It's a Good Life
6 Capítulo 6 - Rainha de gelo
Mudar de atitude nunca havia sido um problema para mim, eu fazia isso mais do que conseguia trocar de calcinha. Entretanto, encarnar a rainha de gelo estava sendo um tanto trabalhoso, é claro que com meus subordinados era fácil, eu sempre era assim, o que deixava isso difícil era a insistência dele. Assim que entrei no hospital a recepcionista me entregou um arranjo de flores que ele havia deixado para mim, dessa vez não tinha cartão. Mandei ela jogar no lixo e ela não o fez, contornou a bancada da recepção e quase me fez engolir o buquê falando algo sobre chance e não sei o que. Bufei alto e tomei o buquê das suas mãos que voltou feliz para o seu posto, assim que cruzei as portas da emergência, joguei as flores na primeira lixeira que vi.
Enquanto caminhava em direção a minha sala, após o almoço, todos me olhavam com um certo tom de apreensão ou sorrindo, o que me deixava nervosa, mas que raios estava acontecendo naquele hospital hoje? Quando cheguei perto da minha sala, ele estava parado frente a minha porta com um outro arranjo em mãos, ele sabia que eu iria jogar fora o primeiro, assim como o segundo, o terceiro e todos os outros. Dei meia volta na mesma hora até que senti meu braço ser agarrado por sua mão.
— Fugindo de mim? — Sua voz saiu com um certo tom de ironia. Não respondi, apenas tentei soltar-me inutilmente.
— Solte meu braço agora ou…
— Ou?
— Me solte agora. — Falei com a voz firme e encarando seu rosto e o sorriso que estava nele, arqueei uma sobrancelha.
— Só se você aceitar as flores. — Ele estendeu o arranjo em direção ao meu rosto.
— Não. — Soltei-me do seu aperto e passei reto por ele em direção, novamente, a minha sala.
— Claire…
— O que raios você quer garoto?Me entregar flores? Okay. — Tomei o arranjo de suas mãos, dei dois passos e o enterrei na lixeira que estava no corredor, voltei meu olhar a ele, seu semblante era semelhante a de um filhotinho triste. Esperei ele falar alguma coisa, e como não saiu nada, dei meia volta.
— Você não cansa de fingir algo que não é? — Ele praticamente gritou para o corredor todo ouvir. Parei na mesma hora e voltei na direção dele.
— Como? — Perguntei. A raiva já borbulhava dentro de mim, assim como a vontade de socá-lo.
— Você finge ser essa pessoa fria com muros impenetráveis quando na verdade é só uma garotinha assustada fugindo de um beijo. — Ele proferiu aquilo empinando um pouco o nariz para dar um ar de superioridade. Era agora que eu o socava ou depois?
— Não fale do que não sabe, só porque conversamos por algumas horas ontem não quer dizer que você me conhece completamente. Te falei de uma parte do meu passado, você não sabe nada sobre o meu presente ou como sou agora, aliás, odeio flores. Não pense que sou a mesma garota de antes, sendo que você nem me conhecia antes. Aprenda uma coisa de uma vez por todas, este é o meu reino, eu que mando aqui, você não tem o direito de vir no meu local sagrado me cobrar alguma coisa ou me julgar apenas porque me beijou, foi um beijo criança, pessoas se beijam a todo o instante, mesmo que algumas não façam isso com certa frequência. — Falei apontando pra ele. Ele não tinha reação alguma. — Aprenda uma coisa, eu não preciso de você e principalmente eu não quero você na minha vida. De meia volta e desapareça. E mais respeito pelos hospitais, por favor, temos pessoas doentes aqui e que realmente precisam da minha atenção.
— A rainha de gelo ataca novamente. — Ouvi o comentário de um funcionário que estava parado apreciando o show. Me virei para ele irritada. Ele entendeu o recado e saiu praticamente correndo, temendo por sua vida e emprego.
— Rainha de gelo? — Matt murmurou. Fiquei o olhando de braços cruzados, cara fechada e nariz empinado esperando mais constatações, mas ele não disse nada. Bufei e segui para minha sala, mais uma vez, e o deixei parado no meio do corredor.
Assim que fechei a porta achei que ia desmoronar ou algo do tipo, mas nada aconteceu, apenas senti-me aliviada, meu peito não doía, meu coração batia normalmente e não tinha vontade de chorar. Foi aí que percebi uma coisa importante, o problema não era a minha história, eram as pessoas que estavam envolvidas nela. Era hora de cortar todos os meus laços e eu sabia muito bem como fazer isso. Peguei o telefone, acomodei-me na cadeira e digitei o número que por muitas vezes fazia meu estômago girar só de pensar nele, respirei fundo, era a melhor coisa que eu poderia fazer para a minha vida.
— Alô?
— Oi, eu gostaria de falar com o Pedro.
— É ele, quem fala.
— Oi Pedro, é a Claire. Estou te ligando por causa daqu… — Ele nem me deixou terminar.
— Você finalmente vai aceitar? — Ele me interrompeu animado.
— Sim, eu vou aceitar sua oferta. — Eu estava feliz, nunca achei que estaria.
— Vou te mandar a papelada por e-mail, vai ser muito bom poder te ter aqui, estamos precisando do seu excelente serviço, sem falar na sua inteligência. — Ele riu e eu o acompanhei. — Seu e-mail ainda é o mesmo?
— Sim. Quando você me quer aí?
— Assim que você estiver totalmente desligada do seu hospital. Estarei te esperando ansiosamente.
— Combinado. Até logo, Pedro.
— Até logo, Claire, minha nova diretora.
Desliguei o telefone sorrindo, meu sorriso era tão grande que minhas bochechas estavam começando a doer, eu finalmente havia feito algo certo, estava tão feliz. Não lembro se eu já havia ficado assim. Coração acelerado, respiração entrecortada, sorriso no rosto, turbilhão de sentimentos, mente maluca com todos os preparativos. Eu estava indo embora. Não estava fugindo, eu sabia que não, porque não havia nada para fugir, tudo havia ficado no passado, era hora de viver e aproveitar a minha vida, era hora de mudança, hora de ir embora.
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