Notas iniciais
Oi... /foge das pedras. Sei que disse que voltaria naquele dia, mas acabou que a minha criatividade zerou e o que eu escrevia não condizia com o que tinha acontecido de fato. Mas agora eu voltei, e juro que não vou me atrasar tanto para escrever os próximos, ok? Todo mundo está bem nessa quarentena? Boa leitura. *-*

— Adivinha o que fiz ontem à noite — Binnie me perguntou com um ar misterioso, enquanto penteava o cabelo bagunçado na frente do espelho, no banheiro da faculdade. Achava um milagre ter aquele acessório ali.

— Eu vou saber. — Respondi bocejando com desinteresse. — Tomou uma tigela de sopa e foi para a cama mais cedo?

— Se fosse tão tedioso assim, você acha que teria me dado ao trabalho de pedir para você adivinhar? — Estava passando um pouco de gel no cabelo e me deu uma olhada meio torta. — Fiquei navegando na Internet no computador da minha mãe e entrei numa sala de bate-papo super legal, onde dá para conversar com gente do mundo inteiro. Você tem que aparecer em casa para ver como é.

Abri a torneira de água fria e joguei um pouco de água no rosto. Tinha dormido pouquíssimo, preocupado com a possibilidade do SKZ se desfazer, e o fato de ter ficado sozinho sem Hyunjin durante as tempestades. — Eu até gostaria de ir, mas tenho que aproveitar o meu tempo livre para tentar conseguir algum lugar para nossa banda tocar. Além do mais, essa história toda de e-mail parece que para mim não funcionou.

Seo tirou da bolsa um brilho para os lábios sabor uva e passou um pouco, uma mania que o mais velho tinha para não deixar os lábios ressecados. — Você ainda não recebeu nenhum e-mail, Lix?

— Nadinha. Conferi hoje cedinho. — Respondi soltando um suspiro, enxugando o rosto com uma toalha de papel. — Me faz um favorzinho, Binnie, tira meu anúncio do mural assim que você puder.

Ele me ofereceu o tubinho de brilho. — Vou fazer ainda melhor que isso. Vou escrever um novo anúncio para você arrasar.

— Sem querer ofender, Bin, mas encontrar desconhecidos pela Internei não faz muito meu gênero. Gosto de saber com quem estou falando sem esse lance de mistério. — Passei um pouco do brilho na ponta dos dedos antes de enfim por nos lábios.

— Mas você sabe com quem está conversando doido, afinal você frequenta a mesma faculdade que os caras ou garotas que te mandam os e-mails. Dá uma chance, Yongbok. Seja imprudente e aventureiro pelo menos uma vez na sua vida.

Lembrava-me de ter ouvido notícias sobre malucos que usavam a Internet para atrair suas vítimas, roubá-las ou ameaçá-las com coisas horríveis, e até mesmo mata-las. Era assustador pensar que isso poderia acontecer consigo. Mas o mais velho tinha razão num ponto. Nós só podíamos mandar mensagens para as pessoas da escola. Era tudo muito seguro. Até onde eu sabia, não havia nenhum psicopata no Teen Valle.

— Está bem — falei, cansado demais para discutir a questão. — Vou tentar só mais uma vez. Se não der certo, quero que apague tudo!

— Legal. — Bin guardou o brilho na bolsa de maquiagem que carregava em sua bolsa. — Vou dar um pulinho até o laboratório de informática e colocar um novo anúncio antes da próxima aula.

— O que você vai escrever dessa vez?

— Ainda não tenho ideia. — Ele parecia estar disfarçando alguma coisa, ou seja, iria aprontar alguma coisa. — Mas fica sossegado que até o fim do dia você já vai ter recebido pelo menos uma ou duas cartas.

Dito e feito, Changbin tinha razão. Depois do almoço, dei uma passada no laboratório e encontrei três recados na minha caixa de entrada. Embora deteste ter que admitir, fiquei um bocado emocionado.

Segunda-feira, 11h04min.

Para: Lixie.

De: Doutor Soninho.

Assunto: Zzzzz.

Olá, Lixie. Essa aula de informática é uma chatice sem fundamentos, acho que vou me ferrar devido ao sono, tenho certeza que devo ser filho de Hipnos ou algo assim. Gostei do seu recado no mural, por isso decidi te escrever. Também andei pensando em fazer uma tatuagem. Gostaria de conferir alguns desenhos comigo no sábado pela tarde?

A gente se fala.

Soninho.

Tatuagem? O que será que o Changbin escreveu no meu anúncio? Eu nunca pensei em fazer se quer uma tatuagem. Eu não tinha o menor interesse em sair com esse tal de Doutor Soninho, seja quem fosse, mas de repente me senti um pouco nervoso de não encontrar alguém. Passei então para a mensagem seguinte.

Segunda-feira, 12h.

Para: Lixie.

De: Doutor Fantástico.

Assunto: Quero conhecer você.

Encontre-me atrás da quadra de tênis depois das aulas. Eu serei aquele a quem você não conseguirá resistir. ;)

Esse cara circula entre as pessoas mesmo, pensei, rindo sozinho enquanto apagava o recado. Aprenderia com os erros do Seo, e esperava que o terceiro e-mail fosse melhorzinho que os anteriores.

Segunda-feira 12h14.

Para: Lixie.

De: Prince Sam.

Assunto: Oi!

Oi, Lixie!

Como vão as coisas por hoje? Essa é minha primeira experiência com e-mail. Vi seu recado no mural e aí então pensei em tentar alguma coisa. É meio cômico, isso, mas também é meio divertido. E por favor, me avise caso tenha recebido esta mensagem e, se quiser se corresponder comigo via e-mail, vai ser um barato.

Tenha um bom dia!

Sam.

Será que devo responder para o Sam? Não conseguia me decidir com 100% de certeza. Ele parecia bem simpático em relação aos outros. E, como dissera meu amigo, não havia nenhum risco de ser algum maníaco. Se eu não gostasse do cara, tudo que tinha a fazer era desligar o computador ou simplesmente não lhe responder e apagar a sua mensagem.

— Vai lá, Yongbok — cochichei bem baixinho para mim mesmo. E aí, com meus dedos suados, comecei a digitar.

Para: Prince Sam.

De: Lixie.

Assunto: Oi também!

Oi, Sam! Obrigada pela mensagem. Espero que seu dia esteja indo bem assim como boa parte do meu. Você tem razão sobre essa coisa de e-mail. É muito estranho!

Se cuide.

Lixie.

Minha mensagem foi bem curtinha e impessoal, não sabia de fato sobre o que escrever. O que você diz para uma pessoa que você não conhece, para alguém que você nunca viu? Eu simplesmente não fazia ideia.

Pensei até em reescrever o bilhete, mas aí deu o sinal, avisando que o intervalo para o almoço terminara, de modo que mandei a mensagem daquele jeito mesmo. É o melhor que posso fazer, Sam, disse a mim mesmo. É pegar ou largar.

Em vez de começar a fazer minha lição da história da dança, durante a aula de literatura, decidi procurar um clube onde o SKZ pudesse tocar. Peguei emprestada uma lista telefônica na biblioteca e peguei um exemplar do jornal nas mesas do ambiente. Folheei as páginas amarelas com cheiro antigo, era um milagre aquilo ainda existir, examinou os anúncios e fiz uma breve lista de todos os locais disponíveis num raio de oitenta quilômetros ao redor da faculdade, e também do JJ.

Isso vai ser moleza, pensei, à medida que a lista ia crescendo cada vez mais. Anotei o número do telefone ao lado do nome dos lugares, ligaria para eles de casa. Encontrar um lugar para tocar não parecia ser tão difícil — só precisava me mexer um pouco.

— O que está fazendo? — Surgindo do nada, Hyunjin apareceu atrás de mim.

Dei um pulo da cadeira com o susto, meu coração acelerou do nada. — Será que daria para fazer o favor de não aparecer desse jeito, pelas costas?

— Desculpe. — Mesmo sem convite para sentar, ocupou a cadeira do meu lado. Será que ele ainda lembrava-se do que aconteceu? Pensei. Depois olhou a lista. — É o local para o show da banda?

Voltei então a relacionar os endereços. — É sim. — respondi seca.

— Se precisar de ajuda, minha oferta continua de pé ok?

— Obrigado, mas acho que está tudo em cima, Hyunjin. — Olhando para ele, reparei pela primeira vez na perfeição e brancura de seus dentes. Eram perfeitos até demais. Aposto que são restaurados!

Hwang esticou a mão na minha frente e a manga de sua camisa xadrez azulada encostou-se aos meus braços nus. Ele examinava a lista. — Se a gente conseguir reduzir isso pela metade, oposto como conseguimos um lugar em dois tempos.

Fechei meu caderno com um pouco de raiva. — Algum motivo especial para essa pressa toda?

— Nenhum motivo em especial. — Os cantos da boca carnuda virou-se para baixo, cada dia que passava mais vontade de beijar ele eu tinha. — É que os caras me parecem meio ansiosos por uma plateia.

— Sabe o que é mais engraçado nisso tudo, Hwang? — perguntei em tom totalmente sarcástico. — Antes de você entrar para a banda, todo mundo parecia estar muito contente com o jeito como as coisas estavam fluindo. Agora eles ameaçam me deixar na mão. Será que você por obsequio pode explicar isso?

Hyunjin franziu a testa, juntando as grossas sobrancelhas. — Por acaso está acusando que fui eu que dei essa ideia a eles?

— Vocês falaram sobre o quê, exatamente, naquele dia que saíram para comer uma pizza? — O tom era total de acusação.

Ele encolheu um pouco os ombros. — Não lembro direito... Falamos sobre diversas coisas.

— Aposto que sim. — Pela visão periférica, vi um vulto alto vestido de preto atravessando apressadamente a porta e parando na mesa da bibliotecária. Era o Felipe. — Olha, este nosso papo está muito bom, mesmo, mas agora preciso ir andando — falei, pegando a lista telefônica e o jornal.

— Podemos falar sobre isso mais tarde, se quiser — Hwang ainda disse.

Abanei a cabeça em negação, ele tinha acabado um pouco com as minhas expectativas. — Acho que por agora, e nem mais tarde vou estar a fim. — Ainda bem que terminou, pensei respirando bem fundo, indo para a mesa da bibliotecária.

Sorri um pouco cínico e tentei mudar do ataque para a sedução em menos de quinze segundos.

— Oi, Perez — disse em um tom despreocupado, largando a lista sobre a mesa para devolvê-lo. — Tá tudo bem? — Meu pulso já tinha disparado há segundos atrás.

Ele me deu um sorriso ardente. — Tudo ótimo, Felix. E você, tudo bem?

— Melhor do que nunca — disse de modo animado demais. Esfria um pouco, me avisou uma voz lá dentro. Vai com toda calma que existe em ti. — Me desculpe pela bronca na aula de informática, naquele dia. Eu não queria meter você em encrenca.

Felipe debruçou-se no balcão e desabotoou o paletó esporte, estava mais quente ou era impressão minha? Dava para ver direitinho o músculo perfeitinho do peito por baixo da camiseta preta. — Sou eu quem deveria pedir desculpas — disse com aquela sua voz rouca, me arrepiei.

Engoli em seco, meio nervoso. — Se você ainda quiser, a gente se encontra em qualquer hora dessas para eu te ensinar a usar o e-mail.

— Obrigado, mas já me ensinaram e já mandei uma mensagem hoje. Foi bem divertido.

Meu coração deu uma leve parada. — É. É bem divertido.

Felipe pegou seus livros e sorriu. — A gente se vê qualquer hora no laboratório de informática ou pelas outras aulas.

Balancei a cabeça. — Com certeza.

— Tem certeza que não há nenhuma noite livre até julho? — perguntei desesperado ao telefone.

O cara do outro lado da linha parecia estar perdendo a paciência comigo ou com a minha insistência de realmente saber a verdade. — Eu já lhe disse garoto, nós só fazemos reservas com antecedência. Mas nos mande uma fita e, se a gente gostar do que tocam, vocês podem se apresentar pelo verão.

— Desculpe então por ocupar seu tempo — falei irritado, antes de bater o telefone no gancho. Peguei a caneta e risquei em vermelho o clube Rage. Esse era o último nome da lista.

Conseguir um lugar para tocar era infinitamente mais difícil do que eu imaginara, achar os locais era bem tranquilo. Todos os lugares que achei estavam com todas as noites reservadas havia meses e, o que era pior, todos eles queriam escutar uma fita da banda com qualidade de estúdios modernos antes de começar a pensar no assunto, quem dirá deixar a gente tocar. Nós não tínhamos dinheiro para gravar uma demo — não tínhamos sequer uma música bem ensaiada que pudesse ser gravada.

Tem de haver alguém nesta bendita cidade que nos deixe tocar, sem termos feito reservas ou que nos peçam uma fita. Quebrei a cabeça atrás de uma resposta plausível e, de repente, me ocorreu. — Mas é claro — falei em voz alta. — Como não pensei nisso antes?

Mais que depressa, disquei o número. — Jonas? Aqui é o Felix. Quero te perguntar uma coisa...

— O que foi, Yongbok?

— Tem a ver com a banda. O pessoal quer começar a tocar em público, e eu estou tendo um pouco de dificuldade em encontrar um lugar sem precisar de muitas coisas. Queria saber se a gente podia fazer um show aí no bar um dia desses.

Houve uma pequena pausa, escutei o mais velho suspirar, eu cerrei os dentes à espera de uma resposta.

— O Hyunjin me perguntou a mesma coisa, outro dia Felix.

— Perguntou?

— Sim, e infelizmente tive que dizei não. Já estamos com todas as noites tomadas por outras bandas até a primavera. Porém falei para ele que se alguém cancelar de última hora, vou tentar encaixar vocês, já que existem outras bandas em espera também. Hwang não falou nada a respeito?

— Não, não falou comigo. — Eu já estava de péssimo humor, e aquilo só piorou.

— Que estranho! Bom, mas de todo modo, desculpe não poder ajudar mais que isso, sabe bem que tenho algumas prioridades e outras bandas em espera. Claro que vocês podem continuar usando as salas dos fundos para ensaiar sem nenhum problema.

— Obrigada, Jonas. — E desliguei.

Deitei a cabeça sobre a ilha da mesa da cozinha, cheia de pensamentos confusos e torturantes. O que vai acontecer se eu não conseguir encontrar um lugar para a banda tocar? Será que o pessoal vai mesmo me substituir? O SKZ era tão unido, no começo éramos praticamente inseparáveis. Alguma coisa de muito fundamental mudara durante o verão... Ou será que era o Hwang que estava fazendo todo mundo agir de modo estranho? Ele ficou amigo de todo mundo da banda quase que imediatamente. E eu infelizmente sobrei.

De repente me deu um estalo e tudo ficou muito claro. Bucky, André, Marissa e até mesmo o Danny não queriam desmanchar a banda — e o fato de realmente não haver um público não os faria parar de tocar. Na verdade era tudo um complô idiota contra mim. Se eu não arranjasse um lugar para fazer o show, eles fingiriam desistir da banda e depois formariam outra só que sem mim.

E não era muito difícil imaginar quem iria ocupar meu lugar como empresário do grupo.

Notas finais
Até o próximo!!! Beijinhos ♥