JARDINS

6 Entrelinhas 🕯️🗝️


SOUNDTRACK DO CAPÍTULO:

Retrograde by James Blake.


Existiam decisões que Theo Montenegro tomava rápido demais para parecerem pensadas; Outras que demoravam exatamente o tempo necessário para parecerem espontâneas.

Às 18h47 daquela sexta-feira chuvosa, ele estava parado no meio do closet segurando duas camisas e ignorando completamente o fato de que qualquer pessoa minimamente funcional resolveria aquilo em menos de quinze segundos.

O closet ocupava um ambiente inteiro ao lado da suíte principal e tinha parado de parecer um closet em algum momento do projeto arquitetônico. Madeira escura acetinada, vidro fumê do chão ao teto e iluminação quente embutida desenhavam o tipo de ambiente que não existia para impressionar visita — existia para tornar excesso confortável. No lado esquerdo, camisas organizadas primeiro por tecido e depois por cor ocupavam uma sequência quase obsessiva de precisão: linho separado de algodão, algodão separado de seda, seda separada das peças sob medida que nem carregavam etiqueta aparente. Entre as fileiras apareciam repetições silenciosas de Loro Piana, algumas Brunello Cucinelli, poucas Tom Ford e um número indecente de peças que só eram identificáveis por quem já tinha entrado numa prova de roupa privada. Mais ao fundo, alfaiataria. Blazers da Zegna, alguns casacos Saint Laurent que quase nunca saíam do cabide e uma quantidade suspeita de azul-marinho para alguém que jurava não se vestir igual todos os dias.

No centro do ambiente, no teto, um lustre que parecia custar um pouco mais do que dez salários mínimos; no chão, uma ilha revestida em couro claro organizava pequenas coisas que Theo fingia não notar: carteiras de diversos tamanhos e couros diferentes, que também falavam idiomas diferentes dado seus países de origem, abotoaduras em ouro e diamantes com suas iniciais, óculos escuros em uma variedade impressionante de formatos e um compartimento embutido que parecia decoração até abrir. Dentro dele, um cofre revestido em madeira clara guardava documentos, um anel antigo dos Montenegro e relógios suficientes para sustentar uma família inteira por pelo menos três décadas: cinco Patek Philippe, três Rolex e um Audemars Piguet que ele tinha comprado num impulso e usado menos do que gostaria de admitir. Nada ficava exposto. Ostentação sempre pareceu uma forma meio desesperada de pedir atenção, na visão dele.

Theo abriu o compartimento, olhou os relógios por alguns segundos e fechou de novo. Não era sobre relógio. Era sobre camisa. As duas opções estavam penduradas do lado de fora do armário em um cabide destinado exatamente para isso. A primeira era uma camisa vinho em linho da Loro Piana — elegante demais para fingir despretensão, exatamente o tipo de roupa que assumia presença antes da pessoa entrar no ambiente. A segunda era uma camisa areia em algodão e seda da Brunello Cucinelli que fazia parecer que aparência simplesmente acontecia sem esforço.

Theo pegou a vinho primeiro, apoiou contra o corpo e observou o reflexo frente ao espelho sem realmente olhar para si. Guardou. Pegou a areia. Vestiu. Abotoou até o penúltimo botão. Olhou de novo. Tirou. Ficou alguns segundos parado segurando as duas como se estivesse tentando responder uma pergunta que ninguém tinha feito.

Receber pessoas em casa nunca era sobre roupa. Era sobre escolher quanto de você estaria disponível naquela noite. Voltou para a camisa vinho. Vestiu, sem testar de novo, sem pedir segunda opinião. Era essa!


Dessa vez abriu o compartimento central, pegou um Patek Philippe Aquanaut em ouro rosa e ajustou no pulso com o mesmo movimento automático de quem já tinha decidido antes de começar a pensar. Saiu do closet. Na sala principal, alguém reposicionava uma bandeja de cristal. Theo abriu a boca antes de pensar.


— Não precisa mexer nisso!


O garçom imediatamente parou e o encarou com um olhar que traduzia um pedido de desculpas silencioso.

Theo respirou.


Desculpa. Pode continuar.


Seguiu andando. A cobertura estava pronta.


Do terraço principal, São Paulo começava a acender em camadas enquanto o vidro refletia só o suficiente para lembrar que vista também era uma forma de decoração. A chuva do lado de fora havia engrossado e deixava a cidade ainda mais bela e admirável, sobretudo do alto da cobertura. Algumas velas Dipytique perfumadas ocupavam pontos discretos da sala de visitas e o som preenchia o ambiente, baixo o bastante para existir e alto o bastante para impedir silêncios constrangedores. Sobre o aparador principal, garrafas de Ruinart Blanc de Blancs descansavam em baldes de prata escovada como se tivessem aparecido ali por acaso. Nada naquela cobertura parecia montado. Esse era justamente o ponto.

Theo atravessou os ambientes num ritmo que não era pressa e também não era passeio. Conferiu as mesas sem realmente conferir, ajustou um livro que estava dois centímetros fora do lugar, mudou uma cadeira de posição, e imediatamente devolveu para onde estava antes. Receber pessoas em casa tinha esse defeito: fazia parecer importante coisas que nunca seriam percebidas.


Na cozinha de apoio alguém finalizava os últimos detalhes do serviço. Os blinis com salmão curado já estavam posicionados; As gougères sairiam quentes; Os mini tartares entrariam só depois. Theo assentiu sem ouvir metade do que estavam explicando.

O celular vibrou. Helena estava ligando. Atendeu depois de algum tempo.


Já começou sua fase organizador de casamento?

— Não.

— Então por que demorou 5 minutos pra responder?

Theo sorriu.

Porque eu estava ocupado.

— Revendo a posição da taça?

Pausa.

Te conheço.

— Até mais tarde, Helena.

E desligou.


Foi até o terraço. Parou e olhou a cidade. Setembro tinha aquele clima estranho de São Paulo que deixava qualquer roupa parecer certa. Ainda existia frio suficiente para justificar manga comprida e calor suficiente para abrir os primeiros botões. A chuva se intensificava ao passar dos minutos. O celular vibrou de novo. Noah.


"Chego 20h15."

"Ok."

Digitando.

"Posso levar alguém?"


Theo leu. Leu de novo. A pergunta era desnecessária. Noah nunca perguntava coisas que já sabia que podia fazer.


"Pode."


Enviou sem refletir muito na pergunta e guardou o celular. Cinco segundos depois ele tirou do bolso de novo. Abriu a lista e desceu pelos nomes: Helena. Noah. Alguns sobrenomes conhecidos. Passou os olhos e parou no nome que queria. Kiran. Olhou por um segundo e continuou. Logo depois, bloqueou e colocou o celular virado para baixo.


Às 19h56 tocaram a campainha. Helena Albuquerque. Claro. Ela entrou como se conhecesse o caminho antes da porta abrir — e de fato conhecida, desde criança. Trajava um vestido preto Versace e um relógio Cartier discreto demais para ser percebido por quem não prestava atenção. Não abraçou Theo imediatamente. Caminhou alguns passos pela sala, pegou uma garrafa de Acqua Panna, observou a disposição dos ambientes e voltou.


— Você mudou as velas.

Theo fechou a porta.

Você percebeu?

Ela deu um sorriso pequeno.

Você também.


Continuou andando. Passou pelo terraço, olhou e voltou. Pegou uma taça de champagne, virando-se para ele.


Tá esperando alguém em especial?

Theo respondeu rápido demais.

Não.

Helena sustentou o olhar um segundo a mais. Não insistiu. Existiam perguntas que ela fazia e existiam perguntas que ela preferia deixar amadurecer.


Às 20h21 começaram a chegar os primeiros convidados e por alguns minutos tudo aconteceu exatamente como deveria. Gente entrando. Comentários sobre a vista. Perguntas sobre a arquitetura. Conversas cruzadas. Garçons aparecendo exatamente quando uma taça terminava. Nada acontecia.


Às 20h45 o elevador abriu de novo. Noah Saad entrou sozinho, segurando o IPhone 17 numa mão e pegando uma taça antes mesmo de terminar de atravessar a sala. Olhou em volta e assentiu.


Nossa.

Theo levantou uma sobrancelha.

Isso é elogio?

Noah bebeu um gole da bebida e olhou de novo.

Isso é preocupação.

Theo ignorou. Noah continuou andando pela sala como se estivesse avaliando um imóvel.

Você realmente fez uma soirée.

Theo pegou uma água.

Tecnicamente.

Noah virou.

Quantas pessoas?

— Vinte.

Noah quase engasgou.

Isso já é grupo focal.

Theo sorriu. Noah deu mais um gole e olhou casualmente.

Ah, trouxe mais um, espero que não se importe. Theo nem levantou o olhar.

— Tudo bem.

Noah apoiou a taça.

Não achei que você fosse ligar.

Theo respondeu imediatamente.

Não ligo.

Noah assentiu rápido demais e mudou de assunto, como quem não percebeu nada.


[…]


Às 20h50 o elevador abriu de novo. Theo não estava olhando só ouviu alguém cumprimentando discretamente o garçom. Quando virou, constatou quem era: Kiran Alves. Sozinho. Sem apresentação. Sem anúncio.

Vestia uma camisa branca básica com a manga dobrada, uma calça de sarja azul marinho e um par de Adidas que completamenta o look e deixava-o com um ar mais descontraído.

Parou alguns segundos perto da entrada como pessoas fazem quando chegam num lugar novo e decidem entender o ambiente antes de entrar nele. Não parecia desconfortável, mas também não parecia de todo confortável. Parecia alguém que tinha escolhido estar ali.

Theo ficou olhando um segundo além do necessário. Kiran percebeu e sorriu antes de se aproximar. Quando chegou perto o suficiente, abriu os braços num gesto simples e natural demais para parecer calculado. Theo demorou meio segundo. Pouco o suficiente para ninguém notar; Muito para ele perceber. Retribuiu do jeito que pessoas retribuem abraços quando não estavam esperando abraço nenhum.


Espero não estar atrasado.


Afastaram. Theo ajustou discretamente o relógio no pulso sem precisar ajustar.


Ainda não começou.


Kiran olhou em volta, acompanhando o movimento da sala com curiosidade tranquila, pegou uma taça de água de uma bandeja que passava e voltou o olhar para ele.


Então cheguei cedo.


Theo assentiu e apontou discretamente para o terraço.


Fica melhor lá fora.


Kiran acompanhou o gesto e demorou alguns segundos olhando para o outro lado do vidro antes de responder.


Você fala da vista ou das pessoas?

Theo quase sorriu.

Depende da companhia.


Kiran assentiu como se tivesse entendido alguma coisa além da resposta e seguiu naquela direção sem esperar companhia. Theo ficou parado alguns segundos antes de ser imediatamente puxado de volta para a função de anfitrião por alguém comentando sobre a altura do pé-direito, outra pessoa perguntando sobre uma obra perto da escada e um casal tentando descobrir se o Ruinart era Blanc de Blancs ou Rosé. Helena apareceu em algum momento desse intervalo, pegou uma taça de uma bandeja e observou discretamente o movimento da sala antes de comentar:


Você pode receber seus convidados.

Theo respondeu sem olhar.

Estou recebendo.

Ela sorriu.

Claro.


A noite começou a assumir aquela forma confortável que encontros pequenos têm quando dão certo. As conversas deixaram de depender do anfitrião, grupos começaram a aparecer e desaparecer naturalmente entre a sala e os garçons passaram a circular quase invisíveis, aparecendo no exato momento em que alguém terminava uma taça ou precisava interromper uma conversa sem parecer que queria interromper uma conversa. Theo fazia o que sabia fazer melhor nesses ambientes: aparecia o suficiente para sustentar a noite e desaparecia o suficiente para não parecer responsável por ela.


Foi só algum tempo depois que percebeu uma coisa curiosa: Não sabia onde Kiran estava.

Não foi uma percepção imediata, nem dramática. Demorou alguns segundos para entender por que aquilo tinha chamado atenção. Algumas pessoas entram num ambiente e continuam existindo como novidade por horas. Outras entram e fazem parecer que sempre estiveram ali. Quando finalmente voltou a encontrá-lo, foi quase por acaso: encostado perto da mesa principal, segurando uma taça vazia enquanto conversava com duas pessoas que Theo conhecia há anos e que normalmente precisavam de muito mais tempo para aceitar alguém novo no grupo. Uma delas interrompeu a própria história ao vê-lo.


Theo.

Ele virou.

Oi.

O homem apontou para Kiran.

Seu amigo estava tentando entender as regras.


Theo olhou primeiro para ele e só depois percebeu a taça vazia. Kiran acompanhou o movimento, levantou o copo alguns centímetros e perguntou com um sorriso discreto:


Existe alguma?


Theo olhou primeiro para a taça vazia e só depois para Kiran, como se estivesse decidindo se aquilo era uma pergunta real ou só um jeito educado de continuar uma conversa. Acabou respondendo mesmo assim.


Existe.

Uma das pessoas do grupo riu imediatamente.

Não escuta ele, Kiran. Theo inventa regra pra tudo.


Ele ignorou. Pegou uma água da bandeja que passava e respondeu num tom leve demais para parecer sério:


Nunca aceite a segunda taça.


A reação veio diluída no resto da conversa. Um comentário dizendo que aquilo era ridículo, alguém perguntando se existia motivo e outra pessoa aproveitando para contar uma história que não tinha nada a ver com o assunto. Theo deu de ombros.


Não é regra. É observação.

Kiran girou o copo vazio entre os dedos.

Por quê?

Theo respondeu sem pensar muito:

Porque é quando as pessoas começam a dizer o que realmente pensam.


O assunto morreu ali do jeito que assuntos morrem em encontros pequenos: ninguém decidiu aprofundar, mas também ninguém esqueceu completamente. A conversa seguiu para outros lugares, apareceu uma discussão sobre viagem, depois arquitetura, depois alguém perguntou sobre uma exposição e em algum momento Theo já estava em outro ponto da sala sem lembrar exatamente como tinha ido parar ali.


Quando o champagne voltou a circular, ele percebeu. Não porque estivesse prestando atenção. Só percebeu. Kiran continuava na mesma roda, escutando mais do que falando, até interromper o próprio gesto no meio de uma resposta para aceitar uma taça. A segunda.


Theo continuou conversando normalmente. Comentou alguma coisa sobre setembro ser o único mês suportável em São Paulo, respondeu uma pergunta sobre a cobertura e só voltou a reparar quando já estava perto o suficiente para ouvir. Kiran segurava a taça como se tivesse lembrado de alguma coisa. Quando percebeu Theo passando, comentou sem cerimônia:


Então essa é a segunda.

Theo sorriu pequeno.

Essa é.

Kiran observou o champagne alguns segundos antes de tomar um gole. Nada aconteceu. Ele olhou para Theo.

E agora?

Theo respondeu no mesmo tom:

Agora você fala o que realmente pensa.


Kiran pensou por alguns segundos, apoiou o peso do corpo num dos pés e sorriu daquele jeito pequeno que já começava a parecer recorrente.


Essas regras sociais não se aplicam muito a mim.

Theo quase sorriu.

Corajoso.

Kiran olhou para a taça.

Não.

Pensou mais um instante.

Acho que eu só não tenho muito medo de parecer estranho.


Tomou outro gole e voltou naturalmente para a conversa anterior como se não tivesse dito nada particularmente importante. Theo ficou alguns segundos parado antes de perceber uma coisa levemente irritante. Talvez tivesse esperado outra resposta.


A noite já tinha deixado de precisar de Theo havia algum tempo e isso, paradoxalmente, era sempre o sinal de que ela estava funcionando. Os grupos tinham encontrado um equilíbrio confortável entre gente que realmente se conhecia e gente que fingia que se conhecia, os garçons circulavam ainda e pequenos pratos que desapareciam rápido demais para justificar o trabalho que davam — blinis com salmão curado, gougères ainda mornas e mini tartares servidos num ritmo estudado para nunca parecer serviço.


Foi no meio disso tudo que o elevador abriu. Ninguém parou de conversar. Ninguém anunciou nada. Só aconteceu aquela pequena alteração que algumas presenças provocam sem precisar pedir atenção. Dante entrou.


Vestia camisa azul-marinho em seda leve demais para ter caimento tão preciso, calça de alfaiataria clara recém adquirida em uma boutique na Oscar Freire e um relógio antigo no pulso que parecia mais herdado do que comprado. Cumprimentou duas pessoas perto da entrada, aceitou uma taça de champagne e levantou os olhos como alguém que não estava procurando ninguém até encontrar. Encontrou Theo. Sem esforços, sorriu. E não foi o sorriso. Foi a facilidade.


Theo sentiu a resposta chegar antes da pergunta. Helena. Claro. Fazia sentido. Cidade Jardim. Conversas. O jeito dela de acreditar que pessoas certas colocadas no lugar certo produziam finais melhores. Quando Helena apareceu ao lado dele alguns minutos depois, ainda falando alguma coisa sobre um casal que tinha acabado de chegar de Paris, ele já tinha tomado uma decisão silenciosa sem perceber.


Ela acompanhou o olhar dele e levou alguns segundos até reconhecer Dante.

Nossa.

Theo respondeu olhando fixamente para frente:

Uhum.

Ela virou para ele. Demorou exatamente o tempo de perceber.

Espera.

Theo pegou uma água. Ela ficou olhando.

Você tá achando que fui eu.


Ele sorriu pequeno demais. Erro. Helena ficou completamente imóvel. Não triste. Ofendida. Segurou a taça pela haste e perguntou num tom absurdamente controlado:


Você acha que eu convidei ele.

Theo respondeu rápido demais:

Não importa.

Ela soltou uma risada curta, sem humor.

Nossa.

Ele continuou:

Você faz essas coisas. Não seria a primeira vez.

Ela virou o corpo inteiro agora.

Que coisas?

Theo finalmente olhou.

Você decide pelas pessoas.


Ela ficou olhando alguns segundos. Não porque não tinha entendido, mas porque tinha entendido rápido demais.

Você realmente acha que eu faria isso?

Ele respondeu baixo:

Você sempre acha que consegue organizar tudo.

Ela continuou olhando por alguns segundos, depois assentiu.

Então é isso.

Theo não respondeu. Helena aproximou meio passo e baixou o tom da sua voz.

Nem passou pela sua cabeça confiar em mim.

Ele respondeu imediatamente:

Não começa a inverter.

Ela sorriu. Perigoso.

Inverter?

Olhou para Dante. Voltou.

Você olhou pra ele, olhou pra mim e decidiu uma história inteira sem perguntar uma frase.

Theo ficou em silêncio. Mais um erro. Ela assentiu de novo. Agora magoada.

Inacreditável.

Virou para sair. Parou. Voltou.

E o pior não é você achar que eu faria isso.

Ela olhou direto.

É parecer tão fácil pra você acreditar.


Foi embora. Sem pressa. Sem cena. Só foi, se retirando da cobertura totalmente desgostosa.


Do outro lado da sala, Kiran percebeu a mudança sem entender a origem. Estava perto do terraço com Noah quando perguntou casualmente:


Quem é?

Noah acompanhou o olhar e respondeu sem qualquer cerimônia:

Ah.

Tomou um gole. Ponderou por alguns breves instantes e continuou.

História antiga.

Kiran esperou como se sentisse que Noah sabia mais coisas. O Saad continuou.

Eles ficaram juntos.

Kiran virou. Noah imediatamente percebeu tarde demais.

Quer dizer. Faz tempo.

Tomou mais um gole.

Não terminou mal.

Pensou. Corrigiu:

Também não terminou bem.

Pensou de novo.

Acho que terminou daquele jeito que ninguém fala que terminou.

Kiran olhou para Theo, depois para Dante. Então decidiu perguntar:

E eles ainda se falam?

Noah acompanhou o olhar. Sorriu levemente.

Pelo visto você vai descobrir hoje.


Kiran não respondeu, só observou uma coisa curiosa. Dante ainda olhava para Theo. Encarava-o e ele poderia jurar que essa história ainda não estava bem resolvida do lado dele. Já Theo fingia muito bem que não estava olhando de volta.


A chuva continuava quando a cobertura finalmente ficou vazia. Não terminou junto com a festa, como normalmente acontece nos filmes. Continuou caindo do lado de fora com a mesma constância elegante da noite inteira, como se São Paulo não tivesse percebido que alguma coisa tinha acabado.


As luzes continuavam acesas. Algumas taças ainda estavam espalhadas pela sala. Um guardanapo esquecido perto do sofá. Uma cadeira alguns centímetros fora do lugar. Pequenas provas de que vinte pessoas tinham passado por ali e levado embora exatamente aquilo que vieram buscar.

Theo atravessou a cobertura devagar, sem ajudar ninguém a organizar nada, sem recolher nada, sem desligar nada. Parou diante do vidro. Lá embaixo a cidade estava borrada pela chuva.

Pela primeira vez naquela noite ficou difícil dizer o que era reflexo e o que era realmente São Paulo. Ele ficou olhando por tempo suficiente para perceber uma coisa desconfortável: A cobertura ainda parecia exatamente igual. E talvez fosse isso.


Algumas noites não mudam nada. Só mudam o jeito que você olha para as coisas quando todo mundo vai embora.

Notas finais
"Dizem que a chuva revela quem fica. Curioso. Porque essa noite ela só revelou quem ainda não foi embora." XOXO, Gossip Girl. 💋