar tudo.
Kiran recostou-se na cadeira e ficou alguns segundos olhando para ele. A resposta, dessa vez, não o surpreendeu. O que o atingiu foi perceber que Theo estava sofrendo. Não como alguém que acabara de ser acusado injustamente, mas como alguém que carregava aquela noite dentro de si havia anos.
— Foi você quem decidiu, não foi?
Theo ergueu os olhos. Kiran continuou:
— Helena falou de uma promessa. Noah deve ter culpa. Dante sabe mais do que demonstra. Eduardo pagou pela saída de Gael. E você... você parece ser a única pessoa que ainda acredita que pode carregar tudo sozinho.
Theo ficou pálido.
— Kiran, eu...
— Foi você quem decidiu o que aconteceria com ele.
O silêncio que veio depois foi a resposta. Kiran sentiu o coração afundar. Theo não confirmou, mas também não negou. E, naquele momento, Kiran percebeu que talvez a maior mentira de sua vida não tivesse sido contada por Eduardo, nem pela família, nem pelo mundo que havia permitido que Gael desaparecesse sem deixar rastros. Talvez tivesse sido construída pelas quatro pessoas que permaneceram ao lado dele depois que Gael se foi.
Theo estendeu a mão sobre a mesa, mas não tocou nele.
— Eu nunca quis que isso acontecesse com você.
Kiran olhou para a mão dele.
— Mas aconteceu.
Theo recolheu a mão.
— Eu amava seu irmão.
A frase fez Kiran levantar os olhos imediatamente.
— O quê?
Theo respirou fundo.
— Não como você está pensando. Eu amava Gael como amigo. Ele fazia parte da minha vida. Fazia parte da nossa vida. E foi exatamente por isso que aquela noite nunca deixou de existir. Kiran ficou imóvel.
— Então me conta.
Theo não respondeu.
— Me conta quem ele era.
Dessa vez, Theo conseguiu sorrir, mas havia uma tristeza profunda naquele sorriso.
— Gael era impossível.
Kiran quase riu, apesar de tudo.
— Isso eu já sabia.
— Não. Você não sabia. — Theo olhou para ele. — Ele entrava em qualquer lugar como se tivesse sido convidado pessoalmente pelo dono. Tinha uma facilidade irritante para descobrir quando alguém estava mentindo. Gostava de provocar Helena porque sabia exatamente quais botões apertar. Noah adorava ele. Dante... — Theo interrompeu-se por um instante. — Dante respeitava Gael.
Kiran franziu a testa.
— Dante respeitava meu irmão?
— Mais do que você imagina.
Aquilo o incomodou. Talvez mais do que deveria. Porque Dante era a última pessoa que Kiran esperava encontrar naquela história.
— E você?
Theo sustentou seu olhar.
— Eu confiava nele e ele em mim.
Kiran desviou os olhos.
Durante anos, imaginara que Gael havia desaparecido sozinho, levado para algum lugar onde ninguém conseguia alcançá-lo. Agora descobria que havia pessoas capazes de contar histórias sobre ele, lembranças que ainda existiam em quatro homens que haviam permanecido em sua vida enquanto o irmão desaparecia da própria.
— Então por que vocês fizeram a promessa?
Theo ficou alguns segundos em silêncio.
— Porque depois daquela noite nós entendemos que contar a verdade destruiria mais do que uma pessoa.
— Quem?
Theo olhou para Kiran.
— Todos nós.
Kiran sentiu um arrepio.
— E Eduardo?
Theo não respondeu.
— Ele pagou para Gael ir embora?
— Eduardo resolveu as consequências.
— Para proteger você?
Theo baixou os olhos.
— Sim.
Kiran levantou-se devagar. Não havia mais espaço para permanecer sentado diante dele.
— Eu preciso saber tudo.
Theo também se levantou.
— Eu sei.
— E vou descobrir.
— Eu sei.
Kiran caminhou alguns passos, mas parou antes de chegar à saída. Olhou para Theo uma última vez.
— Uma coisa eu quero que você entenda.
Theo esperou.
— O que mais dói não é descobrir que meu irmão conhecia vocês. — Kiran engoliu em seco.
— É descobrir que vocês conheceram uma parte dele que eu nunca tive a chance de conhecer.
Theo não encontrou resposta. Kiran saiu. Do outro lado do salão, ninguém percebeu quando Dante entrou, mas Theo percebeu. E, quando seus olhos se encontraram, Dante não precisou perguntar o que havia acontecido. Ele já sabia. O segredo estava começando a ruir.
Kiran deixou o Fasano a pé, sem saber exatamente para onde estava indo. A noite estava úmida e as calçadas refletiam as luzes dos carros, dos restaurantes e dos prédios como se São Paulo tivesse sido coberta por uma fina camada de verniz. Ele caminhou algumas quadras antes de pedir um carro por aplicativo, mas durante o trajeto permaneceu em silêncio, olhando pela janela sem realmente enxergar a cidade. A descoberta não era apenas sobre Eduardo. Eduardo já fazia parte daquela equação. O que Kiran ainda não conseguia compreender era como quatro pessoas tão diferentes entre si poderiam compartilhar a mesma informação sobre Gael e, durante anos, nunca terem dito uma única palavra. Theo conhecia seu irmão. Helena conhecia seu irmão. Noah conhecia seu irmão. Dante conhecia seu irmão. E, pior, os quatro haviam estado próximos o suficiente para que existissem fotografias, histórias, lembranças. Kiran não conseguia parar de pensar nisso. Ele havia passado anos tentando recuperar pequenos pedaços de Gael enquanto quatro pessoas que continuavam circulando ao seu redor carregavam versões inteiras dele dentro da memória. E nenhuma delas havia achado que Kiran tinha o direito de saber.
Quando chegou ao próprio apartamento, não acendeu todas as luzes. Deixou apenas a iluminação da sala, tirou o casaco e abriu novamente os arquivos que havia encontrado. A assinatura de Eduardo continuava ali. A data continuava ali. Mas agora o documento parecia menos importante do que as fotografias. Kiran começou a procurar por Gael entre imagens antigas, tentando reconstruir sua presença naquele grupo. Em uma fotografia, Helena estava ao lado dele. Em outra, Noah ria com ele. Dante aparecia em uma terceira, conversando com Gael como se os dois tivessem uma história que Kiran desconhecia completamente. E então apareceu Theo. Theo e Gael estavam juntos, próximos, sorrindo para alguma coisa fora do enquadramento. Kiran ampliou a imagem até perder definição. Não havia como interpretar aquilo como uma simples coincidência. Eles eram amigos. Talvez próximos. Talvez muito próximos. E isso fez uma pergunta surgir com uma força quase física: o que Theo sabia sobre Gael que nunca contou?
O telefone vibrou sobre a mesa. Uma mensagem de um número desconhecido.
"Você está procurando pela noite errada.”
Kiran ficou olhando para a tela. Outra mensagem chegou.
“Procure pelo último lugar onde Gael esteve antes de Londres.”
Ele não respondeu. Salvou o número e voltou para a fotografia. Não sabia quem estava enviando aquelas mensagens, mas sabia que alguém acompanhava sua investigação. E, pela primeira vez, percebeu que talvez não estivesse simplesmente encontrando pistas antigas. Talvez alguém estivesse escolhendo quais pistas colocar diante dele.
[...]
Helena permaneceu em seu apartamento depois que Theo deixou a conversa dos quatro terminar. Ela já sabia que Kiran havia descoberto sobre todos eles. Theo havia contado. Não existia mais a possibilidade de fingir que o segredo continuava intacto. Helena abriu uma gaveta e retirou uma fotografia antiga de Gael, segurando-a por alguns segundos antes de colocá-la sobre a mesa. Não havia mais nada que pudesse fazer para impedir que Kiran perguntasse. O pacto não significava mais silêncio absoluto; significava apenas que nenhum deles ainda estava preparado para ser o primeiro a contar a verdade inteira. Helena conhecia Kiran suficientemente bem para saber que ele não desistiria. E conhecia Theo suficientemente bem para saber que ele tentaria carregar aquilo sozinho até o último segundo. O que a assustava não era apenas o que Kiran poderia descobrir sobre Gael. Era o que descobriria sobre cada um deles quando começasse a perguntar o que aconteceu naquela noite.
O celular de Helena acendeu. Uma mensagem de Theo.
“Ele veio falar comigo”
Helena olhou para a fotografia.
“Eu imaginei.”
Depois de alguns segundos, outra mensagem apareceu.
“Ele perguntou sobre aquela noite.”
Helena fechou os olhos.
“E você?”
A resposta demorou.
“Ainda não.”
Helena deixou o telefone sobre a mesa. Ela sabia o que aquilo significava. Ainda não, mas em breve.
[...]
Noah estava sozinho quando recebeu uma mensagem de Kiran.
“Você gostava do Gael?”
Ele ficou olhando para a pergunta durante muito tempo. Poderia ter respondido com uma mentira conveniente. Poderia ter dito que eram apenas conhecidos, que haviam se encontrado algumas vezes, que não havia nada importante entre eles. Mas depois de tantos anos, aquela seria uma mentira pequena demais diante de tudo que já haviam escondido.
“Sim.”
A resposta de Kiran veio alguns minutos depois.
“Então me conte alguma coisa sobre ele que eu não saiba.”
Noah fechou os olhos. Sentou-se no sofá e deixou a cabeça cair para trás. Pela primeira vez, percebeu que talvez contar pequenas lembranças fosse ainda mais cruel do que permanecer em silêncio. Porque cada detalhe que oferecesse a Kiran seria também uma prova da quantidade de coisas que ele havia perdido.
“Ele odiava ser chamado de Gaelzinho.”
A resposta veio quase imediatamente.
“Isso eu sei.”
Noah sorriu, mas seus olhos se encheram de lágrimas. Ele sabia. Claro que sabia. Gael era irmão de Kiran antes de ser amigo de qualquer um deles.
[...]
Dante recebeu a mesma pergunta algumas horas depois. Não diretamente. Kiran não lhe mandou mensagem. Em vez disso, uma fotografia antiga apareceu no celular de Dante através de um número desconhecido. Gael estava nela. Ao lado, Dante. Abaixo da fotografia havia apenas uma frase:
“Você se lembra?”
Dante não respondeu. Guardou o telefone no bolso e foi até a janela de seu apartamento. A cidade se espalhava diante dele, brilhando em silêncio. Durante anos, acreditara que o segredo era uma espécie de moeda. Algo que poderia guardar, trocar, usar quando necessário. Mas agora percebia que havia uma diferença entre possuir uma informação e estar preso a ela.
O telefone vibrou novamente. Desta vez, era Theo.
“Não fale com Kiran sozinho.”
Dante sorriu.
“Está com medo de mim?”
A resposta demorou.
“Estou com medo do que você pode fazer com a verdade.”
Dante apagou a mensagem. Porque essa, talvez, fosse a única coisa que Theo ainda não havia entendido. Dante não precisava inventar uma história. Bastava contar uma parte da verdadeira.
[...]
Na mansão Montenegro, Eduardo permaneceu sozinho no escritório depois que todos os funcionários foram embora. Sobre a mesa estava o mesmo envelope que havia guardado durante anos. Gael Alves. O nome continuava escrito na frente com uma caligrafia que parecia pertencer a outra vida. Eduardo abriu o envelope, mas não retirou todos os documentos. Apenas o primeiro. Leu e depois guardou novamente.
O que acontecera com Gael não era uma história que Eduardo havia criado. Mas ele sabia exatamente o que havia feito depois que tudo aconteceu. Sabia por que havia colocado dinheiro naquela saída. Sabia quem precisava ser protegido. E sabia que, se Kiran descobrisse toda a extensão daquela história, o nome Montenegro não seria o único a cair.
Seu celular tocou. Era Theo. Eduardo atendeu.
— Você contou a eles?
— Eles já sabem.
— E Kiran?
Theo ficou em silêncio.
— Ele sabe que conhecíamos Gael — respondeu finalmente.
Eduardo fechou os olhos.
— Então o pacto acabou.
Theo respirou fundo.
— Não.
Eduardo olhou novamente para o envelope.
— Theo...
— O pacto só acaba quando alguém contar o que realmente aconteceu.
Silêncio. Eduardo não respondeu. Porque os dois sabiam que aquela era a única coisa que ainda não havia acontecido.
[...]
Em seu apartamento, Luna recebeu uma nova publicação da Gossip Girl. Dessa vez, não havia fotografia. Apenas uma frase:
“O problema de um pacto é que ele depende de todos os envolvidos continuarem querendo a mesma coisa. E parece que, desta vez, alguém mudou de ideia.”
Luna ficou olhando para a tela. Não sabia quem havia mudado de ideia. Theo? Helena? Noah? Dante? Eduardo? Ou talvez a própria Gossip Girl estivesse apenas tentando provocar uma reação.
Ela abriu a conversa com Kiran, mas não escreveu nada. Guardou o telefone e permaneceu diante da janela. Porque havia descoberto uma coisa que ainda não tinha contado a ele. Uma última pista. Um nome. Um lugar. E uma fotografia que poderia explicar por que Gael Alves nunca voltou.
[...]
Naquela mesma noite, Kiran recebeu outra mensagem. Desta vez, não havia texto. Apenas uma fotografia. Gael. Sozinho. E atrás dele, perfeitamente visível, um lugar que Kiran reconheceu imediatamente. Abaixo da imagem, uma única frase:
“Agora pergunte ao Theo por que ele nunca contou que esteve lá.”
Kiran ficou imóvel. Porque aquele lugar não era Londres. Era São Paulo. E, pela primeira vez, a investigação deixava de apontar para o lugar onde Gael desapareceu. Começava a apontar para o lugar onde tudo começou.
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