It's My Life
3 Revelações.
Notas iniciais
Escutei vozes vindas da escada e se aproximando, era Sarah. Ela entrou no meu quarto e sentou na beira da cama e ficou me olhando, como se meu rosto estivesse sujo.
– O que foi? – perguntei
– O que foi digo eu – ela respondeu.
– Eu passei para as torcedoras.
– Não é isso que eu quero saber. Por que sua testa não esta machucada?
– Esse assunto de novo não, por favor.
– Tem algo muito estranho acontecendo, e você vai ter que me contar.
– Você não pode saber, é uma coisa bem complicada.
– Complicada ou não, você tem que me contar.
Podia ver nos olhos dessa menina o quanto é importante para ela saber o que eu sou. Por que tanto interesse nisso? Ela sabia de algo e queria apenas a confirmação.
– Vamos assistir um pouco dessa serie enquanto eu penso em como te falar.
Eu não ia dizer o que eu sou, estava apenas ganhando tempo para pensar em algo. Como eu ia contar o que eu sou? Foi ai que eu tive uma ideia.
– Sarah?
– Que foi?
– Qual é a coisa mais bizarra sobre você?
– A coisa mais bizarra sobre mim?
Ela disse isso com um tom de medo na voz. Será que eu não era a única a esconder um segredo terrível? Claro que era, quem era mais bizarra do que eu?
– É, um segredo bizarro seu. Se contar o seu, conto o meu.
– Promete que não vai rir de mim?
– Prometo.
– Ta bom – ela respirou fundo – Eu sou uma bruxa descendente de Wicca.
– Como é?
– Eu sabia que você não ia acreditar.
– Eu acredito em você, só queria entender como isso é possível.
– Nunca fiz magia, mas minha mãe disse que no tempo certo vai começar a acontecer.
– Eu achei que era a única que tinha um segredo a esconder.
– Já que tocou o assunto, qual seu segredo.
– Você promete que não vai gritar e nem se jogar da janela?
– É tão ruim assim?
– Só prometa.
– Eu prometo não gritar, nem me jogar da janela. Agora conta
Sabia que era errado, e que provavelmente ela não iria acreditar e se acreditasse ia acabar gritando. Era a pior coisa que eu tive que fazer na vida. Talvez não a pior, mas a mais complicada.
– É bem provável que você não acredite no que eu vou te dizer, mas é verdade. – respirei fundo – Eu sou uma... Vampira.
– Você o que?
– Isso mesmo que você ouviu. Vampira. Como essa da TV. Só que ao contrario dela eu sou real e tenho 200 anos.
– Você tem 200 anos?
– Tenho. Ta assustada.
– Nem um pouco, minha mãe me falou sobre você.
– Sobre mim?
– Sim.
– O que ela disse sobre mim?
– Ela contou coisas sobre sua família, os Fields. Que eles não morreram com essa doença que muitos acham que morreram, mas que na verdade foi você que os matou quando foi transformada pelo seu noivo, James.
Quando ela terminou a historia, percebi que eu estava chocada com o que eu ouvi. Eu nunca tinha escutado o nome dele novamente, depois que ele me transformou e eu matei minha família ele sumiu, foi embora para sempre, nunca mais soube nada dele, não sei se esta vivo ou morto.
– Como ela sabe de tudo isso?
– A bruxa que te deu esse colar ai, era minha tratará avó. Uma descendente Wicca também. Ela usou os quartzos laranja para armazenar a luz da lua dentro dele, para que você pudesse sair à luz do sol.
– James, meu noivo, também tinha um anel assim, era feito de ouro e rubi.
– Agora que sabemos o que somos, vamos guardar esse segredo até a morte.
– A morte se afastou de mim a anos Sarah.
– Então eu guardo.
Passamos o resto do dia falando sobre as coisas que eu sei fazer e que Sarah poderá fazer um dia, ela estava empolgada me contando que se consegui-se fazer magia ira poder controlar qualquer coisa viva no mundo e até mesmo os espíritos.
– Sarah, sua mãe ligou pedindo para que você fosse pra casa – Rose avisou.
– Tchau Bonnie. – disse ela indo em direção a porta.
– Tchau Sarah. – respondi. – Sarah.
– Fala – ela se virou.
– Eu acho que vamos ser grandes amigas.
Sarah sorriu e foi embora. Não tinha percebido que já havia escurecido. Por quantas horas nós ficamos conversando sobre nossos poderes sobrenaturais? Acho que foi a conversa mais longa que já tive na vida e por incrível que parece eu estava cansada daquele dia agitado. Desligue a TV e dormi sem problema algum.
No dia seguinte acordei com meu celular tocando, peguei-o e atendi sem ver o numero. Uma voz animada estava do outro lado da linha.
– Bom dia rainha da noite. – era Sarah
– Bom dia Sarah. – disse enquanto me levantava
– Tenho novidades para você, e acho que você vai gostar.
– Me espera na frente da sua casa chego em 15 minutos.
Desliguei o telefone e corri para o banheiro em uma velocidade relâmpago, literalmente. Em menos de dois minutos já estava vestida com uma blusa branca solta, um calção preto com taxinhas e um coturno preto. A maquiagem era a mesma de sempre, delineador de olhos preto e batom vermelho.
– Bonnie desce logo, vai se atrasar.
– Já to indo Rose. – desci as escadas em um pulo.
– Esse negocio de ser normal não funciona pra você não é mesmo?
–Eu decidi que consigo ser normal e usar minhas habilidades de vampira.
– Você e sua amiga passaram um bom tempo conversando ontem.
– Contei para ela o que eu sou.
– E como ela reagiu?
– Ela é uma bruxa wicca.
– Descendente da que te deu esse colar?
– Sim, mas ela ainda não sabe fazer magia, parece que não esta no tempo certo.
– E você vai ajudá-la?
– Sim, e eu estou atrasada. – dei um beijo no rosto de Rose e sai porta a fora.
Estava dirigindo pela cidade quando meu celular tocou, era Sarah novamente. Atendi depois do terceiro toque.
– Aonde você tá?
– Quase ai.
– Vamos nos atrasar.
– Calma.
Ela desligou. Dois minutos depois parei na frente da porta dela. Sarah estava sentada embaixo de uma arvore com flores cor de rosa nos galhos. Buzinei para que ela me visse. Sarah se levantou, ela estava com os cabelos negros presos em um rabo de cavalo alto, ela usava uma saia preta de cintura alta e uma blusa Pink com um sapato desenhado.
– Você demorou.
– O que tinha pra me contar?
– Minha mãe me ensinou a fazer magia, mas ainda não fiz nada.
– Isso é ótimo. E como funciona?
– Eu tenho que esperar até meu aniversario de 18 anos para poder ativar.
– E quando você faz 18 anos?
– Em dez dias.
– E como você vai fazer isso?
– É um ritual, eu preciso de algumas coisinhas.
– Que tipo de coisinhas?
– Os quatro elementos, um quartzo de cada tipo, o lugar mais antigo da cidade, sangue humano e pelo que eu entendi não pode ser o meu...
– Como assim sangue humano?
– Se eu quiser me comunicar com todos os espíritos, eu preciso dar uma oferenda no meu primeiro ritual e sangue humano é o mais indicado.
– Entendi. O que mais é necessário?
– E se não for pedir de mais, o sangue de um ser sobrenatural, ou seja, o seu.
Nesse momento dei uma freada brusca com o carro. Eu não sabia se tinha escutado direito, ou se ela estava brincando comigo.
– Você precisa do meu sangue? Mas pra que?
– Para dar em oferenda aos seres sobrenaturais que já morreram.
– Mas quanto de sangue?
– Algumas gotas apenas.
Assenti concordando, mesmo não gostando da ideia. Eu tinha que ajuda-la, mas claro que não ia ser tão fácil eu dar meu sangue sem nada em troca. Sarah ia ter que me ajudar com Tyler, de um jeito ou de outro. Foi ai que tive uma ideia.
– Vamos fazer um trato, ok?
– Ta bom, qual trato?
– Eu te dou meu sangue e você me ajuda a pegar uma coisa, usando sua magia.
– Que tipo de coisa.
– Eu ainda não sei, mas vamos precisar de um feitiço de localização. Você consegue fazer um?
– Depende do que vamos localizar, mas sim eu consigo.
– Ótimo.
– Por que tanto mistério sobre isso?
– Espere dez dias e saberá.
Chegamos à escola e novamente todos estavam me olhando, mas agora olhavam para Sarah também. Pelo que pude perceber Sarah ficou vermelha, parece que ela nunca foi notada.
Enquanto andávamos pelo corredor juntas, rindo e conversando cruzamos com Molly e Tyler. E como sempre Molly e eu nos provocamos um pouco. Sarah ria muito quando isso acontecia, e agora eu tinha muito mais tempo para provocá-la.
– Você gosta de provocar a Molly e isso não vai prestar.
– Sarah, você é muito certinha. Tem que aproveitar mais.
– Mas toma cuidado ta bom.
– Eu tomo cuidado sim.
– Eu to vendo. – disse ela rindo
– Vou confessar uma coisa pra você – falei sussurrando – Quando se vive 200 anos, qualquer coisa pra se distrair já serve.
– Por falar em distração, hoje à noite vamos ao café jogar sinuca e você não pode negar.
– Sarah Parker joga sinuca?
– Sim, meu pai me ensinou quando eu era mais nova, e também sei jogar pôquer.
O sinal tocou e nos fomos para a sala, tínhamos química no primeiro tempo e depois nenhuma aula juntas. Sentamos novamente na ultima bancada e Molly na bancada da frente.
– Por que ela senta aqui sempre? – Perguntou Sarah
– Achei que você não ia provocar ninguém.
– Não to provocando, só não to a fim de olhar essa cabeça cheia de cabelo loiro por 45 minutos.
Tyler sentou na nossa frente e senti sua áurea luminosa me atingir em cheio. Sarah deve ter sentido também, pois ficou imóvel. Só que o mais estranho disso é que Molly estava imóvel e olhando para Tyler, como se ela conseguisse sentir a energia que irradiava dele. Mas isso devia ser impossível, já que ela era normal e seu cérebro era do tipo que se inchar fica do tamanho de uma ervilha.
– Molly – chamei-a para tentar tirá-la do transe que ela estava.
– O que você quer?
– Saber que horas é nosso treino, lembre-se que sou uma torcedora agora.
– Uma das piores, diga-se de passagem.
– Não foi isso que a treinadora Morris disse.
Novamente Tyler e Sarah riram. Eu nunca tinha ouvido a voz dele, não de perto. Apesar de nunca ter falado com ela, no tempo que o observei de longe podia o ouvir falando e saber de algumas coisas.
Sabia que ele adorava jogar futebol americano, trabalhava no café da cidade e sempre que podia saia da cidade de carro só para ir ao topo de um monte onde via toda a cidade de Mavenwoods. Eram coisas simples e sem sentido algum, mas foi assim durante todo o verão.
– Hey, Tyler. – falei sem pensar
– Sim – disse ele se virando para me olhar.
Não sabia o porquê o chamei e também não sabia o que falar. Por que você fez isso, eu pensava. Eu só posso ser uma vampira deficiente, por que não era possível eu não saber o que falar.
– Então – fala algo menina – Você trabalha no café? – coisa mais idiota de falar
– Sim – respondeu ele. – Como sabe?
– Eu fui lá algumas vezes durante o verão.
– Acho que me lembro de você. Sempre sentava no balcão e pedia uma dose de uísque.
– Isso ai, bem eu.
– Você bebia Uísque? – perguntou Molly
– Ajuda na ansiedade.
– Ela é muito ansiosa com certas coisas – disse Sarah.
O professor começou a aula, virei-me para Sarah agradecendo. Como eu pude deixar escapar que bebo uísque? Vão pensar que eu sou uma maluca alcoólatra. Mas só pra consta, uísque ajuda na ansiedade para beber sangue, assim posso ficar mais tempo sem beber sangue de ninguém, claro que não mais do que três dias, porque se não posso desidratar.
A manhã passou bem rápido. Na hora do almoço me encontrei com Sarah no refeitório e depois seguimos para fora da escola, no mesmo gramado que sentamos ontem. Uma coisa bem estranha aconteceu, Molly foi até nós.
– Oi meninas – disse ela.
– E ai loira? – respondi
– Posso me sentar? – ela perguntou.
Olhei para Sarah com cara de quem não estava acreditando no que ouvia. E eu realmente não estava. Fingi cochichar no ouvido de Sarah para fazer um drama e uma grande pausa até responder.
– Eu creio que sim. – disse
– Bonnie – começou Molly – eu queria saber se posso falar de uma coisa pessoal com você?
– Tudo que tiver pra me dizer pode falar na frente da Sarah, ela é de confiança total.
– É sobre o Tyler.
– E o que eu tenho a ver com isso?
– Eu sei que você também sentiu aquilo dentro da sala de aula, quando ele sentou.
– Você também? – pediu Sarah
– Senti o que? – tentei desviar o assunto.
– Uma energia, uma força sobrenatural irradiando dele. – falou Molly
– Era uma coisa maligna. – acrescentou Sarah
– Então eu não sou a única a sentir isso? – perguntei
– Não, e você sabe o que é? – quis saber Molly
– Ainda não, sei que é algo que esta sempre com ele.
– Comecei a sentir isso no começo do verão, depois do aniversario dele. – comentou Molly
– E quando é o aniversario dele? – Pediu Sarah
– 21 de junho.
Sarah me olhou incrédula àquela data não fazia sentido pra mim, mas parecia ter muito sentido pra ela. O que significava aquele dia? Não lembrava nada que pudesse ocorrer no dia 21 de junho.
– O que foi Sarah? – perguntei.
– Dia 21 de junho é o dia do solstício de verão, uma data muito importante no calendário wicca.
– No calendário de quem? – perguntou Molly.
– De uma civilização antiga. Mas o que isso tem haver? – pedi
– Segundo uma lenda que temos quem nasce no dia das mudanças é amaldiçoado ao completar 18 anos.
– Como é essa lenda? – perguntei
– Um trecho da lenda é claro: “Aquele que nascer em dia de mudanças pode ser castigado...”.
– “a conviver com a mais sombria alma que vaga na terra” – conclui Molly
– E dia 21 de junho é o dia que o tempo muda. O frio vai embora e dizemos olá ao calor. É a maior mudança conhecida pelo homem. – completei
Ficamos sentadas nos olhando por um longo tempo. Quais eram as chances de Tyler ter sido amaldiçoado por essa alma sombria que vaga na terra. E porque eu estava atrás disso? Qual era a minha ligação com essa maldição?
O sinal do fim do almoço tocou e nos dirigimos para a quadra, à próxima aula era de ginástica. Enquanto caminhávamos, lado a lado, parecendo que até éramos amigas, outros alunos nos olhavam. Paramos na porta do ginásio onde Sarah disse:
– Tudo o que foi dito há cinco minutos fica só com a gente, certo?
– Certo. – concordamos
– Vou pesquisar mais sobre isso. – falou Sarah
– Seja rápida – insistiu Molly.
– Preciso de pelo menos 10 dias para isso.
– Por mim tudo bem – assenti.
– Ok, por mim também. – concordou Molly.
O resto do dia foi tenso, Molly se esquivava de Tyler, Sarah foi pra casa mais cedo e eu não me concentrava no treino. Se essa historia de maldição fosse realmente verdadeira, nós estávamos com um grande problema nas mãos.
O mais estranho é que aquela data, dia 21 de junho, ficava passando na minha cabeça. Tudo que eu fazia pra esquecer dava errado. Sarah me ligou chamando para ir ao café, beber algo e conversar.
Quando cheguei ao café sentei-me em uma mesa no meio do local, Molly estava lá, junto com Sarah, o que eu e qualquer outra pessoa acharia estranho. Elas me viram e se aproximaram.
Molly estava muito bonita, usava um vestido rosa Pink e uma sandália preta de salto alto. Seu cabelo loiro estava totalmente liso e solto.
Sarah estava mais normal. Vestia um jeans claro, uma blusa cinza com a inscrição “Keep Calm and Go To Shopping”. Calçava um coturno preto com taxas.
– Descobriu algo? – disse Molly
– Não, mas essa data não sai da minha cabeça e eu queria entender o porquê.
– Vocês realmente acreditam que isso pode ser verdade? – Pediu Sarah
– Eu sim, acredito em muitas dessas lendas. – afirmou Molly
– Tipo qual? – perguntei
– Sobre lobos, eles realmente foram vistos na floresta, perto da velha construção.
– Que velha construção? – falei curiosa
– A antiga mansão dos Fields, esta abandonada desde o grande acidente. – confirmou Sarah
– Que grande acidente? – pedi
– A morte dos Fields. Vai dizer que você não sabia que depois da morte de Elizabeth Fields, a casa nunca mais foi habitada? – disse Molly
– Elizabeth – murmurei esse nome baixo.
Mas é claro, como eu não tinha pensado nisso antes. Agora tudo fazia sentido na minha cabeça. As informações iam se ligando como se fossem peças de um quebra cabeça que estava sendo concluído. A data, o nome de Elizabeth, tudo isso estava ligado a uma única pessoa: James.
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