Notas iniciais
E aqui estamos para o quarto aniversário da minha criança... Ok que houve uns hiatus nesse meio tempo... mas seguimos vivos... eu acho. A você que ainda está aqui: obrigada pela persistência.

Certa vez o tio de Julieta, Jesus, havia caído em uma daquelas pegadinhas de televisão, onde enquanto várias pessoas esperavam em um ponto de ônibus à noite — entre as quais uma dupla de atores falando sobre “ataques de lobisomem” — de repente alguém vestido de lobisomem saltava de alguns arbustos próximos e avançava sobre as vítimas gritando e sacudindo os braços, fazendo todos saírem correndo… exceto tio Jesus, ao invés disso ele — em uma resposta de pânico, segundo o próprio — avançou contra a fera, derrubando-o com socos e pontapés sem conseguir escutar o ator gritando que era apenas uma brincadeira, até que a produção interviesse, correndo para contê-lo e então apontando para as câmeras escondidas.

Então reagir com violência a fortes emoções estava no sangue… e por isso Julieta acabou arrancando o saco de boxe da máquina de medir socos, mas não foi culpa dela, a máquina que já estava capenga quando ela chegou!

Máquinas de boxe deveriam ser mais resistentes e pessoas fantasiadas de lobisomem deveriam saber que correm um sério risco de levar uma surra!

Claro que ela também não era ingênua o bastante para ficar e tentar explicar a situação, então ela e Aaron saíram correndo dali o mais rápido possível.

—Não corra, mi bien, só vai parecer mais suspeita! — Aaron riu passando o braço em torno dos ombros dela — Haja naturalmente, evite olhar paras as câmeras… oh, você já tem dezoito, significa que isso não vai sumir da sua ficha.

—Será que dá para calar a boca? — reclamou o afastando com uma cotovelada enquanto digitava rapidamente no celular para dizer a Romeu onde ele poderia encontrá-los — Foi você quem me irritou com essa sua fala mansa e jeitinho charmoso que fica de conversinha por aí com qualquer garota bonita de micro saia!

—Mi bien. — Aaron abriu um grande sorriso — ¿Sabías que suenas como una novia celosa?

—E será que dá para falar em um idioma que eu entenda?! — Julieta reclamou irritada.

Aaron a deteve agarrando um dos pulsos de Julieta e ela quase caiu para trás.

—Tudo bem. — respondeu sério — Que tal isso: Vamos namorar?

Julieta piscou o olhando boquiaberta.

—E então? — Margot perguntou ansiosa quando Julieta simplesmente interrompeu a narração — O que aconteceu depois?! — Julieta deu de ombros — Mulher você não pode parar uma história na melhor parte! O que foi que aconteceu depois?!

—Depois nada. — Julieta girou os olhos — Eu disse que ia pensar e depois retornava, aí eu vi o Romeu chegando e fui embora com ele.

O suco de caju escorreu pelo canto da boca de Margot e manchou sua blusa, mas ela nem pareceu se dar conta durante o longo tempo que seu cérebro levou para processar o que havia acabado de ouvir.

—Mas que… mas que…

—Você está babando amiga. — Julieta girou os olhos apoiando o rosto de lado na mão.

—Quem é que responde a um pedido de namoro de um cara gatinho com uma pinta sexy no maxilar e um sotaque charmoso como um recrutador de RH em uma entrevista de emprego sua cachorra?!

Margot explodiu chamando a atenção de várias pessoas no refeitório em volta e fazendo Julieta esconder o rosto com vergonha, mas quando ela transformou o pátio da escola em um ringue de luta livre, não ficou nem um pouco envergonhada.

—Quem vai a uma entrevista de emprego? — Romeu perguntou se sentando junto com elas.

Margot apontou-o acusadoramente.

—E por que você sempre tem que chegar na pior hora?! — reclamou, assustando-o. — Depois de um fora desses, eu não me admiraria nada se ele desistisse e partisse para outra!

—Eu não dei um fora nele! — Julieta protestou.

—Ah, por favor, Juju! Todo mundo sabe que quando o recrutador diz “Vamos avaliar seu currículo e depois retornamos” significa: procura outra vaga idiota!

—M-mas do que ela está falando?! — Romeu piscou incrédulo.

Curvada sobre a mesa e escondendo o rosto entre os braços cruzados, Julieta grunhiu.

—Só ignore, ela é louca. — resmungou — Deve estar de TPM de novo.

Margot levantou-se ultrajada batendo com as mãos na mesa.

—Quem é louca?! Quem é louca?! — reclamou como uma louca, e apontou para Romeu que, aquela altura, já estava procurando por algum pedaço de chocolate na mochila — E você com essas covinhas e cachinhos angelicais, o que é que estava fazendo no cinema?!

Romeu ofereceu a ela um tablete de chocolate branco.

—Eu fui ver um filme? — chutou.

Margot lançou-lhe um olhar mortal de quem não comprava essa inocência e pegou o chocolate, o devorando tão rápido que quase o jogou com papel e tudo dentro da boca, antes de sentar-se novamente com um suspiro que era um misto de frustração e indignação.

—Eu não acredito que precisei te perseguir e incomodar incessantemente durante quatro dias inteiros só para… espera aí Juju, você está me dizendo que aquele colombiano charmoso está a quatro dias esperando uma resposta para a corajosa declaração dele?! Pobre soldado abatido! Romeuzinho, você tem mais chocolate aí?!

—Espera um pouco aí, você não disse que a essa altura ele já tinha passado para a próxima? — Julieta reclamou erguendo a cabeça.

—Não…! — Margot ergueu um indicador incisivamente — Eu disse que não me admiraria se ele fizesse isso, não que ele já fez, embora devesse!

—Mas afinal o que está acontecendo aqui?!

Romeu desesperou-se virando a mochila de ponta cabeça e a esvaziando sobre a mesa.

Exausta Margot apoiou a testa contra o tampo da mesa, ela não sabia quem dos dois a desesperava mais, se o aparentemente inocente Romeuzinho ou a bruta Juju.

—Eu só estou dizendo que uma declaração feita por um gato daquele patamar a gente responde o puxando para um canto e enfiando a língua na goela dele. — resmungou virando o rosto de lado e amassando a bochecha contra a mesa.

Julieta exclamou um “ai meu Deus, garota!” completamente horrorizado, como se Margot houvesse dito uma grande obscenidade — o que só fez Margot girar os olhos — enquanto Romeu, que estava guardando as coisas de volta na mochila, deixou o estojo cair e espalhou uma série de canetas e lápis no chão.

—O Aaron se declarou?! — Romeu assustou-se se abaixando para recolher as coisas caídas.

—M-mas quem foi que falou dele?! — Julieta tentou desconversar na mesma hora.

—E de quem mais poderíamos estar falando? — Margot reclamou entediada — Por mais bonita que você seja, a tendência da maioria dos caras é fugir para longe depois dos primeiros um ou dois socos, quando percebem que você é uma desvairada violent… ai! — reclamou levantando a cabeça, com os óculos tortos na cara ao se chutada por debaixo da mesa — É exatamente disso que eu estou falando!

—E também teve outros caras? Ouch! — Romeu assustou-se batendo a cabeça na mesa, antes de conseguiu esticar o pescoço por cima dela e olhar para as duas como se elas fossem alienígenas — Por que nunca me contou nada disso Julys?!

—Tá brincando? Eu tive que encher a paciência dela por dias a fio e me esquivar de vários quase socos por essa informação! Tornei-me praticamente um Bruce Lee por essas informações e você quer furar a fila?!

—Furar a fila? Eu a conheço desde o berçário! — Romeu protestou ofendido voltando a sentar.

—Sim, claro, nasceram juntos, dividiram as fraudas e cobertores, trocaram dentes de leite…

Margot debochou movendo a mão abrindo e fechando como uma boca tagarelando.

—Nós nunca… tá, a parte dos cobertores é verdade, mas…!

—Já chega vocês dois! — Julieta bateu na mesa — Romeu, eu ia contar, mas… e não teve mais ninguém!

—Que você tenha notado. — Margot girou os olhos, ajeitando os óculos — Bruta do jeito que é…

—E eu não quero mais falar disso! — Julieta a ameaçou com um punho fechado se levantando e saindo da mesa. — Agora podemos ir para casa, por favor? Romeu o que a tia Vanessa achou do unicórnio que você conseguiu na máquina de bichinhos?

Romeu piscou desconcertado com a mudança brusca de assunto antes de fechar a mochila às pressas e correr para alcançá-la.

—Mamãe adorou o unicórnio de pelúcia, disse que vai colocar no quarto do bebê. — contou a alcançando.

—Mas vocês não vão dividir o quarto? — Julieta estranhou.

—É… — ele tossiu — A minha cama ainda está lá no cantinho.

—Sei, e depois estará na garagem! — Julieta riu.

—Quem me dera, mas nós não temos uma garagem. — Romeu suspirou jogando a mochila nas costas. — Mas acho que mamãe está mesmo exagerando um pouco no quanto anda comendo.

—Hum… e você pensou nisso antes ou depois de ela começar a esconder um saquinho com cenoura em tiras dentro do sutiã?

Julieta riu zombeteira trazendo a mochila para frente e procurando pela chave do cadeado da bicicleta.

—Acho que foi quando ela comeu o sache dos gatos com bolacha, porque agora até os gatos estão começando a achar que nós estamos passando fome.

Romeu estendeu a mão aparando os fones de ouvidos, o celular e o protetor solar facial de Julieta enquanto ela procurava as chaves.

—O que quer dizer?

Romeu inclinou-se mais para frente, arregalando os olhos.

—Um dia desses, ela acordou e Hades tinha simplesmente deixado um pássaro morto aos pés dela na cama, meu pai quase teve um ataque do coração! — contou. — Ou seja: ele achou que ela estava passando fome e simplesmente começou a caçar para alimentá-la!

—Ou… — sugeriu Julieta ainda remexendo nos bolsos da mochila — O pássaro foi um aviso. Onde está aquela droga de chave?

—Que tipo de aviso?

—Ora, você sabe. — Julieta deu de ombros. — “Fique longe da minha comida, ou o que aconteceu com o pássaro acontecerá com você”. Ahá! Achei!

Finalizou passando o polegar na garganta, em um gesto ameaçador, fazendo Romeu olhá-la boquiaberto.

—Julys, que horror! — protestou devolvendo as coisas dela. — O Hades é só um gatinho, não a criatura maquiavélica e diabólica que você pensa!

—Eu só estou dizendo que se fosse Perséfone eu talvez acreditasse nas “boas intenções”, mas vindo do mesmo gato que tentou me asfixiar enquanto eu dormia…

Deu de ombros enfiando tudo de volta e fechando o bolso da mochila.

—Hades não estava tentando te matar!

—Acho que vamos ter que concordar em discordar disso.

—Mas isso me deixa curiosa. — Margot interveio aparecendo de repente entre eles — Afinal qual é a desses gatos da sua mãe? Porque cada vez que vocês falam deles, eles parecem bem…

—Bizarros? — sugeriu Julieta — Como se um deles fosse uma entidade obscura apenas se disfarçando de gato para rir de nós meros mortais?

—Julys!

—Eu ia dizer só “estranho”. — Margot completou — Onde sua mãe os arranjou afinal, Romeuzinho?

—Eu acho que Hades pertencia aos antigos donos da casa e eles o abandonaram lá quando se mudaram. — Romeu respondeu pensativo. — Porque ele já morava lá quando nos mudamos, sempre entrando e saindo como se a casa fosse dele, e quando nos demos conta, mamãe já estava colocando ração em potinhos, comprando uma caixa de areia para deixar na área de serviço, marcando consultas no veterinário e o chamando de Hades…

—Para combinar com o inferno de onde essa criatura saiu. — completou Julieta.

—Julys! — Romeu a repreendeu — Hades é o nome de um deus Grego, e ele é deus do submundo, que é totalmente diferente de ser deus do inferno!

—Pelo menos essa é a versão dele. — Julieta acrescentou sem se abalar e, em tom conspiratório, continuou: — Eu tenho para mim que esse gato matou os antigos donos da casa e os enterrou no quintal.

—Ai meu Deus, garota! — Margot gargalhou de incredulidade — E o outro? São dois gatos, não é?

—Perséfone, ela é muito carinhosa e meiga. — Julieta confirmou.

—Na verdade também não sabemos da onde ela veio… — Romeu admitiu — Um dia Hades chegou da rua carregando ela, ainda filhotinho, na boca e não tivemos opção exceto a de ficar com ela também, acho que ele deve tê-la encontrado e resgatado de algum canto…

—Ou seqüestrado. — Julieta acrescentou.

—Julys! — Romeu protestou.

—Sim claro, mas aposto que a doce gatinha não tentou amassar a cara do bravo e suspeitosamente sinistro gatinho quando ele a convidou para um passeio… — Margot comentou sugestiva.

—Eu disse que não quero mais falar disso! — Julieta reclamou.

Mas Margot, que simplesmente não parecia ter amor a vida, continuou com aquele sorrisinho irritante:

—Quem sabe o segredo não seja o seqüestro afinal?

Uma coisa Julieta precisava admitir: Margot era muito corajosa para continuar a provocando daquele jeito.

Ou isso ou ela era uma completa sem noção sem amor á vida e sem ter mais o que fazer.

Seja como for, Julieta não tinha a mínima paciência para tentar descobrir agora, então montou na bicicleta e saiu pedalando tão às pressas que Margot e Romeu quase não tiveram tempo de pular para fora de seu caminho, e também ignorou Romeu a chamando, ele podia alcançá-la depois com a bicicleta dele… só era uma pena que Julieta não pudesse fugir de Margot daquela forma todos os dias.

E também que aquela garota fosse tão desocupada e cismada. Parecia um cachorro que nunca largava o osso!

—Garota, desencana, já faz mais de uma semana, nem o Aaron fica tão em cima assim! — Julieta reclamou.

—Já pensou que isso possa ser um mau sinal? — Margot a provocou, mas arregalou os olhos e recuou quando Julieta fez menção de esganá-la. — Ok, desculpa, é só que eu estou entediada Juju e a sua vida amorosa é o que de mais interessante está acontecendo na minha vida e sim, eu me ouvi, e isso é patético!

—E você não tem nenhuma prova para estudar? — Julieta ironizou. — Você sabe, as provas começaram hoje e nós estamos no final do último ano, caso tenha se esquecido.

—Nem me lembre, é justamente por isso que preciso de algum entretenimento: estou sob muito estresse nesse momento! — Margot lamentou jogando os braços em volta de Julieta.

—Eu jogo jogos de terror e de tiro para relaxar. — Romeu reclamou emburrado, deitando a cabeça no ombro de Julieta do outro lado — O que aconteceu com a época em que, quando saía da sala depois da prova, só se conversava sobre o que respondeu em cada questão?

—Foi para o brejo quando Julieta começou a ameaçar fazer o primeiro que viesse falar de prova com ela engolir os dentes. — Margot respondeu mostrando a língua.

Julieta se remexeu incomodada tentando afastá-los, como um cão molhado após a chuva.

—Podem se desgrudar um pouco de mim? Está calor aqui sabiam?! — reclamou.

Mas foi como falar com as paredes.

Provavelmente porque ambos sabiam que Julieta não os faria engolir os dentes… pelo menos não propositalmente.

Então, apenas desistindo, ela suspirou e jogou a cabeça para trás, apoiando as costas contra a parede da arquibancada atrás de si, é claro que não queria admitir isso, mas Margot realmente já estava começando a conseguir preocupá-la e graças àquela linguaruda, não conseguiu deixar de pensar nisso pelo resto da semana também.

É verdade que havia pedido um tempo ao Aaron para pensar adequadamente em uma resposta, mas por que ele não havia mais a procurado ou dado qualquer sinal de vida desde então?

E se Margot tivesse razão e ele houvesse desistido e partido para a próxima? E se fosse isso, como Julieta se sentia a esse respeito?

Julieta queria que aquele colombiano estivesse bem ali na frente dela agora, para que ela pudesse sacudi-lo e perguntar de uma vez porque ele não a havia pressionado por uma resposta nem uma única vez desde que ela o deixou em Banho Maria no domingo retrasado! Afinal onde é que aquele cara estava?!

É claro que mesmo com vários dias para pensar na resposta, se tivesse que chutar, Julieta não diria “liderando uma revolução”.

Tudo começou quando o novo professor de química chegou para lecionar a prova do dia, deixou uma caneca etiquetada com “lágrimas de alunos” sobre a mesa e começou a escrever as regras no quadro:

Quem for pego colando tem a prova anulada.Quem for pego passando cola terá 2pt descontados da nota.Quem entregar o coleguinha colando ou passando cola ganhará 2pt extras na nota final.

—Ô droga, eu esqueci as provas no carro. — ele estalou a língua virando-se para a turma — Mas talvez algumas turmas já tenham começado as provas delas, então posso confiar que vocês ficarão em silêncio?

—Claro professor! — Aaron confirmou sorridente.

—Não posso não, por isso que mandei alguém anotar os nomes de quem conversar enquanto eu estiver fora. — respondeu seriamente.

Assim que a porta se fechou, um clima pesado caiu sobre a turma, e Aaron olhou desconfiado para os colegas à sua volta.

—Que foi? — um deles respondeu.

Aaron semicerrou os olhos.

—É você, né?

—Eu o que?! — o garoto ergueu as mãos com as palmas para cima — Eu nem trouxe caneta! Aliás, você tem uma para me emp… ei, ei onde você ta indo?!

Perguntou quando Aaron levantou-se e dirigiu-se decidido ao outro lado da sala e arrancando a folha do caderno de Vivian Souza, antes de ir até a parte da frente da turma.

—Ouçam todos! — anunciou erguendo a folha de papel no alto — Fiquem sabendo que aqueles que não passam cola na hora da prova são escória! — rasgou a folha diante de todos — Mas aqueles que entregam os companheiros são piores que a escória!

Ele esperava aplausos ou, no mínimo, algumas risadas, mas ao invés disso o que ouviu foi um pigarrear crítico vindo da porta, onde o professor estava parado com os braços cruzados.

Aaron arregalou os olhos.

—Oi professor… há quanto tempo o senhor está aí?

—Eu nem fui embora Aaron. — respondeu. — Esqueci as chaves do carro.

—Então… diretoria?

O professor arqueou a sobrancelha.

—Está esperto, não é?

E agora sim ele conseguiu as risadas, suspirou saindo da sala com o recado escrito pelo professor, só torcia para que aquilo não chegasse aos ouvidos de sua mãe… ele só não esperava encontrar Julieta também sentada do lado de fora da sala da diretora.

—Então está aqui por quê? — ela perguntou endireitando-se na cadeira quando ele sentou ao seu lado.

Aaron suspirou.

—Eu fui contra o sistema.

—Ah. — Julieta não soube bem como interpretar aquilo — Eu acertei uma cotovelada em uma abusada que tentou colar de mim na prova.

—Ai. — Aaron fez uma careta de dor — ¡ Pobre Margarita!

—Eu não bati da Margot, eles nos separaram durante as provas. — Julieta girou os olhos e jogou-se para trás cruzando os braços — Foi aquela vaca da Brenda, e agora ela está lá tentando espiar a prova de outro com um olho só enquanto eu estou aqui perdendo a minha por tentar proteger minha propriedade intelectual! Agora no mínimo espero que aquele olho fique roxo!

—Te entendo, mi bien, eu não acredito que o professor não tem senso de humor algum… e eu que tinha estudado tanto…

—Você tinha? — Julieta duvidou.

¡Por supuesto que sí, mi bien! — ele piscou-lhe confiante sorrindo com uma mão sobre o queixo — Eu sei que esse rostinho é lindo, mas nem só com beleza se vence na vida!

Julieta inclinou a cabeça de lado.

—Eu já estou na diretoria por ter agredido alguém, Aaron, não me custaria nada agredir mais um. — comentou calmamente.

—Tranqüila mi bien. — Aaron riu erguendo uma mão e enrolando um dos cachos do rabo de cavalo dela nos dedos — Só estou dizendo que nem sempre você pode editar suas notas vermelhas no photoshop para mostrar à sua mãe e que, depois que ela receber o boletim, a peia vai ser muito maior pela vergonha que ela passou indo contestar o professor com a prova falsificada do seu “filho marginal vagabundo de 11 anos”.

—O que?

—É, criança. — Ele deu de ombros afastando a mão — E também não dá para ficar colando de seus amigos quando eles todos são umas antas… por isso que eu planejava incentivá-los a colar e ganhar pontos extras entregando cada um deles.

Julieta piscou.

—Nossa, que grande amigo você é.

—Ei mi bien, na vida é matar ou morrer, é a lei da selva! — ele justificou-se com um sorriso brilhante — E se eu não lutar aqui, mi mamá me mata em casa!

—Com todo esse empenho me surpreende muito que você seja mais velho que eu, mas mesmo assim ainda esteja no primeiro ano. — Julieta comentou arqueando as sobrancelhas.

—Isso não foi minha culpa, eu tinha dois anos quando chegamos ao Brasil e mi mamá teve alguns problemas para me matricular, então fiquei um ano atrasado.

—E o outro ano?

—Uma grande lição que ter habilidades no photoshop para editar suas notas não te ajuda a passar de ano.

Ele era tão ridículo, Julieta o socou rindo.

E isso era péssimo, por que ele estava agindo tão naturalmente assim?!

É verdade que Julieta havia pedido um tempo para pensar a respeito, mas isso já fazia praticamente duas semanas e desde então Aaron parecia simplesmente ter se esquecido da existência dela e não voltado a procurá-la nenhuma vez, e agora estava ali, agindo como se nada tivesse acontecido?

E é claro que Julieta sabia que estava sendo completamente contraditória — e um pouco louca — por estar ficando irritada e nervosa por Aaron dar a ela exatamente aquilo que ela havia pedido, mas isso era totalmente culpa da Margot.

—Afinal o que você quer comigo? — deixou escapar.

O sorriso de Aaron se desfez um pouco.

—Como assim?

—Você está me deixando confusa. — reclamou — Disse que gosta de mim, mas não me procura ou pergunta se…

—Mi bien, cálmate. — ele pediu endireitando-se e a olhando por uns segundos — Sou eu quem está recebendo sinais confusos aqui, você não pediu um tempo?

—E você não ficou nem um pouco ansioso com isso?!

Aaron tentou não rir.

—Pergunte ao Romeuzinho quantas vezes eu deixei o time morrer por acidente (porque intencionalmente já é esperado) nos últimos dias e depois me pergunte isso de novo… até o Heleno reclamou do meu desempenho no jogo, o HELENO! — ele inclinou-se para frente, apoiando os antebraços sobre as coxas — De qualquer forma, mi bien, você já viu aqueles vídeos em que as pessoas resgatam animais selvagens ganhando sua confiança primeiro? Eles começam se aproximando aos poucos, oferecendo comida e se mostrando não hostis, indo ganhando sua confiança e, no fim, deixam que eles decidam se querem ou não se aproximar… então eu pensei… é que você é muito rápida correndo e um bocado forte também. Entende-me?

—O que eu entendo é que você está me comparando com algum tipo de animal. — Julieta retrucou mal humorada.

—Isso não importa. — Aaron desconversou rapidamente — Então quer dizer que você estava me testando, mi bien?

—Não intencionalmente. — Julieta desviou o olhar — Eu realmente não te entendo, não sei porque você ainda haveria de estar interessado depois de dois ou três socos…

—E boladas! — Aaron acrescentou rindo.

—Isso! — ela o olhou irritadamente. — Eu simplesmente não entendo as suas intenções!

—Então aceite namorar comigo. — Aaron comentou tão casualmente como se estivesse falando do tempo, apoiando o rosto na mão — Vamos sair em outros encontros, seja minha namorada e aproveite esse tempo para avaliar minhas intenções… depois pode me dar um soco se quiser.

Julieta o olhou boquiaberta com o tamanho da falta de vergonha na cara.

—Como é que você consegue…?!

—E já que estamos falando disso. — Aaron continuou, aproveitando-se do breve estado de choque de Julieta para segurar-lhe a mão e começar a inclinar-se na sua direção — Por que eu não te dou um incentivo para aceitar minha proposta…?

Ele iria beij…!

Então a porta da diretoria se abriu e Aaron rapidamente se endireitou se afastado dela.

—Está bem, o próximo pode entrar… — a diretora estava dizendo quando os avisou ali — Ah, vocês dois outra vez. — ela ajeitou os óculos — Há alguma filmagem que eu precise ver dessa vez também?

D. Nazaré pareceu tem alguma dificuldade para entender que, dessa vez, o fato de estarem os dois juntos na diretoria era apenas coincidência, antes de começar a distribuir suas sentenças como uma completa carrasca: Aaron levaria outra advertência para casa por “sua gracinha”, mas dessa vez só poderia entrar na escola acompanhado por um dos responsáveis, e talvez ele tenha ficado um pouco pálido com essa perspectiva. E quanto a Julieta “uma reincidente violenta” — um grande exagero de adjetivos! —, ela tinha sorte de aquele ter sido o último dia de provas, porque agora estava suspensa por quatro dias.

—Eu vou quebrar a cara daquela vaca! — Julieta reclamou quando saiu da diretoria e encontrou Romeu, que havia corrido até ali depois da prova — Eu nem bati tão forte assim nela, ela só fez todo aquele show para me ferrar porque eu não quis deixar ela colar!

—Julys você ainda está na porta da diretoria! — Romeu arregalou os olhos tampando a boca dela, apesar do risco de ser mordido.

—Sim, mi bien, se acalme… a menos que queira ser expulsa de uma vez. — Aaron comentou saindo atrás dela.

—Por que você também está aqui? — Romeu se surpreendeu.

Mas antes que Aaron pudesse responder a isso, Julieta pegou a mão de Romeu e saiu correndo dali, fugindo exatamente como o animal selvagem e arisco que ele disse que ela era.

É claro que os pais dela não ficaram nada felizes com a notícia, a mãe dela em especial recomeçou todo aquele discurso de que um dia desses teria que ir buscá-la na cadeia, declarou que ela estava de castigo, nada de comer tomates ou goiaba, nada de celular e só podia sair de casa para levar Astolfinho para passear até o fim do mês e por fim, determinando que esses “rompantes” dela estavam cada vez mais freqüentes e ela voltaria às sessões com a psicóloga o quanto antes.

—Você não pode só sair esmurrando todo mundo pela rua Julieta, tem que conseguir outra forma de dar vazão aos seus sentimentos, entendeu?!

Aquilo era absurdo!

Por que Julieta estava sendo punida apenas por ter reagido a uma injustiça? Ela é que era a vítima ali! O que eles queriam dela, que nunca se defendesse? E ainda por cima todos ficavam a tratando como se ela fosse algum animal selvagem!

É claro que Julieta sabia como reagir sem ser impulsiva ou recorrer à violência!

E para provar isso pegou o celular — antes que sua mãe lembrasse que ela devia estar sem ele — buscou pelos contatos no whatsapp e fez uma ligação.

Só havia usado aquele contato uma vez para combinarem onde deveriam se encontrar… no terceiro toque Aaron atendeu.

—A…

Julieta começou a dizer, mas antes que pudesse continuar, uma voz acelerada e monótona começou a dizer do outro lado da linha:

—O número para o qual você se encontra indisponível ou fora da área de serviço, por favor, tente mais tarde ou deixe recado após o…

Arregalando os olhos, e inexplicavelmente espantada, Julieta rapidamente desligou o celular e atirou-o para longe. Cinco segundos depois ele começou a tocar. Aaron.

Julieta puxou o cabelo por sobre o olho esquerdo.

—Oi. — atendeu.

—Lo siento, foi una broma. — o idiota respondeu — Quem é?

—Você é um imbecil.

— ¡Hola mi bien! — o tom dele se tornou bem humorado e divertido — ¿Qué pasa?

Julieta respirou fundo.

—Eu já tenho uma resposta para a sua pergunta. — o outro lado da linha ficou em silêncio durante tanto tempo que Julieta achou que a ligação havia caído — Aaron?

—Ah… perdón, quando você diz que tem a minha resposta, está se referindo ao meu pedido de namoro ou à pergunta n° 7 da prova de química?

— Você é um imbecil.

—Só estava me certificando. — silêncio — E então?

—Então o que?

—Hã… a sua resposta?

—Ah sim. — Julieta pigarreou — Você pode sair de casa?

—O que, agora?

—Isso, me encontre na quadra de vôlei. — e desligou sem esperar resposta.

Por sorte estava na hora do passeio vespertino de Atolfinho, então ela calçou os tênis, pegou a porchete a guia do porquinho e saiu sob o aviso estrito da mãe de que “se ela não voltasse em menos de trinta minutos ela iria atrás dela”.

E agora o que ela era? Uma criminosa com horário para o banho de sol e direito a pedido de condicional se tivesse bom comportamento? Por que não colocavam uma tornozeleira eletrônica nela de uma vez?!

Foi correndo até a praça, não porque estivesse ansiosa e correr a acalmava nem nada assim, era só porque era muito importante garantir que Astolfinho se exercitasse com freqüência, achou que chegaria cedo, mas Aaron já estava a esperando na quadra de vôlei, de algum jeito era como se aquele imbecil sempre a ganhasse, não é?

Aaron estava de costas para ela usando um moletom azul sem mangas com capuz e bermuda preta enquanto falava com outros três jovens, Julieta pensou em dar meia volta e ir embora — talvez ela fosse um pouco covarde afinal — quando uma garota entre os amigos de Aaron a viu e avisou-o sobre ela.

—Você chegou aqui bem rápido. — ela comentou.

—Na verdade eu já estava aqui quando você ligou. — ele contou — Um pouco de atividade física para relaxar…

—Sério? — Julieta duvidou — Achei que você seria posto de castigo depois de hoje, que te trancariam e jogariam a chave fora ou, no mínimo levaria uma surra.

Aaron tossiu.

—Oíga mi bien, ¿no crees que soy demasiado mayor para que mi mamá me pegue como a un niño?

Julieta cruzou os braços.

—Você não contou a ela, não é? — quando Aaron sorriu dando de ombros, Julieta girou os olhos e puxou a guia do porquinho para fazê-lo andar — Covarde.

—Mas não é minha culpa, todos estão fora e eu ainda não tive a oportunidade de dizer nada. — Aaron justificou-se a seguindo — e com certeza eles vão chegar tarde e cansados, e para que estragar o final de semana do povo?

—Ficar enrolando só piora as coisas, tem que fazer igual ban-dad e arrancar de uma vez só!

—Você pode pensar assim, mas eu prefiro seguir o método do meu pai e esperar até não agüentar mais de dor de dente antes de ir ao dentista chorando e implorando para arrancarem. — Aaron retrucou sempre sorridente — Mas falando em ficar enrolando… eu acho que você tinha algo a me dizer, não é?

Astolfinho roncou animado como se concordasse — mas na verdade ele só estava feliz por ter encontrado uma poça de lama perto de um canteiro de flores.

—Ah… isso. — Julieta puxou o cabelo sobre o olho, já sentindo as orelhas esquentarem, preto, branco e vermelho, se ela estivesse usando os brincos dourados de águia, iria parecer com a bandeira do Egito.

—Vamos lá, mi bien, como tirar um ban dad, lembra? — Aaron a incentivou afastando o cabelo dela do rosto.

—Ban-dad. — Julieta resmungou retraída. — Na verdade acho que me pareço mais com o cara que retardou a ida ao dentista até estar gritando de dor implorando para arrancarem fora…

—Seja como for, alguém tem que dar o puxão alguma hora! — Aaron riu.

—Eu vou puxar esse seu braço fora, como sua mão foi parar ali?

Ela cruzou os braços e olhou para a mão dele despretensiosamente repousada sobre o lado esquerdo do quadril dela.

Aaron afastou a mão com uma risadinha descontraída.

—Ops. — foi tudo o que disse.

—Eu realmente não te entendo, nem as suas intenções. — ela resmungou desviando o olhar — Mas acho que aulas teóricas nunca foi a minha praia, eu sou mais alguém de… aula prática.

Aaron ergueu uma sobrancelha.

Mi bien, isso que está dizendo…?

—Acho que você pode me mostrar um pouco das suas intenções na prática. — Julieta pigarreou tentando disfarçar o constrangimento — Então acho que, só para fazer um teste, é claro, nós podemos…

De repente Aaron puxou sua mão descolorida para ele e beijou-lhe as costas da mão, dando um sorriso astuto.

—Pois eu lhe garanto, mi bien, que achará esse “teste prático” muito agradável.

E então, mesmo sob todas as ameaças de socos e possíveis membros arrancados, ele a puxou para si e a beijou.

Julieta segurou-se aos seus ombros, incerta se deveria abraçá-lo, empurrá-lo ou dar uma joelhada no meio das pernas dele… até que Aaron levou a mão à parte de trás de sua nuca e ela acabou aninhando-se mais a ele.

—Só tem mais uma coisa. — acrescentou ofegante quando se separaram em busca de ar, tentando fazer uma expressão zangada.

—O que foi? — Aaron perguntou com aquele sorriso irritantemente idiota dele e suas mãos novamente descasando “acidentalmente” nos quadris dela.

Julieta o socou no ombro direito.

—Não conte nada disso para a Margot! Entendeu? Porque ela nunca mais me deixaria em paz!

Notas finais
Muito obrigada por seguir me acompanhando e não desistir de mim, caso tenha encontrado algum erro de digitação me avise <3