Itsumo Yakusoku

61 Capítulo 61 - Imagination


Todo mundo sempre quis estar aí em pé

Errando, se frustrando e continua se esforçando

Nunca desista, não quero terminar assim

Carregando essa imaginação

Eu vou, oh, oh

Mais do que uma resposta que tem no livro didático

Desejava ter emoções explosivas

Algo vem transbordando com vigor

Naqueles dias acreditava, era tudo o que tinha

Senhor Futuro

Atingindo e rolando pelo chão, querendo ser mais forte

Teimando, me levanto e repito tudo de novo, mas

Nunca desista, me deixe correndo nesse estado

Para ir à frente dessa imaginação

Eu vou, oh, oh

Capítulo 61

~

Imagination

Em apenas uma única mala, que nem estava muito cheia, Tadase havia conseguido colocar todas as suas coisas — que não eram exatamente suas, mas dos seus amigos, que gentilmente ofereceram a ele tudo o que precisava até então. Não era muito, mas no momento, era mais do que suficiente. Logo, no dia seguinte, ele sairia da casa de Ikuto, onde havia ficado nos últimos dias, para ir morar com Tsukasa. O seu… pai? Era estranho pensar assim, mas pela primeira vez, não pareceu tão errado. Ele estava indo viver uma nova vida.

O barulho da campainha tocando chamou sua atenção. Ele ouviu a voz de Ikuto, surpresa, e então, saiu do pequeno quartinho dos fundos que foi seu durante aquele curto espaço de tempo, para o pequeno hall que era uma espécie de sala, do apartamento que ficava no segundo andar da Nyanderful. Entrando pela porta estava Nagihiko.

Tadase logo se alegrou ao vê-lo, mas ele parecia tenso. Os cabelos estavam em completa desordem, caindo parcialmente pelo rosto, e as roupas amarrotadas e mais o ar cansado e ofegante, davam a impressão de que ele havia vindo correndo até ali. Tadase se apressou na direção dele.

— Aconteceu alguma coisa, Nagihiko-kun? — ele indagou, tirando os cabelos do rosto dele para vê-lo melhor. Nagihiko soltou uma risada nervosa, enquanto passava a mão pelo rosto dele, como que para garantir que ele estivesse mesmo ali.

— Na verdade, aconteceu. — ele soltou o ar, largando as mãos para baixo — Eu… fugi. Eu fui embora de casa.

— O que? Mas… como? — Tadase engasgou, chocado. Ikuto suspirou.

— Mal eu me livro de um sem-teto, já me aparece outro. — comentou, e saiu para a cozinha, para deixar os dois garotos conversarem a sós. Nagihiko sentou-se no pequeno sofá disponível ali, e Tadase o acompanhou, aflito. E Nagihiko contou tudo a ele…

— E por que não? — sua mãe insistiu, sua expressão se tornando cada vez mais severa — Por que você recusou tão depressa a ideia de fazer um onmiai, Nagihiko?

Nagihiko sabia o que ela estava fazendo. Desafiando-o, colocando-o contra a parede, para testar a sua resistência, para ver se ele ousava dizer qualquer palavra contra ela, se ele teria audácia de dizer o que realmente pensava. E ela estava confiante de que não. Ela tinha plena certeza de que não importava o que fizesse ou o que dissesse, teria sempre pleno controle sobre o seu filho. Ela realmente acreditava… que ele jamais se levantaria contra ela, e seria para sempre o herdeiro dedicado e obediente que ela criou.

— Porque… — ele hesitou, e ela sorriu. Sim. Complacente como sempre. Porém, ele levantou o olhar, e ela se espantou com o que viu. Determinação. Desafio. Ele havia atingido um limite do que podia aguentar, e não iria aceitar calado como das outras vezes. — Porque eu sou seu filho, e não sua propriedade. Você não pode me dizer como eu vou viver a minha vida, porque é a MINHA vida!

— C-como ousa levantar a voz para mim dessa maneira? — ela respondeu, chocada, e logo se impertigou, pronta para colocar Nagihiko de volta no seu lugar — Acaso esqueceu qual é a sua posição aqui, Nagihiko? Esqueceu quem você é? Você é o herdeiro do estilo de dança Fujisaki! Você é aquele que levará o nosso legado para as futuras gerações! Você é Fujisaki Nagihiko!

— Talvez eu não queira ser um Fujisaki então, se isso significa que eu vou ter que passar a vida inteira abdicando de tudo o que é precioso para mim, em prol de viver a vida que você desejou. Não adianta! Eu pensei que poderia fazer você mudar de ideia, e enxergar a verdade, mas isso nunca vai acontecer! Você só enxerga o que beneficia a você mesma!

— Nagihiko! — ela tentou segurá-lo pelo braço, mas Nagihiko já era quase mais alto do que ela, e se desvencilhou facilmente. Foi nesse momento que ela percebeu que seu filho não era mais uma criança. E ele pareceu ter notado isso também. Ela não tinha mais nenhum controle sobre ele.

— Chega! Eu cansei disso, cansei de fingir que vivo da maneira que você quer, cansei de viver uma mentira! Toda a minha existência sempre foi uma mentira, e a única coisa que eu tinha de verdadeiro, você tirou de mim! Os meus amigos, e o amor da minha vida, você arrancou tudo de mim, e tentou me manter afastado de tudo o que me fazia feliz, apenas para o seu propósito de me transformar em uma boneca de porcelana, sem vida e sem vontade, que só serve para sustentar o nome dessa família. Mas adivinha, mãe! Eu não sou uma boneca! E eu não aguento mais agir como uma!

— Você está fora de si, meu filho… — ela diminuiu o tom de voz.

— Não! Pela primeira vez, eu estou plenamente consciente do que estou fazendo, e estou agindo por vontade própria. Mas você não aguenta isso, não é? — ele sorriu, entristecido — Você não aguenta quando as coisas fogem do seu controle, quando você não consegue manipular cada um ao seu redor.

— Mas… Nagihiko! Você está dançando tão bem utimamente, está quase perfeito! E você precisa dar aulas aqui, também… Não fale como se você fosse infeliz. Eu até deixo você sair com aqueles seus… amigos… — ela tentava soar benevolente, e Nagihiko sabia que ela estava tentando fazer com que tudo não parecesse tão ruim quanto era, porém, esse truque já não funcionava tão bem quanto antes — Só não quero que você fique perto daquele garoto, é só isso! Ele faz mal para você! Olha só como você está, você não era assim antes, sempre triste pelos cantos, e reclamando da vida que leva. É ele que faz você ficar assim! Longe dele você fica bem! Eu só quero o melhor pra você…

— Pare de mentir. Você é ótima com mentiras, mas me ensinou muito bem, e eu já sei ver através delas! Você só quer o melhor pra você mesma, e para o “nome da família”! Não para mim! E eu já cansei de tentar agradar você, e ser infeliz! Cansei! — ele tentou dar as costas, mas sua mãe o segurou.

— Você não se importa com a sua família, é isso?

— Claro que não é isso. Eu amo a minha família, e eu amo dançar. Mas tem outras coisas que eu amo também, e eu não posso mais viver escondendo isso. Eu amo o Tadase. Você não consegue entender isso?

— Não, eu não consigo! — só de ouvir o nome dele, Kaoruko já se alterou de novo — Você não o ama, não sabe nada sobre amor! É só uma criança com ideias tolas na cabeça, eu não vou tolerar isso por muito mais tempo! Eu pensei que você tivesse se recuperado, mas estou vendo que não, então, vai voltar para a Europa, assim que eu conseguir agendar um voo, o mais rápido possível e…

— Não. — Nagihiko a interrompeu, tão calmo que nem precisou levantar a voz. O seu tom era tão enfático que sua mãe se calou no mesmo instante, surpresa com o quanto ele parecia com seu pai agora — Eu não vou para lugar nenhum, vou ficar onde eu quero ficar, e você não pode fazer nada para me obrigar. É assim que as coisas são. Eu amo o Tadase, e eu vou ficar com ele, não importando o que você diga ou faça. Se você puder aceitar isso, será ótimo. Eu continuarei a dançar e liderar o grupo como você sempre quis, e nada mudará. Você consegue aceitar essa condição? — ele a encarou, seriamente, sem titubear. Kaoruko fechou o rosto.

— Nunca! — ela praticamente gritou, os olhos fixos no garoto, as mãos trêmulas, parecendo prestes a atacá-lo. — Eu nunca vou aceitar isso!!! É repugnante, doentio, você está sendo enganado por essa gente!! Por que não enxerga a realidade? Você era um rapaz tão saudável… iria se casar com alguma garota obediente, bonita, de família nobre e me dar herdeiros perfeitos! Era assim que deveria ser! É assim que VAI ser!

— Não, não é. E se você não pode aceitar a maneira como eu decidi viver a minha vida, e a pessoa que eu amo, então, você não pode me aceitar como eu sou. Isso é parte de mim!

— O que você está dizendo, Nagihiko? Se você continuar dizendo essas besteiras, eu não vou ter outra opção…

— Eu vou embora.

— O que?

— Vou embora daqui. Se eu preciso escolher entre ele, e essa família, então eu já tenho uma resposta. Não precisa mais se preocupar comigo. Você encontra outra garota talentosa para me substituir facilmente, afinal, eu nunca fui perfeito para a senhora, não é mesmo? — ele sorriu tristemente. Seus olhos estavam marejados, mas ele lutava contra o impulso de chorar. Não mostraria esse lado fraco para ela, não depois de tudo.

— Nagihiko! Se você der as costas para mim e ir embora por aquela porta, então pode ter certeza de que eu não irei mais considerá-lo meu filho. Está entendendo? Você não vai ser mais um Fujisaki! Não terá privilégios, eu não irei ajudá-lo de maneira alguma! Você terá que se virar!

— Está bem. Eu não esperava por nenhuma misericórdia sua, mesmo. — ele deu as costas, e respirou bem fundo. Olhou para sua casa. Seria mesmo sua última vez ali? — Eu vou embora, então. Espero que a senhora esteja satisfeita com a decisão que tomou.

— Duvido que você aguente uma semana longe do conforto dessa casa. — Ela continuava impassível, e nem mesmo olhava na sua direção. Sentou-se novamente a frente da mesinha de centro da sala onde estavam, como se nada mais importasse.

Nagihiko ainda estava de costas.

— Eu vivia muito mais desconfortável aqui dentro do que você pode imaginar, pode ter certeza. E mesmo assim, eu tenho pessoas que se importam comigo e vão me apoiar. Eu tenho amigos.

— Veremos até onde vai essa “amizade” agora que você não terá absolutamente nada.

Ele riu fracamente, virando o corpo de lado, e rosto na direção da sua mãe. A expressão severa dela não se alterou em nada. Ele sentia os olhos arderem.

— Você não sabe de nada mesmo, não é? Não sabe o valor dos sentimentos das pessoas. Só se importa com a imagem, com o status… existem pessoas que não ligam para isso, sabia?

— Apenas vá, Nagihiko. Se é isso o que quer, apenas vá. — ela parecia acreditar realmente que o seu filho não teria coragem de ir mesmo, depois daquelas ameaças — Saiba somente que, a partir do momento em que sair desse lugar, você não será mais um Fujisaki. Eu não me importarei com o que você faça ou deixe de fazer, pois não terei mais um filho. Será, para mim, como se você nunca tivesse existido.

— Mas já não foi sempre assim? A única que sempre existiu para você foi a Nadeshiko. — Ele sorriu. Um sorriso quebrado, de sofrimento. Já não enxergava, atráves das lágrimas acumuladas — Eu vou ir, o sobrenome nunca importou para mim, eu não sou como você. Eu só queria saber uma coisa… — ele virou o rosto para trás, olhando para sua mãe, e logo se arrependeu. As lágrimas corriam livremente. Logo ele, que sempre pode controlar isso tão bem… — A honra realmente importa mais do que o seu próprio filho?

Ele nunca teve uma resposta. E assim, foi embora.

Tadase abraçou Nagihiko, que chorava novamente ao terminar de contar o que havia acontecido, querendo trazer a ele todo o conforto que podia. O que poderia dizer naquele momento? Sabia exatamente o que ele sentia nesse momento, e nenhuma palavra no mundo poderia ser mais reconfortante do que as que ele escolheu proferir.

— Eu estou aqui com você.



Desde quando Nagihiko saiu de casa, poucos dias se passaram, mas eles mais pareciam uma eternidade, com todos aqueles acontecimentos ao mesmo tempo. Depois da discussão com a sua mãe, ele havia corrido para a loja de Ikuto e nem pensou em pegar qualquer coisa dali, porém, Hideyoshi, assim que ficou ciente do que havia acontecido ali, reuniu todos os pertences de Nagihiko da maneira que podia, sem que Kaoruko notasse (ela havia mandado os empregados jogarem tudo o que fosse de Nagihiko fora, então, com a ajuda deles, nem foi tão difícil assim) e levou até ele.

Logo que ficaram sabendo que Nagihiko havia saído de casa, os seus amigos também se reuniram para expressar seu apoio. Utau ofereceu o apartamento vago que tinha, e sem outra opção, Nagihiko acabou aceitando de bom grado. Tsukasa, que havia ido até lá para buscar Tadase, e já ficou sabendo de todo o ocorrido, também ofereceu sua ajuda no que fosse necessário. Nagihiko ainda estava perdido e sem saber ao certo que rumo tomar na sua vida, pois apesar de ter um lugar para ficar, oferecido por Utau, não tinha dinheiro e nem nenhuma forma de se manter. Inesperadamente, veio de Ikuto a solução para este problema. Passado algum tempo, depois de Nagihiko ter narrado toda a sua história para os amigos e eles já terem absorvido as informações, e apresentado suas soluções e pontos de vista, o clima já estava mais tênue, e Ikuto chamou Nagihiko para ajudá-lo com algo na cozinha.

— Você quer um emprego, certo? — ele foi direto ao assunto, mas como falava baixo, Nagihiko deduziu que não era para os outros saberem disso ainda. Vindo de Ikuto, ele podia até temer algo ilegal ou ao menos não convencional, mas sabia que ele não se arriscaria a envolver um menor de idade em qualquer coisa perigosa… ou assim ele pensava.

— Você tem algo em mente? Olha, Ikuto, eu já adianto, se for algo parecido com o que você fazia na Easter, eu não estou disposto a…

— Não, não é nada disso, acalma esse coração, pirralho — Ikuto já se adiantou — É na minha loja. Preciso de um assistente, e já estou pensando nisso há tempos, apenas me ocorreu que você talvez tenha o perfil que eu procuro, entende?

Nagihiko o fitou, desconfiado.

— O que isso envolveria?

— Nada demais, relaxa — ele deu um tapa que pretendia ser amigável, nas costas do garoto, e então se escorou no balcão da cozinha — Coisas como a parte financeira, que o Tadase já me ajuda… as transições pela internet, compra e venda de materiais… Às vezes eu tenho que lidar com costureiras e outras coisas do tipo para fazer novos modelos, e você tem jeito para essas coisas de moda, eu já fiquei sabendo…

— Só isso?

— ...empacotar as encomendas, levar até o correio… cuidar do estoque... atender aos clientes — nesse momento, os olhos de Ikuto voltaram novamente para Nagihiko, e ele sentiu medo. — Servir de… ahn… modelo…

— O que? Não, espera… você quer que eu use aquelas fantasias da sua loja!? É isso?

— Não é só isso.. mas, sim, é. Não você. A sua “irmã” — ele deu uma piscadinha de “se é que me entende”, e Nagihiko revirou os olhos.

— Eu não vou fazer isso, não mesmo! Nem a Nadeshiko. Sem chance. — ele cruzou os braços, pronto para sair dali e encerrar as negociações.

— Mas você não precisa usar as fantasias mais… ousadas — ele pensou bem antes de escolher o termo — Se não quiser. Apenas algumas, e eu deixo até você escolher. E você é um modelo dois em um, ainda, porque eu tenho uma sessão de cosplays masculinos também, você pode usar todos.

— Hm.. não sei… — Nagihiko pesava bem a situação, com uma das mãos no queixo,e os olhos franzidos.

— Pensa bem, você precisa do dinheiro, e que lugar melhor para trabalhar você encontraria? Eu até deixo você levar algumas fantasias pra casa pra usar. E se precisar, pode usar o quartinho dos fundos também, com o Tadase…

— Eu vou fingir que não ouvi isso — ele balançou a mão — Olha só, você falou de várias coisas que precisam ser feitas. Para usar as fantasias, eu terei que ser Nadeshiko, mas para cuidar de estoque e cuidar de pacotes, Nagihiko é necessário, então…

— Do que está falando pirralho?

— O dobro do salário. Você mesmo disso que eu sou dois em um — ele sorriu — Garanto que não vai se arrepender.

— Ah, droga… bem que a Rima falou que você era ardiloso. — ele soltou o ar — Ok, podemos discutir isso melhor depois. Por enquanto, você não quer ir até a loja durante uma ou duas semanas para se acostumar com o trabalho e ver como funciona?

— Ok — Nagihiko estendeu a mão, um pouco mais confiante — Negócio fechado.



Com um teto e emprego garantidos, foi a vez de outro assunto vir à tona. No dia seguinte, quando já estava acomodado no apartamento de Utau, Nagi resolveu ir até a escola, e teve uma surpresa, embora fosse algo bem previsível. Sua mãe havia trancado a sua matrícula, é claro. Só permitiram que entrasse no prédio para pegar os seus pertences, e nesse meio tempo, todas as garotas que eram suas fãs, e mais os garotos que confiavam nos seus conselhos, vieram preocupados indagar o que acontecia, algumas delas até choravam. Ele foi bem categórico ao afirmar que era um problema familiar, mas que estava bem, e que agora estava livre para fazer o que desejava, e que estaria com a pessoa que amava. Todas as garotas se derreteram, e os meninos o parabenizaram, mas ele tinha certeza de que a reação seria diferente se soubessem que se tratava de um garoto. Todos se despediram dele com muita emoção, mas Nagihiko sentia um pouquinho de culpa com o fato de que não sentiria a menor falta daquele lugar.

Sendo assim, no mesmo dia, ele já foi até a Nyanderful, onde Ikuto começou a explicar para ele como tudo funcionava. Por enquanto, ele ficaria apenas observando e aprendendo, para só então, passar a cumprir suas funções como combinado. É claro que eles discutiram mais sobre o salário, e Ikuto acabou fechando com um salário inteiro e mais metade.

E enquanto isso, como planejado, Tadase foi morar com Tsukasa. No início, foi estranho. Ele se sentia como um empecilho, pois Tsukasa e Haruka haviam acabado de começar a morar juntos, e já tinham que lidar com um adolescente invadindo seu espaço. Não apenas isso, mas ainda com Hotosaki à tiracolo. Ele não podia negar — estava explodindo de felicidade por ver seu cachorro de novo, e bem. Ele o recepcionou com mais entusiasmo do que qualquer um, e parecia bastante habituado ao novo lar. Foi uma forma de atenuar a sensação de desconforto inicial.



Quando acordou naquela manhã, Tadase demorou para se situar de onde estava. Demorou alguns segundos para que as lembranças recentes chegassem à sua mente fazendo sentido. Tudo, desde sua chegada na casa, Hotosaki fazendo festa, Haruka trazendo toda a comida que ela preparou, que não era pouca, com os seus pratos favoritos, e Tsukasa sorrindo como nunca. No dia seguinte, Haruka o levou para fazer compras, já que ele não tinha mais muitas roupas disponíveis, e todas eram emprestadas ainda. Isso o manteve ocupado por bastante tempo, e ele logo esqueceu da sensação ruim que havia tido antes. Haruka fazia questão de lembrar o quanto ele era querido e bem-vindo na sua casa, e repetia a todo instante que sempre quis ter um filho fofo como ele, e foi somente por causa da personalidade alegre e compreensiva dela que ele foi capaz de enfim, se sentir à vontade.

Claro que Nagihiko ainda o preocupava, mas agora, eles conseguiam se falar todos os dias, e ele tinha que admitir que era bom poder conversar no celular em voz alta sem se preocupar com quem ouvia, nem precisar correr para atender antes da sua mãe notar. Tsukasa passava boa parte do dia trabalhando, e Haruka também, mas à noite quando eles chegavam, todos jantavam juntos, e contavam as novidades, em um clima amistoso e familiar. Tadase conseguia sorrir de verdade, e era bom poder falar sobre as coisas que realmente importavam na mesa de jantar, como quando Nagi encontrou um gatinho na Nyanderful e fotografou para ele ver, ou os seus planos para a faculdade.

Ele havia pegado no sono enquanto conversava por mensagens com Nagihiko de novo, percebeu, assim que foi checar o celular e viu o aplicativo ainda aberto com uma frase inacabada. Depois de se arrumar para a escola, ele saiu do quarto, e Haruka já estava com o café da manhã pronto, e acabara de tirar o avental de babados, arrumando o cabelo com uma das mãos, enquanto corria para fora da cozinha.

— Bom dia, meu bem! — ela falou ao passar por ele, e colocar os brincos que estavam na mesinha do corredor — Eu estou super super atrasada, a edição da revista tem que estar pronta hoje, e eu preciso revisar a impressão! Tenho que correr, desculpe por não poder tomar café da manhã com você…

— Ah, tudo bem, não tem problema nenhum, Haruka-san! — Tadase tratou de explanar, querendo deixar bem claro que não queria ser um problema.

— Mas eu arrumei tudo para você, até fiz um obentou para o seu almoço, está tudo na cozinha — ela afirmou, pegando sua bolsa. Quando passou de novo por Tadase, depositou um singelo beijo de despedida no seu rosto — Tchauzinho, boa aula pra você! — ela sorriu brilhantemente, limpando a marquinha de batom que deixou sem querer. Tadase sorriu, sem jeito. O gesto de Haruka pareceu tão natural que ele não teve tempo de se sentir embaraçado. Não estava acostumado a ser tratado assim, mas não era ruim.

Depois de tomar café rapidamente e ajeitar as suas coisas, Tadase saiu calmamente da casa, de onde já tinha uma cópia da chave. Tsukasa já havia saído para trabalhar, mas geralmente, era ele quem levaria Tadase de carro, porém estava ocupado com algum outro assunto, e ele foi de metrô para a escola.

Chegando lá, pode notar que algo diferente havia acontecido, pois por todos os lados pessoas comentavam avidamente algum acontecimento. Ele foi tentando entender ao entreouvir conversas, mas nada fazia sentido. Quando viu Nanami parada em um corredor com duas das suas amigas, pensou em ir perguntar a ela. Assim que o viu, ela sorriu animadamente.

— Bom dia, Nanami-san… — ele cumprimentou, rapidamente — Será que você poderia me dizer se alguma coisa estranha está acontecendo? Não sei explicar, mas todos parecem muito agitados…

— Eu não diria que algo estranho aconteceu… — ela desconversou, parecendo se segurar para não falar nada indevidamente — Eu só fiquei sabendo de uma pequena novidade… mas acho que você vai querer ver por si mesmo. Talvez, na sala do Conselho, haja alguma coisa…

— Ah.... está bem, obrigado.. — ele não entendeu o motivo de Nanami ser tão evasiva, mas se ela sorria, não devia ser algo ruim. Ele continuou seu caminho, e antes de ir para a sala de aula, resolveu ir até o conselho como ela disse.

Quando estava chegando, viu Yaya sair saltitante da mesma sala, e tomar um susto ao vê-lo. Ela fechou rapidamente a porta, e o encarou com um sorriso obviamente forçado, olhando assustada para os lados e protegendo a entrada.

— B-bom dia T-tadase… Rei… Majestade… K-kaichou supremo de todo o Universo… que lindo dia, não é? Não quer ir lá fora tomar um ar? Eu acho que nós podemos sair para caminhar e apreciar a natureza exuberante do pátio da escola, o que acha?

— Eu acho que você está escondendo alguma coisa de mim, Yaya, e quero ver agora! — ele disse, em um tom firme e direto. Parecia até Kiseki.

— E-eu não posso….. quer dizer, seria melhor se fosse surpresa, sabe?

— Yaya, eu te conheço há muito, muito tempo, não é? Você só pode ter quebrado alguma coisa ou feito alguma confusão e não quer que eu fique sabendo. Andou planejando alguma coisa pelas minhas costas? Pode ter certeza de que eu sei que nada bom pode vir de uma surpresa montada por você.

— Que crueeel Tadase-kuuun! — ela fez manha — Você não era duro assim com a Yaya antes. Isso tudo é porque mesmo com tudo o que aconteceu, você ainda não conseguiu ver o Nagi direito?

— Ele esteve ocupado nos últimos dias resolvendo assuntos de… espera aí, como você sabe disso? — ele voltou a encará-la mordazmente, e ela mordeu o lábio, sentindo que falara besteira.

— Ah, que seja, a Yaya desiste! Pode entrar, a surpresa nem era minha mesmo! — ela deu de ombros, e abriu passagem para ele. Tadase a fitou como um pai que vence uma discussão com a filha, e foi abrindo a porta. Primeiro viu Amu, que estava de pé ajudando alguém com alguma coisa, e pareceu assustada ao vê-lo. Ouviu a risada alta de Kukai ali dentro, e algum comentário de Rima sobre estragar a surpresa. E então, ele o viu.

Usando o uniforme da Koyama, Nagihiko virou-se para ele, e abotoando a manga do terno azul-escuro, quase preto, que ficava realmente bem nele, sorriu estonteantemente. Tadase mal pode acreditar no que aquilo podia significar.

— Por que não me contou? — foi a primeira coisa que disse, ao se aproximar de Nagihiko. Não pode resistir à urgência de ajeitar a gravata azul dele, que estava escapando do suéter cor de creme.

— Queria fazer surpresa.. — ele sorriu, passando a mão pelos cabelos de Tadase. — Foi seu tio… digo, Tsukasa-san, quem resolveu esse assunto para mim. Ele conhece o diretor daqui, e conseguiu uma bolsa de estudos para mim, e uma vaga no meio do ano, o que já é bem difícil. Ele foi me buscar hoje de manhã, e me trazer o uniforme. Ficou bem em mim?

— Claro que ficou! — Tadase se ergueu na ponta dos pés para abraçar Nagihiko com força — Nós vamos estudar de novo na mesma escola! Nem acredito…

— Eu também não, faz tanto tempo… — ele riu, abraçando de volta Tadase — Eu estou feliz por isso.

— Ah, já vi tudo — Rima cutucou Kairi que estava em silêncio ao seu lado, para comentar — Esses dois, vão ficar só namorando pelos corredores e não vão querer mais nada da vida…

— Não vai ser assim! — Amu defendeu — Eles nem faziam isso… tanto assim… quando estávamos em Seiyo…

— Ah, claro que não, só no Royal Garden inteiro, nas salas vazias, no ginásio, nos armários, nee? — Yaya alfinetou, mas nenhum dos dois objetos da conversa ouviram, tão absortos que estavam um no outro.

Nem perceberam quando Amu resolveu acabar com o showzinho grátis e com a ajuda de Kairi empurrou Yaya, Kukai e Rima porta afora, para deixar os dois a sós. Parecia tão surreal, estarem na mesma escola depois de tanto tempo, podendo estar juntos sem empecilho algum, sem precisar disfarçar… E quando Nagihiko puxou delicadamente o rosto de Tadase para beijá-lo, sentiu em seu coração, com uma certeza muito forte, que tudo poderia enfim, estar começando a dar certo. Não era apenas imaginação.



Notas finais
Oi gente! Faz tempo que eu não apareço, mas aqui é a Shiroyuki! Desculpa a demora, mas é que com trabalho, estágio, TCC e as coisas da formatura pra resolver, fica difícil ter tempo pra qualquer outra coisa, quanto mais pra escrever e postar, realmente .-. De qualquer forma, espero que gostem do capítulo de hoje! Foi um dos que eu mais gostei de escrever, fato! E agora que as coisas parecem estar se ajeitando, melhor ainda.. apesar de todo o drama até isso acontecer de verdade.. Enfim! Aproveitem!