JARDINS
7 Vestígios 🌧️📓
Notas iniciais
SOUNDTRACK DO CAPÍTULO:
The Sea by Corinne Bailey Rae
A publicação permaneceu aberta por alguns segundos antes de desaparecer da tela. Um dedo deslizou lentamente pelo trackpad do notebook, revelando outras imagens da noite anterior: taças erguidas, reflexos da cidade nas janelas da cobertura, pequenos grupos conversando ao fundo e rostos que pareciam cuidadosamente enquadrados para transmitir exatamente aquilo que desejavam. Ao lado do computador, um café já frio dividia espaço com um celular que vibrava sem parar desde as primeiras horas da manhã. Mensagens chegavam, perfis privados eram acessados, listas de convidados eram comparadas e fotografias eram ampliadas até que detalhes quase invisíveis ganhassem importância. Do lado de fora, a chuva caía pesada sobre São Paulo, escondendo completamente a vista atrás da janela. Antes que outra notificação surgisse, uma nova aba foi aberta, a publicação foi compartilhada e a tela escureceu.
O sábado em São Paulo começou mais devagar do que de costume. A chuva contínua transformava avenidas normalmente agitadas em corredores de luzes refletidas sobre o asfalto molhado, enquanto os cafés da cidade enchiam lentamente de pessoas que pareciam ter decidido adiar qualquer compromisso. Ainda assim, bastaram poucas horas para que a noite anterior encontrasse um jeito de continuar existindo. Em algum ponto entre mensagens encaminhadas, ligações retomadas e conversas aparentemente despretensiosas, a soirée de Theo Montenegro deixou de pertencer apenas às vinte pessoas que estiveram na cobertura e começou a ganhar vida própria. Não havia consenso, apenas pequenas distorções que se repetiam o suficiente para ganhar forma.
Na cobertura dos Montenegro, a mesa do café já estava posta quando Theo finalmente apareceu. A empregada terminava de servir frutas variadas, pães artesanais e café recém-passado enquanto observava discretamente o silêncio incomum da casa. As luzes da sala permaneciam acesas desde a noite anterior e, apesar de tudo estar novamente impecável, havia uma sensação difícil de explicar, como se a organização tivesse apagado os objetos, mas não os acontecimentos. Theo sentou-se, agradeceu com um gesto discreto e levou a xícara aos lábios sem realmente sentir o gosto. O apetite parecia ter ficado na noite anterior, junto das perguntas que preferira não fazer.
Em um bairro não muito distante dali, Helena também demorou mais do que o habitual para descer. Vestia um conjunto de tricô de cashmere em tom marfim da Loro Piana, confortável o suficiente para um sábado chuvoso, mas elegante como tudo que fazia parte da sua rotina. A mesa já a esperava, organizada com a precisão de sempre, porém o café permaneceu praticamente intocado. Ela respondeu duas mensagens, ignorou outras quatro e, antes mesmo de abrir qualquer aplicativo, percebeu que o telefone não parava de vibrar. Não era coincidência. Era velocidade. A mesma velocidade com que informações atravessavam a cidade quando envolviam os sobrenomes certos.
A primeira pessoa a compartilhar a publicação da GG naquela manhã não fazia parte do círculo mais próximo de Theo, Helena, Noah ou, tampouco, Kiran. Era apenas mais uma presença recorrente em eventos beneficentes, inaugurações de galerias e jantares discretos nos Jardins. Viu a publicação, sorriu sozinha, encaminhou para uma amiga com um simples "Você viu isso?" e, em menos de quinze minutos, o story já percorria celulares que jamais deveriam estar conectados entre si. A postagem não dizia muito. Justamente por isso dizia tudo. Cada pessoa completava as lacunas da forma que mais lhe interessava.
Quando finalmente chegou ao celular de Helena, ela abriu o story sem qualquer expressão. Leu uma vez. Depois outra. Não respondeu quem havia enviado, não curtiu, não comentou. Apenas fechou a tela. O que a incomodava não era a frase. Era a precisão com que alguém soubera exatamente qual detalhe destacar de uma noite inteira.
Enquanto isso, Noah terminava um café no Le Jazz Brasserie, nos Jardins, observando a chuva engrossar do lado de fora quando o celular vibrou sobre a mesa. Abriu a conversa, viu o print da publicação e soltou um riso curto, quase automático. Não pela postagem, mas pela velocidade com que ela estava circulando. Guardou o aparelho novamente, como se aquilo não tivesse importância.
— Quem é essa GG? — perguntou Kiran, acomodando-se na cadeira à sua frente enquanto retirava o casaco ainda molhado pela chuva. Noah deu de ombros, mexendo distraidamente a colher na xícara.
— Ninguém.
Fez uma breve pausa antes de erguer os olhos.
— Pelo menos era.
Kiran não respondeu. Apenas pegou o celular, abriu a publicação e releu cada palavra como quem procurava mais do que estava escrito.
Enquanto isso, em diferentes pontos da cidade, outras versões da mesma noite começavam a surgir. Algumas garantiam que Helena deixara a cobertura contrariada. Outras afirmavam que Theo encerrara a soirée mais cedo do que pretendia. Havia ainda quem comentasse sobre Dante, sempre de maneira superficial, como se ninguém tivesse coragem de transformar sua presença no verdadeiro assunto da manhã. Ainda não. Seu nome aparecia entre uma conversa e outra, discreto o suficiente para passar despercebido, frequente o bastante para não ser ignorado.
Theo só voltou a olhar o celular perto do início da tarde. Entre notificações acumuladas, mensagens de agradecimento pela noite anterior e convites para o restante do fim de semana, um nome fez seu dedo parar por um instante.
Dante.
Havia apenas uma mensagem.
"Precisamos conversar."
Theo permaneceu alguns segundos olhando para a tela. Não respondeu. Ao invés disso, bloqueou o celular. Lá fora, a chuva continuava caindo sobre uma São Paulo que não repousava nunca, mas observava cada passo, principalmente dos Jardiners.
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