Notas iniciais
Eu sinto que Isso não é Romeu e Julieta está chegando a sua reta final... Espero que seja isso mesmo, porque estou cada vez mais empacada nessa história!

Helena abriu a porta de casa com uma expressão de tédio e desdém.

—Essa é uma péssima ideia. — ela as recebeu de cara com essas palavras de mau agouro.

—Bom dia para você também cunhada. — Maria Alice a cumprimentou passando por ela com as mãos cheias de sacola de compras — Não seja tão amarga, é o aniversário da sua mãe, sabe?

—É exatamente por isso que digo que é uma má ideia. — Helena insistiu afastando-se para o lado sem dar o menor sinal de que ajudaria com as sacolas — Por que lembrar a uma mulher velha que ela está ficando ainda mais velha?

—Menina, mas você é uma coisa! — Maria Alice girou os olhos.

—Apenas a ignore! — Heleno comentou descendo as escadas — Sabe o que realmente é uma péssima ideia? Pegar o carro dos pais sem ter permissão ou sequer ter CNH.

Arregalando os olhos, Maria Alice quase deixou as compras caírem quando se virou novamente para Helena.

—Você realmente…?!

—É claro que não!

Helena negou na mesma hora, e lançou um olhar fulminante ao irmão gêmeo, que deu de ombros com ar despreocupado.

—Foi só uma sugestão. — comentou — Também não é como se ela tivesse batido nem n… opa!

Ele recuou surpreso, só tendo tempo de agarrar-se ao corrimão com uma das mãos e firmar os pés antes de sofre o já costumeiro ataque de Julieta que correu e pulou sobre ele, pendurando-se com as pernas e os braços bem firmes em volta dele.

—Julieta…! — ele ofegou a abraçando com um braço enquanto a outra mão ainda se agarrava ao corrimão — Esse seu hábito ainda vai nos mandar para o pronto s… ai! Ai! Ai! Por que você sempre me morde garota?!

—Só cale a boca, porque todas as bobagens que você diz se realizam. — Julieta resmungou.

—Isso é bobag… ai! Ai! Ai! Pare de me morder garota!

—Já chega Julieta, saia de cima do seu tio e venha me ajudar na cozinha! — Maria Alice reclamou impaciente — Temos que ter tudo pronto antes dos convidados chegarem, e Heleno venha você também! Helena eu te quero bem longe da cozinha, ouviu?!

—Eu já disse que aquele incêndio não foi minha culpa! — Helena protestou — A frigideira que começou a pegar fogo do nada! E nem foi tão alto assim…

—Jura? Aquilo devia ter uns três metros de altura, a parede e até o teto ficaram preto e tudo… — Heleno comentou massageando o ombro mordido quando Julieta finalmente o soltou — Então você que ajudar?

—Não obrigada. — Helena recusou no mesmo instante.

Pelo menos ela tinha a opção de recusar, algo que, obviamente, estava muito longe do alcance de Julieta e Heleno porque se havia uma coisa que Maria Alice gostava mais de cozinhar então isso era escravizar os outros na cozinha.

—Vamos lá Julieta, pare de reclamar e coloque mais força nessa massa, eu sei que você consegue! — Maria Alice a instigou. — Heleno você já comeu os cupcakes que Julieta faz? São os mais macios e deliciosos que já provei…

—Eles ficam fofinhos porque eu bato a massa com ódio! — Julieta retrucou.

O segredo nunca foi o amor, isso era para os fracos!

—Então coloque mais ódio nessa massa! — Maria Alice retrucou na mesma hora, colocando as mãos nos quadris com toda autoridade, antes de suspirar — Ah… tanta força desperdiçada, eu até tentei direcionar toda essa raiva reprimida para a cozinha, mas…

—Eu nunca reprimi minha raiva. — Julieta respondeu enquanto se empenhava em bater a massa, embora faltasse o combustível especial do ódio… — E eu já a direciono muito bem nos esportes.

—Mas se direcionasse essa raiva para bater massa de bolo aposto que eu não seria chamada tantas vezes na escola e nem teria que me preocupar com a fiança… — Maria Alice suspirou — E mais força nesse braço menina porque depois ainda tem o merengue para bater!

—Eu tenho certeza que a vovó tem uma batedeira guardada no armário! — Julieta reclamou, apesar de ter colocado mais ímpeto na massa de bolo.

—Esqueça isso, alguns eletrodomésticos dão mais trabalho do que ajudam. — Maria Alice retrucou, mas Julieta tinha certeza que a mãe só gostava de ficar dando ordens aos outros.

—Eu já acabei de untar a forma. — Heleno avisou — Julieta, você tem falado com Aaron?

Julieta quase deixou cair a tigela com massa de bolo.

—P-por que você está falando dele de repente?!

—Julieta presta atenção para não fazer bagunça, não pense que eu vou te liberar só por tentar imitar os desastres de Helena! — Maria Alice ralhou — Assim que acabar de bater essa massa coloque na bandeja, e Heleno, vá lavar e picar os temperos, depois quero os dois aqui me ajudando a desfiar o frango…!

—Por nada demais. — Heleno respondeu descontraído enquanto lavava as mãos antes de pegar os vegetais — É só que ele tem andado meio ausente nos jogos, e como vocês moram próximos eu achei que você poderia tê-lo visto…

—Romeu também mora perto, pergunte a ele! — Julieta retrucou batendo a massa com cada vez mais força.

—Romeu fica tanto tempo trancado dentro de casa que o menor contato com o sol o faria virar cinzas. — Heleno respondeu despreocupado enquanto cortava os vegetais. — Então pensei se você não o tinha visto?

—Eu não tenho visto o Aaron. — Julieta negou despejando a massa de bolo na forma.

—Aaron é aquele rapaz bonitinho e competitivo do aniversário? — Valerie perguntou chegando à cozinha — Ele vem para a festa surpresa da mamãe também?

—Por que ele viria para o aniversário da minha avó?! — Julieta reagiu.

—Eu ouvi o nome dele quando cheguei, então achei que estavam falando sobre apresentar seu namorado para a família.

—Ele não é meu namorado!

—Julieta você está namorando?! — a mãe dela questionou deixando o peito de frango de lado.

—É claro que não! — Julieta respondeu colocando o bolo no forno.

Mas a mãe continuou a olhando desconfiadamente enquanto ela sentava ao seu lado para ajudá-la a desfiar o frango.

—Ultimamente você tem saído muito perfumada para quem só está indo recolher fezes de porco.

—Credo Alice! — Valerie reclamou — Como que você fala assim enquanto mexe com comida?!

—E eu não ando perfumada. — Julieta protestou despedaçando o pedaço de franco que tinha nas mãos — Por que iria passar perfume se vou só sair para correr e catar fezes de porco?!

—Ai meu Deus, são mãe e filha realmente! — Valerie reclamou enojada.

—Você fica aí reclamando com nojinho e sem querer sujar as unhas, mas assim que a torta Maria Isabel ficar pronta, você será a primeira a pegar uma fatia. — Maria Alice estalou a língua — E você Julieta, está se perfumando por que arranjou namorado ou não?! Olha que nós temos que falar com o seu pai sobre isso, hein?

—Mas que se perfumando o que! Larga o osso mulher! — Julieta reagiu — Eu nem uso perfume, só protetor solar e desodorante!

—E você também está usando saia. — a mãe a alfinetou desconfiada.

Julieta arregalou os olhos.

—Aquilo é um short saia fitness!

—Mas você nunca usa qualquer tipo de saia.

—Foi a senhora que comprou aquilo para mim! — defendeu-se, e antes que sua mãe pudesse fazer outro ataque sem sentido ela mudou rapidamente de assunto — Tia Valerie, cadê o meu pãozinho de queijo?

—Ele está na casa de um amigo, mas chega antes dos parabéns. — Valerie respondeu com um sorrisinho — Ele foi todo arrumado porque tem uma quedinha pela irmã do amiguinho e você Julieta? Já que você está usando saia e perfume, por que não coloca um pouco de batom também?

—E-eu não preciso de nada disso! — Julieta reagiu imediatamente.

Valerie sorriu cruzando os braços.

—Mas e os namoradinhos?

—Tia Valerie! — Julieta protestou.

—Eu sempre quis dizer isso. — Valerie riu.

—Puxa Julieta, você é bem rápida despedaçando e triturando frango. — Heleno admirou-se se sentando com elas á mesa — É como se suas mãos fossem as mandíbulas de um leão!

—E você achou que eu não estava ajudando, não é Alice? — Valerie se gabou.

—Não fique metida, Valerie, a Julieta sempre foi boa despedaçando comida. — Maria Alice girou os olhos. — Vocês dois terminem isso enquanto eu vou fazer o arroz.

—Maria, já que está de pé você pode olhar se ainda temos band-aids em cima da geladeira? — Heleno perguntou.

—Oh querido, você se machucou cortando os vegetais?

Maria Alice perguntou enquanto Julieta afastava a panela de frango dele para evitar que Heleno sangrasse na comida.

—Não, eu só pensei se ainda tínhamos algum…

—Gente alguém sabe se temos band-aids? — Helena perguntou voltando à cozinha envolta em uma toalha — Eu estava tomando banho e senti uma ardência no joelho… — ela estendeu a perna direita mostrando o joelho ralado a todos — E o engraçado é que nem sei quando foi que me machuquei.

Todos os olhares se voltaram para Heleno, que suspirou.

—Eu juro que não sou um bruxo.

—Então a Julieta está namorando? — Helena retomou o assunto que Julieta torcia para ter sido esquecido — E você já contou para o Romeu?

—Eu não estou namorando! — Julieta negou triturando os últimos pedaços de frango entre as mãos sem sequer perceber. — E quantas vezes eu tenho que dizer que não tenho esse tipo de relação com o Romeu?!

—Tudo bem, não precisa se estressar. — Valerie comentou. — Só estamos dizendo que o pobrezinho vai ficar de coração partido.

—E eu estou dizendo…!

Julieta começou a protestar novamente, mas a mãe rapidamente a interrompeu:

—Espere um pouco, antes de tudo vá lavar as mãos e comece a usar essa energia toda para trabalhar no merengue de morango!

—É claro que eu sei que o Romeu não tem uma queda por você. — Helena retrucou pegando os band-aids da cesta em cima da geladeira — Até porque eu sei que ele tinha uma quedinha por mim há uns anos.

Julieta quase deixou a colher de pau cair.

—Você sabia?!

—Não Julys, segure a colher com firmeza, fúria! — Maria Alice tentou motivá-la apertando a mão dela em volta da colher de pau — Helena será que dá para ir se vestir longe daqui e parar de acalmar a Julieta?!

—Ah, claro que sabia, ele parecia um golden retriver, fofo. — Helena ignorou totalmente a cunhada — Mas também alguns irmãos podem ser bem ciumentos, e a sua relação com o Romeuzinho é bem mais estranha e profunda que isso, então seria bom você contar logo.

—Carlos André sempre chamava meus namorados de vagabundos maconheiros, ou qualquer coisa assim, mas duvido que fossem ciúmes, ele é só enjoado mesmo. — Valerie refletiu.

—Ah sim, ele e o papai falam a mesma coisa de cada garoto que eu conheço. — Helena concordou saindo da cozinha — Eles são insuportáveis.

—Acho que Helena tem razão. — Julieta concordou pensativa começando a bater o creme de leite — Não estou dizendo que tenho algo com Aaron, vocês estão loucos, mas talvez eu realmente devesse falar com Romeu…

—Helena será que não dava para você tê-la acalmado OUTRA HORA?! — Maria Alice gritou irritada para a cunhada que já fora embora.

Aparentemente, independente se Helena se aproximava ou não do fogão, bastava que ela entrasse na cozinha para que toda comida desandasse e agora o merengue de morango não ficaria tão fofinho quanto o bolo afinal…

Ultimamente as partidas online de Romeu e seus amigos vinham se resumindo a ele e Aaron se caçando e matando mutuamente, embora ambos alegassem ser apenas “infelizes acidentes” — na verdade Aaron às vezes soltava algo sobre “ser apenas legítima defesa” —, mas ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, e francamente também não faziam perguntas… como Japonese Doll dizia “devia haver um milhão de motivos para querer matar o Chili”.

E agora que a época de provas havia finalmente acabado, era hora de voltar à caçada… exceto porque hoje Aaron não estava online.

—Eu preciso de reforços aqui. — Romeu solicitou no microfone — Estou atrás dos barris! Eles estão me cercando…! — De repente o personagem dele morreu com um tiro na cabeça, deixando-o incrédulo e boquiaberto por quase cinco segundos encarando a tela antes de se recuperar e começar a reclamar pelo microfone, esquecendo-se de que, estando morto, ninguém mais podia ouvi-lo: — Chili! Quando foi que você entrou?!

Afinal quem mais o teria mat…?!

—Montéquio eu acho que matei um que estava do seu lado, confirma para mim. — a voz de Heleno soou em seus fones de ouvido — Montéquio…? Gente, eu acho que matei o Montéquio.

Os outros jogadores caíram na gargalhada. Simplesmente inacreditável! Romeu jogou a cabeça para trás suspirando alto e tirando os fones dos ouvidos.

—Romeu. — a mãe o chamou sentando-se com dificuldade no sofá atrás dele e estendendo as pernas — Acha que meus tornozelos estão inchados?

Romeu girou em sua cadeira para vê-la e arqueou as sobrancelhas, entre os pés e as canelas de sua mãe, tudo parecia de uma grossura só.

—Tornozelos? — piscou — Mas que tornozelos?

Vanessa suspirou mexendo os dedinhos dos pés.

—Foi o que pensei, eu me sinto como se tivessem substituído meus dedos por dez uvas bem suculentas… hum, será que temos uvas? — ela divagou abrindo um saco de batatinhas — Isso aconteceu porque fico muito tempo sentada no trabalho, mal posso esperar para finalmente entrar de licença…

Empurrando a cadeira de rodinhas para trás, Romeu esticou um braço e tirou o saco das mãos da mãe.

—Mas você ainda não completou nem seis meses… que tal se começarmos diminuindo a quantidade de sal nos seus lanchinhos? — sugeriu. — E hã… parar de comer os saches dos gatos também?

Vanessa o olhou com incredulidade.

—Mas Hades e Perséfone são castrados, a comida deles não tem sal! — protestou.

—Certo… — Romeu comeu, ele próprio, algumas das batatinhas — Mas não é esse o ponto mãe… a senhora está chorando?!

—Não. — Vanessa fungou desviando o olhar.

Mas antes que Romeu pudesse responder alguma coisa, eles ouviram a voz de Julieta chamando do lado de fora e ele se levantou.

—A gente conversa sobre isso depois mãe, mas eu juro que não estou tentando matá-la de fome. — prometeu.

—Você está ocupado? — Julieta perguntou do lado de fora usando um top fitness roxo e uma calça moletom cinza com Astolfinho ao lado e seus típicos tênis laranja neon — Eu quero conversar.

—Tudo bem, mas por que você parece tão séria sobre isso? — estranhou — Veio me pedir ajuda para esconder algum corpo…? — ele arregalou os olhos — Não é isso não, não é?!

—É claro que não. — ela girou os olhos limpando as mãos na calça, mas se irritou com o olhar ainda desconfiado e assustado de Romeu — Para de me olhar assim, você acha que eu iria expor o Astolfinho a um trauma assim?!

—Ah… certo tem razão. — concordou se afastando para o lado. — Quer entrar?

Ele preferiu não mencionar que, na verdade, porcos eram muito utilizados para “sumir com evidências” já que, sendo animais onívoros capazes de digerir praticamente tudo, lidar com carcaças não era nenhum problema… mas, dependendo do tamanho da “carcaça”, um único mini porco provavelmente não daria conta do serviço tão rápido… provavelmente…

—Finalmente! — Julieta bufou — Sim obrigada, esses jogos cheios de monstros e tiroteio estão corroendo seu cérebro, você sabe, não é?

Reclamou entrando e trazendo consigo o porco de estimação pela guia, parando por um momento para tirar os tênis no tapete da entrada, ao que Astolfinho roncou e esfregou os cascos no tapete para limpá-los também.

—Isso não fui eu quem ensinou. — Julieta comentou o observando.

Mas não era difícil de imaginar como ele havia aprendido, considerando que Maria Alice estava sempre gritando que a casa dela não era chiqueiro e mandando Julieta e o pai tirarem os sapatos antes de entrar.

—Meu cérebro não está sendo corroído e nem nada assim. — ele respondeu varrendo para longe os pensamentos sobre porcos e sua utilização na ocultação de cadáveres — Olha mãe, a Julys veio visitar.

—Oi querida, como foi a festinha da sua avó? — Vanessa cumprimentou sorrindo como se não estivesse prestes a cair em lágrimas um minuto atrás — Você trouxe algum docinho?

—Mamãe, nós acabamos de falar sobre isso! — Romeu a repreendeu — Não a alimente Julys, é sério!

—Romeu, que crueldade! — Vanessa reclamou virando o rosto — Está até me tratando com um urso do desenho do Zé Colmeia!

—Eu não faço ideia do que a senhora está falando! — Romeu balançou a cabeça.

—Desculpe tia, eu não trouxe nada do aniversário da vovó porque, tecnicamente, eu estou de castigo e não estou aqui… só saí para levar o Astolfinho para passear. — Julieta interrompeu pigarreando. — Mas a mamãe trouxe bolo, lasanha e salgadinhos, ela deve vir por aqui mais tarde.

Astolfinho roncou concordando.

—Ah, que maravilha…!

—Antes acho melhor eu conversar com a sua nutricionista sobre isso, vou pegar o número dela no seu celular. — Romeu suspirou — Julys vamos falar lá no quarto.

Chamou-a se certificando de encerrar a partida no computador e levar o pacote de batatas consigo antes.

—O quarto do bebê está ficando bonito. — Julieta admirou entrando.

—Aqui ainda é meu quarto também. — Romeu a relembrou e apontou para um canto — O berço vai ficar naquele canto, ele deve chegar semana que vem, mas sobre o que você quer falar? Eu preciso fechar a porta?

Não que ele ainda estivesse pensando em ocultação de provas e nem nada do tipo…

—Não, mas provavelmente é melhor se sentar…

—Certo, mas só para você saber: eu estou mesmo ficando preocupado aqui. — ele concordou se sentando ao lado dela na cama.

Julieta nem sequer se irritou dessa vez, ao invés disso, ela pareceu ignorar as palavras dele e jogou-se para trás com os braços abertos, soltando a guia de Astolfinho, o que, diga-se de passagem, só o deixou ainda mais inquieto.

—Hã… Julys? — hesitou — Está tudo bem…?

—Heleno me disse que você anda perseguindo e matando o Aaron a cada chance que tem nesses jogos.

—É claro que não! — Romeu negou imediatamente — Eu só o matei duas vezes, talvez três, mas foram acidentais, como eu ia saber que o lustre ia cair em cima dele? Além disso, ele me trancou em uma sala cheia de zumbis e…!

—Eu não ligo à mínima e aquele idiota deve ter feito por merecer. — Julieta o interrompeu.

—Fez mesmo, eu o matei onze vezes. — Romeu imediatamente mudou o discurso com um grande sorriso — Ele nem sabe da onde aquela pedra veio rolando, e eu ainda consegui fugir da sala com zumbis!

—Mas afinal o que está acontecendo com você? — Julieta girou de lado, deitando a cabeça sobre o antebraço dobrado — Não é de o seu feitio atacar seus companheiros de equipe… inclusive quando é um idiota feito o Aaron.

—Nada demais. — Romeu deu de ombros comendo algumas batatinhas.

—Não é porque ele é sempre bem descarado para o meu lado?

Por quase um minuto inteiro Romeu fingiu estar ocupado demais mastigando, antes de finalmente responder:

—Claro que não… — ele pigarreou quando a voz falhou — Nada haver.

Julieta se esforçou para não rir.

—Então não tem nada haver você ter nos seguido até o cinema…

—Aquilo foi coincidência!

—… e passado o filme inteiro jogando pipoca no Aaron.

—I-isso…! Você não tem como provar!

—Eu posso hackear o sistema de segurança do cinema e olhar nas câmeras da sala.

Afirmou tão séria e repentinamente que Romeu se engasgou e teve um ataque de tosse, ao que Julieta se sentou para lhe dar algumas tapas nas costas e até Astolfinho, que estava solto fungando por todos os cantos do quarto, voltou trotando curioso para ver o que estava acontecendo.

—P-pode mesmo? — ele gaguejou com os olhos cheios de lágrimas.

—Não, claro que não. — Dessa vez Julieta não conseguiu conter a gargalhada. — E mesmo se eu pudesse, por que eu me daria a todo esse trabalho? — ela acariciou as bochechas de Astolfilnho quando o mini porco apoiou os cascos nos joelhos dela — Não é mesmo meu amor? Titio Romeu é muito tolinho!

Comentou fazendo caretas para a mascote.

—Julys! — Romeu reclamou, embora a culpa fosse dele por ser tão ingênuo. — Então você só queria me fazer confessar?!

Julieta suspirou deitando a cabeça no ombro de Romeu.

—Mais ou menos, na verdade eu meio que menti para você Romeu, porque eu me importo sim com você estar atacando aquele imbecil — confessou pegando algumas batatinhas para si — Mas não por ele, e sim pelos seus motivos.

—Meus motivos?

—Romeu… — Julieta comeu mais algumas batatinhas — Você por acaso gosta de mim? Quero dizer se está apaixonado ou qualquer coisa vagamente parecida.

—Não.

Ele respondeu tão naturalmente que só depois pareceu se dar conta do sentido da pergunta, e ficou alguns instantes a olhando como se perguntasse se realmente havia escutado certo.

—Eu já esperava, foi só para confirmar. — Julieta assentiu.

Romeu colocou a mão sobre a testa dela para sentir-lhe a temperatura.

—Mas da onde veio isso de repente? — quis saber.

—Nada demais, apenas abobrinhas dos Capelletes: minha família acha que você tem uma queda por mim.

Romeu arregalou os olhos, encarando-a boquiaberto.

—Por quê?

—Porque a minha família é cheia de abobrinhas, e a da vez é que você está com ciúmes do Aaron porque, na verdade, gosta de mim.

Romeu inclinou a cabeça de lado.

—Chegaram a essa conclusão no aniversário da sua avó?

—Sim.

—E o quão bêbados eles já estavam?

Julieta soltou o ar pelo nariz, é claro que ele acharia que aquilo era uma ideia de bêbados, de tão absurda.

Astolfinho roncou saltitando como se tentasse subir no colo de Julieta, e ela afastou as batatas dele.

—Não querido, isso não é para você. — Negou e, parecendo rapidamente perder o interesse com a recusa, o porquinho roncou e se afastou para voltar a fuçar pelo quarto, ganhando logo um novo interesse em Perséfone que acabava de entrar, foi bobagem de Romeu pensar que Julys poderia usar Astolfinho para sumir com provas quando ela sequer o deixava chegar perto de produtos processados. — Mais importante: vamos voltar ao assunto principal, seus ataques ao Aaron.

Romeu achou que talvez preferisse falar sobre ocultação de cadáveres e álibis…

—Não foi nada demais. — argumentou — Foi apenas um lustre, uma rocha, alguns tiros, uma machadada e um empurrão para dentro de uma cova do inferno.

—Sim, ótimo. — Julieta assentiu mal parecendo ouvi-lo. — E melhor ainda que essa besteira de vocês não tenha nada haver comigo…

—Eu também não disse isso…! — Romeu tentou protestar.

—Porque eu decidi fazer um teste drive.

Romeu a olhou e ofereceu as últimas batatinhas.

—Mas você não tem carteira, Julys. — pontuou.

—Estou falando do Aaron. — Julieta o acertou com o cotovelo entre as costelas e aceitou as últimas batatinhas — Eu realmente não consigo entender as atitudes e intenções daquele cara, e tampouco sei se quero ficar perto dele ou simplesmente esmurrá-lo, por isso entramos em um acordo e estamos testando como eu me sinto… então já tem uma semana, desde que eu soquei a Brenda na escola durante a prova, que nos encontramos todos os dias na praça.

Por isso que Aaron não vinha aparecendo nas partidas online!

—Se encontram para apostar corrida? — Romeu perguntou esperançosamente.

—Para ficar, Romeu. — Julieta girou os olhos.

Romeu amassou o pacote vazio de batatas entre as mãos.

—Ficar… jogando vôlei?

—Romeu, agora você já está bancando o idiota, não é? — Julieta se jogou para trás, voltando a deitar na cama.

—É estou. Eu entendi sim. — Suspirando, Romeu se deitou ao lado dela. — Julys.

—Que foi?

—Acho que da próxima vez vou atropelá-lo com um tanque.

Julieta riu.

Notas finais
É isso aí gente, esse capítulo foi bem curto e tranquilo não tivemos Aaron aqui. Até a próxima!