O dia estava sendo incrível. Os cinco amigos jamais tinham passado por tais experiências em tão pouco tempo. A viagem de mais de vinte horas, a recepção dos fãs no aeroporto, a sessão de autógrafos, e agora, finalmente, o tão esperado show. Tanto para o Charlotte quanto para os seus fãs, que estavam acordados desde cedo, cansados de esperar em frente à entrada, e mesmo assim estavam ali, em frente a eles, com os rostos iluminados pelos canhões de luz. Rostos cansados, mas ao mesmo tempo, extremamente felizes, por estarem vendo seus ídolos tão de perto. Kazuno sentia uma energia extasiante; não conseguia ficar parado num só lugar. Pulava de um lado para outro do palco, aproveitando todo o espaço disponível, dando o máximo ao seu público, que delirava a cada gesto diferente que o vocalista fazia. Percebeu que seus amigos estavam se divertindo tanto quanto ele. Mitsu não tirava o sorriso do rosto, agarrado à sua guitarra. Aliás, ele estava sorridente assim desde que chegaram em São Paulo, quando viu o pequeno amontoado de pessoas os aguardando. Takane, apesar de estar ao fundo na sua tão amada bateria, também estava explicitamente contente, ao seu modo. Não era de falar muito, e tentava ser o mais gentil possível, sem ser tão extrovertido quanto Kazuno. Touya, o guitarrista que mais fazia sucesso entre as garotas, estava um tanto assustado com o assédio das fãs. A maioria queria vê-lo, apertar sua mão, tirar uma foto com ele, o que achou muito estranho. Mas, assim como Mitsu, sorria o tempo todo. E Ruka... Ruka estava um pouco estranho. Claro que estava feliz como os outros, mas não era quieto do jeito que estava na sessão de autógrafos. Kazuno bem sabia disso. Era o que mais conhecia cada um dos integrantes da banda, e logo percebia se havia algo de errado com algum deles. Porém, estava no meio do show, e não poderia pará-lo para perguntar algo ao amigo baixista. Resolveu esperar aquele momento mágico terminar, e então conversar calmamente. Estavam no meio do show. O vocalista já estava quente; quase quinze minutos cantando sem parar. Era hora da pausa habitual. Bebeu um pouco de sua água, e os outros integrantes aproveitaram para fazer o mesmo. Queria fazer mais um pouco de graça e ver seus fãs irem ao delírio mais uma vez. Pegou o pequeno guia de português que ganhara de presente, o abriu, e mencionou dizer algo. Mas foi surpreendido pelos gritos dos fãs começando a cantar \"happy birthday to you\". Seu aniversário seria daqui a quatro dias. Não acreditou no que ouvia. Achou que os brasileiros não saberiam tanto de sua vida ao ponto de cantar \"feliz aniversário\" em pleno show. Agradeceu como pôde, um tanto encabulado dessa vez, mas antes que voltasse ao seu guia, começaram novamente, dessa vez em português. Kazuno fez reverências, e arriscou mandar uma mensagem em inglês para o seu público: \"My birthday is tomorrow and tomorrow\". E mais uma vez, os fãs deliraram, gritando, assoviando, alguns até mesmo chorando. Era um momento extremamente feliz, da vida de todos ali presentes. Kazuno não percebeu, mas Ruka se surpreendeu mais que seus amigos ao ouvir os parabéns que o vocalista recebera. Estava feliz pelo amigo sim, mas estava cansado de toda essa atenção que o loiro andava recebendo o dia todo. Não que fosse a maior dos cinco: Touya ganhava sem hesitar. Mas mesmo assim, o baixista estava farto de ouvir \"Kazunoooo, aishiteruuu\". Talvez estivesse com inveja do sucesso que ele fazia... Talvez... Voltando às músicas, todos deram o melhor de si em cada nota, em cada palavra cantada, em cada rosto observado. Tocaram mais algumas músicas, parando algumas vezes para tentar pronunciar algumas palavras em português, o que deixava os fãs cada vez mais extasiados. Em uma dessas pausas, Kazuno, estando com tanto calor quanto o público, levantou um pouco sua camisa, abanando-se. Isso foi o suficiente para as meninas presentes irem à loucura extrema, deixando o vocalista bastante confuso. Mitsu captou a mensagem, e querendo ver mais sorrisos, se divertindo com tudo aquilo, aproximou-se do amigo e levantou sua camisa, quase na altura de seu pescoço. As garotas pareciam estar em seu leito de morte de tanto que gritavam. O vocalista começou a se divertir com isso, e aproveitando o momento, rebolava e gemia, fazendo as fãs simplesmente enlouquecerem. Achou muito engraçado aquilo, e com certeza, queria fazer novamente durante alguma hora do show. Mas ele não olhou para o baixista, que estava bem atrás dele. Ruka podia jurar que deu um passo para trás quando Mitsujou se aproximou de Kazuno, e poderia ter caído quando viu o loiro rebolar e gemer daquele jeito, na frente de todos. Somente naqueles sonhos malucos que estava tendo o amigo fazia tal coisa. E achou que aquela visão deveria ser somente dele, somente presente em seus sonhos. Queria acabar com aquela palhaçada antes que tirassem fotos não autorizadas, mas já era tarde demais. Pôde ver alguns celulares e câmeras não tão discretos registrar aquele momento livremente, sem culpa alguma. Teve vontade de largar o baixo ali e correr pra fora do palco. Mas isso não estava no contrato. E o contrato não permite sentimentos. O show continuou. — — — — Entraram todos no quarto de Kazuno. Haviam chegado ao hotel a poucos minutos. Dentro da van, Mitsu, Touya e Takane não pararam de falar sobre tudo o que aconteceu no show, sendo o último o mais quieto. As pessoas que viram, os gritos que receberam, as partes engraçadas, as melhores partes, etc. Kazuno ouvira tudo o que os amigos falavam, dando algumas risadas ao ouvir toda a conversa. Mas sabia que tinha algo a fazer. Ruka continuava daquele jeito, sem sorrir nem falar muito; apenas sorria para fingir um interesse na conversa, o que não enganava Kazuno. Já no quarto do vocalista, finalmente o organismo dos cinco cedeu, e o cansaço veio. Após mais alguns minutos de conversa, o baixista foi o primeiro a dar \"boa noite\" aos outros e se dirigir para o seu quarto. Estava exausto. Precisava de um banho. Aos poucos, os restantes foram até seus respectivos quartos, desejando um bom descanso para Kazuno, que estava igualmente cansado. Mas não poderia deixar essa chance escapar agora. Sabia que depois do banho, Ruka deitaria em sua cama e não demoraria dois minutos, estaria dormindo. Precisava ser ligeiramente rápido. Apenas trocou os calçados e a camisa, e, espiando o corredor de dentro de seu quarto, saiu, em passos sorrateiros. Rezava para que ninguém que conhecesse seus hábitos noturnos o encontrasse ali. Certamente seria bombardeado por inúmeras perguntas, e não estava afim de respondê-las. Só havia uma coisa em sua cabeça... Ruka acabara de sair do banho. Estava tão cansado que logo sentou em sua cama, e começou a secar os cabelos com a toalha, não tomando os cuidados realmente necessários para isso. Passava a toalha pelos cabelos molhados aleatoriamente, enquanto pensava nas coisas que vira o dia todo. Ou pelo menos tentava. Tentava alegrar-se de estar fazendo um show internacional pela primeira vez, de ter recebido tanta atenção de todos os lados, de ter ganhado tantos presentes e ter feito tantas pessoas felizes em pouco tempo. Mas aquela maldita imagem de Kazuno não deixava sua mente em paz. A cada segundo lembrava-se de seu corpo se movendo daquela forma tão íntima... Aquela forma em que ele se movia em seus sonhos. Começou a pensar que o errado era ele, e não Kazuno. Afinal, era ele que estava tendo aqueles sonhos pervertidos, aqueles desejos estranhos e com certeza absurdos. O vocalista era seu amigo! Não poderia imaginar uma coisa dessas realmente acontecendo. Os fãs ficariam decepcionados, a gravadora não aceitaria de forma alguma... Mas por que está pensando em “como seria”? Não poderia nem pensar nisso, na verdade... Não queria aceitar, mas reconhecia que havia algo de estranho com ele, algo que já havia sentido antes mas em proporções menores... Abaixou a cabeça e a apoiou em uma das mãos. O que fazer agora? Mesmo se conversasse com o amigo e dissesse tudo o que sentia, que diferença faria? Kazuno continuaria a se divertir daquela forma nos outros shows, ele continuaria sonhando com aquelas imagens sendo reservadas apenas para si... e o baixista continuaria sofrendo, da mesma forma que estivera durante todo esse tempo. Queria resolver, precisava resolver essa situação. Mas por mais que pensasse, a única saída era... Kazuno chegou em frente à porta do quarto de Ruka, sempre tomando o máximo de cuidado que seu corpo cansado lhe permitia. Pensou que sua fuga fora difícil e arriscada, mas chegando tão próximo de seu objetivo, percebeu que o corredor era o menor de seus problemas. Levantou uma das mãos, pronto para dar pequenas batidinhas na porta e avisar o baixista de que havia alguém ali, do lado de fora, chamando por ele. Mas a mão parou. Seus dedos tremiam, traindo-lhe a confiança de seu autocontrole. O rosto cansado voltou a suar, molhando parte dos cabelos artificialmente loiros. Seu coração batia forte, deixando a respiração cada vez mais difícil de ser obtida... Mas respirou fundo. Iria se acalmar, e iria perguntar o que de errado havia com o amigo que... ...com o amigo que tanto amava... Desde que começaram a banda, Kazuno somente tivera olhos para Ruka. Adorava vê-lo no palco, tão imponente com seu instrumento. Adorava vê-lo sentar numa cadeira e tocar qualquer bobagem – não importava o que fosse, sempre soava como a melodia mais linda que já ouvira na vida. Sempre quis estar perto de Ruka, sempre quis saber mais sobre o amigo, talvez por ele ser bastante reservado quando se trata do assunto sentimentos. Nunca comentava sobre garotas ou até mesmo garotos. Tudo o que o loiro queria era poder sentar-se com Kazuno em um fim de semana e juntos comporem uma nova música, o que deixava o vocalista particularmente contente. Agora, ali, parado em frente ao seu quarto, o amigo mais parecia um estranho com quem Kazuno se assustava; assustava-se tanto que não ouvira um barulho sequer vindo do outro lado da porta enquanto respirava fundo mais uma vez. “É isso”, pensou ele. “Eu tenho que fazer isso”. Ruka levantou-se, tirou a toalha que lhe cobria as partes íntimas e tratou de vestir sua roupa de baixo, seguida apenas de um roupão, calçando as pantufas brancas e fofas que o hotel lhe fornecera. Já passava de meia-noite, e tinha certeza de que não haveria absolutamente ninguém no corredor de seu andar para lhe perturbar. Iria até o quarto de Kazuno. Finalmente decidira contar-lhe toda a verdade, mesmo sabendo das conseqüências, mesmo sabendo do cansaço de todos da banda, inclusive ele próprio. Mas não poderia deixar para outro dia. “Se não for hoje, não será nunca”. Mas onde diabos estava aquele cartãozinho? Tinha certeza de ter deixado a cópia em cima do criado-mudo, já que o original estava com o Kuma-san, assim como os cartões dos outros. Havia pendurado um pequeno guizo dourado em uma abertura circular que o cartão decorado possuía, para não confundir com o de seus amigos e para poder achá-lo caso caísse no chão. Lembrou-se de que Mitsu havia pendurado um Rilakkuma... Começou a procurar nas gavetas do pequeno móvel, ficando cada vez mais desesperado e irritado a cada aberta; até que encontrou, guizo e cartão, na última gaveta. Suspirou aliviado, apanhando a chave que abriria aquela maldita porta e lhe levaria até o quarto do vocalista, fazendo o pequeno guizo soltar suas badaladas. Caminhou até a porta. Passou o cartãozinho no contato. Girou a maçaneta, e a porta se abriu... Seus olhos encontraram-se com os de Kazuno, parado bem à sua frente, com uma das mãos levantadas, pronto para bater na porta. O mais baixo ainda estava com a maquilagem especial e brilhante, os cabelos desarrumados e as mesmas bermudas do mesmo dia mais cedo. Olhava para Ruka com uma nítida expressão de surpresa, parecendo estar reorganizando as coisas na mente e pensando em algo útil para ser falado. Mas para o baixista, o amigo não precisava dizer uma palavra sequer. Só de estar ali, tão perto dele novamente, só de poder observar aquelas íris castanhas mais uma vez antes de dormir, o fazia o japonês mais feliz do mundo... porém, o mais triste também. Ainda não fizera o que precisava e decidira fazer, e não poderia desistir, não agora. O vocalista mirou a expressão de surpresa do amigo, mas não sabia exatamente que expressão estava estampada em sua face naquele momento. Percebendo a mão direita levantada, agora sem propósito algum, tratou de abaixá-la rapidamente, esbanjando em seguida um sorriso ao mesmo tempo doce e encabulado. Imaginava o que Ruka iria fazer àquela hora da noite, estando tão cansado e principalmente estranho daquele jeito. Lembrou-se finalmente de seu propósito, colocando suas mãos para trás e falando de uma forma um tanto encabulada. –Bem... Desculpe te incomodar essa hora, mas imaginei que não estivesse dormindo mesmo... É que preciso falar com você... O baixista deixou suas pálpebras abrirem mais que o habitual mais uma vez. Precisa falar comigo?... Imaginava que tipo de assunto seria tão importante para fazê-lo sair de seu quarto no meio da noite, mesmo depois de um dia tão cheio. Só conseguia imaginar o mesmo motivo pelo qual ele próprio faria isso... –Não tem problema algum, Kazu. Pra falar a verdade, eu estou mesmo sem sono... Por favor, entre. Kazuno adentrou o quarto de Ruka estranhando toda aquela gentileza do amigo. Sabia que odiava quando interrompiam seu descanso, e o que diria de quando estava um tanto quanto... mal-humorado? Mesmo assim, adorou poder ver um raro sorriso em sua face, como fora os outros durante o dia. Tirou as pantufas e as depositou ao lado da porta, já que os costumes brasileiros não se assemelhavam muito com os japoneses e não havia uma área especial para isso. Ruka fez o mesmo por puro costume, pois estava mais preocupado com a presença de Kazuno ali e do que ele supostamente teria para lhe falar. –Aceita um chá gelado? –Ah, claro... Por favor. Ruka abaixou-se até a pequena geladeira posta perto da cama, e apanhou duas latinhas de chá gelado. Preferiria algo mais alcoólico, mas precisava estar com a cabeça no lugar naquele momento, assim como o amigo. E, jogando a latinha para o outro, que a pegou de forma desengonçada, abriu a sua, e logo em seguida, bebeu o líquido contido nela. Kazuno apenas pegou a latinha, olhando para ela, procurando uma forma de começar a perguntar as coisas que desejava saber antes que ele começasse com as perguntas. Sabe, Ruka-san, hoje você parecia meio estranho... Não, não está bom... Ruka-san, eu percebi que você estava diferente hoje e eu queria saber o porquê disso... Não, isso também não... Ruka-san, eu... –Ei. O mais baixo olhou para o loiro, agora sentado à sua frente, olhando-o fixamente. –A lata não vai se abrir sozinha, sabia? Pegou nas mãos do amigo, retirando a latinha gentilmente, e pressionando o pequeno anel contra a superfície metálica, a abrindo. Colocou nas mãos de Kazuno novamente, com mais um sorriso no rosto. –Vai querer canudinhos também? O vocalista sorriu sutilmente. Olhou novamente para a latinha agora aberta, respirando fundo... Antes que pudesse dizer sequer uma palavra, Ruka não hesitou em começar, surpreendendo-o mais uma vez. –Acho que sei por que está aqui. –Sabe?... –Você foi o único que percebeu que eu estava diferente hoje, não é mesmo? Kazuno deixou um suspiro escapar dos lábios. Ainda bem que Ruka entendeu logo o significado de sua vinda. Assim não teria que explicar muito, apenas perguntar o que... –E eu vou te dizer o porquê disso. Ruka apoiou os cotovelos nos joelhos entreabertos, a cabeça baixa, e os olhos fixos no carpete do quarto do hotel, tentando organizar os pensamentos e reunindo coragem para finalmente contar tudo para o amigo de longa data. Este, por sua vez, segurava a latinha com as íris inocentes mirando o baixista, imaginando que tipo de explicação ele poderia lhe dar. –Eu vi como as fãs aqui gostam de você. Eu não parava de ouvir gritinhos com seu nome num sotaque engraçado, onde quer que eu fosse. Até mesmo na hora dos autógrafos e das fotos, parecia que todas elas queriam tirar fotos com você, ter uma palavrinha com você. E isso me irritou, muito mesmo. Então era isso. O amigo estava com inveja do sucesso que Kazuno fazia com os fãs, principalmente as meninas. E sabia que ele estava aumentando coisas, pois o mais assediado fora Touya, sem dúvida alguma. Abaixando o olhar para o carpete, o vocalista confessou a si mesmo estar um tanto... decepcionado. Gostaria de ouvir certas palavras que desejava ouvir desde anos atrás... Mas respirou fundo novamente, um sorriso forçado no rosto para tentar animar o amigo. –Isso não é verdade! As meninas queriam tirar fotos e falar com o Touya, você sabe disso. Mas tímido do jeito que é, ele nem podia... –Eu ainda não terminei. Kazuno sentiu o coração bater mais forte, tentando bombear sangue para todo o corpo, que ficara gelado em questão de milésimos de segundos. Ruka tinha um olhar penetrante, extremamente concentrado, e... sufocante. Podia jurar jamais ter visto aquele brilho no olhar do baixista, tão determinado que talvez estivesse mesmo irritado. –E depois –apoiou as mãos na cama que estavam sentados, jogando as costas para trás- acontece aquilo no show. “Aquilo”? –Você se movendo daquele jeito... enquanto as mesmas menininhas gritavam seu nome daquele jeito estranho e irritante. Enquanto falava, o mais alto gesticulava com uma das mãos, a observando de forma inerte, como se ainda fosse possível enxergar a cena em que ele tratava de forma nítida. –Eu não posso mais suportar isso. Suportar o que?... –Kazuno... –virou-se para o vocalista; o olhar penetrante, as íris quase marejadas- Eu sinto... –O que houve, Ruka-san? O que está sentindo? –desesperava-se o menor, aproximando-se cautelosamente do amigo. –Dói... –Onde dói, Ruka-san?? –...Aqui. Viu uma de suas mãos apoiar-se em seu peito, mencionando seu coração; os olhos castanhos do baixista observavam o loiro o máximo que podiam suportar as lágrimas, esperando que ele entendesse o que queria dizer. Estava sendo tão difícil somente dizer aquelas pequenas palavras, quanto mais explicar tudo nos mínimos detalhes, sem assustar ou causar qualquer reação negativa no amigo. Não esperava que Kazuno entendesse logo. Não esperava que ele o abraçasse na tentativa de tranqüilizar o querido amigo, esperando poder dar fim a todas aquelas lágrimas que estavam esforçando-se tanto para não caírem. E justamente por não esperar nada disso do amado... foi exatamente isso que ele fez. –Ruka... Os braços quentes envolvendo o tronco despido do baixista; o rosto, encostado no peito do amado, sentindo as batidas rápidas de seu coração ecoarem em sua mente; as pernas aproximando-se cada vez mais das do outro, enquanto seus sussurros quase inaudíveis lhe roubavam o fôlego. Ruka... –Kazuno, você... Sentiu o tronco ser apertado mais forte. Não demorou muito para também entender tudo o que o outro queria lhe dizer usando seus gestos. Quase não podendo acreditar no que acontecia tão rapidamente, deixou os braços encobrirem o menor, indo parar debaixo da camiseta branca. As pernas tentaram envolvê-lo como podiam, esbarrando na meia preta comprida que ainda usava. Tentava dizer algo, mas voltava a sentir com firmeza os dedos de Kazuno passeando por suas costas e desistia. Aquele momento não precisaria de uma só palavra para ser entendido. Abandonando momentaneamente as quentes costas de Ruka, o vocalista apoiou as mãos no peito do mais alto, desejando ver-se preso nas íris castanhas. Ruka não pôde conter-se, e acariciou o rosto do mais baixo lentamente, enquanto um sorriso desenhava-se na face. –Ruka... Acho que também preciso te dizer uma coisa... Ambos os olhos castanhos encontraram-se, fixando-se. Os corações batiam forte, agora separados apenas pelo tecido da camiseta do vocalista. As faces ruborizaram-se como nunca, enquanto o ar parecia esvair-se cada vez mais de ambos os pulmões... –Ruka... Eu... –Te amo. Um suspiro escapou dos lábios de Kazuno... Um segundo para organizar o monte de informações... E logo em seguida, o surgimento de um belo e doce sorriso nos lábios do vocalista, voltando a abraçar o amado –dessa vez, seus braços envolveram seu pescoço, aproximando seus lábios perigosamente.... Pensou que as surpresas daquela noite haviam acabado por hora. Mas enganou-se. Não dera um minuto para o coração retomar sua batida habitual, fora surpreendido mais uma vez; dessa vez, pelos lábios de Ruka, que teimavam em encontrar-se com os seus. Não se lembrava de ter sentido pelo menos uma vez na vida uma língua tão assídua em explorar cada pedaço de sua boca, quase desesperada em encontrar a sua. Kazuno não deixou de corresponder aos carinhos do baixista, que sentia sinais de seu corpo para fazer uma coisa que talvez não devesse fazer... O alívio veio quando o vocalista interrompeu sutilmente o beijo, sorrindo, e deixando as palavras fazerem sentido. –Sim... Eu também quero... Ruka sorriu de uma forma tão pura que Kazuno podia jurar que era, de certo modo, infantil demais para a situação e para ele próprio. O engraçado era que aquele sorriso era o que ele desejava ver, durante tanto tempo... Levantou com Kazuno enlaçado em seu pescoço, para rapidamente soltá-lo na cama que permaneceram sentados. Tratou de retirar o roupão de uma só vez, e logo em seguida, arrancar-lhe a camiseta branca. Deixou-se ver o sorriso penetrante do mais baixo mais uma vez antes de selar seus lábios com mais um de tantos suspiros que escapariam durante a noite que viria. –Eu amo você... Kazuno... Agora estavam ali, desnudos, sentindo um o corpo molhado do outro entrando em intenso êxtase, cada vez mais incontrolável, nesse sonho que agora fazia parte da mais pura realidade. Fecharam seus olhos. E deixaram seus instintos lhe guiarem durante aquela noite interminável.