It's a Good Life

5 Capítulo 5 - Lembranças


4 anos atrás

Eu odiava lugares abarrotados de gente, com som alto e gritos, também odiava lugares onde eu não conseguia achar um lugar decente para me sentar e tinha que ficar bebendo em pé. O pub em que estávamos era tudo isso, mas Ed queria ir na tal inauguração e não conseguia dizer não para ele. Decidi tentar participar da conversa que Ed e seu irmão estavam tendo, mas a verdade era que eu não conseguia ouvir nada, se nem a garota que estava pendurada no pescoço de Matt participava, porque eu iria fazer isso? Decidi ficar recapitulando a matéria para a minha prova de residência, era bem mais interessante.

Depois de horas naquele lugar e da terceira cerveja, eu só queria ir para minha casa dormir, não que eu estivesse bêbada, muito pelo contrário, eu não dormia a mais de 24h, estava exausta. A acompanhante de Matt havia desistido dele a algum tempo, e estava com outro cara já, ele não parecia se importar, pelo que eu percebi ele nem deveria saber o nome dela, fiquei com uma certa pena dele.

Fui falar com Ed para irmos para casa, mas ele estava bêbado demais, e eu sabia que quando ele estava assim era melhor deixá-lo. Após me xingar e tentar me agarrar e outras coisas que só gente fora da razão faz, saí do pub procurando um táxi, nem percebi que Matt havia me seguido.

— Porque você ainda está com ele? Sei que é meu irmão, mas mesmo assim, porque? — Quando abri a boca para responder ele se aproximou, depositou sua mão em meu rosto, olhou fundo em meus olhos e continuou. — O que fiz de errado? Não consegui demonstrar o quanto eu gosto de você ou foi por causa do bolo? Claire, você é linda, maravilhosa, inteligente, uma mulher forte e guerreira, garota você é única. A cada dia que passa me apaixono um pouco mais por você. Me aperta o coração ver a forma como ele te trata, você deveria ser tratada com respeito, dignidade e amor, você merece muito mais, me dê uma chance, Claire. Eu prometo te fazer a mulher mais feliz desse mundo. — E quando concluiu, me beijou. No começo eu estava sem reação, 2 segundos depois, meu corpo foi relaxando e eu retribuí o beijo.

Quando o ar faltou e tivemos que nos separarmos, ele manteve sua testa encostada na minha, estava com meus olhos fechados e quando eu abri, me dei conta o que eu havia acabado de fazer. Empurrei Matt e disse para nunca mais chegar perto de mim, saí correndo e entrei no primeiro táxi que vi. Suas palavras ficaram rondando minha mente por dias. Depois daquela noite, nunca mais o vi, parte de mim estava contente com isso, mas a outra parte não conseguia esquecer a sensação que aquele beijo teve, uma sensação que eu nunca tive com homem algum, nem com Ed, por quem eu achava estar perdidamente apaixonada. Eu nunca mais o havia encontrado até o dia que ele adentrou a emergência baleado e em estado grave.

Hoje

— Matt…

— Shiiiii

Respirei fundo enquanto apoiava minha cabeça na linha de seu pescoço, sentindo seu perfume e sua pele contra meu rosto. Era uma sensação boa, uma sensação que a anos eu não me permitia sentir. Sensação de estar protegida. Seus braços estavam colados a minha cintura em um abraço apertado, ele não queria soltar-me, e eu não sabia o que preferir. Respirei fundo mais uma vez. Eu não deveria entregar-me a ele, deveria ser forte, havia prometido a mim mesma não entregar-me mais a ninguém, havia decidido apenas aproveitar o prazer quando eu necessitasse disso. Eu me deitava com homens apenas pelo prazer do sexo, quando tudo acabava eu praticamente saía correndo ou os expulsava da minha casa, não precisava saber o nome deles, na maioria das vezes eu nem sabia mesmo. Você deve estar pensando: “nossa, que coisa horrível, como você pode fazer isso? Pessoas não são objetos” e blá blá blá. Realmente, pessoas não são objetos, mas chega um estágio da vida que você cansa de ser tratada como um e passa a jogar o único jogo que você conhece e que é boa nisso. A verdade é que eu tenho tantas marcas e cicatrizes na minha alma que mesmo que se eu quisesse me entregar, não iria conseguir, que drama não? Pois é.

A parte mais interessante do cérebro humano, é que uma pessoa saudável leva no mínimo 0,3 segundos para se apaixonar, na primeira troca de olhares você pode acabar se apaixonando sem perceber. A parte ruim disso é que você fica cego para certas coisas, bem, a maioria delas. Seu cérebro se prende apenas a parte boa da pessoa, você não vê os defeitos do outro, e normalmente nem se importa com isso, porém, também não enxerga quando o outro faz uma merda catastrófica ou quando o relacionamento não faz bem para você mesmo. Se apaixonar é algo relativo e tóxico, na maioria das vezes faz mal, todavia, tem aquela pequena parcela da população que tem sorte. Eu não fazia parte dessa parcela, obviamente.

Eu estava pensando nisso enquanto ficava sentindo o perfume que Matt usava e o toque da sua pele macia na minha. Meu coração perdeu uma batida e eu me afastei dele bruscamente, eu havia desperdiçado meus 0,3 segundos, merda! Encarei seu rosto e saí correndo como uma louca procurando meu carro enquanto ele cruzava a praça gritando meu nome. Então meu cérebro decidiu lembrar-me que na verdade eu já havia desperdiçado meus preciosos segundos a 4 anos atrás, hoje foi um mero deja vu.

Entrei no carro, bati a porta e segurei firme o volante tentando controlar minha respiração e as lágrimas que queriam vir. Tive que controlar minha vontade de gritar também teria que deixar para fazer isso em casa. Assim que liguei o carro, Matt bateu no vidro pedindo para que eu baixasse o mesmo, é claro que não fiz, liguei o carro e arranquei em direção a minha casa enquanto olhava sua silhueta pelo retrovisor colocando as mãos na cabeça. Dirigi a toda velocidade, certamente consegui alguma multa pelo caminho. Assim que fechei a porta do apartamento desabei e chorei o que não havia chorado em anos, Matt havia aberto todas as cicatrizes que com muito cuidado eu havia suturado.

Arrastei-me, junto com o resto da minha dignidade, em direção ao banheiro, eu merecia um longo banho depois desse turbilhão de eventos. É claro que eu chorei mais um pouco e aproveitei para gritar também, tentando aliviar a dor que consumia meu peito e quase me impedia de respirar. Eu não parecia nada com a mulher forte e poderosa que cruzava os corredores daquele hospital com um salto 15cm que todos tinham medo, eu parecia uma garotinha assustada com o seu primeiro beijo. Apoiei minhas mãos na borda da pia e encarei meu reflexo acabado no espelho, suspirei. Eu havia chegado ao meu limite, era hora de superar isso e adotar o apelido que eu havia ganhado de alguns funcionários: Rainha de gelo.