Irreal
8 Sonho Finito part.3
Vou explicar-te melhor, minha adorável criança...
A morte não interfere em assuntos humanos, logo não sofre como eu, não foi castigada, como eu, que vivo de intervir nos assuntos que dizem respeito propriamente aos humanos. Faço isso, embora tenha levado milhões de advertências nestes curtos milhões de anos. E, naquela manhã, daquele fatídico dia, recebi a punição.
Não entenda-me mal, amar, é uma benção. Mas não para mim, pois não tirarei tal proveito do amor, que vocês, humanos, tiram. o amor fora feito para os seres vivos, não para deuses, ou para Matérias. Pois é isto o que sou, uma matéria. Disfarço-me como humana para ajudar-te a seguir o amor, sem machucar-te ou a outro.
Para uma matéria, amar, é uma maldição. Vivo cada ano com o pesar de ser finita, e de estar envelhecendo, torço para que uma benção que me rejuvenesce, apareça, quando aparentar-me idosa. Temo a morte do amor, pelos humanos, e por mim. Quando a matéria morre, não há um além, apenas sumimos, sem ninguém para lembrar, ou para depositar flores em minha homenagem.
Sem mais delongas, eu fitava Caique e lhe fazia carinho. Sentia em mim, o que me4 acontecia naquele instante. Derramei mais algumas lágrimas, e resolvi que tinha de partir. Vesti-me a roupa da noite anterior e segui, sem que ninguém me visse, para fora do hotel. Em matéria, invisível para os olhos humanos, eu fiz algo do qual me arrependi deveras. Fui de encontro com os deuses.
– Convoco-lhes de imediato, para uma reunião! — Chamo-os.
De um em um, aparecem eles. Doze, no total. O deus dos deuses iniciou a reunião.
– Pois então, que se inicie a reunião! O que desejas, Amor?
– Não amar. — Respondo-te, sem hesitar.
O deus exibe um rosto pensativo, e replica:
– Um pedido paradoxal, não crês?
– Faça-te de desentendido em outro lugar! — esbravejo. — Sabes do que falo. Este castigo é inválido! Já não basta ter a incerteza da morte?
– Vossa ousadia em virdes aqui é encantadora, porém, peço-te respeito.
– Lhe trarei respeito quando tudo voltar ao de praxe.
– E o que seria o de praxe, para Vossa Matéria?
– Ter minha eternidade e não amar. Eu mereço.
– Merece? Certeza?
– Sim! Lhe peço que retire os castigos dirigidos à mim.
De um a um, os deuses me responderam.
–Pedido Negado. — Falaram os seis primeiros.
– Pedido Aceito. — Os seis últimos.
O deus dos deuses pensava, enquanto os outros discutiam entre si.
– Basta! — Berrou ele para os outros deuses. — Que seja feito um pequena modificação.
– O que pensas em fazer, Vossa Divindade? — Ouso perguntar.
– Quando se mostrar digna, retiraremos a punição. Todos de acordo? — E todos assentiram. Menos eu.
– Mas como mostrar-me digna? Eu sou digna!
– Basta! Vossa Matéria já esgotaste teu tempo aqui. Vá! Suma!
E assim me fui. Com raiva e ódio dos deuses. Voltei para o hotel, roubei uma xícara de café de um carrinho por perto e entrei no quarto.
– Ah! Pensei que já tinha ido embora... Esqueci de perguntar teu nome, acho...
Eu dou uma risada, e olho nos olhos de Caique.
– Fui buscar uma xícara de café para você. E meu nome é Isabélle. Mas as pessoas me chamam de Bélle.
– Hm, Bélle. Acordou falando normal, hoje?
– O que? — Me espanto, tentando disfarçar com uma risada. — Eu... Sempre falei normal.
– Não. Você dava uma de Shakespeare ontem a noite.
– Ah, deve ser a bebida que me deixa assim.
– A bebida te deixa "Shakespeariana"?
– Acho que sim. — Eu sorrio.
Ele pega o café de minha mão e o toma sentado na cama. O que estou fazendo aqui? dizia para mim, E porque estou falando diferente?
Era como se eu não soubesse mais falar como antes. Eu havia me modernizado. Estava mais humana. Péssimo sinal.
– Vai ficar me olhando?
– Ah, perdão. — Eu me sento ao seu lado. — É que, na primeira noite que nos vimos... Você chorava por um homem.
– Pois é. Que que tem?
– E hoje você está aqui comigo.
– Mudei de opinião. Acontece. — Ele brica. — A verdade, Bélle, é que eu ainda sinto algo muito forte por ele. Eu quero apenas esquecer dele. Abri mão de muita coisa para morar com ele. E eu não sou gay ou hétero, eu me apaixono por pessoas, não importa se é homem ou mulher.
– O amor não tem sexo. — Confirmo.
A mais pura verdade. Não nos apaixonamos por um homem, ou por uma mulher. Nos apaixonamos por uma pessoa. Gay, hétero, é tudo ilusão. Amamos pessoas por serem quem são, não por serem homens ou mulheres. E eu, estava me apaixonando pelo Caique. Matéria e um homem. Isso sim não deve ser natural. isso sim, não deveria estar nos planos de nenhum deus.
Passei semanas apenas com Caique, quando tinha tempo livre, espalhava um pouco de amor por aí. Porém, vivia mais com Caique,o que me fazia amá-lo cada vez mais. Na quinta semana, passeávamos pelas ruas e eu lhe disse, sem pensar:
– Amo você.
– O que? — Ele sorri, pasmo.
– Pois é, eu te amo. Mas antes que responda... Eu não posso mais ficar aqui.
– Como assim, Bélle? — O sorriso sumira de teu rosto, tal coo o sol, dando lugar às trevas. — Você não pode vir,ser presente, dizer que me ama, e ir embora!
– Eu sei, mas tenho que ir. É hora de partir.
– Não, Bélle. Não faça isso.
– Por favor, Caique, — Supliquei derrubando algumas lágrimas. — Não torne as coisas mais difíceis.
– Não sou eu quem está abandonando alguém que diz amar! Você é igual ao resto. Diz eu te amo e depois vai embora. — Ele me largou e subiu para o hotel, eu o segui até o quarto.
– Não é bem assim, Eu não quero ir. Mas muita gente depende de mim!
– Quem? Por acaso tem uma família secreta? Quatro filhos e um marido doente?
– Nem nos melhores sonhos, eu poderia ter uma vida dessas.
– Porque?
Eu me ajoelhei, ferida, sangrando. Tomei coragem e inventei as piores das mentiras.
– Eu estou doente.
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