Itsumo Yakusoku
36 Capítulo 36 - Mamoritai
Notas iniciais
O seu calor espalhou-se em minhas mãos
E em todo o meu interior
Buscaremos o nosso destino
Com um só coração
Quero te proteger assim como você me protegeu
Mesmo quando não podemos estar juntos
Cada segundo que passa
Faz com que fiquemos mais fortes
Enquanto vemos juntos as estrelas no vasto céu da noite
O amanhã está nascendo longe desse dia precioso
Eu não me esquecerei o modo como dividimos
Nosso calor dessa maneira
Sinto apenas uma fonte de luz
Iluminando o futuro
Apresse-se, amanhã
A tristeza que congelou tudo
Irá gentilmente derreter-se
Para sempre
E sempre…
Capítulo 36
~
Mamoritai
Tadase repousou a caneta e a calculadora que tinha em mãos com um suspiro satisfeito, e levantou os olhos para Ikuto, do outro lado do balcão.
— Está pronto, Ikuto-nii. – ele girou o caderno para mostrar – Acabei de fazer as contas desse mês.
Já fazia quase um ano desde que Tadase decidiu ajudar Ikuto com a contabilidade da loja, assumindo a evidente inaptidão do mais velho para matemática financeira. Como ele estava acostumado a esse tipo de tarefa no conselho (seria trabalho do tesoureiro, mas Kukai não era nem de longe a pessoa indicada para a tarefa), não era difícil para ele fazer isso para a Nyanderful, e embora os números fossem maiores, e as transições fossem mais complicadas, Tadase achava fácil, já que a dinâmica era a mesma. Não era exatamente divertido, mas ajudava ele a se distrair durante a época em que Nagihiko estava fora, sem falar que Tadase até gostava de manter os números em ordem. Se não fosse por ele tomando conta das entradas e saídas do dinheiro de Ikuto, ele muito provavelmente já teria deixado tudo isso para lá.
— Ah, valeu, pirralho! – ele afagou a cabeça de Tadase, bagunçando seus cabelos – Não sei o que faria sem você para me ajudar. – Aqui, seu pagamento… — ele deslizou um embrulho de papel pardo por cima do balcão. Tadase se surpreendeu, já que Ikuto não costumava ser generoso com pagamentos de qualquer natureza.
— Nii-san, isso é…
— Não precisa agradecer, mas não abra aqui, okay? Seria ruim se os clientes vissem minha mercadoria nova antes de eu expô-la… — Ikuto sussurrou, e Tadase assentiu. É claro que aquele presente deveria ser alguma coisa indecente, o que mais poderia esperar do dono daquela loja?
Tadase olhou ao redor, mas só havia um único cliente na loja, e ele não se lembrava de ter visto qualquer outro durante o dia inteiro. O lucro de Ikuto deveria vir todo das vendas pela internet, sem dúvidas. Também não se recordava de ter visto quando aquele cliente em particular entrara ali, mas ele já parecia estar olhando as mercadorias há um bom tempo. Ikuto era partidário da ideologia de não perturbar o cliente na hora da compra.
— O que é isso? – ele indagou, indicando o pacote – Se for alguma coisa muito obscena, eu não posso levar para casa, Nii-san!
— Calma, garoto, eu não vendo só esse tipo de coisa aqui não, viu? – ele piscou, como quem tenta tranquiliza a outra parte, mas não parecia nada convincente – Não é nada muito radical, eu prometo. Só uma roupinha, você sabe… para variar um pouco as coisas. Vai por mim, vai ser necessário um dia. Vocês ainda estão no início, e tudo é novidade, mas uma hora cai no tédio, e esse tipo de coisa salva vidas! – Ikuto parecia convicto de que sua missão era digna, mas Tadase não entendia nada do que ele dizia.
— Apenas me diga o que tem aqui…
— Como você é teimoso! Certo, é um vestido. Do tamanho do seu valete. Um vestido de maid. Eu lembro que na época da Seiyo você e ele brincavam de reizinho e criada no Royal Garden então pensei que…
— Aquelas eram as tarefas do valete, Gato Ladrão! – Kiseki, que até aquele momento estava observando Tadase muito entediado, pareceu acordar somente agora – Mas tenho que admitir que é um presente apropriado, talvez você devesse tentar, Tadase… já faz muito tempo que o valete não cumpre suas funções… — ele sugeriu, obviamente sem saber do que se tratava a conversa dos dois.
— Não fale assim! Ele não é mais o meu valete ou qualquer coisa… — Tadase corou, e baixou a voz para um sussurro, temendo que o freguês de Ikuto os ouvisse – Por que está me dando isso afinal?
— Eu não sou bobo como aquelas garotas, Tadase, você não conseguiria me enrolar como vem fazendo com elas durante toda essa semana – Ikuto deu um tapinha na cabeça de Tadase, como se estivesse repreendendo – Eu sei muito bem até onde vocês foram, e é só olhar para essa sua cara de tolo que qualquer um percebe. Vi o seu Fujisaki outro dia na rua, e ele parecia estar saltitando no ar.
— I-ikuto-n-nii-san! Eu… e-eu não entendo aonde você quer chegar…
— Não adianta se fazer de inocente! O onii-sama aqui já sabe de tudo. Pode me contar o que quiser, não vou contar para nenhuma delas…
— Até parece, eu sei muito bem que você conta tudo o que eu digo para a Mashiro-san depois! – Tadase afirmou sem hesitar – Não vou contar nada, ninguém precisa saber sobre… i-isso. É assunto meu e do Nagihiko-kun…
— Ah, até pelo primeiro nome você está chamando ele agora, que fofo! – Ikuto provocou – Eu estou certo, não é? Vocês dois realmente fizeram…
— Chega, Nii-san‼! – Tadase bradou, encerrando a discussão – Por que não falar da sua vida pessoal por enquanto, para variar, hein? Como vão indo as coisas com a garota que você gosta ou qualquer coisa assim?
— Ahn? Quem disse que eu tenho alguma garota? – Ikuto ficou na defensiva, e Tadase não se refreou.
— Eu lembro muito bem que naquela vez em que dormimos na casa do Kukai você disse que tinha alguma garota “em vista”. – ele insistiu.
— Ah, você está ficando espertinho, não é? Já sabe até evitar as perguntas dos outros! – Ikuto se levantou, e pressionou a mão no topo da cabeça loira de Tadase – Aquele garoto anda ensinando coisas demais para você. Então, como punição, use meu presente no dia dos namorados ou algo assim, depois me diga o que o Fujisaki achou…
— Pare com isso, Nii-san – Tadase bradou mais uma vez, mas então sorriu contidamente. Ele estava verdadeiramente feliz por estar com Nagihiko, e estava feliz por que todos sabiam sobre isso. Era uma felicidade diferente de antes, ele sentia quase como… se tudo fosse dar certo. E sua alegria irradiava por todos os cantos, como raios de sol, até mesmo Ikuto não conseguia evitar um sorriso de canto.
— Vocês não conseguiram se ver mais depois daquela viagem? – Ikuto inclinou-se sobre o balcão, interessado. – Hoje é sábado, você poderia ter ido a um encontro com ele no outro distrito, como vocês fazem…
— Ele tinha ensaio de dança hoje com a mãe, então eu não pude ir vê-lo – Tadase respondeu, baixando os olhos, embora ainda quisesse se manter otimista -… mas nós conversamos todos os dias, por mensagens ou ligações quando dá tempo, ou então por e-mail…
— E como estão as coisas…?
— Bem, eu contei que ele acabou tendo que dizer toda a verdade para o primo dele… e parece que ele reagiu bem ao saber, então eu fiquei feliz… se alguém da família dele é capaz de nos aceitar, bem… acho que nós temos alguma chance, não é? – Tadase ergueu a cabeça e sorriu mais para si mesmo. – o tio Tsukasa continua dizendo que eu devo manter as esperanças, e que nossos pais algum dia percebam que nós não conseguiríamos viver longe um do outro…
Nesse momento, o cliente de Ikuto se aproximou do balcão com algumas fantasias em mãos para comprar, e ele teve que atendê-lo.
Tadase se ergueu, enquanto ele ia passando as mercadorias pela caixa registradora.
— Eu vou para casa agora, Nii-san, quando precisar de alguma coisa me ligue… — ele ajeitou o banquinho onde estava sentado de volta no lugar, e pegou sua bolsa, colocando atravessada no ombro.
— Tome cuidado, já é noite… — Ikuto disse rapidamente, e voltou-se para o homem – São 2 mil e quinhentos yenes, senhor…
Tadase caminhava rapidamente pela rua quase deserta, pensando no que ia fazer quando chegasse em casa, e Kiseki ia flutuando lentamente ao seu lado. A brisa noturna era fria, e janeiro ia chegado ao fim… Tadase provavelmente iria estudar, já que tinha um monte de provas a fazer, antes da primavera, quando se tornaria um estudante do segundo ano. O tempo estava passando rápido demais, e ele sentia que nunca teve realmente controle sobre ele. Queria estar perto de Nagihiko, e queria que o tempo passasse mais rápido, para até onde ele pudesse realmente estar ao lado dele de verdade, mas em contrapartida, desejava ardentemente que o tempo voltasse até aquela viagem à praia, e parasse ali… ele não se importaria de reviver aqueles dias tão intensos e felizes, ao menos mais uma vez… sentia que nunca havia sido tão feliz quanto naquelas férias.
Enquanto observava distraidamente as estrelas no céu, aproveitando que as ruas daquela parte da cidade eram tão escuras que permitiam uma visão tão privilegiada, ele ia recordando de um evento remoto, quando Nagihiko o levou para uma campina afastada onde eles puderam ver a chuva de estrelas cadentes juntos. Aquilo era tão lindo… e Tadase se perguntava se algum dia o desejo que ele fez naquela noite, se realizaria.
Repentinamente, um ruído baixo o sobressaltou. Ele olhou para trás, alarmado, mas não havia absolutamente nada ao redor. As ruas estavam silenciosas, mesmo sendo sábado, pois ele atravessava um bairro residencial. Havia luzes acesas em algumas casas mais afastadas, mas ninguém à vista. A luz dos postes era tênue e piscava muitas vezes, refletindo a leve neblina noturna e fria que se movia pelo ar.
O coração de Tadase acelerou, e sem pensar duas vezes, ele segurou a alça da bolsa, e começou a caminhar mais rápido, querendo chegar à estação de metrô o quanto antes. Olhou no relógio do celular, e já eram 10 horas da noite. Ele não havia reparado no horário, e não sabia que havia passado realmente tanto tempo na loja de Ikuto. Sua mãe o mataria por chegar tão tarde, e ele pensou em ligar para avisar sobre o atraso, no entanto, não queria ouvir os gritos dela agora, era melhor deixar para explicar mais tarde. Teria valido mais a pena se esse tempo tivesse sido gasto com Nagihiko, afinal.
Mais uma vez, um barulho de passos discretos. Tadase não parou, mas tentou verificar com a visão periférica algum movimento. Viu um gato cinza e grande atravessando a rua e subindo em um muro. Não havia como ter sido dele, pois o ruído era mais forte… e gatos geralmente são silenciosos. Tadase sentiu um tremor agourento, e sabia que estava com medo. Puxou discretamente Kiseki para o seu lado, e ele protestou pelo gesto brusco.
— Shh, Kiseki… — ele sussurrou, não querendo chamar atenção, sem diminuir o passo apressado – Voe até atrás de mim, e veja se há alguém nos seguindo, por favor…
— Alguém o seguindo? Tadase, isso é perigoso! Reis sofrem muitos ataques por tentativas de golpe de estado e…
— Apenas vá! – Tadase sibilou, com a voz falhando. Kiseki assentiu uma vez, fazendo o que o dono pediu. Voltou poucos segundos depois, apressando e com o semblante assustado, muito diferente do usual.
— Tadase, ande mais rápido, e ligue para alguém! Tem alguém atrás daquele poste, e ele fica olhando para você! – Kiseki disse muito rápido, e Tadase sentiu o coração disparar ainda mais. Colocou mais força nas pernas, tirando energia sabe-se lá de onde para caminhar o mais rápido que podia sem correr. Se corresse, seu perseguidor saberia que fora descoberto, e poderia avançar para atacá-lo.
— V-você conseguiu ver quem era, Kiseki? – Tadase indagou em um sopro, com dificuldade para respirar. Começava a sentir uma dor incomoda no lado da costela, desacostumado a mover-se com tanta rapidez, mas ignorou isso e continuou mantendo o ritmo.
— Não. Podia ser um homem ou uma mulher, usava roupas grandes e um boné na cabeça. O rosto também estava coberto com óculos, não consegui ver no escuro. – Kiseki disse rapidamente, segurando-se no ombro de Tadase – Apenas ligue para alguém, se você estiver no telefone, ele não vai tentar se aproximar…
— Sim… — ele puxou o celular com as mãos trêmulas, e ligou para o único número em que podia pensar naquela hora.
— Alô? Tadase-kun, é você? Aconteceu alguma coisa? – Tadase nem havia dito nada ainda, mas apenas pelo som do seu ofegar inconstante do outro lado da linha, Nagihiko já sabia que havia algo de errado. Tadase sentiu vontade de chorar, mas controlou-se. Ainda ouvia o ruído de movimento atrás de si, e um tremor incontrolável tomava seu corpo inteiro.
— N-nagihiko-kun… — ele ofegou, abafando a voz com a mão perto do telefone para que quem quer que fosse aquela pessoa, não o ouvisse – E-eu estou voltando para casa agora, mas… t-tem alguém… me seguindo… e-eu estou com medo… — ele gaguejou, soluçando, e sua visão ficou embaçada pelas lágrimas. Um nó na garganta formou-se, e ele não conseguiu dizer mais nada. Ouvir Nagihiko transmitia segurança, mas ele se sentia mal por preocupa-lo. Talvez não fosse nada demais…
— Tadase-kun, não desligue o telefone! – ele ouviu o barulho de Nagihiko se movendo do outro lado, e a voz dele tornando-se séria e compenetrada – Entre na primeira loja de conveniência que conseguir encontrar, ou qualquer lugar que esteja aberto a essa hora, de preferencia com pessoas por perto, e me diga exatamente onde está. Estou indo até aí para encontrar você!
— N-não, não é necessário, eu só queria… — Tadase soluçou, sentindo as pernas doloridas do esforço de caminhar. Olhava além e não conseguia enxergar nada além das casas todas parecidas, e os lugares desertos. Becos escuros, onde qualquer um poderia se ocultar. Aquela rua sempre foi tão longa assim? Ele não chegava ao final nunca.
— Apenas faça o que eu digo! Continue caminhando, e me diga o que está vendo…
Tadase fez como Nagihiko havia ordenado. Quando encontrou uma loja de conveniência 24hrs na outra quadra, correu até lá e abrigou-se. Informou Nagihiko exatamente o lugar onde estava, e o que via, e ele desligou, indicando que Tadase ligasse mais uma vez se alguma coisa acontecesse.
Espiou pela janela, percebeu uma forma indistinta, que se ocultava no poste do outro lado da rua. Estremeceu, só de pensar no que isso poderia significar. Kiseki tentava acalmá-lo, com suas palavras de auto-confiança, mas isso só estava deixando Tadase mais nervoso ainda. Ele andava de um lado para o outro, mordendo os lábios, com os olhos fixos e amedrontados. O atendente da loja já devia estar ficando desconfiado.
Cerca de quarenta minutos depois, quando Kiseki já havia desistido de fazer alguma coisa, e ido repousar em seu ovo, Tadase visualizou pelo vidro da janela Nagihiko surgindo em alta velocidade, na sua bicicleta. Estava com os cabelos soltos e emaranhados, usando um moletom um tanto fino para aquela época do ano, e os tênis nos pés não estavam amarrados. Para alguém tão detalhista quanto ele, andar na rua daquela maneira só podia ser sinal de desespero, e Tadase se sentiu imediatamente culpado por tê-lo mobilizado daquela maneira.
Mesmo assim, a sensação de alívio foi instantânea. A sombra do outro lado ainda estava ali, e Tadase saltou sobre Nagihiko assim que ele adentrou a loja, abraçando-o com força. Seus ombros tremiam, e seu rosto estava pálido, branco como neve, os olhos refletindo todo o medo que sentia.
— Eu estou aqui, calma… — ele sussurrou, afagando os cabelos de Tadase delicadamente, enquanto beijava o topo da sua cabeça – Não aconteceu nada com você, não é? Você se machucou? – afastou o rosto do menor, segurando-o entre as mãos para inspecionar minuciosamente a procura de qualquer dano.
— E-eu estou bem, agora… N-nagihiko… m-me desculpe por fazer você vir todo esse caminho… ainda mais de bicicleta… — ele murmurou, sentindo que se falasse qualquer coisa mais alto cairia no choro.
—Está bem me chamar quando você tem problemas, Tadase-kun, é para isso que eu estou aqui. – ele abraçou Tadase mais uma vez, e aos poucos, o tremor dele ia passando – Eu vim de bicicleta por que seria mais rápido do que esperar a volta do metrô.
— S-s-sua mãe… — Tadase não conseguiu terminar de formular a pergunta, mas Nagihiko entendeu mesmo assim.
— Ela não me viu sair, e Hideyoshi disse que me daria cobertura caso ela percebesse. Ele também ficou preocupado com você, sabe?
— V-vamos logo para casa então, antes que ela repare… — ele sugeriu, em voz baixa.
Nagihiko comprou uma garrafinha de água e um pacote pequeno de biscoitos antes disso, entregando a água para Tadase tomar, e tentar se acalmar um pouco. O atendente da loja chamou finalmente, que até aquele momento, estava hesitando sobre como proceder, era um adolescente comum, de cabelos escuros e curtos, sardas sobre o nariz, e o avental vermelho sobre uma camisa pólo branca
—Q-querem que eu chame a polícia? – ele sugeriu, enquanto Nagihiko pagava pelos produtos — Se houve algum assalto… eu posso…
— Está tudo bem agora, obrigado, não é necessário – Nagihiko sorriu, abraçando Tadase pelo ombro. O atendente assentiu, parecendo preocupado também, e os dois saíram novamente para o ar frio da noite. Nagihiko ergueu a bicicleta, que ele havia jogado de qualquer maneira na calçada para ver Tadase o quanto antes. – Onde está essa pessoa…? – ele olhou ao redor, procurando por qualquer figura suspeita. Tadase olhou para o poste onde ele estava escondido antes, e não viu nada mais. Em nenhum lugar, a rua estava completamente vazia.
— Ele sumiu… — Tadase balbuciou. Por um breve momento, cogitou a possibilidade de estar ficando maluco, e tudo aquilo ter sido produto da sua mente.
— Vamos então… — Nagihiko segurou a mão de Tadase para ajuda-lo a montar no banco de trás da bicicleta. Ele o abraçou com toda força, enterrando o rosto nas suas costas, e se tranquilizando apenas em sentir o perfume floral que Nagihiko naturalmente possuía. A vontade de chorar passou, e ele se sentia seguro novamente. com Nagihiko por perto, não havia nada que ele temesse.
O caminho não foi tão longo quanto ele esperava, e logo, chegaram à rua onde Tadase morava. As luzes da casa estavam acesas, e só agora Tadase percebeu que sua mãe deveria estar alucinada com seu atraso. Preparou-se mentalmente para o embate, e desceu da bicicleta, apoiando-se no ombro de Nagihiko. Ele virou-se na sua direção, sem sair do lugar.
— Tadase-kun, se qualquer coisa como hoje voltar a acontecer, por favor, não hesite em me contar, está bem?
— Sim. – Tadase concordou. Ainda estava um tanto temeroso, mas a simples presença de Nagihiko era suficiente para atenuar suas inquietações, e ele se sentia aliviado por ter alguém como ele, sempre disposto a atravessar a cidade para ajuda-lo, em qualquer dia. Podia soar egoísta, mas ele tinha muita sorte em ter Nagihiko em sua vida. – Dessa vez foi você o Príncipe que me salvou dos apuros, não é, Nagihiko-kun? – ele sorriu calidamente, e inclinou o rosto para o lado. Nagihiko sentiu algo agitar-se em seu peito apenas em ouví-lo chama-lo pelo nome com aquela voz. Soltou uma das mãos do guidão, acariciando rosto de Tadase delicadamente, e trazendo-o para mais perto. Tadase enlaçou seu pescoço com os braços, de olhos fechados, tocando sua testa com a dele.
— Eu iria até o fim do mundo se fosse preciso, Tadase-kun, para salvar você… — ele sussurrou com voz rouca, e Tadase sentiu outro arrepio. Dessa vez, era bom. Muito bom. Ergueu o rosto, e seus lábios encaixaram-se, como se fosse predestinados, criados para estar um no outro. Nagihiko aprofundou o beijo até onde podia, naquela posição desfavorável sobre a bicicleta, e quando se afastou minimamente para respirar, depositou outro pequeno beijo no nariz vermelho de frio de Tadase. – Tem planos para o próximo dia 14?
— O que? Você diz o dia dos namorados? – Tadase arquejou, surpreso com aquele assunto tão repentino. – É claro que nós temos aula… mas além disso eu não tenho nada…
—Reserve esse dia para mim – ele sorriu e roubou mais um beijo rápido de Tadase, antes que ele pudesse responder. – Marque com um coraçãozinho no seu calendário – ele brincou, e Tadase deu um tapa no seu peito, rindo para si mesmo.
— Bobo… o que você está pensando em fazer?
— Na hora você vai saber. – ele manteve o tom misterioso na voz, e Tadase ergueu os olhos. Não conseguia imaginar ninguém mais ao seu lado, naquele ou em qualquer outro dia, então o pedido de Nagihiko era infundado. Mas ele não disse isso, ou ele ficaria convencido demais. Resolveu não tentar adivinhar a surpresa, também, embora tivesse ficado ansioso.
—Nagihiko-kun… obrigado, por hoje. Por ter vindo…
— Você sabe que não precisa me agradecer, não sabe? Eu faria qualquer coisa por você. – ele se inclinou, segurando a cabeça de Tadase por trás, e beijou-o na testa – Eu amo você.
— É melhor eu entrar… — ele disse de repente, pois sabia que quanto mais tempo ficasse ali, menores seriam as chances de querer se separar de Nagihiko. E ainda tinha que se explicar com sua mãe. – Eu te amo também, você sabe! – ele não resistiu em erguer-se apenas mais um pouco, segurando o rosto de Nagihiko para beijá-lo mais uma vez.
Depois disso, correu para o fim da rua, onde ficava sua casa. Antes de entrar pelo portão, olhou para o lado, e Nagihiko ainda estava ali, sorrindo e acenando para ele com a mão. Sorriu em resposta, e suspirando, entrou de uma só vez.
Por fim, explicar-se para sua mãe não foi necessário. Ela havia ligado para Ikuto, e o mais velho, imaginando que Tadase não havia chegado em casa ainda por que deveria ter se encontrado com Nagihiko, inventou uma desculpa qualquer para o atraso, e o salvou. Tadase foi direto tomar um banho, para então dormir. Havia comido o pacote de biscoitos que Nagihiko comprou no caminho, por insistência dele mesmo, pois não sentia fome alguma.
Repousou na mesa de cabeceira o ovo de Kiseki, que já estava em sono alto, provavelmente só tendo se tranquilizado depois que Nagihiko chegou para salvar seu dono, e então deitou em sua cama, com os olhos bem abertos no escuro. Sentiu medo mais uma vez, agora que estava sozinho… e ligou a luz do abajur. Podia soar infantil, mas ao menos assim, ele não ficava vendo formas estranhas em cada canto escuro.
Durante aquela noite, teve muitos sonhos perturbadores e apavorantes, um seguido do outro. Na maioria deles, estava perdido na escuridão da noite, em lugares remotos, ruas e becos desertos e sem fim, florestas de árvores fechadas e intransponíveis, corredores de labirintos infinitos e confusos. Mas no desfecho de cada pesadelo sufocante, com aquela sensação de insegurança e perseguição, o seu cavaleiro brilhante de armadura surgia com espada em punho, em um cavalo fulgurante, e o levava consigo para longe de todo perigo…
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