Irreal
6 Sonho Finito
Entre, entre!
Desculpe-me a demora, estava cavando a fundo minha milenar memória!
Ah, como foi bom estes tão antigos tempos... Sabe, nunca lhe expliquei, mas explicar-lhe-ei como acontece o amor.
Ele está no ar.
Sim! Quando contagio uma pessoa com amor sincero, naturalmente essa essência de amor se espalha pelo ar, contagiando quem está por perto e por aí vai.Então não estou, obviamente, de olho em TODOS que amam, mas, só em alguns.
E, não me lembro se já havia lhe dito, mas, amor e paixão platônica, são coisas opostas. E um dia, após ser abençoada pelos deuses com uma juventude temporária (apenas algumas décadas, mas, quem sou eu para reclamar?) decidi-me passear pelas ruas Holandesas, foi quando espalhei minha essência. Era uma praça calma, dois jovens se conheciam, vizinhos, lembro-me bem, e então, era o momento do amor surgir. Joguei uma essência especial para os jovens, para que aquele amor durasse a vida toda (Já percebeste que estava de bom humor naquele dia) E ela se espalhou no ar. Atingindo alguns turistas em volta. E decidi-me acompanhar um, escolhido aleatoriamente.
Um rapaz, alto, magro, bem vestido e com uma câmera fotográfica na mão, chamou-me a atenção. Ele tinha um "piercing" um pouco abaixo do lábio, seu cabelo bem penteado e um olhar curioso para as paisagens da praça. De lá onde ele estava, via-se o pôr-do-sol lindamente. Durante muito tempo, ele não falara nada, estava sozinho. Só quando fora atender o celular moderno, é que vi que era brasileiro. Paulistano, mais especificamente.
– Alô? Ei, tudo bem? — Perguntara para a pessoa que estaria do outro lado da linha.
– Bom, eu queria voltar pra Sampa mês que vem... Tenho muitas fotos pra tirar ainda... Ah, mas, okay, né. Eu volto hoje, se... você quiser.... Ah, magina, de boa. Amanhã eu te vejo. Okay, beijo... Te amo também... Tchau.
Quando desligou o telefone, ele suspirou, olhou pro céu e sussurrou:
– Porquê eu faço tudo por ti? Sonho belo numa noite curta... — Ele baixou a cabeça e se recolheu da praça.
Olhei para o casal que ria e olhei o solitário cabisbaixo, decidi-me ir atrás dele, ver o que ele tem para mim.
No hotel, ele arrumava suas coisas apressadamente enquanto exigia uma passagem de avião para o Brasil. Na pressa ele deixara cair um caderno, que eu me agachei e comecei a ler.
"Você,
doce conto de Natal,
brisa suave no calor de verão
Sonho belo numa noite curta,
Bom, prazeroso, porém, finito
Amor de verão,
Nossos sonhos lindos,
porém, eternamente finitos."
Olhe, minha criança, é muito difícil emocionar-me, o último que o fizera, antes deste garoto, fora Shakespeare, utilizando palavras esbeltas e educadas. Ainda tenho em minha velha mente, decorados os poemas de William... Como este, minha cara criança:
"Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade…
O amor é mais sensível,
a amizade mais segura.
O amor nos dá asas,
a amizade o chão.
No amor há mais carinho,
na amizade compreensão."
Estes são meus versos prediletos...
Bom, não fujamos do assunto... Hei de pular a parte do voo, e da chegada. Iremos ao reencontro, algo emocionante, porém, fatídico para nosso coitado amigo.
Caminhava nosso fotógrafo em direção à um restaurante fino, sentou-se na mesa e começou a falar sem parar.
– Meu Deus, Alberto, você não sabe como Holanda é linda!
– É? — Alberto bebeu um gole do champanhe já na mesa, nem um pouco interessado no assunto, porém, apenas eu percebera tal detalhe mínimo.
– Sim! — Nosso fotógrafo estava entusiasmado para perceber tal desinteresse. — Você não sabe quantas fotos eu tirei! Uma mais linda que a outra! Sabe, estou confiante com essa nossa exposição!
– Caique...
– Mas você tem que me mostrar essas fotos logo! Quero tudo perfeito para o nosso primeiro de muitos trabalhos juntos. Nós vamos arrebentar Nova York!
– Caique! — O fotógrafo se assuntou e Alberto se ajeitou na cadeira. — Eu queria te contar uma coisa.
– O que? Não vai me dizer que suas fotos não estão prontas!
– Não é nada disso...
– É o que então?
– Eu quero terminar. Não amo você.
Caique se encostou na cadeira, boquiaberto com os olhos levemente marejados.
– O que, Beto? Porque? Ontem mesmo disse que me amava...
– Pois eu descobri que não amo.
– E me tirou da Holanda pra isso? Você sabia que eu não estava na esquina. Sabe onde fica Holanda? Eu vim às pressas! Achei que você iria me pedir... — Ele hesitou, enxugando uma lágrima que insistira em cair.
–Pedir o que? — Perguntara Beto, Caique baixou a cabeça, o que fez o homem perceber. — Te pedir em casamento, Caique?
– Passou pela minha cabeça, que, talvez, depois de tanto tempo juntos, você quisesse se casar comigo... Mas vejo que se cansou de me usar, e decidiu jogar-me fora, não?
– Caique, nunca quis me casar com você, mas, não é assim que...
– O QUÊ NÃO É ASSIM? — Ele gritou e o restaurante todo parara para prestar atenção no casal. Caique baixa o tom de voz, envergonhado. -Foram dois anos, cara! Moramos juntos! Eu larguei tudo por você!
– Você que quis!
– Você disse que me amava! Todo esse tempo você disse que me amava. Até ontem você me amava. Você me iludiu, me fez de trouxa, e pra quê? Mas pode ficar tranquilo, Alberto, Hoje mesmo eu saio daquela casa e vou para um hotel. — Caique se levantou chorando e saiu do restaurante, atraindo vários olhares com ele.
Ele correu à esmo, decidi-me aparecer para ele. Trombou em mim e se assustou.
– O que fazes, moço?
– Sofro. — Respondeu atordoado.
– Como todos. Pensastes ser o único?
– Você fala estranho.
– Obrigada. — Sorri. — Agora, lembrais dos belos momentos de tua vida. Assim, o sofrimento diminuirá.
– As coisas boas foram destruídas, garota. Não sei como alguém jovem e bela, pode me entender.
– Também és jovem e belo, rapaz. Tudo irá melhorar.
– Não acredito nisso.
– Irás ver.
– Obrigado. — Caique se retirou apressado e confuso. Eu o olhei partir enquanto corria.
Humanos, tão pessimistas.
Fui então, atrás dele.
Após um tempo parado na calçada, ele decidiu ir para casa. Fazer as malas, supus. Foi o que fez. Parou no quarto, onde havia deixado a mala lá e se arrumado enquanto Alberto trabalhava, para encontrá-lo após seu trabalho. Ele olhou ao redor. Na cama de casal, tinha duas escrivaninhas, uma de cada lado. Supus que uma era dele e a outra de Alberto. Ele ficou em pé, olhando para sua escrivaninha, onde tinha um coração de vidro escrito "Eu te amo" E outros objetos de valor sentimental. A raiva lhe subiu a cabeça. Caique derrubou tudo no chão e berrou. Alguns objetos frágeis de quebraram no chão, percebi isso pois a essência, o amor, o valor sentimental, haviam se libertado dos objetos e sumiam, voltavam para mim.
Logo seus olhos fitavam algo de vidro que não se quebrara. O coração de vidro. Ele o pegou, abraçou e então o jogou contra a parede, gritando:
– O AMOR NÃO EXISTE!
E quando o coração se desfez em mil pedaços cortantes, a essência subiu e voltou a mim. Isso doía, pois eu sinto cada coração quebrado, até hoje.
Ele se encolheu abraçando suas pernas e sussurrando para si, em meio à mil lágrimas que desciam e molhavam o chão marcado por dores e corações partidos:
– O amor é irreal... É irreal...
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