Charlotte Elizabeth Blanchard acordou com seu celular tocando. Ela olhou a tela e viu que era sua mãe que ligava, 5:00 da manhã. Ainda era praticamente madrugada. Com pouca coordenação motora, Charlotte conseguiu atender, ainda um pouco grogue.

— O que houve, mãe? Você está bem?

— Charlie, fala para esse homem que eu tenho uma filha — Sua voz era alegre e um pouco embolada — Ele não está acreditando — Ela disse entre risos.

— Mãe, você me ligou de madrugada para isso? Achei que estivesse morrendo! — Charlotte a repreendeu.

— Oh, querida! Me desculpe! — Mais risos — Esse fuso horário me enlouquece. Aqui no Brasil ainda é dia. Nunca sei que horas são aí na Califórnia.

— De madrugada, mãe. Aqui é de madrugada e eu tenho que voltar a dormir — Charlotte desligou o celular e fechou os olhos. Ainda tinha mais uma hora de sono.

Um milhão de pensamentos surgiram em sua cabeça. Como será o primeiro dia de aula? Será que o novo treinador será legal ou um inútil completo como a treinadora Jules? E aquele estranho da Secrets... Ah, o estranho da Secrets. Esse último pensamento fez com que Charlotte saltasse da cama, tamanha era sua empolgação.

Charlotte era bem seletiva com relação a garotos. Ela achava a maior parte deles infantis e entediantes demais, por isso raramente ficava com alguém, ainda mais com estranhos.

Apesar disso, Charlotte ficou com um cara estranho na noite anterior. Ele era... Hmm... Diferente. Ele tinha um olhar que enxergava Charlotte. Ele olhou as quatro garotas e escolheu a ela. Aquilo era incomum. Era especial.

Enquanto sorria sozinha com seus pensamentos, Charlotte vestia sua calça de treinar da Adidas. Ela pôs um moletom, calçou seus tênis e fez um coque volumoso com seus cabelos cacheados.

Ela era uma garota disciplinada. Sempre acordava cedo, corria seus dez km, tomava um banho gelado e ia ao Starbucks com suas amigas, Brooke Channing e Kimberly Lawrence, tomar um café da manhã balanceado. Charlotte era tão disciplinada que às vezes chegava a ser neurótica.

Após sua corrida matinal, Charlotte estava sentada na bancada da cozinha, tomando um pouco de água. Ela pegou seu celular e ligou para sua mãe.

— Oi, docinho — A voz da sua mãe não estava mais tão embolada quanto uma hora atrás, mas ainda era suavemente melodiosa.

— Mãe, onde você está? O que está acontecendo? — A voz de Charlotte era aflita. Ela esperara um tempo para ligar, esperando que sua mãe se recuperasse do álcool ou qualquer outra substancia que tivesse ingerido.

Sua mãe, Penelope Blanc (Abreviação de Blanchard), era uma modelo internacional, do nível de Kate Moss e Alessandra Ambrósio. Ela vivia em viagens pelo mundo e era uma tremenda baladeira.

Charlotte e a mãe eram o oposto uma da outra. Penelope era espirituosa e espontânea, enquanto Charlotte era contida e reprimida. Isso fazia com que Charlotte se preocupasse com sua mãe. Principalmente pelo fato dela estar distante demais para fazer algo para ajudar.

— Eu estou bem, querida! — Penelope tentou tranquilizar a filha – Foi só uma festinha com uns amigos. Está tudo bem, docinho.

— Por favor, tome cuidado!

— Por favor, não se preocupe! — E então a ligação se encerrou.

Charlotte tomou um bom banho, passou hidrante em sua pele negra, um perfume Carolina Herrera e vestiu sua roupa que fora perfeitamente passada no dia anterior. Um conjunto de saia de tweed xadrez vermelha com o casaco combinando, um top preto e scarpins pretos Ralph & Russo.

Charlotte era uma garota de rotina, portanto, como em todos os outros dias, a caminho da escola, ela passou na casa de Brooke, que era quase sua vizinha, e em seguida passou na casa de Kimberly. Ela e as amigas – com exceção da rainha Louise – sempre iam juntas para o colégio e como Charlotte era a única que não dirigia um conversível de dois lugares — ela preferia a segurança de uma Mercedes CLS de quatro portas —, ela era sempre a motorista.

Elas seguiram para escola numa conversa animada sobre o primeiro dia de aula, vez ou outra parando para cantar junto com a voz de Hailee Steinfeld que saia dos alto-falantes do carro.

— Quantas calorias acha que tem nesse muffin? — Na mesma mesa de sempre, no Starbucks, Kimberly examinava bem de perto seu muffin de banana, apertando seus olhos asiáticos já estreitos.

— Eu tenho uma teoria de que você só engorda se você ficar pensando no que engorda — Brooke era cheia das teorias com embasamento apenas em suas próprias opiniões e experiências — Me tome como exemplo — Brooke jogou o cabelo loiro para trás — Quando tive minha fase anoréxica, eu engordei. Agora que como o que quero, não engordo mais.

— Também não é assim, B – Charlotte revirou os olhos castanhos — É tudo questão de equilíbrio — Ela balançou as mãos como se imitasse uma balança de libra — Você não pode ficar neurótica, mas também não pode sair comendo de tudo.

— Enfim — Kimberly bufou — eu como ou não o muffin?

— COMA!!! – Brooke e Charlotte entoaram juntas.

Kimberly tratou de começar a comer rapidamente o muffin. Charlotte deu um gole em seu café preto e Brooke voltou a tomar seu cappuccino.

— Garotas, está quase na hora — Disse Charlotte ao olhar as horas em seu relógio Cartier dourado.

Todas acenaram com a cabeça em concordância e terminaram suas bebidas em instantes. Charlotte voltou para a fila e pediu um latte, sem açúcar. Quando a bebida ficou pronta, Charlotte pegou o copo com o nome “LOUISE J” escrito e todas se dirigiram para o estacionamento da escola, especificamente para uma vaga próxima a entrada — Kimberly ainda tentava terminar seu muffin.

Um Audi r8 estacionou na vaga e saiu de dentro dele uma ruiva imponente. Ela pegou o café da mão de Charlotte e as garotas entraram porta adentro, lideradas por Louise, que caminhava na frente como uma bela rainha liderando seu exercito, que não marchava, desfilava em saltos agulha.

♥ ♥ ♥

O dia seguiu tranquilo e rotineiro, do jeito que Charlotte gostava. Quando as aulas finalizaram, ela caminhou apressadamente até o vestiário. Não podia correr o risco de se atrasar, pois ela era Charlotte Blanchard e Charlotte Blanchard estava sempre adiantada. Ela era uma garota responsável e sensata.

Dito isso, imagine só a surpresa dela ao chegar à entrada no ginásio e dar de cara com o estranho misterioso que ela beijara na noite anterior.

Os dois se entreolharam por um longo minuto. O coração de Charlotte gelou. Que merda estava acontecendo? Antes mesmo de estar dentro do ginásio, o homem ordenou que as garotas formassem uma fila horizontal e elas o fizeram. Enfileiradas, ouviram o discurso do homem. E que homem. Braços fortes, lábios tão beijáveis e aquele olhos que se você olhar bem de perto é capaz de se perder.

— Sou Michael Booth — Disse ele na porta do ginásio, enquanto entrava. Sua voz era firme. Sua feição era austera e ele transbordava seriedade — Sou seu novo treinador.