Itsumo Yakusoku
56 Capítulo 56 - Kimi wa Tomodachi
Você riu, me fazendo rir também.
Parecemos até reflexo de espelho, você é meu amigo
Você se zangou, sem perder pra você eu também fiquei zangado
Parece até briga de criança, você é meu amigo
Quando eu estou solitário, fique mais um pouco comigo
Será que você não poderia me ouvir
Sua voz e a única coisa que deixa meu coração leve
Só de concordar com a minha conversa
Mesmo longe você sempre está no meu coração
Você chorava, eu também quase chorei
Mas aguentei firme e sorri, sorri para você se animar
Quando você estiver solitário, eu irei voando até você
Eu não saberei qual palavras dizer
Mas se minha voz poder curar seu coração
Você aceitaria que eu simplesmente concorda-se com você?
Quando eu estou solitário, fique mais um pouco comigo
Será que você não poderia me ouvir
Sua voz e a única coisa que deixa meu coração leve
Só de concordar com a minha conversa
Sem você eu fico realmente embaraçado
Ou seja, você é meu amigo.
Capítulo 56
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Kimi wa tomodachi
— Christopher! What the hell are you doing here?— Nagihiko não conseguia disfarçar o choque. Quando ele iria imaginar que virando a esquina, daria de cara com seu amigo de Londres, que ele não via a quase um ano!
— Calma, calma, dude! Pode falar em japonês, eu entendo, lembra? — Chris riu do assombro de Nagihiko, e o movimento balançava os cachos dos seus cabelos claros, que iam até a altura do queixo. Deu uns tapinhas nas costas do amigo, em um meio abraço fraterno — Eu resolvi vir te visitar! Eu disse que vinha, não disse? Acabei de chegar, e deixei minhas coisas em um hotel perto daqui. Estava indo dar uma caminhada, e depois eu iria te ligar, mas vi você de longe, conversando com alguma outra pessoa, e resolvi esperar. Foi mesmo uma sorte eu vir parar na mesma região que você vive, Tokyo é tão grande afinal…
— Na verdade eu não vivo perto daqui, moro em outro bairro, mas isso não vem ao caso, é mesmo muita sorte você vir justo para cá. — ele sorriu, recuperando-se do susto inicial — Mas por que você veio logo agora?
— É a hora errada? Por que sabe, eu posso voltar pra Inglaterra. — ele brincou, fingindo-se de magoado. Nagihiko revirou os olhos, sem cair naquela atuação barata.
— Deixe de drama. Nem é época de férias da escola que eu sei, pode me dizer o motivo que o trouxe até aqui. Aliás, onde está o Jamie? No hotel ainda? — ele olhou ao redor, como se esperasse que o namorado músico do seu amigo, com seus cabelos negros e vários brincos nas orelhas, estivesse logo ali virando a esquina também.
— Ah… — Chris deu um sorriso quase melancólico, que Nagihiko não reconhecia — Jamie não veio. Só eu.
— Chris-kun… aconteceu alguma coisa? — Nagihiko indagou preocupado, embora não precisasse pensar muito para deduzir que provavelmente, envolvia Jamie. É claro, Chris jamais viajaria tão longe sem o seu namorado por perto se nada tivesse acontecido. E, ele ainda recordava, quando vivia em Londres, era sempre ele que ajudava aos dois com qualquer desentendimento, e eles viviam brigando por qualquer coisa mesmo. Mas, dessa vez, parecia ser mais sério do que uma simples discussão de casal. A expressão no rosto de Chris só confirmava sua suspeita.
— Sim, mas… eu não quero falar disso agora! Vamos, me conte sobre você! Como vão as coisas com o seu Hotori? Ele está bem? Saiba que eu estou super ansioso para finalmente conhecer o awesome and marvelous Príncipe Hotori que conquistou seu coração…
— Hai, hai… só.. não chame ele assim em voz alta… — Nagihiko soltou uma risadinha só de pensar na confusão que isso geraria — Bem, algumas coisas envolvendo a família dele aconteceram recentemente, e ele não está muito bem, mas acho que pode fazer bem conhecer pessoas novas e espairecer, não é? Eu estava indo vê-lo agora mesmo, você quer me acompanhar?
— Of course, vai ser ótimo. — Chris se esforçou em sorrir, e Nagihiko podia notar que ele não estava feliz de verdade, mas se ele não queria contar agora, tudo bem, ele se encarregaria desse assunto quando tivesse a oportunidade.
Os dois foram caminhando pela rua, conversando sobre trivialidades, sobre a vida de Nagihiko no Japão, e ele ia mostrando coisas diferentes que viam por ali, mostrando e explicando tudo a Chris. Explicou rapidamente também sobre o que era a loja que iriam visitar, de Ikuto, para que o estrangeiro não se chocasse a primeira vista, embora Chris sempre tivesse tido uma mente muito aberta para todo tipo de assunto.
Enfim, chegaram na Nyanderful. Chris logo se distraiu a olhar para as fantasias espalhadas pelo local, e Nagihiko foi na frente, andando até o balcão. Ikuto estava escorado em um canto, adormecido, e nem mesmo a sinetinha acima da porta havia o acordado. Francamente, Nagi não sabia como é que ele ainda não havia sido assaltado, descuidado desse jeito.
Porém, abrindo a porta que dividia a loja rapidamente, vinha Tadase. Ao contrário do dono da loja, ele ouvira o sinal da porta, e viera atender os possíveis clientes. Abriu um sorriso genuíno ao ver Nagihiko, mas ele notou que ainda tinha marcas debaixo dos olhos, de dormir mal e chorar bastante. Ele avançou de braços abertos, pulando no colo do namorado, abraçando-o com tanta força quanto podia, na ponta dos pés. É claro que Nagihiko retribuiu ao abraço urgente, afagando os cabelos loiros e bagunçados carinhosamente.
— Você está bem? — ele indagou em voz baixa, depois de se afastar minimamente para acariciar o rosto de Tadase com ambas as mãos. Ele ainda parecia muito abatido. Ajeitou os cabelos dele, tirando a franja dos olhos.
— Fico melhor com você aqui… — ele respondeu, enterrando novamente o rosto no peito de Nagihiko. Estava tão frágil, vulnerável, parecia que poderia quebrar a qualquer segundo. Nagihiko sentia-se impotente, como nunca antes, diante disso. Tinha raiva daquela mulher, que se dizia mãe de Tadase, e que foi capaz de dizer coisas tão cruéis para ele. De Yui, que nesses anos todos, nunca se posicionou de forma nenhuma contra os abusos de Mizue, por mais que não concordasse com eles. Mesmo de Tsukasa, que poderia ter dado a chance de Tadase viver uma vida diferente. E certamente, da mulher que tantos anos atrás rejeitou Tadase quando ele ainda era só um bebê.
Porém, não adiantava nada pensar nisso agora. O que estava feito, estava feito, e tudo o que restava a ele, assim como Haruka disse, era cuidar de Tadase, protegê-lo, e garantir que ele nunca mais fosse se sentir sozinho.
Chris permaneceu em silêncio, observando os dois um tanto afastado e com um pequeno sorriso indecifrável no rosto, mas Tadase reparou nele, e encolheu um pouco mais nos braços de Nagihiko ao notar o estrangeiro.
— Bem, Tadase-kun… você se lembra do Christopher? Eu já falei sobre ele para você, e mostrei algumas fotos… Ele era meu colega durante o tempo em que eu estudei em Londres. — Nagihiko introduziu, girando para ficar de frente para o amigo. Tadase endireitou-se, ajeitando as roupas rapidamente, e fazendo uma reverência polida e breve.
— M-me perdoe pela forma como eu apareci agora… — ele pediu rapidamente, embaraçado. Havia agido como uma criança mimada, da maneira que só se permitia ser quando estava a sós com Nagi, na frente de outra pessoa! Isso era constrangedor demais. — Muito prazer, eu sou Hotori Tadase… Namorado do Nagihiko-kun… — ele ergueu os olhos, absolutamente admirado com a maneira como essas palavras soavam ao ouví-las. Era a primeira vez que se apresentava a alguém dessa forma. E parecia tão certo, tão natural…
— Eu sou Christopher Watson, e é um prazer finalmente conhecê-lo. Depois de tanto ouvir sobre você durante todo aquele tempo, nem parece ser a primeira vez que nos vemos. Você é exatamente como Nagihiko descreveu. — Chris tinha no rosto seu habitual sorriso cordial, embora não espelhasse ele nos seus olhos também. Tadase sorriu em resposta, da mesma forma vaga, embora estivesse também ligeiramente corado, só de imaginar nas coisas que Nagi poderia ter dito.
— É bom finalmente poder apresentar vocês dois — Nagihiko completou com um sorriso, abraçando Tadase pela cintura e afagando suas costas carinhosamente — Querem ir para algum lugar? Um café, quem sabe?
— Ah… mas vocês não se veem há tanto tempo, eu vou atrapalhar… — Tadase entoou, sem graça — Melhor irem só os dois…
— Não será incômodo nenhum, pelo contrário! Nagihiko falava sempre tanto de você, que me deixava atordoado. Vai ser ótimo ter a pessoa real para conversar também — Chris comentou, rindo da cara indignada que Nagihiko fazia.
— Ah… eu… — Tadase pareceu perdido por alguns segundos, olhando de Nagihiko, de volta para Chris, e então para o chão. A verdade é que não sentia muita vontade de sair agora, e quando Nagi avisou que estava vindo, ele só pensava em ficar perto dele, em seus braços, e não pensar em nada. Mas agora, com a visita inesperada do amigo dele, seus planos teriam que ficar de lado por algum tempo, e ele só não queria ser mais um peso para a pessoa mais importante para ele. — Eu não posso sair e deixar a loja com o Nii-san… olha só… — ele apontou para Ikuto, que ainda dormia, completamente alheio às visitas no seu próprio estabelecimento. — E ele ainda deixou eu ficar morando aqui com ele durante… ahn… esse tempo. Então o mínimo que posso fazer é cuidar das coisas por aqui.
— E você vai ficar bem sozinho nessa loja, Tadase? — Nagihiko o fitou, preocupado. Ainda não esquecera dos incidentes problemáticos que ocorreram justamente por causa do tipo de coisas que Ikuto vendia ali. Tadase tentou sorrir, de toda maneira, para tranquilizar o namorado.
— Vai ficar tudo ótimo. Eu sei como me virar, e se qualquer coisa acontecer, eu ligo para você. Além do mais, a Utau-nee e o Kyouharu-san vão vir até aqui durante a tarde, então não tem problema nenhum. E eu sempre posso acordar o Nii-san, não é? Nós nunca estamos realmente sozinhos, afinal. — ele acenou discretamente para Kiseki, que repousava em seu ombro, e que apenas Nagihiko podia ver. Kiseki acenou uma única vez, como se confirmasse as palavras de Tadase.
Nagihiko entendia que Tadase estava fazendo um esforço enorme para parecer animado, e ele podia enxergar através de cada uma das ações dele. Depois de tudo o que ocorreu, ele estava sensível sobre cada pequena coisa que acontecia ao seu redor, e Nagihiko percebia que ele tinha medo de incomodar ou de atrapalhar quem quer que fosse. Se ele realmente ficasse ao redor de Tadase, como queria, preocupando-se com ele, só o deixaria ainda mais desconfortável e o faria sentir-se culpado. Mas ele também não estava com humor para sair e conversar, e forçá-lo a fazer isso seria pior. Ele se recuperaria no seu próprio ritmo — era o que o lado Rhythm do seu coração lhe dizia. Só que ele realmente não queria deixar Tadase sozinho para sair com seu amigo, por mais importante que ele fosse.
— Eu… acho que nós podemos ficar por aqui, então, não é Chris? — Nagi sugeriu.
— Claro, não vejo problema nenhum. — ele sorriu também, rapidamente entendendo as intenções do amigo.
— Não, por favor, não façam isso por minha causa! De verdade, isso só vai fazer com que eu me sinta pior. Vão conversar e comer alguma coisa. Mostre a cidade a ele! Eu vou ficar bem!
— Mas, Tadase…
— Não, Nagihiko-kun. — Tadase fez uma cara séria, e apoiou ambos os braços no peito de Nagihiko, para encará-lo de perto — Faça isso, por favor. Por mim… — ele ergueu os olhos escarlates, úmidos, e Nagihiko vacilou em sua convicção.
— T-tudo bem… — ele passou a mão nos cabelos, desviando o olhar. Tadase tinha uma maneira toda especial de manipulá-lo, e ele acabou cedendo, mas não estava exatamente feliz com isso — Mas eu vou e volto bem rápido, está bem? Não vou demorar.
— Ok. Se divirta — Tadase mais uma vez sorriu. Nagihiko acariciou seus cabelos, e seu rosto, antes de depositar um beijo terno e um tantinho demorado em seus lábios surpresos. Tadase corou até a raiz dos cabelos, e permaneceu um tempo desconcertado pelo constrangimento. Chris estava olhando! Que vergonha…
— Good bye, Tadase! — Chris sorriu cordialmente, acenando, enquanto ele e Nagihiko se precipitavam juntos para a saída. Tadase acenou também, completamente embaraçado. — Hm, você, hein? — assim que se colocaram na rua, Chris cutucou Nagi com o cotovelo — Quem diria que algum dia eu o veria fazendo essas coisas. Você e o Tadase fazem um casal lindo! Eu acho que nunca vi duas pessoas com tanta afinidade quanto vocês dois.
Nagihiko sorriu, corando ligeiramente.
— Eu fico feliz por isso… — ele respondeu, sinceramente.
— Ele é mesmo muito fofo, assim como você disse! E não me olhe com essa cara, você sabe que é verdade, e eu tenho olhos na cara, não teria como não notar! Ele é lindo e cute, mas você sabe que não é o meu tipo, não se preocupe. — ele acenou despreocupadamente com a mão, e por um momento, lembrou à Nagi o antigo Chris com quem ele saia em Londres. — Eu fico tão contente por ver você ao lado dele. Na Inglaterra, você sempre andava sério e raramente sorria. Seus olhos não tinham brilho, sua voz não tinha nenhuma animação. Você parecia um boneco vazio e sem vida… mas agora, é como se eu estivesse conhecendo você de novo, e você parece enfim, completo.
— Mesmo? — Nagihiko soou surpreso, embora já imaginasse que essa seria a impressão que alguém de fora poderia ter. Sorriu para si mesmo — Eu realmente sentia como se não estivesse vivendo, quando estava na Inglaterra… Sinto muito, por ter sido sempre uma péssima companhia quanto estive por lá.
— Não tem problema, eu sei que você se esforçava. E me deixa muito contente ver você aqui, feliz de novo…
Nagihiko desviou em uma das esquinas e conduziu Christopher até um café ali por perto, onde ele as vezes ia com Tadase e os outros. Os dois escolheram uma mesa, e fizeram seus pedidos, e quando a garçonete (que havia ficado extasiada com a presença do estrangeiro, mas achou que Nagihiko fosse a namorada dele) enfim se afastou, ele encarou o amigo, dessa vez mais sério.
— Então, Chris-kun, já falamos sobre mim. E você? Vai me contar o que está acontecendo ou não? — como sempre, Nagihiko foi direito e certeiro.
Christopher desviou os olhos claros para a mesa, subitamente desconfortável. Juntou as mãos, nervosamente, e então suspirou. Sempre havia sido tão fácil conversar com Nagihiko, e eles se entendiam muito bem, pois compartilhavam experiências em comum, e pensavam de forma semelhante. Ele suspirou, decidido a desabafar, e sabia que a única pessoa que o entenderia e que poderia ajudá-lo, estava à sua frente.
— Eu e o Jamie… nós terminamos. Faz mais de duas semanas.- ele entoou, em voz baixa.
— O que? Por que não me contou isso? Vocês sempre estiveram tão bem, o que foi que aconteceu?!
— É uma história meio longa… nós já estavamos discordando em vários aspectos, e brigávamos com cada vez mais frequência. Ele deixava de me ver para ficar ensaiando com a banda dele, e meus horários de aula estavam cada vez mais cheios. Eu fui escolhido para estrear no musical do fim da primavera, que será daqui há um mês. Vamos apresentar “Sonhos de uma noite de Verão” — ele sorriu, e Nagihiko compreendeu — Os ensaios ficaram cada vez mais extensos e eu saía exausto de cada um deles. Jamie havia conseguido um contrato para a banda dele em um pub famosíssimo de Londres, e também estava ensaiando muito, e tocando praticamente todas as noites. Nós quase não nos víamos mais… e quando nos viámos, discutíamos, por que nenhum de nós queria dar o braço a torcer e arrumar tempo para ver o outro.
Os pedidos feitos chegaram, e Nagi começou a comer, mas Chris nem tocou no seu bolo de chocolate.
— Mas… vocês já passaram por isso antes… Não entendo por que terminar logo agora!
— Nagi… ele… o Jamie me convidou para morar com ele. — Chris falou de uma vez só, escondendo o rosto — Depois de outra briga nossa, ele disse que se nós não estavámos mais conseguindo tempo um para o outro, então era melhor assim, por que pelo menos, estaríamos na mesma casa. Ele queria me apresentar para o seu irmão e para toda a família dele! Oficialmente, sabe?
— Chris… isso… isso é quase um pedido de casamento! — Nagihiko exclamou, chocado — Ainda não entendo o problema…
— Eu fiquei com medo. — ele admitiu. — Fiquei com medo da responsabilidade e do peso que essas circunstâncias todas traziam. Morar juntos! E apresentar para a família! Eu sei que isso parece maravilhoso, mas… a família dele pode até aceitar tudo isso numa boa, mas a minha família não aceita. Eu jamais poderia fazer o mesmo por ele…
— E isso realmente importa, Chris? — Nagi sorriu, compreensivo — Você sempre me disse para que eu não me importasse tanto com o que os outros pensam, e que eu deveria lutar por aquilo que eu queria…
— Esse é o ponto — Chris encolheu-se, sentindo-se culpado, vulnerável. Mexeu a colher no café que havia pedido, e tomou um gole pequeno — Eu não sei o que eu quero…
— Você não ama o Jamie? Não tem certeza de que quer ficar o resto da vida com ele?
— Eu tenho… tenho certeza absoluta. Mas… foi tão repentino. Eu não estava esperando por isso, mas… ele falou de uma maneira tão… brusca! Como se não houvesse outra alternativa, como se isso fosse uma obrigação. Eu esperava que ele ao menos fosse um pouco… sabe? Romântico sobre isso.
— Então…. o seu problema é a falta de romantismo?
— Não é só isso. Alguns meses atrás, uma professora me indicou para fazer um teste de uma peça em Winchester. Consegue imaginar isso? Eu fiz o teste e passei na primeira etapa. Mas se eu passasse pela segunda, e realmente fosse aprovado, teria que morar por seis meses lá. E o que o Jamie disse para mim? “Vai, vai ser bom para você” Ele disse só isso! Não disse que sentiria minha falta, ou que tentaria ir me visitar! Nem mesmo cogitou a possibilidade de ir comigo! Entende o que eu digo? Eu sinto como se não fosse importante para ele! Aposto como ele ama muito mais aquela banda dele do que a mim!
— Não diga isso, Chris. Jamie te ama muito e eu percebi isso assim que o conheci. Todas aquelas músicas lindas que ele escreve para você, não são prova suficiente? A maneira dele se expressar é através da música, e não com palavras ou ações. Ele sempre foi calado e reservado, você tem que aprender a interpretar o que ele quer te dizer.
— Mas as vezes só isso não é suficiente. Eu quero que ele me diga o que quer, diretamente! Se ele simplesmente disser “Então, vamos morar juntos” como se fosse uma solução de um problema e não a vontade dele, como é que eu vou ter certeza de que isso é algo que ele realmente deseja, e que vai nos fazer bem? Eu não tenho certeza de mais nada… e isso é por que ele não me fala o que pensa!
— Eu entendo… Sabe, eu e o Tadase-kun já tivemos problemas assim. Nós não falávamos o que sentíamos. Nos conhecemos há tanto tempo, que a impressão era a de que as palavras não eram mais necessárias, e que tudo já estava claro o suficiente. Nós nos separamos por algum tempo, e então, percebemos nossos erros. Conversamos, e decidimos o que queríamos para o nosso futuro. Acho que é isso o que está faltando para você e o Jamie. Uma boa conversa, colocar tudo para fora, não esconder mais os sentimentos, por mais errados que eles pareçam.
— Você… tem razão, Nagi… — Chris suspirou — Você sempre teve os melhores conselhos, apesar de ser bem mais jovem. Mas… é mais fácil dizer do que fazer. Eu não sei se consigo encará-lo depois daquela briga. Eu disse coisas horríveis a ele… não sei se ele vai me perdoar. Foi um fim terrível.
— Todo casal passa por algumas dificuldades, é normal. E você fugiu, depois de se arrepender, e isso não é bom. Você tem que encará-lo de frente, e dizer o que pensa. Se você não diz nada, como espera que ele seja o primeiro a se expressar? Deixe claro aquilo que você quer, e ele vai compreender e vai responder. — Nagihiko sorriu, de uma maneira tão genuína que Chris quase pensou que ele fosse uma garota por algum tempo — Você não quer vê-lo de novo e se desculpar pelo que disse?
— Sim, eu quero… — Chris admitiu — Msas não tenho certeza sobre o que dizer. E aquela proposta dele, eu não sei o que pensar sobre isso. Estou confuso… Sabe, essa viagem para cá, nós iriamos fazê-la juntos, durante as férias, mas eu adiantei a passagem e fugi dele. Fui muito imaturo e inconsequente, eu sei… mas ainda não estou pronto para encará-lo. Preciso de tempo para pensar.
— Então aproveite. O Japão é um lugar perfeito para se acalmar e se concentrar em si mesmo. — Nagihiko afirmou com tranquilidade — Tire um tempo para si mesmo, aqui, e quando sentir que tomou uma decisão, você retorna e esclarece as coisas com o Jamie. Ele te ama demais, e eu sei que vai compreender as suas razões, assim que você explicá-las a ele direito.
— Thank you, Nagi. Thank you very much. Você é o melhor amigo que alguém poderia querer. — Chris agradeceu do fundo do seu coração, sem palavras para explicar o que isso siginificava para ele.
Ele sempre fora uma criança solitária, não tinha irmãos, nem nenhum amigo. Na época da escola, estava sempre sozinho, e as outras crianças eram impiedosas e sempre tiravam sarro dele e do seu jeito diferente de ser. A adolescência foi a pior fase de todas, pois foi quando ele descobriu sua preferência, e as coisas foram ficando cada vez mais dificeis. Ele teve vários namorados não muito sérios, mas nunca um amigo de verdade. Quando seus pais descobriram, o expulsaram de casa. Ele tinha apenas 17 anos. Viveu por algum tempo com trabalhos de meio-período, alugando um apartamento barato na pior região de Londres, até enfim conseguir uma bolsa de estudos na Escola de Dança e Interpretação. Passou a morar nos dormitórios, e conheceu algumas pessoas legais. E por meio desses conhecidos, acabou conhecendo Jamie.
Difícil acreditar, mas foi amor à primeira vista. O jeito sério e reservado do músico, que escondia lá no fundo um lado sensível e romântico que ele só demonstrava quando estava no palco, conquistaram Chris de fato. Eles se tornaram amigos, e saíram algumas vezes juntos. Chris ia a todos os shows da banda dele. Até que um dia, quando havia ficado tarde demais para voltar para o dormitório da Escola, ele acabou indo para o apartamento de Jamie, que ficava perto de onde estavam. Conversaram por horas, até a madrugada, sobre tudo. Chris se sentiu mais a vontade para falar sobre si do que em toda a sua vida, e Jamie, apesar de sempre calado, também abriu seu coração. Eles conversaram sobre suas vidas, seus medos, e seus sonhos. E no final, Jamie disse que sempre achou Chris encantador, e que havia sido uma ótima escolha se apaixonar por ele. Chris pensou que poderia morrer, de tanta felicidade. Nunca havia, em toda sua vida, ouvido uma declaração tão sincera. Jamie era tudo aquilo que ele sempre sonhara. Jamie o beijou pela primeira vez naquela noite. Um beijo doce, carinhoso. Respeitou seu espaço, e garantiu a ele um tempo para pensar. Mas não havia nada para pensar, Chris já havia decidido! Estava decidido desde o dia que viu aquele garoto pela primeira vez. Eles começaram a namorar, e tudo aconteceu de forma tão natural e esperada, que ninguém se surpreendeu. Eles haviam sido feitos um para o outro.
Nagihiko conhecia essa história, e sabia muito bem que além de Jamie, Chris não tinha mais ninguém. Faria de tudo para ajudar o seu amigo, e tinha certeza de que ele enfrentaria essa dificuldade e encontraria a resposta para os seus problemas, e para isso, ele estaria ali em qualquer circunstância.
Depois disso, os dois terminaram de comer, e Nagihiko colocou Chris a par dos acontecimentos que ocorriam, desde a última vez que eles haviam se falado por telefone. Contou superficialmente sobre o que ocorria, e sobre como ele e Tadase estavam indo. Chris se mostrou solidário e compreensivo, disse que ajudaria no que fosse preciso. Era mesmo uma situação complicada, e ele sentia-se um pouco invasivo por ter chegado justamente em uma hora tão pouco propícia, mas Nagihiko o tranquilizou quanto a ser um incômodo. Tinha certeza de que Tadase adoraria Chris, assim que eles tivessem tempo de conversar direito.
Após muita conversa, Nagihiko perdeu a noção do tempo. Eles realmente haviam demorado mais do que o previsto.
— Não se preocupe, Nagi, eu sei voltar ao hotel sozinho. Você está doido para ver como o Tadase está, não é?
— Mas… tem certeza? Você vai ficar sozinho no hotel, afinal, é um pouco chato… Não quer ficar na minha casa?
— Sem ofensas, mas… sua mãe não é exatamente alguém que eu queira por perto, pelas coisas que você me contou dela. Então, prefiro não…
— Entendo. Ela também não é alguém que eu queria ter por perto, mas tem coisas que não dá pra evitar. Bem, então nós nos vemos amanhã? Vamos tentar sair com o Tadase e os meus outros amigos também!
— Eu vou adorar conhecê-los!
Sendo assim, Chris voltou para o hotel, e Nagihiko correu o mais rápido que podia de volta à Nyanderful. Tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, deixavam-o até mesmo tonto, ele nem sabia o que fazer primeiro. Aquela ansiedade, sensação inquieta de que havia algo que ele precisava urgentemente fazer, mesmo sem saber o que era, não queria abandoná-lo. Ele corria para Tadase, mas também, corria simplesmente, porque não havia mais nada que pudesse fazer. E essa sensação de incapacidade, sempre foi aquilo que ele mais detestou sentir…
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