Isso não é coisa de garota
5 Isso é uma ameaça?
Hanna Gweneviere Coleman estava profundamente insegura, apesar de nunca demonstrar. A pose de durona era tão característico dela quanto a mecha de cabelo que ela prendia atrás de uma das orelhas. Apesar disso, seu coração dava piruetas em seu peito.
Ela estava de volta à sua antiga cidade e de volta à sua antiga escola. Provavelmente muita coisa devia ter mudado e Hanna não é do tipo que aprecia mudanças — estava com o mesmo penteado curto nos cabelos castanhos há anos. Ainda assim, respirou fundo e caminhou lado a lado com seu irmão, Justin.
A primeira pessoa conhecida que Hanna vira fora Louise Hochsheidt, jogando suas madeixas ruivas de um lado para o outro, como uma esnobe.
As duas eram melhores amigas, entretanto, com a morte da mãe de Louise e a mudança de Hanna, o contato entre as duas havia acabado brutalmente, por parte de Louise.
Hanna pensou em ir falar com ela, mas lembrar do fim da amizade das duas a fez mudar de ideia e voltar a caminhar.
Após o fim das aulas, Hanna se encaminhou para o ginásio. Ela caminhava cabisbaixa e pensativa, encarando suas botas Alexander McQueen. Era seu primeiro dia, portanto teria que passar por toda a burocracia de testes para entrar para as cheerleaders — mesmo ela tendo sido capitã quando morava em Nova York.
— Sou Michael Booth — Sua voz era firme. Ele começou a se apresentar já da porta do ginásio — Sou seu novo treinador.
Ele tinha um tom presunçoso, mas, apesar disso, ele transparecia confiança. Talvez fosse por sua postura suntuosa ou talvez fosse por sua voz grave e firme. É difícil saber, o homem era cheio dos atributos.
— Primeira coisa: Se querem estar no meu time, precisam me provar que merecem — Ele deu prosseguimento enquanto ainda entrava. Parece que entradas dramáticas também eram um de seus atributos — Segunda coisa: Todas as posições estão vagas. Vocês farão testes para cada uma delas. É bom que sejam boas em pelo menos uma ou estão fora.
De um lado da quadra um burburinho se iniciou, eram as cheerleaders indignadas, do outro lado da quadra outro burburinho surgiu, desta vez eram as aspirantes. Entretanto, todas foram brutalmente silenciadas pelo bradar do apito do treinador Booth. Ele indicou que todas formassem uma fila para começar a realizar os movimentos do teste e assim elas fizeram.
Começaram pelos tumbling, que são os movimentos realizados no chão, como estrelinhas, mortais e outras acrobacias; Depois foram feitos os stunt, que é a parte em que algumas garotas, as bases, levantam e seguram a flayer, a garota que fica no topo e, algumas vezes, são arremessadas para o alto. Revezando entre elas, para que todas as garotas pudessem ser base e flayer.
Ocorreram alguns tombos e algumas lesões leves, mas nada preocupante, pois Michael estava sempre lá como auxilio para o caso de algo dar errado, função do spotter.
Risadinhas soavam toda vez que Michael segurava uma das alunas. Parecia que estavam desmoronando aos montes e de propósito.
Algumas falharam miseravelmente em todas as especialidades que não a delas, outras foram razoáveis, duas foram péssimas e três em especial foram o mais próximo de perfeito.
Após alguns minutos de somatória dos pontos, o treinador Booth chamou a atenção das garotas com um pigarro propositalmente alto.
— Já estou com o resultado — Disse ele elevando uma folha ao alto — Madison Lewis e Jessica Thompson, vocês estão fora — Assim mesmo. Curto e grosso. As garotas tentaram retrucar, mas ele as ignorou friamente e prosseguiu: — April McKenna, Tiffany Campbell e Hanna Coleman, vocês estão dentro — o coração de Hanna deu um duplo mortal carpado e cravou — Louise Hochsheidt, Hanna Coleman e Madeline Peerson deem um passo à frente — As garotas seguiram as instruções — Vocês três serão capitãs por uma semana, formem seus times e me apresentem algo no mínimo razoável na próxima terça-feira. Lembrem que julgarei, principalmente, suas habilidades como capitã.
Hanna estava em êxtase, nunca pensou que chegaria e já teria a oportunidade de ser capitã. Ela conhecia o jeito como tudo funcionava. Capitãs são rainhas e a substituição de Vossa majestade não acontece do dia para a noite. Ainda assim, Hanna estava em êxtase.
— Acabou de chegar, então vou te explicar como são as coisas... — Louise estava em frente à Hanna, apertando seu rabo de cavalo no topo de sua cabeça ruiva — Eu sou a rainha e você é nadinha. Lembre-se disso e você vai ficar bem.
— Isso é uma ameaça? — Hanna a questionou, perplexa. Sério, por que ela estava fazendo aquilo com Hanna? As duas já até dividiram a barraquinha de acampar.
— Oh — Louise soltou uma gargalhada forçada — Acha que estou te ameaçando? — E então voltou a ficar séria — Estou te comunicando — E então voltou para seu grupo de amigas como se nada tivesse acontecido.
Louise, Madeline e Hanna escolheram seus times. Hanna ficou com as novatas, April e Tiffany, sua nova amiga, Chloe Marshant, e com as gêmeas, Amber e Ashley. Com os times escolhidos, as garotas foram embora.
♥ ♥ ♥
Durante a tarde, em sua casa, Hanna estava sentada na janela de seu novo quarto, enrolando um baseado. Ela viu o carro de seu pai estacionando na imponente porta da frente. Viu seu pai entrar pela tal porta. Depois viu um estranho saindo pela janela do quarto de seu pai. Um estranho tatuado com um corpo escultural e seminu. Ela observou o estranho titubear pelo telhado e então ir fazendo parkour até conseguir aterrissar — majestosamente — no chão. Ele correu até o jardim e sumiu de vista. Hanna apenas deu de ombro e voltou a apertar seu baseado.
— Ele vai surtar se te vir fumando um — Justin estava rindo, apoiado no batente da porta de Hanna, que estava aberta — Vai gritar: “Hanna, isso não é coisa de garota” — Ele imitou a voz do pai.
— O pior que pode acontecer é ele me mandar de volta para minha mãe. Pena pra ele que ela não me quer — Disse Hanna enquanto acendia o cigarro. Então deu uma tragada.
— Pobre coitadinha da garota rejeitada pela mamãe. Você teve cinco anos a mais com ela do que eu — Desdenhou Justin. Ele caminhou até Hanna e pegou o cigarro da sua mão. Deu uma longa tragada e devolveu.
— E olha só no que deu — Hanna bufou.
Há cinco anos a mãe de Hanna, Justine, deixou o marido para ir morar em Nova York com outro homem e arrastou Hanna com ela, deixando seu outro filho, Justin, para trás. Hanna teve que deixar seu pai, Richard, seu irmão e sua cidade.
Entretanto, após um conflito entre Hanna e o padrasto, Joseph, a mãe de Hanna foi convencida de que a filha deveria voltar a morar com o pai, com quem ela mal trocara meia dúzia de palavras nos últimos anos. E assim aconteceu.
Hanna e Justin, além de irmãos, eram melhores amigos, antes de Hanna ir embora. Isso não mudou com os km de distancia que os separavam. Agora, juntos de novo, era como se o tempo não tivesse passado.
— Hanna, você pode ser uma drogada, mas seja uma drogada pontual – Ele riu. Hanna nem se dera conta de que já estava quase na hora de ir à festa na casa de Louise – Te espero em meia hora lá embaixo.
Louise sempre dava festas em sua casa no primeiro dia de aula, era praticamente um rito de passagem. Apesar de Louise ter rivais por toda parte, todos iam às suas festas. Era um momento neutro de amenidades pré-guerra. Hanna sabia disso, portanto não via problemas em ir até lá.
Ela se levantou. Apagou seu cigarro no cinzeiro e o deixou lá. Hanna passou um pouco de perfume, colocou um chiclete de hortelã na boca e entrou na imensidão de seu closet para se vestir.
♥ ♥ ♥
Hanna estava parada, com um copo laranja neon na mão, observando as pessoas que iam tirando suas roupas e saltando na piscina aquecida.
— Ei, estranha — Disse um garoto, se aproximando. Ele era alto, forte e tinha um sorriso malicioso.
— Você... Eu te conheço...
— A gente ficou ontem. Na Secrets. Feriado do dia do trabalho — Ele oferecia informações com o intuito de fazer Hanna se lembrar — Eu sou Oliver, a propósito.
— Então já se conheceram — A voz de Justin surgiu por detrás de Oliver à medida que ele se aproximava — Hanna, Esse é meu amigo. Oliver, essa é minha irmã.
Justin e Oliver iniciaram uma conversa que Hanna mal podia ouvir, pois estava concentrada demais observando Oliver. Ele fazia a linha troble maker. O corpo escultural. Corte de cabelo estilo militar e o sorriso... Ah, o sorriso. E também tinha aquele jeito de passar o dedo nos lábios. O olhar baixo e sacana. Oliver exalava problema. Principalmente se você se apaixonasse por ele. E ele era o tipo por quem toda garota se apaixonava.
Hanna percorreu o olhar pelas tatuagens fechando o braço dele. Elas começavam em seu pulso e subiam até seu pescoço. Então um estalo.
Ela o reconheceu.
Ele era o garoto com quem ela ficou na noite anterior, mas não só isso. Imagine a sua surpresa ao reconhecê-lo também como aquele que saltou pela janela de sua madrasta.
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