Irreal

7 Sonho Finito part. 2


Suas lágrimas caiam como chuva numa tempestade eterna.

Lembro-me vagarosamente, de uma garota, uma vez, me perguntar se existia mesmo amor homossexual. Se dois homens ou duas mulheres podem realmente se amar, ou se era apenas "atração física".

Queria rir da pergunta, porém, era um assunto muito discutível naquela época. E eu apenas sorri e disse: "Tanto o amor quanto a alma, não tem sexo feminino ou masculino, portanto, dois seres do mesmo sexo físico podem se amar e serem eternamente felizes." e então, ela me perguntou se não era contra a natureza, e eu pacientemente, lhe respondi: "A única coisa contra a natureza, minha cara, é se privar de teu amor."

Nunca menti para ninguém. Nem para cães, nem para ratos, nem para humanos. Sabe... Sempre quis saber a diferença entra animais racionais e irracionais. Vamos comparar. O leão (supostamente um animal irracional) não vive muito, tal como a tartaruga, porém, é mais veloz. Um leão, mata um humano, mas o humano se diz o topo da cadeia alimentar, sendo que os humanos são sempre tão frágeis, tão cheios de preconceitos e de rótulos inúteis. Apenas os humanos se escondem em roupas inutilmente. Os animais irracionais, amam facilmente, não são estúpidos, fazem o que precisam para sobreviver, e não vivem de rótulos. Os humanos, não. Eles machucam os outros, em nome do egoismo, em busca da felicidade pelo caminho mais grosseiro.

– Quem sois vós? — Perguntastes afinal.

– O Amor. — Lhe digo, mas não convenço-te.

– Não és possível! O amor é irreal.

Resumindo-te. Se eu parecer-te e declarar-me o Amor. Não irás crer, já o animal, não precisa de provas, apenas crê em mim, sem nem saber a definição de Fé.

E se eu lhe disser que o pobre Caique, nosso brilhante fotógrafo, pensava nisso, quando arrastava tuas malas por São Paulo, debaixo de uma chuva salgada, que se misturava com tuas lágrimas?

Humanos machucam, ele murmurava, homens machucam.

Caique parecia-me um homem jovem e brilhante! Com um belo futuro pela frente. Mas, enquanto ele se hospedava num hotel, eu o encarava e perguntava-me seriamente se eu o atingira mesmo com o amor. Suspeitava-me ter cometido um grave erro.

Mas até o Destino, prega peças no Amor.

Caique já havia arrumado tuas coisas quando entrei no quarto, após espalhar um pouco de amor pelo hotel. Ele estava injuriado, sem saber o que fazer. O telefone ao lado, na tela aparecia o nome "Beto" e Caique hesitava em atender ou não.

Mas ele o fez.

Deitou na cama do hotel e pôs no tal de "viva-voz".

– Caique... Olha, eu não queria te magoar... Não era minha intenção... Mas eu nunca iria me casar com você...

– Já não deixou isso bem claro no restaurante? — Ele fala aproximando o telefone da boca. Com os olhos marejados e a alma retalhada.

– Sim, sim... Me desculpa. Olha, sei que estou enrolando pra falar,sei que fiz tudo errado mas... Vamos ser amigos? — E Caique não respondera a tal pergunta insolente. Ele apenas desligou o telefone e chorou.

Depois bebeu e bebeu e bebeu. Foi a coisa mais triste de se ver, creio eu. O garoto bebeu como se não houvesse mais o amanhã. Como se o mundo acabasse em alguns minutos. Não aguentei mais isso e sussurrei em teu ouvido: "Pare, por favor... Não te estragues e voltes a ser quem eras."

E ele me ouviu. Olhou Fixamente onde eu deveria estar, ele não me via, mas me sentia.

– Eu... vou... Dar a volta por cima... Ele vai ver... — Prometia, não sei se para mim ou para a parede atrás de minha matéria.

Não interfiras plenamente na vida de humanos.

Ecoava as regras dos deuses enquanto fitava o homem bêbado e inconsolável a dormir na cama de um hotel.

Lamento informar-te, minha criança, mas só voltei a vê-lo semanas depois.

Ele mudara completamente. Porém, não estava tão desconsolável como na primeira noite. Tirava fotos de paisagens brasileiras, saia todas as noites para as tais de "baladas" e beijava tanto homens quanto mulheres. Resolvi aparecer-te numa dessas noites festeiras, como uma jovem mulher, do jeito que os deuses me permitiam. Sentei ao seu lado, num daqueles "Bares" onde fica cheio toda noite.

– Olá. — O comprimento num sorriso.

– Ei, eu não te conheço não?

– Conhece sim, parcialmente. Nós nos cruzamos, algumas semanas atrás. Vejo que não estás tão triste como naquela noite.

– Você fala engraçado. — Ele ri.

– Já me disse isso. — Brinco.

– E com razão. Você é poeta shakespeariana? Isso é meio raro.

– Basicamente isso. Mas por qual motivo vindes aqui?

– Não tá na cara? Quero curtir. — Ele ri.

– Ah...

– E você, Shakespeare?

– Vim passear pela cidade. E, porventura, lhe encontrei esta noite.

– Já lhe te comunicaram que você és a dama mais esbelta da cidade?

– Falaste errado, homem!

– Pois corrija-me!

– "Já comunicaram-te que sois vós, a dama mais esbelta desta cidade"?

– Muito difícil para mim. Prefiro falar do meu jeito. — Zomba ele.

– Tendes a aprender a maneira romântica de falar.

– Então, você é uma moça romântica? — Ele se aproximara demais de mim, sentia tua respiração facilmente.

E então, o.correu naquela noite, o primeiro erro.

O primeiro beijo, e do beijo, fomos para o hotel.

Detalhes sórdidos, são inúteis para mim, já que o que é interessante é a essência da história.

Acordei ao lado dele, como és previsível. Ele dormia ainda, e eu estava lá. O fitava carinhosamente, sem me arrepender. Apenas estava lá.

– Você sabe que errou. — Comentou a voz atrás de mim. Pelos deuses!

– Fale baixo! — Pedi me levantando da cama e pondo um roupão que repousava por perto.

– Ele não irá ouvir-nos. Sabia que nos reunimos hoje, Amor?

– Na-não senhora. — Respondi nervosa.

– Sim, sim... E pensamos sobre teu castigo... Resolvemos modificá-lo um pouco... Porém, temo não ser portadoras de boas notícias...

– Conte logo, Vossa Divindade. Lhe suplico, sem delongas.

– Você irá amar, minha amiga...

– Isso será castigo, ou benção?

– Castigo, pois sempre terás de partir, como sempre, porém, irás sentir a dor de perder um amor. Provarás de tua benção, e de teu veneno.

– Não! Por favor, Vossa Divindade, lhe suplico, não faça-me algo tão maligno.

É engraçado, creio eu, saber que o amor não quer amar. Porém não é este o problema. O problema está em partir.

– Terás de viver assim, lamento. Mas vossa matéria interfere excessivamente na vida dos humanos.

Então, a deusa, sumiu. Eu fitei Caique deitado, e sentei na beirada da cama. Neste dia fatídico, as lágrimas clandestinas pendiam pelo meu rosto...