Irreversível
3 Capítulo III
Notas iniciais
Capítulo III.
— Me convida para entrar?
Ichigo quase engasgou com sua falta de modos. Mas será que deveria mesmo convidar Aizen para entrar, depois tudo o que aconteceu entre eles no domingo? Principalmente depois do sonho que teve?
Não era perigoso, não?
— Ah, sim, me desculpe. Entre!
Aizen entrou e ficou parado apenas esperando o tempo de Ichigo fechar a porta e convidá-lo para sentar.
— Por favor, sente-se. — Ichigo esticou o braço livre num pequeno gesto convidando-o para sentar.
O homem fez a volta atrás do sofá, contornando-o a fim de sentar nele. Ichigo ficou desconfortável ao ver Aizen sentar no sofá, onde a pouco cochilava e sonhava com ele.
Tentou desviar aqueles pensamentos se sentindo um grande idiota. Se estava daquele jeito só por causa de um sofá, imagina quando entrasse no escritório dele?
Ah é, o escritório, Ichigo tinha se esquecido dessa pequena parte.
O escritório de Aizen nunca mais será o mesmo depois daquele dia, assim como sua sala não era a mesma sala de sempre depois que Renji se foi. Ele sentou no outro sofá, ainda com o blazer nas mãos. Remexeu-se colocando-o em seu colo de um modo que pudesse ficar numa posição confortável.
— O que te traz aqui essa hora? — a pergunta saiu casualmente.
Aizen fixou seus olhos em Ichigo, olhando-o de um jeito tão fixo que o outro jurava que podia ver através de si
O homem repuxou os lábios prestando mais atenção no estado pouco comum do morango: vestes amassadas, cabelos úmidos (por causa do suor), tensão nos ombros, face um pouco rubra e o detalhe principal — aquele que mais chamou sua atenção: o blazer.
Não teve dúvidas Ichigo estava excitado e escondia a excitação com o casaco no colo. Agora ele entendia o porquê da demora pra atender a porta.
Correu os olhos disfarçadamente a procura de vestígios de alguém por ali. O que achava ser quase impossível, pois sabia do recente rompimento de Kurosaki com o tal do ex-namorado. E Ichigo não era o tipo de pessoa que se envolvia com alguém depois de um rompimento, ele precisava esperar a cama esfriar primeiro. Somente aquele sábado no boteco que foi uma exceção, o que Aizen chamava de um caso especial.
— Você deve estar pensando besteiras, garanto. — respondeu sem desmanchar o sorriso.
Ichigo podia ser um pouco denso, mas não era um idiota de não perceber que Aizen era um homem muito observador, levando em conta que ocupava um cargo muito importante. Ser observador era um dos pré-requisitos para chegar ao topo. E o topo era onde Aizen Sousuke estava. Portanto, Ichigo teve certeza que ele tinha percebido seu estado. E que vergonha sentiu. Pode parecer clichê demais, mas desejou que um enorme buraco abrisse abaixo de seus pés e o engolisse inteiro.
— Não, não. — Mas estou curioso com sua visita. Ele pensou. — Esqueci alguma coisa, deixei algum trabalho penden-?
Aizen interrompeu se falatório com um gesto simples, com a mão.
— Não vim falar de trabalho, quanto a isso não preciso me preocupar. Seu empenho é excelente.
Ichigo corou.
— Muito obrigado senhor.
— Oh, por favor Ichigo. Sem formalidades, me chame apenas de Aizen. — Ichigo pensou que não ia gostar nada do caminho que aquela conversa ia trilhar. — Na verdade, tenho outras preocupações agora.
O Kurosaki ergueu uma sobrancelha laranja, intrigado.
— Tem? — Aizen assentiu. — E quais são? — Perguntou, mas se arrependeu e tentou se justificar. — Perdão, se for da minha conta.
Demorou um pouco para a resposta vir, Ichigo pensou em se desculpar ou reforçar a pergunta, mas Aizen respondeu antes que falasse alguma coisa:
— Você é uma delas, é o meu novo empecilho!
Agora ele não conseguia entender mais nada. Primeiro o homem dizia que não tinha nada a reclamar dele, e agora diz algo que era totalmente o contrário?
— Me desculpa, senh- Aizen, eu não entendo. — Aizen sorriu. Fechou os olhos, encostou-se no estofado branquinho, novinho em folha e cruzou uma perna sobre a outra, ficando numa pose bem relaxada.
E novamente Ichigo teve flashs do maldito sonho. Bem que podiam trocar de lugar né? Tornava tudo menos tenso.
— Quero que dê uma boa observada em mim. — pediu Aizen para seu desespero naquele momento crítico.
Ichigo preferia não olhar.
— Ichigo, pareço alguém que desisti facilmente de seus anseios?
O morango suspirou. Passou a mão pela testa suada, retirando os cabelos grudados que nela estavam. Sentia-se nojento e queria um banho, logo.
— Aizen, olha só. Será que po- — Ichigo quase morreu do coração quando notou que seu chefe agora estava em pé, parado na sua frente.
Merda, mas quando foi que el-?
— Responda minha pergunta, Ichigo! — o sussurro fez Ichigo prender a respiração.
Aizen foi se aproximando vagarosamente, apoiou um dos joelhos no estofado, ao lado do ereto Kurosaki, que retraiu os ombros, chegando a conclusão de que Aizen escolheu uma péssima hora para fazer aquela visitinha. E agora merda? Ele nem lembrava mais da pergunta.
— N-não sei.
Era o que sempre dizia quando não dava a atenção a uma pergunta.
Aizen franziu a testa de leve, desconfiado e perguntou:
— Não sabe?
Ichigo fez uma negativa e recuou. Aizen riu de canto, postando suavemente uma mão em seu joelho.
— Mesmo?
Tá, aquele era o limite. Ele fez um movimento brusco e atrapalhado, esforçando-se ao máximo para que seu chefe não percebesse sua rigidez.
— Ai-aizen, olha só, eu vou ali no banheiro rapidinho e já volto, espere aqui. — e correu.
— Claro. — Aizen sorriu observando-o tropeçar e quase cair no chão.
Ichigo não desfez o contato visual e ainda voltou todo atrapalho para pegar a gravata jogada no sofá, depois correu novamente para o quarto, fechando a porta num baque forte.
x
A água morna da banheira era como uma dadiva dos deuses. Sozinho, Ichigo envergonhou-se de seu comportamento na frente de seu chefe.
Agora ele não sentia mais aquele desconforto no meio das pernas, estava muito bem aliviado, obrigado. O lado ruim era que havia se aliviado com a imagem de Renji e bem, Aizen teve lá sua participação nisso tudo também.
Foi perturbador aliviar sua tensão sexual pensando no namorado traidor e no chefe sádico, se sentiu um fracasso de pessoa. Deveria sentir ódio de Renji pelo resto de sua vida e medo de Aizen.
Ele mergulhou o nariz e a boca na água. Renji e ele namoraram por cinco anos, nem tudo era perfeito, havia certa distância entre eles, mas gostava do ex. E Renji também gostava dele, ao menos parecia, e se não fosse mesmo, Ichigo podia afirmar que ele soube disfarçar muito bem.
Renji sempre foi mais emotivo, desleixado com a casa e Ichigo era mais firme e responsável. Sempre pensando no futuro e nas despesas, ás vezes deixava de fazer muitas coisas para se dedicar ao seu trabalho. Estudou muito para ter seu diploma, trabalhou arduamente para ter o cargo que ocupava.
E Renji não compreendia isso. O relacionamento deles já estava desgastado, não possuíam mais aquele pique de antigamente, aquele fogo ardente, aquela paixão de enlouquecer. Ichigo deixou muitas vezes de sair com Renji para ficar em casa, enfornado no quarto estudando.
Depois que se formou os dois tiveram uma conversa séria, quase chegando ao fim definitivo. Ichigo prometeu estar mais presente na vida de Renji a partir daquele dia. Juntos, os dois compraram um apartamento e estavam vivendo na mais perfeita harmonia. Até Renji conseguir um novo emprego, onde teve que se submeter a fazer muitas viagens.
Ichigo não gostou nada da nova mudança, mas também não se sentiu no direito de reclamar, Renji estava empolgadíssimo com aquele emprego, sendo assim teve que aceitar mesmo que não fosse numa boa.
O ruivo ficava mais tempo fora do que em casa e Ichigo também teve que se ausentar quando começou na agência de publicidade, seu atual emprego.
Suas vidas foram ficando cada vez mais distantes, cada um seguia um rumo diferente. Renji viajava ficava um mês fora e voltava para ficar apenas uma semana. Nessas semanas os dois mergulhavam num mar de sexo sem fim. Dessa parte Ichigo não tinha que reclamar, a distância tornava o sexo mais intenso, mais prazeroso.
Porém, as brigas foram ficando cada vez mais constantes. Até que certo dia Renji voltou de uma viagem que durou dois meses e meio, dizendo que tinha conhecido outra pessoa e estava apaixonado.
Era o fim. Não foi uma separação amigável, claro que não seria, afinal Abarai confessou que estava tendo um caso com essa tal pessoa há algum tempo, como Ichigo aceitaria aquela confissão de bom grado? Ele sentiu-se igual a um papel higiênico que foi usado, bem usado por sinal e depois descartado sem um pingo de sensibilidade.
Na noite do dia seguinte, em que – supostamente – dormiu com Aizen, Ichigo estava bem abalado e foi beber um pouco. Podia ser muito fútil e clichê beber para esquecer o fracassado romance, mas funcionou. Porém as consequências lhe trouxeram um grande problema.
Um problema chamado Aizen Sousuke.
Enfim, Ichigo estava se cansando de ficar devaneando sobre o passado, retornou ao presente pensando que não deveria demorar tanto, o homem estava plantado lá na sala esperando-o.
Melhor sair do banho antes que ele se irrite.
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Agora de banho tomado e corpo relaxado, sentia-se mais confortável para enfrentar a fera que lhe esperava na sala. Ichigo vestiu uma roupa que costumava usar quando dormia. Não era nada muito chamativo apenas uma calça de moletom cinza e uma regata preta.
Encontrou Aizen em pé na frente da mesinha, encostada na parede, que era repleta de porta-retratos de sua família. Obra de sua irmã Karen, a menina queria ser arquiteta e adorava decorar a casa onde o ruivo morou com a família. Seu apartamento foi praticamente decorado por ela também, exceto algumas partes que Ichigo se recusava a deixar a garota tocar: seu quarto e o banheiro pessoal. O resto Ichigo não se importava afinal não era lá muito ligado as coisas materiais.
Aizen notou sua presença e olhou-o sobre o ombro.
— Você demorou. — Ichigo não se abalou, Aizen ás vezes era sincero demais.
No trabalho ele nunca se limitava a chamar qualquer um de incompetente independente de quem fosse. Isso o fez lembrar uma vez que eles tiveram um desentendimento por que Aizen foi um pouco grosseiro com a recepcionista. Inoue Orihime. A moça havia esquecido de entregar uma encomenda pra ele. Aizen ficou fulo e chamou a garota de tudo quanto era coisa ofensiva. Ironicamente ele ofendia usando sua habitual voz amaciada e parecia estranhamente sereno, o que fazia tudo ficar pior. Ele era um pouco cruel quando queria. Aquela foi a primeira vez que Ichigo empreitou seu chefe.
— Desculpa. — pediu num murmúrio, sem realmente sentir-se arrependido por aquilo, mas causou o efeito desejado em Aizen.
— Tudo bem. — ele disse voltando a mirar as fotos.
Ichigo ficou um tempo observando-o. Ele parecia tão interessado naquelas fotos simples, porém pessoais e era tão incomum. Se aproximou dele um pouco mais e perguntou:
— Quer beber alguma coisa?
— O que você tem para me oferecer?
— Água. — disse e viu o homem franzir a testa. Ichigo riu da própria piada. — Tá, é brincadeira, tem suco de pêssego e chá.
E daí se ele preferia coisas mais saudáveis? Aizen olhou-o, ficando em silêncio e um tempo depois respondeu.
— Aceito água. — Ichigo deu de ombros e foi pra cozinha.
Voltou pouco tempo depois com dois copos nas mãos. Um de suco e outro com a água de Aizen. O homem continuava ali parado com os olhos grudados nas fotografias. Ichigo achou aquilo estranho demais, parecia que Aizen nunca tinha visto fotos na vida.
Isso o fez lembrar de outra coisa que ligava Aizen, da vez que colocou seu porta retrato em sua mesa do escritório. Na foto estavam ele, seu pai e suas irmãs, presente de aniversário dado pela caçula, Yuzu. Ela o fez jurar que ia colocar em sua mesa. A foto tinha sido tirada num parque de diversões era bem colorida e o ângulo dela era diferente das fotos convencionais de família, Ichigo aprendeu a gostar dela com o passar dos dias e hoje é sua favorita. Quando Aizen a notou sobre a mesa do morango ficou um longo tempo olhando-a com uma expressão indecifrável.
— Seu copo. — estendeu atraindo a atenção do publicitário.
Aizen pegou, mas não bebeu nada. O que deixou Ichigo chateado e um pouco constrangido por não ter algo melhor para oferecer para seu chefe.
Tarde demais pra pensar nisso.
Os dois ficaram em silêncio, apenas se olhando. Ichigo bebeu um gole do suco, batucou os dedos no copo, desconfortável com a falta de assunto.
— Você queria me dizer algo. — abordou, incomodado com o ar desconcertante.
O silêncio voltou a seguir. Aizen deu uma última e demorada olhada nas fotos, girou o corpo e voltou para a sala.
Ichigo foi seguindo seus passos.
— Estou incomodado com o que aconteceu domingo. — Ichigo estacou no meio do caminho, tentou dizer algo, pois não estava afim de ter aquela conversa outra vez, mas Aizen interrompeu. — Seus argumentos não me convenceram.
O modo sofisticado com que Aizen falava sobre aquele assunto faria qualquer pessoa normal perder o tesão, se não fosse por sua voz desgraçadamente sensual.
— E é por causa disto que estou aqui esta noite. Vim dizer pessoalmente que não vou ignorar o que aconteceu. — Ichigo pensou em perguntar sinceramente o que ele queria dizer com aquilo afinal, mas achou melhor não fazer.
A simplicidade com que ele falava naquele assunto era desconfortante. O ruivo lembrou vagamente das palavras ditas por Hisagi mais cedo.
“...que gosta de ter relações intimas com seus funcionários.”
E Ichigo não gostou da ideia de ser futuramente uma nova aventura para seu chefe. Embora estivesse matando cachorro a gritos, ele ainda tinha seu orgulho e bom senso. Ser o novo caso de Aizen Sousuke estava fora de cogitação. Só de pensar na ideia sentia um grande desconforto no estômago.
Aizen olhou de canto e um sorriso imperceptível desenhou-se no canto de seus lábios. Depositou o copo sobre a mesinha no centro da sala, sem ter bebido um gole sequer.
— Ainda não me dei por vencido, Ichigo.
— É mesmo? Pensei que esse assunto tinha sido encerrado naquela noite mesmo, não imaginava que isso estava te incomodando, Aizen. — tá, ele mentiu. Mas era melhor se fazer de desentendido, quem sabe assim Aizen fosse direto ao ponto e aquela conversa terminava para o bem de seu sono. — mas será que dá pra gente parar com toda essa enrolação e encerrar logo este papo?
O sorriso sonso de Aizen se desmanchou na mesma hora.
— Certo. Então vamos fazer do seu jeito.
Ichigo engoliu com aflição, não sabendo mais se gostaria que Aizen fosse mais direto do que estava sendo, mas era tarde demais ele não podia voltar no tempo para retirar o que havia dito.
— Não finja que não se importa, eu sei que desperto interesse em você. — e Ichigo descobriu que preferia o outro Aizen, aquele que comia pelas beiradas, que seduzia lentamente. Era mais fácil de argumentar. — Eu sou homem e um bom entendedor do sexo.
Sexo.
A palavra sexo na voz de Aizen saia de forma assustadoramente erótica aos ouvidos do carente morango.
Ichigo ergueu uma sobrancelha, para a cara de se é que me entende que Aizen fazia enquanto o encarava. Já estava prevendo que aquele papo lhe tomaria bastante tempo. Adeus seis horas de sono.
— O que quero dizer é que foi impossível não notar o seu estado, um tanto quanto... — olhou-o da cabeça aos pés. Kurosaki ficou rubro com a malícia explicita nos olhos dele. — incomum, quando entrei por aquela porta.
A vermelhidão no rosto do morango se intensificou para a satisfação de Aizen, e desgraça de Ichigo.
— O que infernos você quer, Aizen? — ficou alterado de repente.
Que se dane que era seu chefe ali. Não era o próprio que dizia não misturar assuntos pessoais com o trabalho? Então tá, Ichigo faria do jeito dele.
— Quer que eu seja mais direto? — o sorriso de Aizen deixava o ruivo nervoso.
— Por favor, eu não tenho todo o tempo do mundo, amanhã preciso levantar cedo e você também. Entã-
— Que tal: sexo sem compromisso? — O ruivo perdeu completamente a cor, o queixo caiu lá no chão e bateu com força no assoalho. Ficou de boca aberta e vermelho igual pimentão. E Aizen continuou tranquilamente: — É algo que vai beneficiar a nós dois: Eu e... você. Nossos corpos são cem por cento compatíveis, então porque não unir o útil ao agradável?
Ele disse aquilo tudo sorrindo, olhando Ichigo como se ele estivesse em abstinência sexual. E de fato estava, aquilo não deixava de ser verdade, afinal faziam dois meses e quatro dias que não dava uma dentro.
Em todo caso, ele estava bastante disposto a recusar. Obrigado.
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